Aquarela do Brasil | Ary Barroso


Aquarela do Brasil | Ary Barroso

Aquarela do Brasil | Ary Barroso
"Brasil, meu Brasil brasileiro
Meu mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus versos
Ô Brasil, samba que dá
Bamboleio que faz gingar
O Brasil do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil, pra mim, pra mim, pra mim
Abre a cortina do passado
Tira a mãe preta do Cerrado
Bota o Rei-Congo no congado
Brasil, pra mim
Deixa cantar de novo o trovador
A merencória luz da lua
Toda a canção do meu amor
Quero ver essa dona caminhando
Pelos salões arrastando
O seu vestido rendado
Brasil, pra mim, pra mim, pra mim
Brasil, terra boa e gostosa
Da morena sestrosa
De olhar indiscreto
O Brasil samba que dá
Bamboleio que faz gingar
O brasil do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil, pra mim, pra mim, pra mim
Ô esse coqueiro que dá coco
Onde amarro a minha rede
Nas noites claras de luar
Brasil pra mim
Ah ouve essas fontes murmurantes
Aonde eu mato a minha sede
E onde a lua vem brincar
Ah esse Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil brasileiro

Terra de samba e pandeiro
Brasil, pra mim, pra mim, Brasil
Brasil, pra mim, pra mim, Brasil
Brasil, pra mim, pra mim"


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As Aventuras de Sherlock Holmes | Arthur Conan Doyle

As Aventuras de Sherlock Holmes | Arthur Conan Doyle

As Aventuras de Sherlock Holmes | Arthur Conan Doyle"Para Sherlock Holmes ela é sempre a mulher. Raras vezes o ouvi mencioná-la de outra maneira. Ele tinha mesmo a idéia de que ela eclipsava e se sobrepunha a todas as outras mulheres, e isto não era porque estivesse apaixonado por Irene Adler. Todas as emoções, particularmente o amor, aborreciam sua mentalidade admiravelmente equilibrada, fria e severa. Creio mesmo que ele era a mais perfeita máquina de raciocinar e observar que o mundo jamais viu, porém como namorado ficaria numa posição falsa. Nunca falava das emoções sentimentais a não ser como pilhéria e com desdém. Achava que era admirável ver isto nos outros e excelente desculpa para cobrir os motivos e ações humanas. Mas, para um calculista como ele, admitir tais intrusões em seu fino, delicado e tão ajustado temperamento, era como introduzir um fator de perturbação que podia criar dúvidas em suas conclusões mentais. Um grão de areia num instrumento delicado ou uma lente rachada não se tornariam mais destrutivos do que uma forte emoção numa natureza domo a sua. Entretanto, havia somente uma mulher para ele e esta mulher era Irene Adler, que fazia revolver sua memória em dúvidas e perguntas diversas."

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As Catilinárias | Cícero

As Catilinárias | Cícero

As Catilinárias | Cícero"Até quando enfim, ó Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda há-de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há-de precipitar a tua audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda nocturna da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disto conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos? Não vês que a tua conspiração, a têm já dominada todos estes que a conhecem? Quem, de entre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, em que local estiveste, a quem convocaste, que deliberações foram as tuas?

Oh tempos, oh costumes! O Senado tem conhecimento destes factos, o cônsul tem-nos diante dos olhos; todavia, este homem continua vivo! Vivo?! Mais ainda, até o no Senado ele aparece, toma parte no conselho de Estado, aponta-nos e marca-nos, com o olhar, um a um, para a chacina. E nós, homens valorosos, cuidamos cumprir o nosso dever para com o Estado, se evitamos os dardos da sua loucura. À morte, Catilina, é que tu deverias, há muito, ter sido arrastado por ordem do cônsul; contra ti é que se deveria lançar a ruína que tu, desde há muito tempo, tramas contra todos nós."

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As Cidades Invisíveis | Italo Calvino

As Cidades Invisíveis | Italo Calvino

As Cidades Invisíveis | Italo Calvino"Em Ercília, para estabelecer as ligações que orientam a vida da cidade, os habitantes estendem fios entre as arestas das casas, brancos ou pretos ou cinza ou pretos-e-brancos, de acordo com as relações de parentesco, troca, autoridade, representação. Quando os fios são tantos que não se pode mais atravessar, os habitantes vão embora: as casas são desmontadas; restam apenas os fios e os sustentáculos dos fios. Do costado de um morro, acampados com os móveis de casa, os prófugos de Ercília olham para o enredo de fios estendidos e os postes que se elevam na planície. Aquela continua a ser a cidade de Ercília, e eles não são nada.

Reconstroem Ercília em outro lugar. Tecem com os fios uma figura semelhante, mas gostariam que fosse mais complicada e ao mesmo tempo mais regular do que a outra. Depois a abandonam e transferem-se juntamente com as casas para ainda mais longe. Deste modo, viajando-se no território de Ercília, depara-se com as ruínas de cidades abandonadas, sem as muralhas que não duram, sem os ossos dos mortos que rolam com o vento: teias de aranha de relações intrincadas à procura de uma forma."

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As Flores do Mal | Charles Baudelaire


As Flores do Mal | Charles Baudelaire

As Flores do Mal | Charles Baudelaire
" O ALBATROZ

Às vezes, por folgar, os homens da equipagem
Pegam de um albatroz, enorme ave do mar,
Que segue — companheiro indolente de viagem —
O navio no abismo amargo a deslizar.

E por sobre o convés, mal estendido apenas,
O imperador do azul, canhestro e envergonhado,
Asas que enchem de dó, grandes e de alvas penas,
Eis que deixa arrastar como remos ao lado.

O alado viajor tomba como num limbo!
Hoje é cômico e feio, ontem tanto agradava!
Um ao seu bico leva o irritante cachimbo,
Outro imita a coxear o enfermo que voava!

O poeta é semelhante ao príncipe do céu
Que do arqueiro se ri e da tormenta no ar;
Exilado na terra e em meio do escarcéu,
As asas de gigante impedem-no de andar."


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As Forças Armadas | Heráclito Fontoura Sobral Pinto

As Forças Armadas | Heráclito Fontoura Sobral Pinto

As Forças Armadas | Heráclito Fontoura Sobral Pinto"Quando a Pátria está em perigo, nenhum dos seus filhos pode ficar inativo. Incumbe-lhes, nestas horas de angústias, agir espontaneamente, dentro dos limites das suas possibilidades, afim de ver se podem cooperar na conjura dos riscos que pesam, iminentes e sombrios, sobre o regular desenvolvimento do bem comum da Nação. Só os cegos é que não estão vendo a gravidade alarmante da situação do Brasil atual. Sinistro furacão voa, com velocidade alucinante, na direção dos nossos céus, ameaçando todos os valores espirituais, morais e culturais da nacionalidade, sem que as Forças Armadas, as velhas organizações partidárias da Nação, e o próprio Episcopado nacional pressintam este perigo, que se aproxima da nossa Pátria, e descubram o verdadeiro jogo do Exmo. Sr. Getúlio Vargas. O governo perdeu toda a sua autoridade moral, com ser proclamado ilegítimo e usurpador pelas instituições culturais mais expressivas da Nação. Conserva, entretanto, à sua disposição toda a força organizada do Estado. 

Esta desassociação entre a autoridade moral e o poder físico do atual governo é terreno propício para a germinação de todas as catástrofes morais e sociais que estão prestes a explodir no seio da comunidade civil da nossa Pátria. No empenho de contribuir, ao menos com o meu depoimento austero, para poupar à minha Pátria dias futuros calamitosos, é que me dirijo, agora, às Forças Armadas do Brasil. Nobres são os meus propósitos. Nada demonstra tanto a pureza das minhas intenções como o fato de tentar eu falar às Forças Armadas através das cartas que escrevi aos Exmos. Srs. Generais Pedro Aurelio de Góes Monteiro, Renato Paquet e Eurico Gaspar Dutra. Nelas documento, em termos categóricos, que as Forças Armadas assumiram, por intermédio dos seus chefes mais eminentes, a responsabilidade de implantar, pela força, mas em nome do povo brasileiro, o regime de 10 de Novembro de 1937, do qual resultou a concentração, nas mãos do Exmo. Sr. Getúlio Vargas, de todos os poderes inerentes ao exercício do Cargo de Chefe Supremo do Estado. As declarações públicas e solenes dos três ilustres Generais, que deram origem às cartas que, agora, reúno em folheto, são claras, precisas, e formais no fixarem o apoio, inequívoco e decidido, que estes chefes militares dão, em nome das Forças Armadas, ao regime ditatorial, que a Carta Constitucional de 10 de Novembro de 1937 impôs à Nação, e que a Lei Constitucional no 9, de 28 de Fevereiro último se empenha por consolidar."

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As Horas Nuas | Lygia Fagundes Telles

As Horas Nuas | Lygia Fagundes Telles

As Horas Nuas | Lygia Fagundes Telles"Miguel?!... chamei e empurrei a porta. Ali estava tia Lucinda sentada na cama com o Miguel nos braços. Ali estava ela no seu longo roupão de lã branca, os cabelos desfeitos, esvoaçantes, a cara branca, o olhar ausente. Fazia um ligeiro movimento de cadeira de balanço como se embalasse o filho que dormia. Comecei a tremer, o Miguel desmaiou, pensei assustada. Ele desmaiou e tia Lucinda veio socorrer o filho desmaiado. Nem ele, nem ela se moviam. E ele tão grande transbordando do colo da mãe. Que desmaio era aquele? Tia Lucinda era uma mulher pequena e ele tão grande, imenso. Vestido só com a calça do pijama azul, o tronco nu, os braços musculosos pendendo frouxos até o chão, chegando ao chão como as tiras frouxas das suas sandálias desatadas na noite do blecaute, as sandálias que estavam ali perto da cama. 

Agora estava descalço. A cabeça encaracolada tombava para o peito da mãe, uma cabeça tão desvalida que cheguei a pensar em ampará-la como se corresse o risco de rolar por ali. Mãe e filho quietos na casa quieta. O silêncio escuro, com uma leve aragem que entrava pela fresta das cortinas e que fazia esvoaçar os cabelos de tia Lucinda, ela estava desarmada, eles podiam esvoaçar. Tia, eu posso ajudar? perguntei baixinho. Ela voltou para mim o olhar que parecia não me ver, ia além. Além. Não respondeu, continuou no seu brando movimento de cadeira de balanço, as pontas dos dedos de Miguel roçando o tapete. Recuei com o sentimento de que estava apenas diante de um quadro, a cena não era real, aquilo era um quadro muito antigo, antiquíssimo com a Virgem e o Cristo morto. Ele fora despregado e a Virgem o recebera sem gestos e sem lágrimas, o recebera nos braços simplesmente. Mas ele era grande demais e por isso pendia do regaço da mãe assim num desamparo cor de cera, as pontas das mãos e dos pés ligeiramente arroxeadas."

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As Nuvens | Aristófanes


As Nuvens | Aristófanes

As Nuvens | Aristófanes
" Estrepsíades - Olhe ali ( aponta a casa de Sócrates). Você está vendo aquela portinha e aquele casebre?

Fidípides - Estou vendo. Papai, de fato o que é aquilo?

Estrepsíades ( Declamando) - De almas sábias é aquilo um 'pensatório'... Lá moram homens que, quando falam do céu, querem convencer de que é um abafador, que está ao nosso redor, e nós... somos carvões! Se a gente lhes der algum dinheiro, eles ensinam a vencer com discursos nas causas justas e injustas.

Fidípides - Mas quem são eles?

Estrepsíades - Não sei ao certo o seu nome. ( Solenemente.) São pensadores meditabundos, gente de bem!

Fidípides - Ah! Já sei, uns coitados! Você está falando desses charlatães, pálidos e descalços, entre os quais o funesto Sócrates e
Querefonte...

Estrepsíades - Eh! Silêncio! Não diga tolices! Mas se você se preocupa um pouco com o pão de seu pai, por favor, renuncie à equitação e torne-se um deles.

Fidípides - Não, por Dioniso, não poderia, nem que você me desse os faisões de Leógoras.

Estrepsíades - Vá, eu imploro! Você, a mais querida das criaturas, vá aprender!

Fidípides - E que irei aprender para o seu bem?

Estrepsíades - Dizem que no meio deles os raciocínios são dois: o forte, seja ele qual for, e o fraco. Eles afirmam que o segundo raciocínio, isto é, o fraco, discursando, vence nas causas mais injustas... Ora, se você me aprender esse raciocínio injusto, do dinheiro que agora estou devendo por sua culpa, dessas dívidas eu não pagaria nem um óbolo a ninguém..."

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