Gravidez, Gestação e Parto

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Gravidez, Gestação e Parto

Gravidez, Gestação e PartoO termo gestação, e seus sinônimos gravidez e prenhez, designam ao mesmo tempo o estado de uma mulher grávida e o período que se inicia com a fecundação do óvulo e termina com o nascimento da criança. Parto é o processo, comum a todos os mamíferos, que determina o trânsito do feto do interior da cavidade uterina ao exterior do organismo materno. Os períodos de gestação não são os mesmos para todas as diferentes espécies de mamíferos. O prazo mínimo observa-se em certos roedores, cuja gravidez dura apenas 16 dias e o máximo é o da fêmea do elefante, que leva 645 dias.

Os objetivos da ginecologia e da obstetrícia, especialidades médicas que cuidam da mulher grávida e da parturiente desde o início da gestação até o parto, abrangem aspectos clínicos e sanitários que vão desde os exercícios físicos adequados às técnicas respiratórias que visam facilitar o parto.

FecundaçãoA união do óvulo, ou célula sexual feminina, com o espermatozoide, que é a célula sexual masculina, constitui a fecundação. O sêmen, líquido que contém uma concentração de espermatozoides, deposita-se no fundo da vagina, ao redor do colo uterino. As células masculinas passam através da cavidade do útero, chegam à trompa de Falópio e alcançam o óvulo na parte mais afastada do corpo uterino. O primeiro espermatozoide que penetra no óvulo desencadeia uma reação que impede a entrada de outros. Ao se unirem, óvulo e espermatozoide fundem seus cromossomos (estruturas situadas no núcleo celular que contêm os genes, ou unidades genéticas transmissoras da herança). De tal fusão surge o ovo ou zigoto. Assim, no momento mesmo da fecundação, são determinados o sexo e as características particulares do indivíduo.

Depois da fusão, o zigoto se divide rapidamente e avança em direção à cavidade uterina, em cuja camada interna (endométrio), se implanta, caso esta se encontre preparada para recebê-lo. Na zona de implantação desenvolve-se mais tarde a placenta, órgão de estrutura muito complexa, por meio do qual o feto se nutre, respira e elimina secreções. Quando a implantação e o desenvolvimento do ovo se realizam fora do endométrio, sobrevém a gravidez ectópica (fora da localização normal), cuja forma mais comum é a gravidez tubária, que ocorre numa proporção de um para 250 ou 300 casos e é mais comum na raça negra. Nesses casos, o zigoto não chega ao útero e se implanta na trompa de Falópio. Entre 6 e 18 semanas após a cessação da menstruação, a placenta se solta da parede da trompa e o feto é expulso inteiro ou em fragmentos, com hemorragia. Há também casos de gravidez ovariana ou abdominal.

Em geral, somente um espermatozoide fecunda o óvulo. Pode dar-se o caso, contudo, de ser o óvulo fecundado ao mesmo tempo por duas células masculinas diferentes. Nascem, dessa maneira, dois seres irmãos que podem não ser do mesmo sexo e assemelharem-se apenas ligeiramente. Tal relação é a dos gêmeos dizigóticos. Pode também ocorrer que de um ovo fecundado por um único espermatozoide se formem dois embriões, e nesse caso nascerão dois gêmeos idênticos em sexo, aparência e capacidade mental. São chamados gêmeos monozigóticos. Gêmeo, palavra que se refere ao número dois, é sinônimo de duplo; no entanto, deve-se ter em conta que os gêmeos podem ser três, quatro etc. e, em consequência, trigêmeos, quadrigêmeos e assim sucessivamente.

Desenvolvimento do embrião Até a 12ª semana de gestação, o produto da concepção chama-se embrião. A partir de então, passa a denominar-se feto. A duração da gravidez normal na espécie humana é de 38 a 42 semanas. Os bebês nascidos com menos de 27 semanas de gestação dificilmente sobrevivem; os que nascem com mais de trinta semanas em geral sobrevivem.

Ao longo da gestação, o feto passa por um extraordinário processo de desenvolvimento, não somente em peso e altura, mas também no que se refere a complexidade e organização. Com quatro semanas de desenvolvimento, o embrião mede apenas um centímetro e ainda não apresenta traços propriamente humanos. Flutua no chamado líquido amniótico, que o protege. Com oito semanas, o embrião mede cerca de quatro centímetros e pesa mais ou menos quatro gramas. Nessa fase, a aparência humana já está definida, mas a cabeça é do mesmo tamanho do resto do corpo e está flexionada sobre o tórax. Os braços e pernas já se acham diferenciados, o que ainda não ocorre com os órgãos genitais.

Com 12 semanas, a placenta está perfeitamente constituída e se percebe o incipiente cordão umbilical. O feto tem a pele avermelhada e transparente, as pálpebras coladas e apresenta dedos nas mãos e nos pés, ainda sem unhas. Com 16 semanas, a diferenciação dos órgãos genitais é suficiente para permitir diagnosticar o sexo. Observa-se, além disso, uma penugem fina por toda a pele, chamada lanugo, e distinguem-se os pavilhões auditivos. Nesse grau de evolução, percebem-se os primeiros movimentos fetais. Na quadragésima semana, o feto mede aproximadamente cinquenta centímetros de altura e pesa 3,5kg.

Sinais da gravidezÀ proporção que os dias transcorrem, a futura mãe começa a sentir pequenas perturbações e mudanças no corpo. Uma das mudanças iniciais e mais sintomáticas é o desaparecimento da menstruação. Quando a mulher apresenta atraso no aparecimento das regras, há sempre a possibilidade de gravidez. Em algumas ocasiões, entretanto, durante a gestação se produzem pequenas perdas de sangue. Há estados patológicos que podem provocar também suspensão das regras, como tuberculose, anomalias da tireoide etc.

A mulher, sobretudo na primeira gravidez, pode apresentar vômitos e náuseas. Tais sensações aparecem, em geral, duas semanas depois da concepção e podem agravar-se durante o primeiro mês, para depois diminuírem progressivamente e desaparecerem no terceiro mês. Quanto às alterações emocionais e psíquicas, é comum que a futura mãe se torne mais emotiva, com sinais de irritabilidade e mesmo depressão. Em outros casos, pode demonstrar uma alegria suave e uma permanente sensação de felicidade.

Durante a gestação ocorrem também algumas modificações morfológicas: as mamas tornam-se maiores e mais pesadas, pois aumenta a provisão de sangue, e os vasos sanguíneos tornam-se visíveis através da pele. A aréola (zona da mama que circunda o mamilo e apresenta coloração mais escura) pigmenta-se fortemente e o mamilo torna-se mais resistente e desenvolvido. Em torno dele crescem grânulos elevados, chamados tubérculos de Montgomery, que atuam como glândulas mamárias acessórias. Durante a gravidez, costuma-se observar também a secreção de uma pequena quantidade de líquido opalescente, o colostro. Trata-se de um líquido produzido no final da gravidez e começo da lactação, rico em aminoácidos, proteína essencial ao crescimento, que contém ainda anticorpos que asseguram imunidade contra algumas infecções. Dentro de quatro a cinco dias o colostro transforma-se em leite de transição. O leite maduro começa a fluir cerca de dez dias após o parto.

Desde o começo da gravidez, pode acentuar-se a pigmentação na linha reta que se estende do umbigo até a parte inferior do abdome, no rosto, nas mãos e em outras partes do corpo. Esse fenômeno é temporário e desaparece espontaneamente depois do parto. Em alguns casos, observa-se a aparição de estrias, linhas rosadas que surgem quando o ventre está muito distendido e que tendem a tornar-se brancas após o parto. No terceiro ou quarto mês de gravidez, o aumento de volume do abdome torna-se notável, embora não constitua por si só sinal seguro de gravidez, pois uma formação tumoral, por exemplo, pode produzir sintomas semelhantes. Os movimentos fetais passam a ser percebidos a partir da 16ª semana de gestação.

Higiene da gestanteRecomenda-se, em geral, que a mulher grávida não modifique de modo essencial sua rotina de vida. As mulheres que trabalham devem dar a conhecer ao médico as características das tarefas que desempenham, para que seja detectada alguma eventual ameaça para a gravidez. Como durante a gestação faz-se necessário maior repouso, a legislação trabalhista de diversos países dispõe a obrigatoriedade de conceder à gestante períodos de descanso antes e depois do parto, que podem ser aumentados se o médico julgar conveniente. Os diferentes códigos costumam estabelecer, em média, períodos de seis semanas antes e seis depois do parto. Na legislação brasileira, são concedidos 120 dias -- trinta antes do parto e noventa depois.

Em relação ao vestuário, recomenda-se que a mulher grávida não use roupas ou acessórios apertados, como cintos, ligas etc. O exercício moderado é recomendável. São aconselháveis passeios tranquilos duas vezes ao dia em terreno plano, benéficos para a circulação e a respiração da gestante. As desportistas podem continuar a praticar exercícios suaves. As viagens não são contra-indicadas, a não ser que exista antecedente de abortamento. A gestante necessita, também, de oito horas de sono à noite e uma hora suplementar depois do almoço.

Muitas gestantes perdem o interesse pelas relações sexuais durante o último trimestre de gravidez. Terminada a gestação, o interesse normal reaparece. Não há contra-indicação para as relações sexuais durante os oito primeiros meses, mas deve-se evitá-las um mês e meio antes e depois do parto. Se existem antecedentes de abortamento, devem ser evitadas as relações também durante o primeiro trimestre de gestação.

Os hábitos higiênicos da mulher grávida devem ser mantidos, da mesma forma que cuidados normais dispensados à pele, com especial atenção aos mamilos, para evitar a formação de rachaduras, e ao abdome, a fim de prevenir o aparecimento de estrias. Os hábitos de ingerir bebidas alcoólicas e de fumar devem ser evitados, pois o fumo é agente causal de partos prematuros e o número de cigarros consumidos por dia está em relação direta com a diminuição do peso fetal. O álcool, por sua vez, passa diretamente ao feto pelo fluxo sanguíneo e pode prejudicar seu desenvolvimento.

Os dentes devem ser especialmente cuidados, para prevenir o desenvolvimento da cárie dentária, enfermidade de origem mista -- intervêm fatores microbiológicos e carenciais, como a deficiência de flúor -- de elevada incidência em gestantes.

Dieta durante a gravidez O aumento ideal de peso nos nove meses de gravidez oscila em torno de dez quilos. É preciso recorrer a um regime dietético nos casos de obesidade ou de tendência a engordar. Bastam de 2.500 a 2.800 calorias diárias, repartidas em proteínas (1,25g por quilo de peso por dia), gorduras (1,1g por quilo de peso por dia) e carboidratos. Esses totais devem ser aumentados quando a gestante realiza trabalho muito ativo.

As necessidades vitamínicas são satisfeitas em geral com uma alimentação correta, mas pode-se recorrer também à administração suplementar de vitaminas, fundamentalmente A, B, C e D, e de minerais, sobretudo cálcio, ferro e fósforo.

Parto e puerpérioNo ser humano, o parto é prematuro quando sobrevém entre a 27ª e a 37ª semana  de gestação; a termo, se ocorre entre a 38ª e a 42ª semanas; e atrasado, quando se processa depois desse prazo.

Do ponto de vista fisiológico, não se conhece de forma precisa como e por quê se desencadeia o fenômeno do parto. Parecem intervir para isso diversos fatores, de natureza hormonal, psicológica, fetal, uterina etc. O parto espontâneo ou normal se processa em três etapas: dilatação, expulsão e secundamento ou dequitação.

Os primeiros sintomas consistem em nervosismo, insônia e pequenos incômodos abdominais que sucedem a incipientes contrações uterinas, chamadas de Braxton-Hicks, em geral indolores. O início da dilatação do colo uterino é reconhecido pela perda do tampão mucoso, secreção gelatinosa expelida pela vagina. A dilatação é completa quando chega a dez centímetros. Nesse momento, tem lugar a ruptura da bolsa d'água, com a saída do líquido amniótico. Produzem-se contrações dolorosas, cada vez mais intensas, frequentes e de maior duração. No período de expulsão, as contrações são mais intensas e repetidas, de modo que a parturiente sente vontade imperiosa de empurrar. Pouco a pouco, o feto desce até sair para o exterior (em 96% dos casos, a cabeça é a primeira parte que aparece). Depois disso, começa o trabalho de secundamento ou dequitação, cujo final é a expulsão da placenta.

Denomina-se puerpério o período de restabelecimento que se segue ao parto, durante o qual o aparelho reprodutor da mulher retorna a seu estado normal. Dura normalmente de seis a oito semanas e termina com a primeira ovulação, seguida da primeira menstruação pós-parto. As mudanças próprias do período puerperal têm início logo após o parto, induzidas pela queda brusca nos níveis de estrogênio e progesterona produzidos pela placenta durante a gravidez. O útero retoma o tamanho normal e a posição pré-parto em aproximadamente seis semanas, ao fim do processo chamado involução, em que o excesso de massa muscular uterina desaparece e o endométrio se reconstitui. Tem início a lactação.

Os principais problemas clínicos associados ao puerpério são a depressão, decorrente da instabilidade emocional e desconforto próprios das mudanças do período pós-parto; hemorragias, provocadas por placenta retida; e febre puerperal, a principal causa de óbitos de parturientes até o século XIX. A adoção de medidas profiláticas adequadas, especialmente a melhora das condições sanitárias, e o uso de antibióticos reduziram drasticamente a mortalidade causada por febre puerperal.

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