Bramanismo e a Formação Religiosa da Índia

Bramanismo e a Formação Religiosa da Índia

Bramanismo e a Formação Religiosa da ÍndiaDá-se o nome de bramanismo à fase mais remota da religião hindu, que se estende de meados do segundo milênio a.C. até inícios da era cristã, quando essa religião foi substituída pelo hinduísmo. O nome bramanismo relaciona-se a Brama ou Brahma, forma masculina que designa o deus criador, parte da trindade completada por Vishnu e Shiva; à palavra neutra brahman, realidade última do universo, que corresponde, grosso modo, a absoluto; e à classe sacerdotal dos brâmanes, em torno da qual se constitui essa tradição.

Visceralmente integrado à existência da Índia, o bramanismo engloba não só uma tradição de doutrinas e práticas religiosas, mas também uma série de regras para o comportamento social, orientadas pela divisão da sociedade em castas.
Textos védicos

Textos védicos

A tradição bramânica está compilada em uma série de textos denominados Vedas (conhecimentos) ou Sruti (revelação), preservados por transmissão oral e considerados de origem divina. A parte mais antiga dessa tradição, que demorou a ser codificada por escrito, compreende o Samhita, ou coleção de hinos, dividido em quatro repositórios: o Rig Veda ou Veda das estrofes, o Yajur Veda ou Veda das fórmulas, o Sama Veda ou Veda das melodias e o Atharva Veda, que se distingue dos três outros por lhe ter sido dado o nome do rishi ou vidente que o revelou, Atharvan Angirasa.

Mais recentes são os Brahmanas (séculos X-VII a.C.), textos de conteúdo litúrgico, e os Upanishads, de caráter filosófico. Os Brahmanas, ou "interpretações sobre o brahman", são comentários em prosa ao Samhita. Explicam os ritos ou as fórmulas e contêm tradições mitológicas. Constituem seu complemento pequenos textos denominados Aranyaka (tratados da floresta), que deviam ser recitados longe das multidões.

A parte menos remota do código védico é formada pelos Upanishads (tratados profundos e secretos). Teoricamente são em número de 108, número sagrado para os indianos, mas na verdade há apenas 12 Upanishads védicos, compostos provavelmente entre os séculos X e V a.C., e uma infinidade de Upanishads pós-védicos, cuja redação se estende praticamente até nossa época.

Formação religiosa da Índia

Formação religiosa da Índia

A religião védica foi levada pelos invasores arianos ou indo-europeus que irromperam no noroeste da Índia entre 2000 e 1500 a.C., destruindo os remanescentes das velhas culturas urbanas da bacia do Indo. Certos elementos da religião védica são idênticos aos da religião iraniana antiga, bem como aos da religião do reino indo-europeu de Mitanni, estabelecido na mesma época na Ásia ocidental.

A religião védica consiste principalmente numa mitologia muito elaborada. Os deuses descritos no Rig Veda intervêm a todo instante nas atividades humanas. São favoráveis às pessoas quando invocados e cumulados de presentes; caso contrário, podem ser-lhes hostis.

A tradição bramânica abrange 33 deuses, divididos em divindades terrestres, atmosféricas e celestes. Suas funções são tríplices, correspondentes a uma tríplice divisão da sociedade. Existem deuses soberanos, associados à casta sacerdotal, deuses guerreiros e deuses patronos de atividades humanas, como a agricultura, a criação, o artesanato.

Deuses, demônios e ascetas

Deuses, demônios e ascetas

Dyaus Pitar, o deus-pai, que equivale ao Júpiter romano, é um "deus ocioso", de papel insignificante. Mais importante é Varuna, deus soberano, que mantém as leis cósmicas e morais, castigando seus infratores. A ele é associado Mitra, deus dos contratos e da justiça.

Entre os deuses guerreiros, a figura dominante é Indra, que chefiou os invasores arianos em sua marcha de conquista pela Índia. Entre os aliados de Indra estão os Maruts, jovens que cavalgam as nuvens, produtores das chuvas e tempestades, também chamados "filhos de Rudra". Este último é uma divindade ambígua, de aspecto terrível mas adorada como benfazeja, conhecida também pelo nome de Shiva (Çiva, Xiva), com o qual se tornou uma das principais figuras do hinduísmo.

Existem divindades solares, como Surya, Savitar e Vishnu, este último transformado igualmente em importante divindade do hinduísmo. Outro grupo de deuses realiza-se em objetos concretos, visíveis ao homem. É o caso de Soma, personificação de um licor que exerce função nos rituais, e Agni, o Fogo, que leva para o alto, na fumaça e nas chamas, as oferendas que os sacerdotes dispensam nos sacrifícios aos deuses.

Além dos deuses, existe um exército de demônios, ou Asuras. Os rishis, videntes ou sábios ascetas da mais alta antiguidade, que teriam recebido a revelação védica, são vistos como entidades mais ou menos divinizadas.

O conceito de Dharma

O conceito de Dharma

É dos textos védicos que procede um conceito fundamental do bramanismo: o de uma ordem universal, o rita, que constitui a realidade, a verdadeira natureza das coisas, chamado Dharman ou Dharma, a lei, ao qual se opõe a desordem, anrita ou Adharma. Essa noção está ligada à verificação da periodicidade na natureza, marcada pelo advento regular da estação das chuvas e pelo retorno dos astros, em especial o Sol e a Lua, às mesmas posições respectivas.

O rita é, pois, a lei natural que rege o universo e também todos os aspectos da vida do homem. Este deve agir sobre o universo através da invocação das divindades, mas sempre de acordo com o calendário que indica a correspondência entre os atos rituais e a vida cósmica. Daí deriva a noção, constante em toda a história da especulação hindu, de um tempo cíclico sem começo nem fim.

O homem e sua vida são encarados em analogia com o universo, sendo seu corpo formado pelos mesmos elementos que a natureza: suas partes sólidas correspondem à terra; os líquidos orgânicos à água; o calor corporal ao fogo; a respiração ao vento.

O principal elemento do culto é o sacrifício, repetição ritual do ato cosmogônico dos deuses. Consiste numa cerimônia mais ou menos longa em cujo momento culminante as oferendas são lançadas ao fogo. Os pormenores de sua celebração constituem segredos guardados ciosamente pelos brâmanes. As oferendas consistem em grãos de arroz ou outro cereal, leite, manteiga ou pedaços de animais imolados. Parte das oferendas é lançada ao fogo e o restante é consumido pelos sacerdotes e pelo leigo que a eles recorreu para a celebração do ritual.

Karma, samsara e moksha

Karma, samsara e moksha

A doutrina específica dos Upanishads é a das correspondências e relações entre todas as coisas, imperceptíveis ao vulgo, mas conhecidas dos sábios. Essas relações podem referir-se a similitudes de estruturas, mas na maior parte dos casos são numéricas ou verbais. Todas as coisas de mesmo número têm uma essência comum, e os nomes de coisas semelhantes a palavras que exprimam ações são capazes de desenvolver nessas coisas a aptidão de  realizarem tais ações.

O purusha, ou homem cósmico, é considerado em relação com a ação ritual (yajna), e uma série de concordâncias são estabelecidas para reforçar essa noção de correspondência entre o microcosmo e o macrocosmo.

A semente de Prajapati (senhor das criaturas) é constituída pelos deuses (força da natureza). O produto dos deuses é a chuva, que por sua vez produz as plantas, que fornecem alimento, que produz a semente propriamente dita, que dá origem às criaturas. O produto da criatura humana, que opera de maneira semelhante a Prajapati, é o coração, considerado sede das funções psíquicas. O produto do coração é o espírito (Manas), que produz a palavra, originadora da ação (karma).

Essa ação faz com que o homem se descubra como sendo o próprio Brahman (Absoluto), que é o "senhor das criaturas", onde tudo se origina, e ao mesmo tempo habita no seio da individualidade psíquica. Assim, a filosofia dos Upanishads ensina o homem a buscar o Absoluto dentro de seu próprio coração, e a compreender a identidade básica entre o Brahman e sua alma individual (atman). Essa identidade é expressa na famosa fórmula tat tvam asi (tu és aquilo).

A ação ou karma depende do espírito e da palavra e confere a cada indivíduo seu destino, que, se não for realizado na existência presente, se realizará numa vida futura. A dissolução do corpo não acarreta a dissolução do espírito que, marcado pelas ações praticadas durante a vida que findou, experimentará existências futuras, em que viverá as conseqüências boas ou más dessas ações.

Esse processo de vidas sucessivas (samsara) prosseguirá indefinidamente, a menos que a individualidade consiga a libertação (moksha) do domínio dos atos, tomando consciência de sua identidade original com o absoluto. A origem dessa doutrina de transmigração ou reencarnação é obscura, mas talvez seja uma influência de cultos primitivos de natureza totêmica e da Índia pré-ariana.

Uma noção introduzida pelos Upanishads é a do despertar (bodhi) ou tomada de consciência da verdadeira natureza de si mesmo, que é o conhecimento (jnana) por excelência. Ensinam-se técnicas psicofísicas de meditação e contemplação para se chegar a esse conhecimento (Yoga), bem como a meditação sobre a sílaba sagrada om ou aum, símbolo do Absoluto, que tem grande importância no hinduísmo. Muitas vezes o Absoluto é expresso de maneira negativa, neti neti (não é isso, não é isso), para indicar a impossibilidade de defini-lo através do intelecto e da linguagem conceitual.

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