Veronika Decide Morrer | Paulo Coelho

Veronika Decide Morrer | Paulo Coelho

Veronika Decide Morrer | Paulo Coelho
"Veronika começou a sentir um leve enjoo, que foi crescendo rapidamente. Em poucos minutos, já não podia mais concentrar-se na praça do lado de fora de sua janela. Sabia que era inverno, devia ser em torno de quatro horas da tarde, e o sol estava se pondo rápido. Sabia que outras pessoas continuariam vivendo; neste momento um rapaz passava diante de sua janela, e a viu, sem entretanto ter a menor ideia de que ela estava prestes a morrer. Um grupo de músicos bolivianos (onde é a Bolívia? Por que os artigos de revistas não perguntam isso?) tocava diante da estátua de France Preseren, o grande poeta esloveno, que marcara profundamente a alma do seu povo. Será que conseguiria escutar até o fim a música que vinha da praça? Seria uma bela recordação desta vida: o entardecer, a melodia que contava os sonhos do outro lado do mundo, o quarto aquecido e aconchegante, o rapaz bonito e cheio de vida que passava, resolvera parar, e agora a encarava. Como percebia que o remédio já estava fazendo efeito, era a última pessoa que a estava vendo. Ele sorriu. Ela retribuiu o sorriso – não tinha nada a perder. Ele acenou; ela resolveu fingir que estava olhando outra coisa, afinal o rapaz estava querendo ir longe demais. Desconcertado, ele continuou seu caminho, esquecendo para sempre aquele rosto na janela. Mas Veronika ficou contente de, mais uma vez, ter sido desejada. Não era por ausência de amor que estava se matando. Não era por falta de carinho de sua família, nem problemas financeiros, nem uma doença incurável. 

Veronika decidira naquela tarde bonita de Lubljana, com músicos bolivianos tocando na praça, com um jovem passando diante da sua janela, e estava contente com o que os seus olhos viam e seus ouvidos escutavam. Mais contente ainda estava, por não ter que ficar vendo aquelas mesmas coisas por mais trinta, quarenta, ou cinquenta anos – pois iam perder toda a sua originalidade, e se transformar na tragédia de uma vida onde tudo se repete, e o dia anterior é sempre igual ao seguinte."
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