O Rinoceronte | Eugène Ionesco

O Rinoceronte | Eugène Ionesco

O Rinoceronte | Eugène Ionesco" Jean
E então, se ele virou rinoceronte, voluntária ou involuntariamente, talvez seja melhor para ele.

Bérenger
Que é que você está dizendo? Como é que você pode pensar...

Jean
Você vê mal em tudo. Se isso lhe dá prazer virar rinoceronte, se isso lhe dá prazer, hein? Não há nada de extraordinário nisso.

Bérenger
Evidentemente que não há nada de extraordinário nisso. No entanto, duvido que isso lhe dê prazer.

Jean
E por que, então?

Bérenger
É difícil dizer por quê. Compreende-se.

Jean
Eu lhe digo que não é tão mau assim! Afinal, os rinocerontes são criaturas como nós, que têm direito à vida, tal como nós!

Bérenger
Com a condição que eles não destruam a nossa. Você já pensou na diferença de mentalidade?

Jean (indo e vindo do quarto, entrando no banheiro e saindo)
Você acha que a nossa é preferível?

Bérenger
Mesmo assim, temos uma moral a nosso modo, que eu acho imcompatível com a desses animais.

Jean (idem)
Moral! Lá vem a moral! Estou farto de moral! É linda a moral! É preciso ir além da moral!

Bérenger
E que é que você põe no lugar dela?

Jean
A natureza!

Bérenger
A natureza?

Jean
A natureza tem as suas leis. A moral é antinatural.

Bérenger
Se estou compreendendo bem, você quer trocar a lei moral pela lei da selva."


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