Paradiso | José Lezama Lima

Paradiso | José Lezama Lima

Paradiso | José Lezama Lima"Oppiano Licario examinava a fixa diversidade dos outonos que tinham dançado ao longo de sua espinha dorsal. Ao chegar à infeliz página quarenta dessa coleção de outonos, as lembranças perdiam suas aguçaduras, as sensações riam de suas sucessões e a cavalgada deixava de ser cortada por sua mirada quando se perdia por trás da cintura dos coqueiros. Um murmúrio, a ressaca sonolenta impelida pelos insofríveis desertos da lua, começava a rodeá-lo. 

Salvo algum dia da semana, em que se precipitava no cartório onde trabalhava, desacompassado e esquecido dos quartos de relógio, sem que o resto dos empregados se assustassem ou esperassem em resguardado silêncio as repreensões birrentas do cartorário. Não acontecia nem a interrupção de uma conversa nem os clientes mais novos se fixavam nele. Outro dia da semana queria ser excepcional, quando Licario comprava algum caderno de pintura abastrata em Trieste, e alguns de seus amigos corriam para ouvi-lo afirmar reiteradamente que o abstrato terminava no figurativo e o figurativo terminava no abstrato. Mas nesse dia queria definir contorno e entorno, com circunferência e círculo, que era o que tinha somado, que constante de iluminação e que estações sombrosas se vislumbravam pelos corredores de espelhos. Quantas vezes ao se inclinar para deslizar diante do fenomênico, conseguia alcançar os reflexos do luminoso, a respiração inapreensível dos arquétipos."

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