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Vestuário | História da Moda e do Uso do Vestuário

Vestuário | História da Moda e do Uso do Vestuário

Vestuário. Num grupo social, é sempre a classe dominante que dita a moda, logo copiada ou imitada pelos estratos inferiores. Para manter as distinções, as elites procuram introduzir novas modificações na maneira de vestir, o que estabelece a dinâmica da moda. Contemporaneamente, com a industrialização e a comunicação de massas, os novos estilos são popularizados e ultrapassados com rapidez inusitada.

Vestuário é o conjunto de peças de roupa e acessórios usados sobre o corpo. A necessidade de proteger-se do frio e das adversidades atmosféricas, o pudor, o desejo de estabelecer distinções sociais e a vaidade são alguns dos motivos que determinam seu uso. A roupa cumpre também a função de diferenciar os sexos à primeira vista. Na maior parte das culturas, existem peças exclusivamente masculinas ou femininas, que não guardam relação necessária com a configuração física de um ou outro sexo.

Vestuário | História da Moda e do Uso do Vestuário

As variações dos conceitos de beleza, pudor e imponência condicionam diferentemente o vestuário: entre os maometanos, o respeito ao pudor está garantido se a mulher não desvelar o rosto; tribos de Sumatra e Sulawesi consideram imoral a exposição dos joelhos; em Samoa é impróprio exibir o umbigo; e a mulher chinesa de costumes tradicionais não deve mostrar os pés. Os japoneses banham-se nus em grupos que incluem homens, mulheres e crianças, mas censuram o nu artístico, apreciado no Ocidente.

Numa mesma cultura, existem oscilações quanto à conotação do vestuário: roupas curtas, transparentes ou com amplos decotes podem ser consideradas adequadas a mulheres ocidentais em eventos noturnos e festivos; enquanto diminutos trajes de banho, impróprios para ambientes fechados, são ostentados sem restrições a pleno sol, nas praias e piscinas.

A modificação do aspecto natural por meio da vestimenta se complementa com outros procedimentos, entre os quais a modelagem do corpo, conseguida por meio de exercícios físicos, substâncias químicas ou métodos de constrição ou distensão óssea ou muscular. São exemplos disso a constrição dos pés, praticada na China para as mulheres; e o uso de peças de madeira com o fim de aumentar os lábios, comum entre os índios botocudos brasileiros. Outras práticas são a tatuagem; a execução de cicatrizes ornamentais; a depilação; o corte, tingimento, alisamento e outras modificações dos cabelos, assim como penteados. Por último, complementam o vestuário diversos objetos presos ao corpo, de efeito ornamental, social ou religioso: brincos, colares, braceletes, anéis, ornamentos de nariz, testa e cabelos etc.

Vestuário | História da Moda e do Uso do Vestuário

À semelhança do que ocorreu na esfera econômica, ideológica, social e política, os estilos europeus de vestir se estenderam ao resto do mundo, sobretudo nos séculos XIX e XX. Mesmo assim, as vestes tradicionais não foram totalmente abandonadas em seus países de origem e muitas delas tiveram seu corte e desenho exportado e copiado, para servir de inspiração a estilistas europeus e americanos. Formas não ocidentais de vestuário ainda são muito importantes em países como a Índia e o Japão. A roupa tradicional japonesa, o quimono, deriva do robe chinês. Na Índia, o sari feminino e o dhoti masculino, ambos constituídos de grandes peças de tecido enroladas no corpo de maneira característica, ainda são usados. Originalmente, a parte de cima do tronco era deixada nua mas, depois da conquista dos muçulmanos, no século XII, foram adotados novos estilos, entre os quais calças e jaquetas.

Pré-história. As primeiras peças de vestuário surgiram provavelmente no paleolítico. O homem de Neandertal saía sozinho para caçar e a diferenciação de funções entre o homem e a mulher pode ter originado, nessa época, as primeiras diferenças entre o vestuário masculino e o feminino. No neolítico foram descobertas as fibras vegetais e animais e o tingimento dos materiais.

Egito Antigo. Os egípcios usavam principalmente o linho. A lã era muito escassa e a seda e o algodão, desconhecidos. As técnicas de tingimento eram pouco eficientes e por isso o tecido branco predominava. Jóias e arranjos de flores proviam o colorido.

Egito Antigo

Uma das primeiras peças usadas pelos homens consistia de uma faixa enrolada em torno da cintura, ornada de objetos pendurados. Durante o Médio Império, entraram em moda as vestes longas, da cintura aos tornozelos, ou mesmo pendentes dos ombros. O tronco era freqüentemente deixado nu, embora fossem também utilizadas camisas, igualmente feitas a partir de um retângulo de tecido. Na XVIII dinastia, as pinturas mostram um novo tipo de roupa: uma túnica drapeada, na verdade longa peça de tecido enrolada no corpo de maneira especial. As crianças aparecem sempre nuas nas representações, com a cabeça raspada, exceto pela "mecha das crianças", localizada lateralmente. Homens e mulheres usavam perucas. Os homens frisavam e tingiam a barba e, mais tarde, como símbolo de realeza, passaram a usar peças de metal no formato de uma barba.

Mesopotâmia
Mesopotâmia. O vestuário dos povos mesopotâmicos caracterizou-se pela simplicidade. No final do terceiro milênio antes de Cristo, usavam-se barretes. Os turbantes eram parte da veste real. Os assírios usavam túnicas retangulares e sandálias. Assim como os antigos persas, cultivavam as barbas com extremo cuidado. Em ocasiões festivas, enfeitavam-nas, assim como aos cabelos, com ouro em pó ou em fios, e perfumavam-se com substâncias aromáticas.

Persas, árabes e otomanos. Antes de conhecerem a seda e o algodão, os persas vestiam-se de peles de animais. Usavam calças e era comum um chapéu cônico de couro, às vezes circundado por faixas de tecido. Essa é uma das prováveis origens do turbante. A roupa feminina quase não foi representada nos monumentos persas mais antigos.

A conquista árabe no século VII trouxe modificações no vestuário. A roupa árabe, semelhante para homens e mulheres, consistia de uma peça de tecido enrolada no corpo sob as axilas e uma longa camisa, com ou sem mangas. A camisa, muito larga, era aberta no peito mas fechada no pescoço. Sobrepunha-se outra camisa em forma de saco, feita de lã ou pêlo de camelo. Outra peça de tecido era colocada na cabeça e atada com uma tira ou corda: o haik, usado ainda no século XX. Um manto de lã cobria o conjunto e podia ser usado sobre a cabeça. O véu, faixa de crepe ou musselina preta ou branca, alongava-se por vezes até o chão e podia ser enfeitado com pérolas ou moedas.

A grande migração turca no século XI trouxe novas modificações aos costumes persas e árabes. As calças persas eram largas e ajustadas no tornozelo. Os chinelos de couro com as pontas viradas para cima ainda são usados. No século XVI, as mulheres persas, ao saírem de casa, cobriam-se inteiramente com uma capa. Os homens usavam, por fora das calças, camisas com mangas compridas, sob o caftan e um manto.

Os turcos usavam um pequeno chapéu redondo com barra de pele. Após a conquista de Constantinopla, o sultão imitou o profeta Maomé e envolveu seu chapéu numa longa faixa de musselina. O turbante tornou-se então usual, enrolado diferentemente de acordo com a posição social. No final do século XX, o Oriente Médio conservava poucas das vestes tradicionais, embora os fundamentalistas continuem a incentivar seu uso, sobretudo na Arábia Saudita e no Irã.

Gregos, romanos e bizantinos. Na Grécia arcaica, o vestuário era influenciado pelos costumes do Oriente Médio. No período clássico, era original e harmonioso; no helenístico, extravagante e luxuoso.

As sacerdotisas usavam somente branco, enquanto as outras mulheres vestiam roupas de várias cores. Servos e artesãos usavam roupas escuras. A peça de roupa mais utilizada pelos gregos baseava-se num simples retângulo de tecido enrolado no corpo formando pregas. Na Grécia clássica (século V a.C.), a veste básica era uma túnica, curta para os homens e longa para as mulheres, presa nos ombros por broches. O estilo grego, solto e drapeado, com motivos decorativos, adotou algumas variações ao incorporar o uso de mantos como a clâmide e o peplo.

Os romanos deram continuidade à tradição grega e acrescentaram influências da indumentária etrusca, o que se evidenciou principalmente no uso de pequena toga semicircular. Nítidas distinções de classe passaram a ser associadas às formas do vestuário. A toga -roupa dos homens de estado, usada pelo imperador e altos oficiais - consistia numa faixa habilmente enrolada no corpo. A túnica feminina, que chegava até os pés, era feita de lã, linho, algodão ou seda, e podia ser bordada.

Por influência oriental, o vestuário masculino e feminino tornou-se muito mais rico em Constantinopla, capital do império bizantino. A riqueza dos bordados e jóias ficou patente nos mosaicos bizantinos. A indumentária do imperador Justiniano era de tipo eclesiástico e exibia a hierarquia suprema de seu poder. O suntuoso estilo bizantino foi muito imitado pelos povos vizinhos e perdura até a época contemporânea no ritual das igrejas ortodoxas.

vestuário medieval

Idade Média. O vestuário medieval evoluiu das túnicas merovíngias (de comprimento até a altura dos joelhos, bordadas nas pontas e amarradas por cintos) até as ricas vestimentas da época carolíngia, com enfeites de brocado. As expedições dos cruzados ao Oriente e, na Espanha, o contato com os muçulmanos, disseminaram alguns trajes orientais e elementos como o véu, adotado pelas mulheres casadas. Os homens passaram a usar calças compridas. No século XII, as túnicas ajustaram-se ao corpo das mulheres por meio de botões laterais e ganharam mangas compridas e amplas. O toucado consistia num aro de linho engomado usado sobre uma tira de linho que passava por debaixo do queixo e era presa no alto da cabeça.

Os homens vestiam o gibão, curto e justo, com calças. As classes altas cobriam o gibão com uma espécie de túnica externa e outra solta, a opalanda, com mangas muito largas e gola alta. Entre as mulheres, entrou em moda o surcoat, manto com grandes aberturas laterais. O véu foi abandonado e substituído por vários adornos de cabeça.

Vestuário no Renascimento

Renascimento. A moda italiana se distanciou logo do estilo gótico europeu para adquirir feição própria no Renascimento: ao contrário dos complicados adornos de cabeça do norte, as mulheres italianas usavam penteados mais naturais, embora costumassem enfeitar o alto da testa. Vestiam trajes de mangas largas com aberturas que deixavam ver a camisa branca por baixo. O luxo dos trajes italianos revelava a prosperidade comercial das cidades-estados, que exportaram sua moda para o resto do mundo. A influência alemã, no entanto, se fez sentir no início do século XVI, num estilo de traje masculino derivado do uniforme militar e ornado com várias aberturas que deixavam ver o forro, geralmente de outra cor. O traje continuava a ser formado pelo gibão, o calção e as meias.

O gibão masculino e o traje feminino, ricamente enfeitados, mostravam a borda franzida da camisa, o que antecipava a gorjeira, colar de linho franzido com que freqüentemente se fizeram retratar a rainha Elizabeth I e seus cortesãos. Sobre o gibão, levava-se uma peça chamada jacket e outra túnica aberta que caía em grandes pregas desde os ombros. Também se generalizou o uso da capa. A moda espanhola, que adotava as peças justas e as cores escuras, principalmente o negro, impôs-se à alemã. As gorjeiras se desenvolveram muito, até formar grandes golas duras de renda. Também começaram a ser empregadas armações de arame sob as saias: a verdugada, antecedente do merinaque do século XIX.

Século XVII. A indumentária das cortes européias do século XVII, principalmente a de Luís XIV, deu continuidade, em princípio, aos modelos do século anterior. A influência espanhola manteve-se durante algum tempo, principalmente nos Países Baixos, onde era muito apreciada pelos puritanos. As gorjeiras foram substituídas por colarinhos caídos de renda, que cobriam os ombros. O traje masculino dos mosqueteiros franceses e dos cavaleiros ingleses inspirava-se nos uniformes militares: calções, gibão, capa curta pendurada num ombro e chapéu de aba larga. O traje feminino constava de corpete, anáguas e vestido. O corpete, com amplo decote, podia levar rendas e fitas de seda. As mangas eram aumentadas com enchimento.

Por influência persa, adotou-se na vestimenta masculina o que seria o antecedente do terno moderno: o chamado vest, colete muito longo, abotoado até embaixo, sobre o qual levava-se uma casaca. No pescoço, começou-se a usar a gravata de renda ou musselina, derivada das que usavam os croatas a serviço do Exército francês.

O cabelo, que a princípio era solto e liso, começou a ser mais elaborado com o emprego de apliques. A partir de 1670, a peruca se tornou um elemento indispensável. A mais luxuosa era a infólio, grande e pesada. O costume de empoar as perucas é posterior, do final do reinado de Luís XIV. As mulheres não usavam peruca, mas sim chapéus extravagantes muito altos.

Século XVIII. Os últimos vinte anos do século XVII anteciparam o que seria a moda do século seguinte, dominado pelo grande prestígio da corte de Versalhes. Na indumentária masculina, a peruca teve grande importância até a revolução francesa. Havia vários tipos delas, entre as quais a dos soldados, leve e presa com laços na nuca. Ao longo do século, esse adorno foi reduzido até ficar limitado a alguns encaracolados do lado do rosto e a uma trança.

Com Luís XV, os trajes femininos tornaram-se mais soltos e vaporosos; os vestidos tinham pregas nas costas que caíam até o chão. O merinaque foi utilizado para dar volume ao traje feminino, cuja forma variava consideravelmente. Os componentes básicos eram corpete e saias, eventualmente abertas na parte dianteira, deixando entrever as anáguas, ricamente decoradas. O corpete podia também ser aberto, mostrando uma peça de tecido bordada, com laços e rendas. As mangas chegavam até o cotovelo, muitas vezes arrematadas com enfeites.

O traje masculino conservou por várias décadas a estrutura do século anterior. A casaca tornou-se mais comprida e com mais aberturas e as mangas se estreitaram. Sob a casaca, vestia-se um colete bordado, confeccionado em tecido diferente. Os calções chegavam até os joelhos e o traje se completava com um chapéu de três bicos. A influência britânica trouxe um tipo de traje masculino mais leve e informal. A simplificação do vestuário evidenciou o gosto neoclássico.

Revolução francesa e o século XIX. Os complicados penteados, as perucas empoadas e os chapéus da época de Luís XVI e de Maria Antonieta foram abolidos com a revolução francesa. A burguesia impôs sua moda. Os homens adotaram o estilo dos trajes de campo ingleses -- com chapéu alto, lenço no pescoço, jaqueta com lapelas, colete, calções e botas -- e eliminaram as casacas bordadas, as rendas e as meias, a partir de então restritas aos chamados incroyables franceses da década de 1790, iniciadores do estilo romântico. As mulheres buscaram a leveza em vestidos de cintura muito alta, que caíam retos até os pés. Esse estilo foi chamado "império".

Nos primeiros anos do século XIX, surgiram publicações impressas ilustradas com vestuário. A expedição de Napoleão ao Egito trouxe nova moda orientalista para a França, enquanto o Reino Unido, principal adversário dos franceses, procurava a máxima diferenciação de costumes. Ao restabelecerem-se as relações amistosas entre os dois países, as mulheres britânicas adotaram a moda francesa e, por sua vez, os homens franceses se decidiram pelo estilo britânico, em geral muito bem acabado, devido à alta qualidade do trabalho dos alfaiates do Reino Unido. Os dândis ingleses inspiraram a moda européia, com um vestuário bem cortado, ajustado ao corpo. O traje feminino exigia o uso de espartilho para afinar a cintura, com saia e mangas muito largas. As mulheres cobriam a cabeça com toucas ou capotas amarradas com laços, e levavam uma pequena bolsa e um guarda-sol como complementos do conjunto romântico.

A partir de 1837, as rodas exageradas das saias se reduziram e o traje masculino eliminou os excessos a que havia chegado o modelo dândi. O fraque tornou-se muito usado, assim como o redingote ou o casaco, mais curto. As camisas tornaram-se mais lisas, e as gravatas, mais finas. Popularizaram-se a calça, o chapéu de copa e grande variedade de casacos (chesterfield, paletó). A roupa masculina, mais sóbria e menos colorida, começava a tomar a forma que conserva até a atualidade.

Em meados do século, o traje feminino aumentou de volume graças a inúmeras anáguas que, por seu peso, dificultava a movimentação. Data dessa época a invenção da crinolina, armação à base de anéis metálicos flexíveis que substituía com vantagem as anáguas. A crinolina logo deslocou-se para trás e se tornou mais leve, o que deu origem a um levantamento na parte traseira da roupa por meio das anquinhas, que mais tarde desapareceriam, substituídas por um simples pregueado de tecido e uma cauda longa.

Os esportes também exerceram influência sobre o desenho das roupas, que se adaptaram às necessidades de cada modalidade. Assim, os trajes para andar de bicicleta, para o tênis ou para o banho inspiraram a moda quotidiana para homens e mulheres.

Século XX. No início do século XX a figura feminina adotou a forma de um S invertido, obtida com a ajuda de um espartilho apertado que empurrava o busto para a frente e as cadeiras para trás. A saia era justa e o corpete profusamente decorado com rendas. Aos penteados já altos sobrepunham-se ainda chapéus achatados e enfeites de plumas e flores.

Paralelamente, divulgou-se o tailleur, mais de acordo com as novas necessidades da mulher trabalhadora. A silhueta feminina transformou-se com trajes mais soltos e corpetes menos rígidos. Depois da primeira guerra mundial, prevaleceu a forma dos trajes em tubo, com talhe baixo e, a partir de 1920, saia mais curta. Surgiu pela primeira vez entre as mulheres um corte de cabelos curto, à la garçonne. As mulheres impuseram-se no mundo da moda como estilistas, entre as quais destacaram-se Coco Chanel e Elsa Schiaparelli. A partir da década de 1930, a moda foi ditada também pelo cinema e os vestidos tornaram-se elegantes e retos, com ombros largos.

Desde a segunda guerra mundial, o vestido passou por contínuas mudanças de estilo. A partir do new look de Christian Dior, de 1947, a moda européia passou por períodos de recuperação de estilos e elementos do passado (cinturas estreitas e saias volumosas); impôs novos esquemas geométricos (desenhos de Paco Rabanne e Courrèges, de 1968); e o ressuscitou formas mais livres e naturais (estilos neo-romântico e hippie). Na década de 1960 o surgimento da minissaia, criada por Mary Quant, suscitou polêmica.

A alta-costura perdeu a exclusividade de criação de roupas e o prêt-a-porter ampliou as possibilidades de mudança e difusão da moda. As grandes lojas passaram a distribuir seus modelos em larga escala. Nas últimas décadas do século XX, estilos jovens e informais inundaram o mercado da moda. O jeans e a camiseta impuseram-se como trajes de homens e mulheres de todas as idades e classes sociais. Surgiram novos materiais para a confecção de roupas, como o náilon e a lycra. Aos centros tradicionais de moda - França, Itália e Reino Unido -, somaram-se outros de grande relevância, como os Estados Unidos da América e o Japão.

Folclore e a Cultura Popular Brasileira

Folclore e a Cultura Popular Brasileira

#FESTAS POPULARES  Festas Populares Por meio de suas festas tradicionais, as comunidades estreitam seus laços e mantêm sua identidade como grupo, celebrando também sua vida cotidiana. Em tempos remotos, o homem primitivo pedia aos deuses proteção e colheitas fartas, muitas vezes usando comida, bebida, música e dança como oferendas. Como a agricultura está relacionada ao ciclo das estações, essas celebrações se tornaram periódicas. Com o cristianismo, a Igreja Católica transformou alguns desses rituais pagãos em homenagens aos santos, conferindo a eles um caráter sagrado de acordo com os princípios cristãos. Vários elementos das antigas festas pagãs, porém, foram preservados. No Brasil, a maioria das festas populares tem origem ibérica, africana e indígena e segue as datas do calendário católico. O Natal, o Carnaval e as festas juninas, comemorações de maior apelo popular, são encontradas em todas as regiões brasileiras. Além delas, existem inúmeras outras comemorações locais, pertencentes à tradição de cada cidade ou estado. Muitas reverenciam um santo padroeiro, como a de Nosso Senhor do Bonfim, em Salvador. Apesar de algumas festas compartilharem o mesmo tema, em cada lugar elas assumem características próprias, de acordo com a tradição regional.
#REISADO (FOLCLORE)Reisado - Auto de Natal encenado no Nordeste com temas variados, em que os participantes cantam e dançam ao som de instrumentos como sanfona, pandeiro e zabumba. Exibindo-se pelas ruas e praças, vão pedindo donativos por onde passam. Dependendo do tema e da região, esse folguedo apresenta diversos personagens, como o rei, a rainha, o mestre, o contramestre, a estrela, o Mateus e o palhaço. Também aqui, como acontece com muitos bumba-meu-boi nordestinos, cada personagem representa um papel que nem sempre se encaixa no conjunto. Para garantir certa unidade à encenação, há, geralmente, cenas cômicas. Alguns reisados incluem uma versão abreviada do bumba-meu-boi. Os participantes usam roupas e chapéus coloridos e ricamente ornamentados com vidrilhos, lantejoulas, fitas e espelhos. Segundo a crença popular, os espelhos têm o poder de proteger os dançarinos contra o mau-olhado.

Halloween - A festa de Halloween (redução de All Hallows' Eve, véspera do Dia de Todos os Santos) é celebrada nos Estados Unidos no dia 31 de outubro. Nessa data, crianças fantasiadas de monstros, fantasmas e bruxas batem à porta das casas para pedir doces e ameaçam pregar peças aos que se recusam a atendê-las.

O símbolo do Halloween -- uma lanterna feita com uma abóbora recortada à maneira de um rosto demoníaco e com uma vela acesa em seu interior -- serviria para orientar os mortos na noite de visita à Terra.

O Halloween tem origem nas festas pagãs de Samhain, celebradas pelos celtas durante a Idade Média, na Bretanha e na Irlanda, para comemorar a passagem do outono para o inverno. A data marcava também a véspera do ano novo, no tempo dos celtas e anglo-saxões. Durante os festejos, imensas fogueiras eram acesas no alto das colinas para afugentar os maus espíritos e acreditava-se que as almas dos mortos visitassem suas casas nesse dia.

As comemorações influenciaram a festa cristã do All Hallows' Eve, celebrada na mesma data. Com o tempo, muitos dos costumes do Halloween associaram-se a brincadeiras de crianças. A tradição foi levada para os Estados Unidos por imigrantes, principalmente irlandeses, e popularizou-se no final do século XIX. No Brasil, o costume de comemorar o Halloween (também chamado Dia das Bruxas), principalmente em festas à fantasia, data de meados da década de 1980.

#HALLOWEEN

Eldorado, Lugar Mítico da América do Sul - Lugar mítico, de riquezas abundantes e fáceis, o Eldorado é provavelmente o mais conhecido dos muitos mitos sobre cidades de ouro, como Cíbola, Quivira, a Cidade dos Césares e o Outro México. Originalmente Eldorado era o mítico soberano de uma cidade indígena, próxima a Bogotá, que, segundo a lenda, besuntava o corpo com ouro em pó, para em seguida banhar-se no lago de Guatavitá, onde seus súditos ofertavam joias e pedras preciosas ao deus Sol.

No século XVI, a crença de que o Eldorado estava no Novo Mundo ativou a cobiça de muitos conquistadores. O sonho nunca se tornou realidade, mas induziu à exploração de grande parte do continente americano.

#ELDORADO, LUGAR MÍTICO DA AMÉRICA DO SUL

As primeiras lendas sobre Eldorado (o homem de ouro) chegaram aos ouvidos dos conquistadores espanhóis antes de 1530. As joias obtidas no México por Hernán Cortés, em 1521, e no Peru, por Francisco Pizarro, em 1533, alimentaram ainda mais a ilusão daquele reino, que alguns identificavam com uma cidade de nome Omagua, situada nas regiões montanhosas da Colômbia. Outro relato que alimentou a lenda dizia respeito ao soberano ou sacerdote dos chibchas, que em certas cerimônias ungia o corpo com uma resina odorífera e pó de ouro, para em seguida banhar-se no rio.

Sebastián de Belalcázar partiu de Quito em 1536, em busca da cidade. No ano seguinte o explorador alemão Nikolaus Federmann também foi para a região. No mesmo ano, Gonzalo Jiménez de Quesada chegou ao reino dos chibchas, onde os índios lhe indicaram o caminho para o lago de Guatavitá. Como ninguém encontrou o tão ansiado ouro em suas águas, a procura do Eldorado expandiu-se para os vales do Orinoco e do Amazonas, até a Guiana, e novas cidades lendárias, como Manoa, passaram a ser centro de atração dos conquistadores. Em 1539, Gonzalo Pizarro atravessou os Andes, a partir de Quito; Francisco de Orellana, entre 1541 e 1542, desceu o rio Napo até o Amazonas, que percorreu até o oceano Atlântico. Jiménez de Quesada empreendeu nova viagem exploratória a leste de Bogotá entre 1569 e 1572. Antonio de Berrío explorou os territórios do leste de Los Llanos e o oeste da desembocadura do Orinoco, em 1585. Pero Coelho de Sousa percorreu, em 1603, o norte de Pernambuco. Outros que tentaram em vão encontrar o Eldorado foram Sir Walter Raleigh, em 1617, e frei Domingo de Brieva e frei Andrés de Toledo, em 1637.

Novas expedições e novas desilusões se sucederam até o final do século XVIII. Eldorado transformou-se mais tarde em símbolo dos que se lançam em aventuras fantásticas.
#BOTO (PERSONAGEM MITOLÓGICO DA AMAZÔNIA)

Boto (Personagem Mitológico da Amazônia) - Boto é o personagem mitológico da Amazônia que se transforma de cetáceo em homem para praticar estripulias entre as mulheres ribeirinhas. Seduz as moças que vivem às margens dos cursos d'água amazônicos e é responsável por todos os filhos de paternidade ignorada. Nas primeiras horas da noite, transforma-se num belo rapaz branco, alto e forte, que dança muito bem e gosta de beber. Vai aos bailes e frequenta reuniões, onde encontra as moças que por ele se apaixonam. Comparece pontualmente aos encontros que marca com elas, mas antes de clarear o dia salta para dentro do rio e volta a assumir a forma de boto. Dizem algumas versões do mito que o boto, quando está transformado em homem, nunca tira o chapéu branco para que não lhe vejam o orifício que tem no alto da cabeça.

Nenhum animal amazônico é objeto de tantas histórias quanto o boto. Acreditam os folcloristas que as lendas não têm origem indígena, ao contrário do que se pensa, mas teriam sido criadas pela imaginação do colono português.

Outras histórias misteriosas são atribuídas ao boto. Uma versão, das mais antigas, diz que ele tem o hábito de assumir forma de mulher, de cabelos longos até o joelho, que sai a passear à noite e encaminha os rapazes para o rio, onde os afoga. A associação do boto, ou delfim, aos assuntos amorosos remonta à antiguidade. Grécia e Roma consagraram-no a Afrodite e Vênus, porque os movimentos de seu deslocamento na água, levantando e abaixando o dorso, sugerem movimentos do ato sexual.

Danças folclóricas brasileiras - Surgidas no seio do povo e transmitidas ao longo das gerações, as danças folclóricas brasileiras representam fatos e passagens das origens culturais do Brasil, inspiradas em rituais religiosos pagãos e cristãos. Um dos elementos comuns a muitas delas é o cortejo, que assume por vezes importância maior que a própria ação. O cortejo é originário de uma mistura das procissões jesuíticas -- das quais participavam os fiéis, os cristãos-novos e os gentios, com suas roupas de festa e instrumentos musicais -- e também dos cortejos africanos. Os participantes seguiam de casa em casa, cantando e dançando até o local da representação, chamada embaixada.
 #Danças folclóricas brasileiras

Da fusão de três culturas -- a indígena, das tribos existentes à época da colonização; a negra, dos escravos africanos; e a europeia, do português --, nasceram as danças folclóricas brasileiras.

Essas danças podem ser divididas em três grupos principais: os pastoris, as cheganças e os reisados. Os primeiros são realizados no período natalino, e apresentam duas modalidades: a lapinha e o pastoril propriamente dito. A lapinha, dançada na sala da casa, diante do presépio, por meninas vestidas de pastoras, celebra o nascimento de Cristo. As pastorinhas formam dois cordões: o encarnado, liderado pela mestra, e o azul, pela contramestra. A disputa entre os dois cordões é aproveitada como forma de angariar fundos para as obras sociais da paróquia, pois a cotação de cada cordão vai subindo de acordo com as doações pecuniárias de seus defensores. O pastoril, executado sobre um tablado ao ar livre, tem caráter profano e satírico, e é dançado e cantado por mulheres, dirigidas por um personagem cômico: o cebola, o velho, o saloio, o marujo etc.

As cheganças, executadas em cenário que representa uma grande embarcação e com muitos participantes, têm como tema principal as lutas marítimas e são uma herança cultural das guerras dos cristãos portugueses contra o invasor mouro, daí chamarem-se também cristãos-e-mouros. Existem a chegança dos marujos, que é a marujada ou fandango, e a chegança de mouros, que é a chegança propriamente dita. Representada como uma série de cenas marítimas, culmina com a abordagem dos mouros, que são vencidos e batizados. Em alguns lugares, a chegança denomina-se barca.

O reisado é tradicionalmente executado na véspera do dia de Reis e consiste em uma adaptação coreográfica dramatizada de antigos romances e cantigas populares. A princípio estruturava-se geralmente em um episódio único e podia ser mostrado como um cortejo de pedintes que cantavam versos religiosos ou humorísticos, ou representavam autos sacros sobre a vida de Cristo. Depois incorporou-se a apresentação do bumba-meu-boi, personagem originado dos presépios, que passou a ser apresentado isoladamente, em especial nos festejos juninos.

O bumba-meu-boi, também chamado boi-bumbá ou boi-sumbi, é a dança mais conhecida e popular. Mais simples que as cheganças e os pastoris, que exigem um tablado para serem executadas, o bumba-meu-boi precisa apenas de espaço livre. O enredo do auto se modifica de região para região e não há um modelo fixo de trama.

Há outras formas de danças dramáticas ainda praticadas no Brasil, com maiores ou menores modificações em relação a sua representação original, conforme a região onde são realizadas. Os congos e as congadas, que em sua forma mais primitiva são apenas um cortejo real onde se desfila com cantos e danças, revivem, por meio da ação dramática, as passagens e os costumes da vida tribal africana.

O maracatu é uma derivação das congadas e tem maior penetração em Pernambuco. A dança desenvolve a ação proposta pelos congos, e mantém os personagens básicos: o rei, a rainha e o embaixador. Os cordões de maracatu saem no carnaval e cada um deles leva um nome especial, de origem religiosa ou geográfica, precedido da palavra nação.

Outra dança de carnaval é a dos caboclinhos, de origem indígena, ao som de percussão, sem cantigas e de figurações primárias. Os personagens, fantasiados de índios, simulam movimentos de ataque e defesa. O elemento coreográfico supera o musical e exige um certo virtuosismo dos dançarinos.

Os moçambiques, bailado popular que faz parte dos festejos do Divino Espírito Santo, não apresentam enredo dramático. Originado provavelmente entre os escravos das minas de ouro do Brasil colonial, consiste em um cortejo que desfila dançando pelas ruas. O bailado não segue coreografia predeterminada, e entre um número musical e outro são feitas louvações semelhantes aos cantochões, mais gemidas que cantadas.

Outras formas de dança, que tiveram momentos de maior ou menor penetração no passado, são o lundu, o coco e o cateretê. O lundu, nascido nas senzalas, ganhou as ruas e chegou a penetrar nos palacetes.

O coco, dança popular nordestina, do sertão e do litoral, onde é também chamada coco-de-praia, tem origem africana. A coreografia é semelhante à do bailado indígena, com inúmeras variações. A mais comum é a roda de homens e mulheres, que cantam versos entremeados pelo refrão do solista, chamado "tirador do coco". Para o ritmo, geralmente usam-se apenas as palmas, o zabumba e o ganzá.

O cateretê é uma dança de par, originária da região sul, do período colonial. Apresenta alguns elementos fixos, com duas filas dirigidas por violeiros, uma de homens e outra de mulheres, que dançam ao som de palmas e batidas nos pés.

As danças de quadrilha ocorrem durante as festas juninas, dedicadas a santo Antônio, são João e são Pedro. Tradição difundida nacionalmente, mantém-se mais forte no Nordeste, especialmente nas cidades do interior. São danças de par realizadas coletivamente, sob a coordenação de um mestre-de-cerimônias, que comanda os passos. É evidente a origem europeia, tanto pela coreografia como pelas expressões de comando, gritadas em uma espécie de francês aportuguesado, como "anavantu" (en avant tous!, "todos à frente!") e "anarriê" (en arrière!, "para trás!").

A ciranda, de origem portuguesa, é dançada em rodas concêntricas, homens por dentro e mulheres por fora. Música e letra são originalmente portuguesas, embora já totalmente abrasileiradas. Existe uma versão infantil, que lhe é anterior, a cirandinha, famosa pela letra e música -- Ciranda, cirandinha /  vamos todos cirandar / Vamos dar a meia-volta / volta-e-meia vamos dar -- que atravessou séculos sem alteração, como costuma acontecer com as brincadeiras infantis.

Festa do Senhor do Bonfim - Os festejos, que duram nove dias consecutivos, têm como centro a imagem do Cristo crucificado, venerada na igreja do Bonfim, em Salvador - BA. Por seu caráter popular, pelo sincretismo afro-católico e pela persistência de antigas tradições portuguesas, a festa só é comparável à de Nossa Senhora da Penha, no Rio de Janeiro; de são Francisco de Canindé, no Ceará; de Nossa Senhora de Nazaré, no Pará; e de Nossa Senhora Aparecida, em São Paulo.

#Festa do Senhor do Bonfim

Além de ser uma das mais populares comemorações religiosas da Bahia e do Brasil, a tradicional festa do Senhor do Bonfim encerra alto interesse etnográfico e folclórico.

A imagem, semelhante à que existia em Setúbal, em Portugal, foi trazida em 1745 para Salvador por Teodósio Rodrigues Faria, oficial da Marinha portuguesa. Fundou-se logo na cidade uma associação com a finalidade de propagar a devoção ao Bom Jesus do Bonfim e construir-lhe uma igreja. Esta, localizada no topo de uma colina, ficou pronta em 1754. A devoção, mantida pelo impulso popular, com o tempo enriqueceu-se de elementos folclóricos.

O principal deus africano, Orixalá ou Oxalá, era, por coincidência, cultuado no topo de colinas. Esse aspecto do misticismo africano muito contribuiu para a identificação dos dois cultos na consciência do escravo. No início, os festejos religiosos que se realizavam durante a novena do Senhor do Bonfim eram apenas a repetição da velha maneira portuguesa de animar o novenário de padroeiros e santos protetores, mas foram adquirindo características locais.

As primeiras festas se realizaram na Páscoa, mas já em 1773 deu-se a transferência para o mês de janeiro, começando no segundo domingo depois do dia de Reis. Os dias mais festivos são a segunda e a sexta-feira. Na quinta-feira anterior ao início da novena, faz-se, como preparação para a festa, a lavagem do adro da igreja. A água para tal fim deve ser tirada do poço de Oxalá. Nasceu essa tradição de uma promessa de um soldado português que lutou na Guerra do Paraguai. Prometera ao Senhor do Bonfim que, voltando vivo, lavaria sua igreja.

Boitatá (Cobra-de-Fogo) - No Brasil, a cobra-de-fogo, segundo a lenda indígena, vagava pelos campos protegendo-os contra aqueles que os incendeiam. Às vezes, transformava-se em grosso madeiro em brasa que fazia morrer, por combustão, quem queima inutilmente os campos. O padre Anchieta se refere ao boitatá em carta de 31 de maio de 1560: "Há também outros (fantasmas), máxime nas praias, que vivem a maior parte do tempo junto do mar e dos rios, e são chamados baetatá, que quer dizer coisa de fogo, o que é o mesmo que se dissesse o que é todo fogo. Não se vê outra coisa senão facho cintilante correndo para ali; acomete rapidamente os índios e mata-os como os curupiras; o que seja isto, ainda não se sabe com certeza."

#BOITATÁ (COBRA-DE-FOGO)

Conhecido em quase todas as culturas, o mito inspirado pelo fogo-fátuo ou fogo de santelmo tem no boitatá sua versão brasileira.

No Nordeste, o mito do fogo-fátuo chama-se fogo-corredor e Câmara Cascudo o encontra entre pescadores de caranguejos, habituados a vê-lo bailar nos mangues; Cornélio Pires mostra que em São Paulo chama-se bitatá; em Minas Gerais, é o batatal; já em Sergipe tomou o nome jã-de-la-foice (Jean Delafosse).

Trata-se de um mito antiquíssimo, com inúmeras versões. Na Alemanha é a Irrlicht (a luz louca), carregada por minúsculos e invisíveis anões; na Inglaterra é o jack-with-a-lantern, que em forma de fantasma, guiava os viandantes pelos charcos e banhados; na França é o moine des marais (monge dos banhados), semelhante ao mito inglês; e em Portugal, são as alminhas, as almas dos meninos pagãos ou as almas penadas de quem deixou o dinheiro enterrado e não pode se salvar enquanto esse permanecer infrutífero.
#BUMBA-MEU-BOI Bumba-Meu-Boi - Esse folguedo é encontrado em todo o Brasil e recebe nomes diferentes de acordo com a região. No Nordeste é conhecido por bumba-meu-boi; no Centro-Oeste, chama-se boi-a-serra; em Santa Catarina, boi-de-mamão; e nos estados do Norte, boi-bumbá. Em todos, o tema central é a morte e a ressurreição de um boi. O auto do boi em sua versão mais completa é apresentado no Maranhão, Pará e Amazonas. No enredo, a mãe Catirina, grávida, sente vontade de comer língua de boi. Para satisfazer seu desejo, o marido, Pai Francisco, mata o boi mais bonito da fazenda do patrão. O rico fazendeiro descobre e manda prendê-lo. Com a ajuda de um "doutor de boi" ou de um pajé, o animal é ressuscitado, e pai Francisco, perdoado. Elemento principal do folguedo, o boi é feito de uma armação revestida de tecido e enfeitado. Dentro dele, um homem pula e dança entre a multidão. Nos demais estados brasileiros, o auto aparece resumido, iniciando ou concluindo outros folguedos. Em cada lugar onde a narrativa é encenada, juntam-se em torno do boi personagens locais, como o prefeito, o doutor, os índios, os caboclos, além de personagens fantasiados de bichos. A história é acompanhada por instrumentos, como pandeirão, zabumba, matraca, maraca, tambor onça (cuíca grave). É encenado tradicionalmente entre o Natal e o Dia de Reis na Região Nordeste, e durante as festas juninas no Maranhão e nos estados do Norte. No Maranhão, existem bois de estilos diferentes: os africanos bois de zabumba, os bois de matraca e os carnavalizados bois de orquestra, acompanhados de fanfarras. A diferença entre eles está nos ritmos, nas vestimentas, nos instrumentos e nos estilos de dança. No Amazonas, o boi da ilha de Parintins adquiriu tamanha popularidade que foi construído um bumbódromo para sua festa.

#Bordado
 
Bordado - Bordado é a arte de ornamentar os tecidos com fios diferentes, formando desenhos. Esse trabalho executa-se à mão ou à máquina, com agulhas de várias grossuras e feitios, inclusive as de gancho ou crochê. Os fios empregados para bordar podem ser os mais variados: de algodão, seda, linho, ráfia, ouro e prata, e ainda de fibra sintética, náilon, acrílico e celofane. O bordado, além dos fios, complementa-se com outros elementos que vão de materiais preciosos, como ouro, prata, pérolas, pedras preciosas, lantejoulas e canutilhos, até os mais rústicos, como sementes, conchinhas, palha, contas de vidro ou de madeira etc. O bordado pode ser plano ou em relevo,  que por vezes o torna semelhante a uma escultura.

Ao contrário de outros artesanatos têxteis, o bordado teve desde suas origens uma função essencialmente estética e não utilitária, e por isso se tornou um campo muito atraente para a arte popular.

História - Presume-se que o bordado seja uma das artes aplicadas mais antigas, que deve ter surgido logo após a descoberta da agulha. Por serem executados em material perecível, o tecido, os mais antigos bordados não se conservaram. Para estudá-los é preciso recorrer à documentação fornecida por monumentos antigos, em cujos baixos-relevos, esculturas, pinturas e gravuras são representados.

Nas civilizações antigas que se desenvolveram nas margens do Eufrates, a arte do bordado foi muito cultivada. Nos monumentos da Grécia antiga, aparecem figuras com túnicas bordadas. Os hebreus também usavam bordados, cuja invenção atribuíram a Noema. Em várias passagens da Bíblia há referência à arte de bordar. Homero fala dos bordados de Helena e Andrômaca, nos quais essas princesas documentaram episódios da guerra de Troia. Os romanos pouco utilizaram o bordado até a formação do império, mas, a partir de então, essa arte generalizou-se.

Foi a partir do século VII, porém, que o interesse pelo bordado se tornou sistemático no Ocidente. Nos séculos seguintes, sua prática intensificou-se, a ponto de abadias e mosteiros se transformarem em verdadeiras oficinas de artesanato. As rainhas e suas damas também se dedicavam ao bordado. Em breve apareceram armas, brasões, escudos e pendões bordados a cores e em ouro e prata. No século XVI, difundiu-se o costume de bordar cenas semelhantes a pinturas, reproduzindo temas religiosos, históricos etc.

A Itália era, então, o centro de todas as artes. Os bordados italianos serviam de modelo para toda a Europa. O bordado, que até então era plano ou em relevo, tornou-se recortado e rendado, dando origem às rendas. Na Renascença, o bordado assumiu a condição de artesanato puramente decorativo. Já então não se limitava a ornamentar as vestes religiosas e civis: seu uso estendeu-se à decoração de interiores, em tapeçaria, estofos para móveis, reposteiros etc. No século XVII, começaram-se a bordar as toalhas de mesa e no século XVIII as roupas íntimas, aparecendo assim o bordado a branco.
Em 1821, um operário francês inventou a primeira máquina de bordar. Com seu aperfeiçoamento e sua multiplicação, o século XIX conheceu o declínio do bordado até o surgimento, já no final do século, de movimentos como o "Arts and Crafts" ("Artes e Ofícios") de William Morris, que o revitalizaram.

No século XX, apesar de ser possível a reprodução mecânica de todos os tipos de bordado, certos gêneros caíram em desuso e ocorreu um fenômeno de revalorização dos bordados manuais, a branco ou de aplicações complementares, que se tornaram símbolos de alto nível social. Até a década de 1950, inclusive, era costume o uso de peças bordadas em branco sobre branco: lençóis, toalhas de mesa e lenços. O bordado da ilha da Madeira, executado em fio azul bem claro sobre tecido branco, fazia parte do enxoval dos bebês.

Os luxuosos modelos dos vestidos de noite, copiados da alta costura, em geral eram bordados com aplicações de strass, lantejoulas, canutilhos, pérolas, fios dourados e prateados, com ornamentos e tecidos não contrastantes. Também os trajes de espetáculos musicais obedeciam a esse padrão, com variações mecanizadas e bem coloridas. A tendência à reciclagem estilística da moda fez com que os vestidos de noite bordados com aplicações voltassem.

O bordado de cor, manual, tradicionalmente se fez representar nos trabalhos folclóricos em todo o mundo, bastante valorizados. Nas fantasias dos desfiles de carnaval brasileiros, também são muito usados os bordados de todos os tipos. Os tapetes artesanais permaneceram muito bem cotados e difundidos, entre os quais o tipo arraiolo. Quanto à tapeçaria de parede, alguns artistas plásticos brasileiros como Genaro (Genaro Antônio Dantas de Carvalho) ficaram famosos elevando-a à categoria de obra de arte. Destacam-se, também, as tapeçarias de Madeleine Colaço, que inventou o ponto brasileiro, e Concessa Colaço.

O bordado a máquina conservou algum prestígio no gênero branco e no ornamento de tom idêntico ao do tecido, empregado em pequenos detalhes e em arremates muito estreitos de vestidos e blusas. Mesmo depois de industrializado, o bordado inglês permaneceu em uso, periodicamente reciclado pela moda, nos trajes femininos e infantis, e no adorno de fronhas e lençóis finos. O bordado de cor, mecanizado ou artesanal, simples e em diversas modalidades, desvalorizou-se muito (com exceção das peças folclóricas), embora ainda seja bastante usado, geralmente em tons claros, em roupas de crianças pequenas. O recamo de cor, mecanizado ou manual, atravessou o século, desde a criação dos tailleurs Chanel, sempre copiados.

A partir da década de 1970, o uso de materiais alternativos, pesquisas de novas fibras para tecidos e tendências extravagantes ou ecológicas da moda fizeram com que, periodicamente, surgissem peças de vestuário feminino em tecido ou tricô bordados com aplicações de conchinhas, miçangas, sementes, plaquinhas de metal etc. Tais fenômenos atestam a vitalidade e a capacidade de renovação da arte de bordar no século XX.

Tipos e materiais - Podem-se distinguir três tipos de bordado: o bordado a branco, o bordado de cor, que inclui os trabalhos de ouro e prata, e o bordado sobre tela, que inclui a tapeçaria, executado a agulha com lãs ou sedas.

Bordado a branco - Assim chamado porque se executa sobre toda espécie de tecido branco, com linhas de algodão, linho ou torçal da mesma cor do fundo, o bordado a branco também abrange o mesmo gênero de trabalho feito com cores delicadas, tom sobre tom. Os pontos mais empregados no bordado a branco são os do bordado de passagem, que se faz executando os contornos e as nervuras do desenho com pontos chamados de passagem, e depois preenchendo-os com esses mesmos pontos.

A essa variedade pertence o bordado recortado ou festão, que consiste em bordar e recortar o tecido, sem que desfie, seguindo os contornos de um desenho denteado. As variações desse tipo de bordado são o ponto veneziano, o ponto renascença e o ponto Richelieu. O bordado a cheio, ou ponto real, se faz sobre tecidos leves, como a cambraia, a opala, a batista e a musselina, por meio de um ponto horizontal que abraça o tecido tanto embaixo quanto em cima. O bordado inglês mistura o bordado de recorte e o cheio. O bordado de renda executa-se puxando fios de um tecido leve ou com aplicações mais ou menos complicadas. É um tipo de trabalho que tem antiga tradição em Portugal e no norte do Brasil, onde é chamado crivo.

Bordado de cor - Consiste o bordado de cor no uso de fios tintos em todas as cores e tons, e de fios de ouro e prata; já foi empregado pelos povos orientais. Os principais bordados de cor são o bordado de aplicação ou em relevo, o bordado mosaico, o recamo, o bordado de transporte e a guipure. O bordado de aplicação ou em relevo é aquele cujos ornamentos sobressaem, ganham relevo, graças à colocação, por baixo dos pontos, de algodão, feltro, cartão ou pergaminho, que os sustêm. No bordado mosaico, reúnem-se pedaços de tecido de diversas cores.

O bordado de transporte se executa trabalhando as partes do desenho em separado, para depois colocá-las sobre o tecido-base. O recamo é obtido cosendo-se no tecido-base galões, cordões e passamanaria, por meio de pontos bem juntos. Na guipure, uma série de bordados de aplicação se misturam, incluindo-se, em geral, entre seus elementos ouro, prata e pedras preciosas. Os paramentos litúrgicos quase sempre são bordados nesse tipo.

Pertencem também a essa categoria o bordado a matiz, conhecido como pintura a agulha, pois os fios estão dispostos de modo a imitar o mais possível a coloração natural dos objetos; o bordado de cadeia, gênero antigo e muito empregado no Oriente, que se fazia com os dedos e agulhas de coser e, com o surgimento do tambor, passou a ser executado com agulhas de crochê; e o ponto de nós, que se produz com uma sequência de nós simples, cegos, ou corrediços, que formam uma roseta.

No bordado árabe, o ouro, a prata e as pérolas reúnem-se com fios de cor, ora sobre tecidos transparentes, gazes ou musselinas, ora sobre tecidos espessos e até couro, para aí desenhar modelos da maior fantasia. As letras árabes entrelaçadas, ou arabescos, dão a esse bordado seu cunho particular. O bordado chinês e o japonês usam uma variedade enorme de tonalidades de fios, o que lhes confere efeitos de luz e de cores de grande beleza.

Bordado sobre tela - O bordado sobre tela ou talagarça executa-se sobre um tecido de trama frouxa, que serve de guia para contar os pontos; uma vez pronto o trabalho, a tela é desfiada, deixando sobre o tecido-base apenas o bordado. A tapeçaria também emprega os pontos contados sobre um fundo de tela que permanece. Tem esse nome porque o resultado final do trabalho aparenta a tapeçaria tecida no tear. Pode ser feita com lãs, sedas ou fios metálicos.

#Dança, Origem da DançaDança, Origem da Dança - A dança é uma das mais simples e universais manifestações artísticas, a qual consiste no movimento rítmico e coordenado dos corpos. Talvez pelo fato de não requerer nenhum tipo de instrumento, encontramos registros de sua prática nos mais remotos agrupamentos humanos.

Acredita-se que a mesma era um mecanismo especializado de atração e conquista entre os homens pré-históricos. Nas antigas civilizações, passou a fazer parte de inúmeros rituais religiosos, com o intuito de adorar deuses ou clamar por fertilidade. No início ao fim da Idade Antiga é possível identificar o desenvolvimento da dança e seu aperfeiçoamento.

Nos Jogos Olímpicos, por exemplo, este era um elemento fundamental. Posteriormente, no período do Renascimento, a dança teve um enorme avanço, passando a ter um caráter teatral. Foi assim que surgiram dois importantes estilos: o sapateado e o balé.

Já as danças feitas em pares, como a valsa, o tango e a polca, por exemplo, foram surgir somente no século XIX, embora tenham sofrido forte resistência por parte dos conservadores da época. Hoje em dia, a dança incorporou elementos culturais de diversas regiões do mundo, de negros, índios e brancos, o que resultou na criação de outros estilos, como o samba, por exemplo
#FolguedoFolguedoSão folguedos que representam danças e manobras guerreiras dos índios brasileiros. Os participantes vestem tangas, peitorais e cocares feitos de penas coloridas, e as coreografias são bem ágeis. No passado, é possível que esses folguedos tenham sido praticados por índios e reelaborados pelos jesuítas com fins catequéticos. Agora, no entanto, restam poucas referências verdadeiramente indígenas nesses folguedos. Nos caboclinhos do Carnaval do Recife (PE) e nas carnavalescas tribos de índio da Paraíba, são usadas preacas – espécies de arco e flecha com função percussiva. A música é entoada por um grupo instrumental no qual se destaca uma pequena flauta de nome gaita. No Brasil Central, encontram-se grupos de caboclos em Minas Gerais, fazendo parte do congado e devotos de Nossa Senhora do Rosário. Em Goiás, há os tapuias, vestidos com palha e cocares com chifre. E, em São Paulo, aparecem os caiapós, com corpo pintado de azul e vestidos de palha.

#Jogral
Jogral - O termo jogral designava, na Idade Média, as pessoas que se dedicavam a entreter tanto o povo como os nobres e monarcas. Vestido de forma extravagante e quase sempre portador de instrumentos musicais (harpa, saltério, alaúde, gaita), acompanhado de algum animal, o jogral viajava de cidade em cidade, de corte em corte, e em cada lugar mostrava aos habitantes seus saberes e destrezas. Relatava fatos históricos célebres ou notícias recentes, narrava contos épicos protagonizados por heróis míticos, cantava, apresentava números de prestidigitação e acrobacia. Em troca, recebia algum dinheiro, mas sobretudo víveres e hospedagem.

Figura emblemática do ambiente cultural da Idade Média, o jogral divertiu, com seus textos e suas músicas, inumeráveis povoados e cortes.

Muitas vezes comparou-se o jogral ao trovador, o que não é certo, já que o segundo pertencia às classes altas e recitava composições originais, enquanto o jogral, procedente de uma camada social mais baixa, recebia pagamento por seu trabalho e não recitava versos próprios, mas alheios. Assim, converteu-se no principal transmissor de numerosos textos poéticos e relatos, que constituiriam o chamado mester de juglaría, expressão espanhola antiga equivalente a mister ou ofício de jogral, em oposição a mester de clerecía, arte literária própria dos clérigos medievais cultos. Os jograis desenvolveram método próprio, caracterizado pelas improvisações e o estilo livre e narrativo.

As mais destacadas manifestações dessa literatura foram os cantares épicos, cultivados principalmente na Espanha e na França, como o Cantar de mío Cid (Cantar do meu Cid) ou a Chanson de Roland (Canção de Rolando). Essas gestas heróicas tinham certa base histórica e elementos legendários, e posteriormente foram convertidas em prosa em diversas crônicas históricas. Os relatos religiosos versavam sobre vidas de santos exemplares, como a Vida de santa Maria Egipcíaca, ou temas bíblicos, que serviam para reavivar os sentimentos religiosos da população.

Os jograis não gozavam de bom conceito na sociedade da época e eram constantemente tachados de imorais e dissolutos, tanto pelas autoridades religiosas quanto como pelo poder constituído. Assim procedeu, por exemplo, o rei castelhano Afonso X o Sábio em seu texto Las siete partidas.

Ante a impossibilidade de dominar todas as artes, os jograis se especializaram. Quando, no século XV, seu ofício começou a decair, acabaram por associar-se a outros indivíduos de profissões semelhantes, como os bufões, os menestréis, os mímicos e os goliardos, que tenderam a agrupar-se, em caráter estável, nas diferentes cortes ou palácios nobiliários.

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História do Carnaval no Brasil e no Mundo

História do Carnaval no Brasil e no Mundo

#História do Carnaval no Brasil e no Mundo

Carnaval é o período de festas e divertimento compreendido entre o dia de Reis e a Quaresma, especialmente os três dias que precedem a quarta-feira de Cinzas, em fevereiro ou março. Entre as festas carnavalescas realizadas fora do calendário oficial podem ser citadas a mi-carême, na França, e a  "serração da velha", no Brasil. Segundo Luís da Câmara Cascudo, esta última consistia numa festa popular em que "um grupo de foliões serrava uma tábua, aos gritos estridentes e prantos intermináveis, fingindo serrar uma velha que, representada ou não por algum dos vadios da banda, lamentava-se num berreiro ensurdecedor". Essa cerimônia caricatural esteve muito em voga no século XVIII, em Portugal, e tinha lugar principalmente durante a Quaresma. Tal modalidade de divertimento surgiu no Brasil no início do século XVIII.

A dança, o canto, a máscara e a liberdade de comunicação entre as pessoas, refreada durante o ano, caracterizam o carnaval, festa popular que valoriza a força erótica, o riso e o inusitado.

Não se sabe ao certo qual a origem da palavra carnaval. Na opinião de Antenor Nascentes, se aplicava originariamente à terça-feira gorda, a partir de quando a Igreja Católica proibia o consumo de carne. Outros etimólogos propõem como origem o baixo latim carnelevamen, modificado mais tarde em carne, vale! que significa "adeus, carne!" Carnelevamen pode ser interpretado como carnis levamen, "prazer da carne", antes das tristezas e continências que marcam o período da Quaresma.

Origem e antiguidade clássica

A origem do carnaval é também objeto de controvérsia, mas tem sido frequentemente atribuída à sobrevivência e evolução do culto de Ísis, das bacanais, lupercais e saturnais romanas, das festas em homenagem a Dioniso, na Grécia, e até mesmo das festas dos inocentes e dos doidos, na Idade Média. Por sucessivos processos de deformação e abrandamento, essas festas teriam dado origem aos carnavais dos tempos modernos, como os que se realizam em Nice, Paris, Roma, Veneza, Nápoles, Florença, Munique e Colônia. Independentemente de sua origem, é certo que o carnaval já existia na antiguidade clássica e até mesmo na pré-clássica, com danças ruidosas, máscaras e a licenciosidade que se conservam até a época contemporânea.

Idade Média

A Igreja Católica, se não adotou o carnaval, teve para com ele alguma benevolência. Tertuliano, são Cipriano, são Clemente de Alexandria e o papa Inocêncio II foram grandes inimigos do carnaval mas, no século XV, o papa Paulo II foi muito mais tolerante e chegou a autorizar o uso da Via Lata, diante de seu palácio, como palco do carnaval romano, com corridas de cavalos, carros alegóricos, batalhas de confetes, corrida de corcundas, lançamento de ovos e outros folguedos populares.

Essas formas de bufoneria medieval entraram em declínio e o carnaval tornou-se menos grosseiro e violento. O tétrico e o macabro tomaram o lugar do deboche. Ficaram célebres as famosas danças macabras da Idade Média, durante as quais homens e mulheres desfilavam diante da Morte, que, impassível, lhes ouvia as queixas e, "depois de chasquear um verso com os suplicantes, lhes descarregava a foice".

Renascimento e tempos modernos. Introduzido pelo papa Paulo II, o baile de máscaras começou a fazer sucesso nos séculos XV e XVI, na Itália e também na França, onde sobreviveu durante a revolução francesa e depois dela, com um período de renascimento entre 1830 e 1850. Ainda no século XIX, em Londres, ficou famoso o baile promovido pelo Instituto Real de Pintores e Aquarelistas em 1884, quando os artistas ingleses se fantasiaram com máscaras dos mestres do passado ou de príncipes e monarcas amigos.

O carnaval transformou-se, assim, numa celebração ordeira de caráter artístico, com bailes e desfiles alegóricos, forma que iria aos poucos desaparecer na Europa, entre o final do século XIX e início do século XX. Essas características, no entanto, sobreviveram em carnavais de algumas cidades europeias, entre as quais Munique e Nice.

Carnaval no Brasil

O entrudo português constituiu, no Brasil colonial e monárquico, a forma mais comum de brincar o carnaval. Consistia num folguedo violento: eram atiradas sobre as pessoas água, farinha, cal e outras substâncias que molhavam e sujavam o transeunte. Proibido no Rio de Janeiro pelo prefeito Pereira Passos, em 1904, e alvo de protestos na imprensa, o entrudo civilizou-se progressivamente até o aparecimento de outros instrumentos de brincadeiras: o confete, a serpentina e o lança-perfume.

Carnaval carioca

O zé-pereira (tocador de bombo) marcou época nos antigos carnavais do Rio de Janeiro. O sapateiro português José Nogueira de Azevedo teria sido o introdutor, em 1846, do hábito de animar a folia carnavalesca com zabumbas e tambores, percutidos em passeata pelas ruas. Meio século mais tarde, o ator Francisco Correia Vasques encenou uma paródia de Les Pompiers de Nanterre (Os bombeiros de Nanterre), na qual cantou a quadrinha que celebrizou o já consagrado personagem carnavalesco: "E viva o zé-pereira / Pois que a ninguém faz mal / Viva a bebedeira / Nos dias de carnaval."

Bailes

O primeiro baile carnavalesco carioca realizou-se no Hotel de Itália, na atual praça Tiradentes, por iniciativa dos proprietários, animados pelas notícias do sucesso dos bailes de máscaras europeus. Em 1846 a atriz Clara Dalmastro organizou um baile de máscaras no teatro São Januário, dando início à moda dos bailes em casas de espetáculos, generalizada por volta de 1870. No final do século, cerca de cem bailes eram oferecidos aos carnavalescos da cidade, em teatros e clubes. Celebrizaram-se os bailes do Teatro Municipal, realizados de 1932 a 1975, e os dos hotéis de luxo como o Glória, o Copacabana Palace e o Quitandinha, em Petrópolis.

Máscaras e fantasias

Até a década de 1930, era costume brincar o carnaval com fantasias ou máscaras, estas introduzidas em 1834 por influência francesa. As ricas máscaras de veludo ou cetim, assim como as fantasias de marinheiro, pierrô, colombina e arlequim usadas nos bailes, foram progressivamente abandonadas e substituídas por trajes sumários e confortáveis. Sobreviveram nas ruas os foliões vestidos de mulher, autênticos travestis ou brincalhões grotescamente disfarçados, hábito já registrado em carnavais de meados do século XIX. Outros personagens são encarnados especialmente por crianças, como os super-heróis da televisão, os palhaços e o bate-bola. Em meados do século XX despertavam admiração os desfiles de riquíssimas fantasias, restritos aos salões, em que se atribuíam prêmios nas categorias luxo e originalidade.

Corsos

A moda do corso, lançada em fins da década de 1900, mobilizou multidões durante aproximadamente trinta anos. Consistia numa passeata carnavalesca de automóveis enfeitados que conduziam foliões, os quais brincavam com os demais participantes e com os pedestres. Confete, serpentina e lança-perfume eram usados em profusão, enquanto se cantavam os sucessos musicais do carnaval do ano ou de anos anteriores. O corso se iniciava às quatro horas da tarde do domingo de carnaval e se prolongava pela madrugada. Essa modalidade carnavalesca desapareceu com o advento dos carros fechados, que substituíram os conversíveis usados nos corsos.

Cordões, blocos e ranchos

Os cordões começaram a participar dos festejos carnavalescos da cidade por volta de 1880, para desaparecer nos primeiros anos do século XX. Entre esses primeiros grupos de mascarados, em que saíam palhaços, reis, diabos e baianas, contam-se o Flor de São Lourenço, o Cordão dos Invisíveis, o Estrela da Aurora e a Sociedade Carnavalesca Triunfo dos Cucumbis. Estruturavam-se segundo uma mesma norma: um conjunto de foliões fantasiados, conduzidos por um mestre munido do apito de comando, dançava e cantava ao som de instrumentos de percussão. Era costume expor os estandartes dos cordões nas sedes dos jornais, antes do carnaval.

Os blocos, grupos de foliões fantasiados que se divertem em passeatas carnavalescas pelas ruas, dançando e cantando ao som de baterias, são outra tradição do carnaval carioca e de outras cidades do Brasil. Os ranchos carnavalescos, originados do rancho de Reis nordestino, começaram a aparecer no carnaval carioca no início do século XX como cortejo mais organizado e evoluído que o cordão e o bloco. Desfrutaram de grande popularidade junto aos apreciadores do carnaval de rua o Flor do Abacate, Ameno Resedá, Mamãe Lá Vou Eu e Rosa de Ouro.

Sociedades carnavalescas

As grandes sociedades que apareceram na segunda metade do século XIX não se limitavam aos desfiles carnavalescos. Seu prestígio se apoiava também em atividades sociais e políticas. Os integrantes das sociedades eram cidadãos participantes da vida nacional, abolicionistas e republicanos, e os grandes clubes funcionavam também como sociedades literárias e musicais. Nos chamados carros de crítica, tomavam posição contra abusos e erros das autoridades ou a propósito de questões em que a coletividade estivesse empenhada.

O Congresso das Sumidades Carnavalescas foi responsável pelo primeiro desfile do gênero, em 1855. Surgiu logo depois a União Veneziana, de curta duração, e duas dissidências do Congresso das Sumidades: a Euterpe Comercial e os Zuavos Carnavalescos. Os Tenentes do Diabo desfilaram em préstito pela primeira vez em 1867 e fizeram história como uma das mais populares sociedades carnavalescas. Seus aficionados eram chamados baetas. Outras sociedades muito populares foram os Democráticos, cujos admiradores se chamavam carapicus, e os Fenianos, cujo nome é uma referência aos revolucionários irlandeses que lutavam contra os britânicos, aplaudidos pelos "gatos". A Embaixada do Sossego, o Clube dos Embaixadores, os Pierrôs da Caverna, o Clube dos Cariocas e os Turunas de Monte Alegre também saíam em préstitos, formados por batedores, carro abre-alas, uma comissão de frente montada, um carro-chefe, carros alegóricos e de crítica e banda de clarins.

Escolas de samba

A Deixa Falar, do bairro do Estácio, que reunia os sambistas Nilton Bastos, Ismael Silva e Alcebíades Barcelos (Bide), foi a primeira escola de samba do Rio de Janeiro, fundada em 1928. A praça Onze foi eleita pelos sambistas para as concentrações nos domingos e terças-feiras de carnaval. Logo se multiplicaram as agremiações, algumas das quais desapareceram com pouco tempo de existência e outras prosperaram, como a Estação Primeira, do morro da Mangueira; a Vai Como Pode, futura Portela, do bairro de Madureira, e outras.

As escolas de samba da atualidade são sociedades civis legalmente registradas, elegem dirigentes e dispõem de órgãos representativos. As mais importantes têm sede própria, denominada quadra, onde se realizam bailes e ensaios durante os meses que precedem o carnaval. Algumas desenvolvem atividades assistenciais, principalmente com as crianças da comunidade.

Uma escola de samba, ao desfilar, dispõe em certa ordem os elementos que a constituem. O carro abre-alas inicia o desfile, seguido da comissão de frente, que representa a direção da escola. A porta-bandeira leva o estandarte da escola e executa, com o mestre-sala, uma coreografia especial. A dupla representa os anfitriões da escola. Os mais hábeis sambistas da escola, os passistas, desfilam à frente das alas. A bateria das grandes escolas se compõe de centenas de ritmistas que tocam surdos, taróis, pandeiros, tamborins, cuícas e outros instrumentos de percussão. Os grandes grupos de componentes fantasiados denominam-se alas e são intercalados pelas alegorias, montadas sobre carretas.

Música carnavalesca

A partir da marcha Abre alas, composta por Chiquinha Gonzaga em 1899, vários outros gêneros se popularizaram como música de carnaval: samba, marcha-rancho, batucada e samba-enredo permaneceram como os ritmos prediletos dos foliões do Rio de Janeiro. Até o final da década de 1960, a música de carnaval foi um fenômeno cultural e musical específico. A Rádio Nacional divulgava grande número de composições que, a cada ano, disputavam a preferência do público, cantadas nos bailes e nas ruas. Algumas dessas canções tornaram-se clássicas das festividades do período e passaram a ser executadas em todos os carnavais. Entre elas se contam Cidade maravilhosa (1935), Mamãe eu quero (1937) e Jardineira (1939), assim como outras mais recentes.

A ascensão da televisão e o declínio do rádio contribuíram para minimizar a importância desse fenômeno. A afirmação da linguagem televisiva, que privilegia o aspecto visual do carnaval, acarretou uma divulgação maior das escolas de samba, cujo desfile, transmitido para todo o país, passou a ser o ponto alto do carnaval carioca. Os sambas-enredo das escolas, bem como o som de suas baterias, tornou-se o ritmo carnavalesco dominante.

Carnaval baiano

Salvador apresenta um carnaval em que se misturam as mais autênticas tradições negras, como o cortejo dos afoxés, entre os quais se destacam os Filhos de Ghandi, com novidades introduzidas periodicamente nos ritmos e no instrumental, logo assimiladas pela multidão de foliões. Assim, o frevo baiano se executa ao lado de ritmos como o samba-reggae e a timbalada. O trio elétrico, palco ambulante montado sobre um caminhão e munido de caixas acústicas e alto-falantes, transmite a música executada por um conjunto e acompanhada pela multidão. Criado pelo folião Antônio Adolfo do Nascimento em 1950, o trio elétrico transformou-se no principal elemento do carnaval baiano.

Olinda e Recife

No carnaval pernambucano predominam os blocos de frevo, música de ritmo frenético e contagiante, executada por batida sincopada e instrumentos de sopro. Os dançarinos de frevo podem usar guarda-chuvas para facilitar o equilíbrio. O ponto alto do carnaval do Recife é o cortejo do Galo da Madrugada, bloco que sai às cinco horas da manhã do sábado do bairro São José e percorre a cidade, acompanhado por centenas de milhares de pessoas.

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