A Moratória | Jorge Andrade


A Moratória | Jorge Andrade

A Moratória | Jorge Andrade
" Elvira
Vamos atravessar uma grande crise.

Joaquim ( primeiro plano )
Lucília!

Helena ( segundo plano )
Crise?

Elvira ( segundo plano )
O café caiu a zero.

Joaquim ( primeiro plano )
Lucília!

Helena ( segundo plano ) ( aturdida )
Caiu?

Elvira ( segundo plano )
Os lavradores foram abandonados pelo Governo.

Lucília ( primeiro plano ) ( entrando )
Que foi, papai?

Helena ( segundo plano )
Não é possível

Joaquim ( primeiro plano )
Minha filha! ( Joaquim fica olhando para Lucília sem poder falar )

Elvira ( segundo plano )
O Governo não pôde sustentar a política de defesa do café e...

Lucília ( primeiro plano ) ( preocupada )
Que está acontecendo, papai?

Helena ( segundo plano )
Diga, Elvira!

Joaquim ( primeiro plano )
Não disse que íamos voltar para a fazenda?

Elvira ( segundo plano )
...e os preços caíram vertiginosamente. Vamos todos à ruína.

Lucília ( primeiro plano )
Já pedi tanto ao senhor que não fale mais nisto!

Helena ( segundo plano )
Meu Deus! Que será de nós!

Joaquim ( primeiro plano )
Moratória! Moratória, minha filha!

Lucília ( primeiro plano )
O que é isto?

Elvira ( segundo plano )
É preciso ânimo, Helena!

Joaquim ( primeiro plano )
Prazo! Prazo de dez anos aos lavradores.

Lucília ( primeiro plano )
Dez anos?!

Helena ( segundo plano ) ( procurando à sua volta )
É preciso... É preciso...

Elvira ( segundo plano )
Já pedi ao Augusto para...

Joaquim ( primeiro plano )
Não disse, minha filha...

Elvira ( segundo plano )
... para não protestar nada.

Joaquim ( primeiro plano )
... que tivessem esperança?"


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A Morte de Virgílio | Herman Broch

A Morte de Virgílio | Herman Broch

A Morte de Virgílio | Herman Broch"– De muitas passagens do poema ainda não foram feitas cópias... 

Devo resguardar o poema e devo resguardar a ti daquelas medidas precipitadas que tens em mente. Bem pode ser que, por meio de teu comentário, consigas convencer a mim, a nós todos do acerto de teus propósitos, mas também nesse caso vale o provérbio:

 "Quem corre cansa, quem anda alcança." Primeiramente queremos ouvir teu comentário. Se achares que não tens suficiente força de vontade para dar-me a promessa que te pedi, disponho-me com o maior prazer a tomar a mala em seguríssima custódia, a fim de que a encontres na hora da tua chegada.

– Octaviano... não posso entregar o manuscrito!

– Realmente me dói, meu Virgílio, ver-te tão perturbado, e todavia posso afiançar-te que somente se trata de uma idéia fixa da tua parte.

Não há nenhum motivo para tamanha consternação, e não há nenhum que te deva induzir a destruir tua obra...A essa altura, o César se avizinhara da cama, e sua exortação era branda.
– Ó Octaviano... estou morrendo, e nada sei da morte.

De muito longe falava Plócia: – Para o solitário, a morte fica inacessível; o conhecimento da morte provém da união de dois seres.

A mão do Augusto estendia-se e agarrava a do poeta:

– Pensamentos sombrios e desnecessários, meu Virgílio.

– Eles não se deixam afugentar, e não tenho o direito de afugentá-los.

– Tens ainda bastante tempo à sua frente, para fazer com que teu conhecimento da morte aumente com a ajuda dos deuses...Muita coisa oscilava ao redor deles, muita coisa se confundia; a mão do Augusto mantinha seus cinco dedos na do poeta. Um eu inclinava-se sobre outro eu, e no entanto a mão não era de Plócia. Antes da morte não há nem muito nem pouco tempo, mas o derradeiro momento, para trazer a percepção, deveria ter maior duração que toda a vida precedente, e Plócia disse:

– Sem tempo é nossa união, sem tempo nosso saber.

– O poema...

– Pois então, meu virgílio... – Era ainda a mesma exortação branda.

– O poema... Preciso chegar ao saber... O poema me encobre o saber, me barra o caminho.

O Augusto retirou a mão. Sua fisionomia tornou-se dura:

– Isso não tem importância."

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A Natureza das Coisas | Lucrécio

A Natureza das Coisas | Lucrécio

A Natureza das Coisas | Lucrécio"Ó mãe dos Enéadas, prazer dos homens e dos deuses, ó Vênus criadora, que por sob os astros errantes povoas o navegado mar e as terras férteis em searas, por teu intermédio se concebe todo o gênero de seres vivos e, nascendo, contempla a luz do sol: por isso de ti fogem os ventos, ó deusa; de ti, mal tu chegas, se afastam as nuvens do céu; e a ti oferece a terra diligente as suaves flores, para ti sorriem os plainos do mar e o céu em paz resplandece inundado de luz. 

Apenas reaparece o aspecto primaveril dos dias e o sopro criador do Favônio, já livre ganha forças, primeiro te celebram e à tua vinda, ó deusa, as aves do ar, pela tua força abaladas no mais íntimo do peito; depois, os animais bravios e os rebanhos saltam pelos ledos pastos e atravessam a nado as rápidas correntes: todos, possessos do teu encanto e desejo, te seguem, aonde tu os queiras levar. Finalmente, pelos mares e pelos montes e pelos rios impetuosos, e pelos frondosos lares das aves, e pelos campos virentes, a todos incutindo no peito o brando amor, tu consegues que desejem propagar-se no tempo, por meio da geração. Visto que sozinha vais governando a Natureza e que, sem ti, nada surge nas divinas margens da luz e nada se faz de amável e alegre, eu te procuro, ó deusa, para que me ajudes a escrever o poema que, sobre a natureza das coisas, tento compor para o nosso Mêmio, a quem tu, ó deusa, sempre quiseste conceder todas as qualidades, para que excedesse aos outros. 

Dá pois a meus versos, ó Vênus divina, teu perpétuo encanto."

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As Noites das Grandes Fogueiras | Domingos Meirelles

As Noites das Grandes Fogueiras | Domingos Meirelles

As Noites das Grandes fogueiras | Domingos Meirelles
"A situação do grosso das tropas rebeldes, no Paraná, reclama não só reforços urgentes como também uma mudança drástica de estratégia. Os rebeldes não podem mais se dar o luxo de permanecer entrincheirados há vários meses, como se encontram, gastando munição e consumindo suas escassas energias num tipo de combate que só interessa ao Governo. Ao aceitar a clássica "guerra de posição" imposta pelo Exército, eles praticamente decidiram seu destino no campo militar: a derrota é uma questão de tempo. Acuados entre a Argentina e o Paraguai, sem linhas de abastecimento, com a munição minguando, sem ter como receber reforços, a resistência das forças revolucionárias está a cada dia mais vizinha do colapso. 

Na visão de Prestes, a tática tem que ser outra: os rebeldes devem se libertar da tradicional guerra de trincheiras, adotada durante a Primeira Guerra Mundial, para estabelecer outra forma de confronto com o inimigo. Não poderiam jamais ter aceitado a chamada "guerra de posição", que só beneficia o adversário. Os ensinamentos dessa tática, que se difundira em todo o mundo após a Grande Guerra, começaram a ser repassados aos oficiais brasileiros a partir de 1920, com a chegada da Missão Militar Francesa chefiada pelo general Maurice Gustave Gamelin. O objetivo da Missão era reestruturar e modernizar o Exército, com a introdução de novas técnicas e conhecimentos, promover a renovação do armamento e reformular o ensino militar, para dotá-lo de caráter mais profissional."

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A Obra de Arte em Sua Época de Reprodutibilidade | Walter Benjamin


A Obra de Arte em Sua Época de Reprodutibilidade | Walter Benjamin


A Obra de Arte em Sua Época de Reprodutibilidade | Walter Benjamin"Desde a pré-história, os homens são construtores. Muitas formas de arte nasceram e, em seguida, desapareceram. A tragédia surgiu com os gregos a fim de morrer com eles e apenas reaparecer longos séculos mais tarde, sob a forma de ‘regras’. O poema épico, que data da juventude dos povos atuais, desapareceu na Europa pelo fim da Renascença. O quadro nasceu na Idade Média e não há nada a garantir a sua duração infinita. Mas a necessidade que têm os homens de morar é permanente. 

A arquitetura nunca parou. A sua história é mais longa do que a de qualquer outra arte e não se deve perder de vista o seu modo de ação, quando se deseja tomar conhecimento da relação que liga as massas à obra de arte. Existem duas maneiras de acolher um edifício: pode-se utilizá-lo e pode-se fitá-lo. Em termos mais precisos, a acolhida pode ser tátil ou visual. Desconhece-se totalmente o sentido dessa acolhida, se não se toma em consideração, por exemplo, a atitude concentrada adotada pela maioria dos viajantes, quando visitam monumentos célebres. No âmbito tátil, nada existe, deveras, que corresponda ao que é a contemplação no âmbito visual. 

A acolhida tátil faz-se menos pela atenção do que pelo hábito. No tocante à arquitetura, é esse hábito que, em larga escala, determina igualmente a acolhida visual. Esta última, de saída, consiste muito menos num esforço de atenção do que numa tomada de consciência acessória. Porém, em certas circunstâncias, essa espécie de acolhida ganhou força de norma. As tarefas que, com efeito, se impõem aos órgãos receptivos do homem, na ocasião das grandes conjunturas da história, não se consumam de modo algum na esteira visual, em suma, pelo modo de contemplação. 

A fim de se chegar a termo, pouco a pouco, é preciso recorrer à acolhida tátil, ao hábito. Mas o homem que se diverte pode também assimilar hábitos; diga-se mais: é claro que ele não pode efetuar determinadas atribuições, num estado de distração, a não ser que elas se lhe tenham tornado habituais. Por essa espécie de divertimento, pelo qual ela tem o objetivo de nos instigar, a arte nos confirma tacitamente que o nosso modo de percepção está hoje apto a responder a novas tarefas. E como, não obstante, o indivíduo alimenta a tentação de recusar essas tarefas, a arte se entrega àquelas que são mais difíceis e importantes, desde que possa mobilizar as massas. É o que ela faz agora, graças ao cinema. Essa forma de acolhida pela seara da diversão, cada vez mais sensível nos dias de hoje, em todos os campos da arte, e que é também sintoma de modificações importantes quanto à maneira de percepção, encontrou, no cinema, o seu melhor terreno de experiência. Através do seu efeito de choque, o filme corresponde a essa forma de acolhida. Se ele deixa em segundo plano o valor de culto da arte, não é apenas porque transforma cada espectador em aficionado, mas porque a atitude desse aficionado não é produto de nenhum esforço de atenção. O público das salas obscuras é bem um examinador, porém um examinador que se distrai."

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A Origem da Família, da Propriedade e do Estado | Friedrich Engels

A Origem da Família, da Propriedade e do Estado | Friedrich Engels

A Origem da Família, da Propriedade e do Estado | Friedrich Engels"Uma das idéias mais absurdas que nos transmitiu a filosofia do século XVIII é a de que na origem da sociedade a mulher foi escrava do homem. Entre todos os selvagens e em todas as tribos que se encontram nas fases inferior, média e até (em parte) superior da barbárie, a mulher não só é livre como, também, muito considerada. (...) A economia doméstica comunista, em que a maioria das mulheres, se não a totalidade, é de uma mesma gens, ao passo que os homens pertencem a outras gens diferentes, é a base efetiva daquela preponderância das mulheres que, nos tempos primitivos, se achava difundida por toda a parte — fenômeno cuja descoberta constitui o terceiro mérito de Bachofen. Posso acrescentar que os relatos dos viajantes e dos missionários acerca do trabalho excessivo com que se sobrecarregam as mulheres entre os selvagens e os bárbaros não estão, de modo algum, em contradição com o que acabo de dizer. 

A divisão do trabalho entre os dois sexos depende de outras causas que nada têm a ver com a posição da mulher na sociedade. Povos nos quais as mulheres se vêem obrigadas a trabalhar muito mais do que lhes caberia, segundo a nossa maneira de ver, têm freqüentemente muito mais consideração real por elas que os nossos europeus. A senhora civilizada, cercada de aparentes homenagens, estranha a todo o trabalho efetivo, tem uma posição social bem inferior à da mulher bárbara, que trabalha duramente, e, no seio do seu povo, se vê respeitada como uma verdadeira dama ( lady, frowa, frau = senhora) e o é de fato por sua própria posição."

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A República | Platão

A República | Platão

A República | Platão"Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe, numa eminência, por detrás deles; entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, no genero dos tapumes que os homens dos "robertos" colocam diante do público, para mostrarem as suas habilidades por cima deles.

– Estou a ver – disse ele.

– Visiona também ao longo deste muro, homens que transportam toda a espécie de objetos, que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de toda a espécie de lavor; como é natural, dos que os transportam, uns falam, outros seguem calados.

– Estranho quadro e estranhos prisioneiros são esses de que tu falas – observou ele.

– Semelhantes a nós – continuei –. Em primeiro lugar, pensas que, nestas condições, eles tenham visto, de si mesmo e dos outros, algo mais que as sombras projectadas pelo fogo na parede oposta da caverna?

– Como não – respondeu ele –, se são forçados a manter a cabeça imóvel toda a vida?

– E os objetos transportados? Não se passa o mesmo com eles?

– Sem dúvida.

– Então, se eles fossem capazes de conversar uns com os outros, não te parece que eles julgariam estar a nomear objetos reais, quando designavam o que viam?

– É forçoso.

– E se a prisão tivesse também um eco na parede do fundo? Quando algum dos transeuntes falasse, não te parece que eles não julgariam outra coisa, senão que era a voz da sombra que passava?

– Por Zeus, que sim!

– De qualquer modo – afirmei – pessoas nessas condições não pensavam que a realidade fosse senão a sombra dos objetos."

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A Teus Pés | Ana Cristina César

A Teus Pés | Ana Cristina César

A Teus Pés | Ana Cristina César“Enquanto leio meus seios estão a descoberto. É difícil concentrar-me ao ver seus bicos. Então rabisco as folhas deste álbum. Poética quebrada pelo meio.”
(...)
“Enquanto leio meus textos se fazem descobertos. É difícil escondê-los no meio dessas letras. Então me nutro das tetas dos poetas pensados no meu seio.”
(...)
“POESIA

jardins inabitados pensamentos
pretensas palavras em
pedaços
jardins ausenta-se
a lua figura de
uma falta contemplada
jardins extremos dessa ausência
de jardins anteriores que
recuam
ausência freqüentada sem mistério
céu que recua
sem pergunta


FLORES DO MAIS

devagar escreva
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais”
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