Um Homem Sem Qualidades | Robert Musil

Um Homem Sem Qualidades | Robert Musil

Um Homem Sem Qualidades | Robert Musil"O homem sem qualidades de quem estamos falando chamava-se Ulrich, e Ulrich – não é agradável chamar alguém o tempo todo pelo nome de batismo, se o conhecemos tão pouco por enquanto!, mas seu sobrenome será omitido em consideração a seu pai – dera, na fronteira da meninice e adolescência, numa composição escolar, a primeira prova de sua maneira de ser. A composição tinha como tema um pensamento patriótico. Na Áustria o patriotismo era assunto muito especial. Pois crianças alemãs aprendiam simplesmente a desprezar as guerras das crianças austríacas, e ensinavam-lhes que as crianças francesas eram netas de libertinos sem fibra, que fogem aos milhares quando um soldado alemão barbudo avança sobre eles. 

E com papéis trocados, bem como as modificações desejáveis, aprendiam a mesma coisa as crianças francesas, russas e inglesas que também tinham sido frequentemente vencedoras. Mas crianças são fanfarronas, gostam de brincar de polícia-e-ladrão, estão sempre dispostas a considerar a família X da rua Y a maior família do mundo, caso façam parte dela. Assim, se deixam influenciar facilmente pelo patriotismo. Mas na Áustria isso era um pouco mais complicado. Pois os austríacos também tinham vencido todas as guerras da sua história, mas depois da maioria dessas guerras tinham feito algum tipo de concessão. Isso faz pensar, e na sua composição sobre amor à pátria Ulrich escreveu que um verdadeiro patriota nunca devia considerar sua pátria a melhor de todas; sim, com um lampejo que lhe pareceu especialmente belo, embora ficasse mais ofuscado por seu brilho do que visse o que estava contido nele, acrescentara àquela frase suspeita mais outra: que provavelmente também Deus gostava de falar do seu mundo no conjuctivus potentialis (hic dixerit quispiam = aqui se poderia objetar...), pois era Deus quem fazia o mundo, pensando que bem podia ser de outra maneira. Ele sentira muito orgulho dessa frase, mas talvez não se tivesse expressado de maneira muito compreensível, pois causara grande agitação, e quase o afastaram da escola, embora não chegassem a tomar essa decisão por não descobrirem se aquele comentário inadequado era blasfêmia contra a pátria ou contra Deus. 

Naquele tempo, ele estava sendo educado no aristocrático Ginásio teresiano, que fornecia os mais nobres esteios do Estado. E seu pai, furioso com a vergonha causada por aquele filho degenerado, mandou Ulrich para o estrangeiro, para um pequeno colégio belga, localizado numa cidade desconhecida e que através de uma administração inteligente e espírito comercial, conseguia a preços baixos grande número de alunos transviados. Lá Ulrich aprendeu a ampliar internacionalmente seu desprezo pelos ideais alheios. Amei durante muito tempo uma dama a quem chamarei de Aurélia. E que perdi para sempre. Pouco importam as circunstâncias desse evento que devia ter uma influência tão grande em minha vida. Cada um pode buscar em suas lembranças a emoção mais pungente, o golpe mais terrível desferido sobre a alma pelo destino; há então que se resignar a morrer ou viver – direi mais tarde por que não escolhi a morte. Condenado por aquela a quem amava, culpado de uma falta cujo perdão não tinha mais esperança, só me restava lançar-me em exaltações vulgares. Fingindo alegria e indiferença, corri o mundo loucamente apaixonado pela instabilidade e pelo capricho. 

Das populações longínquas, eu gostava sobretudo dos modos e costumes bizarros, parecendo-me assim abstrair as condições do bem e do mal, os termos, por assim dizer, daquilo que é sentimento para nós franceses. Que loucura, dizia a mim mesmo, amar assim platonicamente uma mulher que não mais te ama! Isso é culpa das minhas leituras; levei a sério as invenções dos poetas, e fiz para mim uma Laura ou uma Beatriz de uma pessoa comum de nosso século... Passemos a outras intrigas, e esta logo se apagará. O delírio de um alegre carnaval numa cidade da Itália afastou todas as minhas ideias melancólicas. Sentia-meções dos poetas, e fiz para mim uma Laura ou uma Beatriz de uma pessoa comum de nosso século... Passemos a outras intrigas, e esta logo se apagará. O delírio de um alegre carnaval numa cidade."

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