A Marcha Para o Oeste | Cláudio e Orlando Villas Boas

A Marcha Para o Oeste | Cláudio e Orlando Villas Boas

A Marcha Para o Oeste | Cláudio e Orlando Villas Boas"Sábado, 4 de setembro. A bruma continua, os trabalhos do campo também. Folga só aos domingos. Quatrocentos metros de pista já estão prontos. O sol, impotente para furar a bruma, contenta-se em ficar lá no alto como uma desenxabida bola amarela. As muriçocas nos descobriram. Até ontem nada vínhamos sentindo. Esta noite, como se estivessem em festa, não deixaram ninguém dormir. Logo cedo uma onça esturrou tão perto que os cachorros levaram um susto. Despertados, acuaram-na a menos de cinqüenta metros. Aflita, ela não teve outra saída senão subir numa árvore inclinada. A acuação renhida dos cachorros impacientava-a, e ela fuzilava com os olhos os importunos perseguidores. 

Quando chegamos, pudemos ainda vê-la arriada nas patas dianteiras, pronta, mas sem coragem para o salto que ameaçava. Era uma belíssima canguçu. Quando nos viu, tirou os olhos dos cachorros e passou a vigiar nossos movimentos. O quadro era estupendo, e por um instante tivemos pena de tirar a vida de tão belo animal. Até ali vinha vivendo feliz e livre como rei invencível das matas. Agora tinha apontado contra si o cano ameaçador de uma carabina 44. Mesmo sentindo-se observada, ela não fez um só gesto brusco nem perdeu a aparente tranqüilidade. Seus movimentos continuavam seguros e calmos. Com a nossa presença os cães se calaram, e ela, com os olhos miúdos, vivos, continuava nos fuzilando enquanto com uma das patas limpava vagarosamente a baba que caía da boca. Com o primeiro tiro a onça vacilou, os cachorros latiram, ela se firmou novamente no tronco onde estava. O tiro, porém, fora mortal. Novamente vacilando, ela deslizou pelo tronco até que, perdendo completamente o equilíbrio, caiu pesadamente ao solo. A manhã tinha sido movimentada, mas o campo reclamava os homens. Deixamos um deles tirando o couro da onça e tocamos para lá."

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