Clara dos Anjos | Lima Barreto

Clara dos Anjos | Lima Barreto

Clara dos Anjos | Lima BarretoPassado no subúrbio do Rio de Janeiro, Clara dos Anjos conta sobre a jovem e ingênua mulata Clara, filha do carteiro Joaquim dos Anjos, que é seduzida pelo malandro Cassi Jones. Cassi é um jovem branco, ignorante e torpe, que usa este sobrenome porque, supostamente, descende de um nobre inglês. Seu pai não fala mais com ele após suas diversas aventuras que desonraram várias donzelas e acabaram com vários casamentos (a mãe de uma das vítimas se suicidou; o marido que ela arranjou depois distribui anonimamente um dossiê sobre Cassi pelo RJ). Cassi toma Clara como seu próximo alvo e vai tentando se aproximar dela. Começa pela festa de aniversário desta e vai seguindo, apesar dos pais dela não deixarem e do padrinho dela e tantos outros falarem sobre ele. 

Clara não acredita e continua curiosa sobre Cassi. Cassi passa a usar um velho, "dentista", que tratava de Clara; ele manda as cartas de um e outro. Depois de um tempo Cassi parte para São Paulo para um possível emprego; Clara está grávida. Após pensar em abort, Clara revela a verdade à mãe, que vai falar à família de Cassi. Lá ela é tratada como só "mais uma mulatinha" e percebe a verdade total. Pontilhado com referências sobre o preconceito racial (um dos personagens é poeta Leonardo Flores; mulato e talentoso, fica pobre pois foi explorado), este foi o primeiro romance de Lima Barreto mais um dos últimos a ser publicado. Todos os personagens são tipicamente suburbanos e o vocabulário já transpira a coloquialidade como é característico ao autor.

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Clarissa | Érico Veríssimo

Clarissa | Érico Veríssimo

Clarissa | Érico VeríssimoModernismo de segunda fase. Clarissa é uma jovem de 13 anos que mora na pensão da tia enquanto estuda em Porto Alegre. Ela é uma jovem curiosa, descobrindo o mundo, a adolescência e a vida. Não gosta muito de escola, sente saudades da fazenda em sua cidade natal, Jacarecanga e observa as pessoas que moram na pensão da tia e na vizinhança: Ondina, a infiel esposa de Barata; Amaro, o músico triste e contemplativo; o distraído major; a conservadora tia e seu desempregado marido; a família rica que mora ao lado e a viúva com o filho mutilado. Este último, Tonico, perdeu as duas pernas num acidente de bonde e sonha em marchar com exércitos. Frágil, acaba morrendo. Quanto a Amaro, este sempre contempla Clarissa, sua juventude, sua inocência, sua beleza aflorando da menina que vai se tornando moça. Clarissa faz 14 anos (e ganha permissão para usar salto alto) e passa na escola. O livro acaba com Clarissa voltando para Jacarecanga (e encontrar o primo Vasco) enquanto Amaro fica triste na pensão a pensar nela. O primeiro romance de Érico Veríssimo, Clarissa apresenta um panorama da vida de uma jovem na Porto Alegre de 1932 e começa a história que se estenderá por seus romances da primeira fase.

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Versos Íntimos | Augusto dos Anjos

Versos Íntimos | Augusto dos Anjos

Versos Íntimos | Augusto dos Anjos" Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -

Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afasta é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!"


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Ulisses | James Joyce

Ulisses | James Joyce

Ulisses | James Joyce"O senhor Bloom caminhava em seu bosquete despercebido dos tristonhos anjos, cruzes, colunas truncadas, capelas familiares, esperanças pétreas pregando com olhos sursivoltos, corações e mãos da velha Irlanda. Mais sensato despender o dinheiro em alguma caridade para com os vivos. Reze pelo repouso da alma de. Fá-lo de fato alguém? Plantá-lo ali e é tudo o que cumpria. Como uma pazada de carvão em fornalha. E é aglomerá-los juntos para poupar tempo. Dia de finados. A vinte-e-sete estarei à sua tumba. Dez xelins para o jardineiro. Mantém-na limpa de ervas. Velho ele também. Arqueado em dois com sua segadora mondando. Perto do umbral da morte. Que passou desta. Que deixou esta vida. Como se o tivessem feito por própria deliberação. Com um empurrão, todos eles. 

Que esticou as canelas. Mais interessante se te contassem o que foram. Fulano de tal, carroceiro. Eu era caixeiro-viajante de linóleo de cortiça. Eu entrei em concordata a cinco xelins por libra. Ou de uma mulher com sua panela. Eu cozinhava bom guisado irlandês. Elogio de um adro-cemitério de campanha tinha de ser aquele poema de me parece Wordsworth ou Thomal Campbell. Ganhou descanso dizem os protestantes. A do velho Dr. Murren. A grande medicadora o acolheu. Afinal, é o torrão de Deus para eles. Bela casa de campo. Recém-rebocada e pintada. Lugar ideal para uma cachimbada tranquila e para ler o Church Times . Nunca se tenta embelezar os anúncios de casamento. Festões enferrujados pendendo de aldrabas, guirlandas bronzefoliadas. O que de melhor pelo preço. Ainda assim, as flores são mais poéticas. As outras são cansativas, nunca se fanando. Dizem nada. Perpétuas. Um passarinho pousava plácido num ramo de choupo. Como que empalhado. Como o presente de casamento que o edil Hooper nos deu. Chô! Nem se mexe. Sabe que não há atiradeiras para varejar contra ele. Os bichos mortos são ainda mais tristes. Milly-Bobilly enterrando o passarinhozinho morto na caixa de fósforos de cozinha, uma enfiada de margaridas e pedaços de colarezinhos partidos sobre a cova."

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Um Bonde Chamado Desejo | Tennessee Williams

Um Bonde Chamado Desejo | Tennessee Williams

Um Bonde Chamado Desejo | Tennessee Williams" Mitch
Você não se hospedava num hotel chamado Flamingo?

Blanche
Flamingo? Não! Chamava-se Tarântula! Eu me hospedava num hotel chamado Tarântula Negra.

Mitch ( com ar de estúpido )
Tarântula?

Blanche
Sim, Tarântula. É o nome de uma aranha muito grande. Era para lá que eu carregava as minhas vítimas. ( Derrama mais uma dose no copo ) Sim, eu tive muitas intimidades com estranhos. Depois da morte de Allan... as intimidades com estranhos me pareciam ser a única coisa capaz de encher meu coração vazio. Eu acho que era pânico, somente pânico, que me levava de um para outro, buscando proteção aqui, ali, até mesmo nos lugares... mais improváveis... até mesmo um rapaz de dezessete anos, mas alguém escreveu ao diretor da escola dizendo: "Essa mulher é moralmente incapaz para exercer sua função!"( Atira a cabeça para trás com uma risada
convulsiva e soluçante. Repete então a afirmação do diretor, ofega e bebe ) Verdade? Sim, suponho, incapaz é a palavra. Então eu vim para cá. Não havia nenhum outro lugar para onde eu pudesse ir. Estava acabada. Você sabe o que é estar acabada? Minha juventude, de repente, tinha ido embora, por um cano de juventude, de repente, tinha ido embora, por um cano de esgoto. E... foi então que encontrei você. Você disse que precisava de alguém. Eu também precisava de alguém. Agradeci a Deus por me ter mandado você. Você parecia tão bondoso. Um abrigo na rocha do mundo, onde poderia me esconder... Mas acho que estava pedindo, desejando... demais, Kiefaber, Stanley e Shaw já tinham amarrado uma lata velha na cauda do papagaio.

( Há uma pausa. Mitch olha para ela em silêncio )

Mitch
Você me mentiu, Blanche!

Blanche
Não, não diga que eu menti.

Mitch
Mentiras, mentiras, por dentro e por fora, tudo mentiras.

Blanche
Por dentro nunca, eu nunca menti no meu coração."
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Um Homem Sem Qualidades | Robert Musil

Um Homem Sem Qualidades | Robert Musil

Um Homem Sem Qualidades | Robert Musil"O homem sem qualidades de quem estamos falando chamava-se Ulrich, e Ulrich – não é agradável chamar alguém o tempo todo pelo nome de batismo, se o conhecemos tão pouco por enquanto!, mas seu sobrenome será omitido em consideração a seu pai – dera, na fronteira da meninice e adolescência, numa composição escolar, a primeira prova de sua maneira de ser. A composição tinha como tema um pensamento patriótico. Na Áustria o patriotismo era assunto muito especial. Pois crianças alemãs aprendiam simplesmente a desprezar as guerras das crianças austríacas, e ensinavam-lhes que as crianças francesas eram netas de libertinos sem fibra, que fogem aos milhares quando um soldado alemão barbudo avança sobre eles. 

E com papéis trocados, bem como as modificações desejáveis, aprendiam a mesma coisa as crianças francesas, russas e inglesas que também tinham sido frequentemente vencedoras. Mas crianças são fanfarronas, gostam de brincar de polícia-e-ladrão, estão sempre dispostas a considerar a família X da rua Y a maior família do mundo, caso façam parte dela. Assim, se deixam influenciar facilmente pelo patriotismo. Mas na Áustria isso era um pouco mais complicado. Pois os austríacos também tinham vencido todas as guerras da sua história, mas depois da maioria dessas guerras tinham feito algum tipo de concessão. Isso faz pensar, e na sua composição sobre amor à pátria Ulrich escreveu que um verdadeiro patriota nunca devia considerar sua pátria a melhor de todas; sim, com um lampejo que lhe pareceu especialmente belo, embora ficasse mais ofuscado por seu brilho do que visse o que estava contido nele, acrescentara àquela frase suspeita mais outra: que provavelmente também Deus gostava de falar do seu mundo no conjuctivus potentialis (hic dixerit quispiam = aqui se poderia objetar...), pois era Deus quem fazia o mundo, pensando que bem podia ser de outra maneira. Ele sentira muito orgulho dessa frase, mas talvez não se tivesse expressado de maneira muito compreensível, pois causara grande agitação, e quase o afastaram da escola, embora não chegassem a tomar essa decisão por não descobrirem se aquele comentário inadequado era blasfêmia contra a pátria ou contra Deus. 

Naquele tempo, ele estava sendo educado no aristocrático Ginásio teresiano, que fornecia os mais nobres esteios do Estado. E seu pai, furioso com a vergonha causada por aquele filho degenerado, mandou Ulrich para o estrangeiro, para um pequeno colégio belga, localizado numa cidade desconhecida e que através de uma administração inteligente e espírito comercial, conseguia a preços baixos grande número de alunos transviados. Lá Ulrich aprendeu a ampliar internacionalmente seu desprezo pelos ideais alheios. Amei durante muito tempo uma dama a quem chamarei de Aurélia. E que perdi para sempre. Pouco importam as circunstâncias desse evento que devia ter uma influência tão grande em minha vida. Cada um pode buscar em suas lembranças a emoção mais pungente, o golpe mais terrível desferido sobre a alma pelo destino; há então que se resignar a morrer ou viver – direi mais tarde por que não escolhi a morte. Condenado por aquela a quem amava, culpado de uma falta cujo perdão não tinha mais esperança, só me restava lançar-me em exaltações vulgares. Fingindo alegria e indiferença, corri o mundo loucamente apaixonado pela instabilidade e pelo capricho. 

Das populações longínquas, eu gostava sobretudo dos modos e costumes bizarros, parecendo-me assim abstrair as condições do bem e do mal, os termos, por assim dizer, daquilo que é sentimento para nós franceses. Que loucura, dizia a mim mesmo, amar assim platonicamente uma mulher que não mais te ama! Isso é culpa das minhas leituras; levei a sério as invenções dos poetas, e fiz para mim uma Laura ou uma Beatriz de uma pessoa comum de nosso século... Passemos a outras intrigas, e esta logo se apagará. O delírio de um alegre carnaval numa cidade da Itália afastou todas as minhas ideias melancólicas. Sentia-meções dos poetas, e fiz para mim uma Laura ou uma Beatriz de uma pessoa comum de nosso século... Passemos a outras intrigas, e esta logo se apagará. O delírio de um alegre carnaval numa cidade."

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Um Sonho Americano | Norman Mailer

Um Sonho Americano | Norman Mailer

Um Sonho Americano | Norman Mailer"– Não é engraçado? – perguntou Deborah. – Não ouvi nenhuma queixa de qualquer dos meus novos queridos. Desde o dia de nossa separação, ela não me confessara nenhum amante. Até aquele momento. Uma dor aguda e triste me penetrou. Foi substituída imediatamente por um sentimento de horror.

– Quantos tem você? – perguntei.

– No momento, tenho três, meu caro.

– E você... – mas não pude perguntar.

– Sim, querido. Tudinho. Não lhe posso dizer como ficaram chocados, quando comecei. Um deles perguntou: "Onde você aprendeu isso? Eu não sabia que essas coisas se faziam fora dos bordéis mexicanos."

– Cale a merda dessa boca.

– Ultimamente me tenho esmerado. Bati-lhe com a mão aberta, em pleno rosto. Eu pretendera – uma intenção final de calma, de minha mente, pretendera – dar-lhe apenas um tapa, mas meu corpo falou mais depressa do que o cérebro, e o golpe a alcançou junto da orelha, lançando-a meio para fora da cama. Levantou-se como um touro e como um touro atacou. Atingiu-me no estômago (provocando um relâmpago naquela floresta de nervos) e em seguida deu violenta joelhada no meu sexo (ela lutava como um garoto de escola) e tendo errado, procurou segurá-lo com ambas as mãos e arrancá-lo. Isso me cegou. Dei-lhe um golpe na nuca, um golpe seco que a lançou de joelhos. Apliquei-lhe uma gravata com o braço e apertei-lhe o pescoço. Ela era forte, sempre soube que era forte, mas agora sua força era enorme. Por um momento, eu não soube se podia contê-la, e ela quse teve força para erguer-se e levantar-me no ar, o que, naquela posição, constitui uma energia excepcional, até para um lutador. Durante dez ou vinte segundos, lutou para equilibrar-se, mas sua energia começou a diminuir, passou para mim, e senti que meu braço lhe apertava ainda mais o pescoço. Meus olhos se fecharam. Formei a imagem mental de que estava empurrando com o ombro uma porta enorme, que cedia, centímetro a centímetro, ao meu esforço.Uma de suas mãos tateou-me o ombro, e bateu de leve. Como um gladiador admitindo a derrota."

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Uma Mulher Sem Igual | Nadine Gordimer

Uma Mulher Sem Igual | Nadine Gordimer

Uma Mulher Sem Igual | Nadine Gordimer
"As meninas estavam acostumadas a acobertar umas às outras, quando uma delas tinha algo melhor para fazer do que ficar no cinema. Ele ficou calado; então murmurou: "Venha". Saíram agachados. Foi uma longa caminhada. Hillela pensou que seria mais sensato tornar o ônibus. Ele falava cada vez menos e uma vez ou outra levava a mão à orelha, como se o hálito da menina o queimasse. Logo chegaram a um bairro negro e ele não precisou dizer o que não tinha coragem de confessar nem a si mesmo. Chegaram a uma casa pequena cuidadosamente pintada e com objetos curiosos – a caixa do correio, uma miniatura de moinho de vento, a campainha de bronze com entalhe imitando nó de pinho. As portas no corredor tinham pequenas placas: "Refúgio de Charlene", "Entrada proibida: pessoas adormecidas trabalhando". Num quarto com três camas bem arrumadas que Don compartilhava com os irmãos mais novos, ele preparou-se solenemente para tocar guitarra, enquanto Hillela, sentada numa das camas, lia na moldura iluminada o texto do poema que aprendera na escola primária: "...Se es capaz de falar com a multidão e conservar tua virtude. Ou caminhar com reis – sem perder o contato com o homem comum; Se nem inimigos nem amigos podem te ferir; Se todos os homens são importantes mas nenhum demais para tua atenção; Se és capaz de encher o minuto inescapável com 60 segundos de caminhada, Tua é a terra e tudo que há nela, E – o que é mais – serás um Homem, meu filho!" O quadro estava colocado de modo a ser visto por Don, deitado na sua cama. Ele pôs um pé sobre um caixote vazio de frutas, para apoiar a guitarra na perna. Hillela ficou surpresa e excitada com a perfeição com que ele tocava – uma excitação diferente da que sentia no parque."