Madame Pommery | Hilário Tácito

Madame Pommery | Hilário Tácito

Madame Pommery | Hilário TácitoCrônica de mudanças urbanas e sociais. Foi com o pseudônimo de Hilário Tácito que o engenheiro civil José Maria de Toledo Malta publicou, pela editora de Monteiro Lobato, em 1919, seu único romance, Madame Pomerry. Ao longo do tempo, o volume foi sendo esquecido, ressurgindo através de um trabalho de preservação da memória pré-modernista, desenvolvido pelo setor de filologia da Fundação Casa de Rui Barbosa. Madame Pommery é uma espécie de crônica de costumes, que tem como cenário a cidade de São Paulo do começo do século. Hilário preocupou-se em focalizar as rápidas transformações ocorridas no meio urbano, contemplando-as paralelamente à vida que se escoava divertida em um bordel, o Paradis Retrouvé em que os consumidores passam da "cervejada à champanha francesa", em alusão às transformações ocorridas. O fio da meada é a história da prostituta polaca Madame Pommery, esperta, matreira, dotada de especial tino para "negócios" e as relações da cafetina com os círculos mais abastados da sociedade paulistana, que culminam com o enriquecimento e com o casamento de Madame Pommery e a conseqüente entrada para uma vida mais sóbria na sociedade. Em comentários paralelos, o narrador, em terceira pessoa, não omite o que lhe vai à cabeça, bem como tem por hábito explicar os processos que fazem parte da composição da obra, além de tecer considerações a respeito de suas observações. Aspectos Relevantes Como toda obra pré-modernista que se preze, a análise dos tipos sociais urbanos, a crítica ágil da hipócrita sociedade burguesa, numa denúncia da existência de dois Brasis, múltiplos em suas riquezas e composições é sempre o cerne de toda a narrativa. O discurso ágil e os galicismos são típicos ao traçar a coloquialidade da fala na escrita.


O Brasil nunca pareceu um país muito sério. Na melhor hipótese, é visto como a terra da preguiça, da festa, da praia e do futebol. Na versão mais trágica, é o paraíso da impunidade, da corrupção, da violência e da miséria. E, se o país não é sério, o que nos resta senão rir dos absurdos nacionais?

O humor, a sátira, a ironia sempre ajudaram a avaliar os defeitos do Brasil e dos brasileiros. Prova disso é a incrível capacidade de o povo transformar os acontecimentos nacionais em piadas. A mesma comicidade se manifesta em certa tradição de nossa literatura, que critica de modo zombeteiro as incongruências do país.

É o caso de Madame Pommery que, antecipando a iconoclastia dos modernistas de 1922, cria a metáfora do Brasil como um bordel de segunda categoria. Pommery é uma prostituta que desde cedo se revela sagaz e ladina. Nascida na Europa, chega ao Brasil no início do século 20. Logo percebe que nestas terras tropicais o dinheiro tudo compra: mesmo uma mulher "mundana" pode se tornar uma dama da sociedade, desde que traga na bolsa a quantia adequada.

Percebe também que a aparente modernização de São Paulo apenas disfarçava o provincianismo e a falta de gosto. Os ares europeus da burguesia urbana não passavam de uma fantasia, postiça e pobre.

Pommery dedica-se, então, a uma missão "civilizatória". Por meio de empréstimos e trapaças, a anti-heroína inaugura o bordel Paraíso Reencontrado, na pretensão de oferecer aos paulistanos o requinte indispensável no "mundo moderno". Afinal, alguém teria de ensinar aqueles novos ricos a beber champanhe.

É claro que Pommery pensava em seus interesses também. A bebida cara, a aparência de luxo e as tentações da carne levariam os frequentadores do bordel a gastar o que tinham e o que não tinham. O enriquecimento certamente viria e, com ele, a necessária aceitação social. Um prostíbulo como instituição modernizadora e como forma de ascensão social, está aí em resumo a farsa criada e comentada pelo narrador Hilário Tácito.

Boa parte do humor da narrativa é resultado justamente das intervenções e digressões do narrador. Cínico, ele vê virtudes nos aspectos condenáveis da personagem, aceitando como manifestação de boa intenção o que não passa de interesse, vingança ou ambição. Seus comentários vão tecendo a crônica de São Paulo do início do século e sublinham continuamente o risível descompasso entre uma elite que se crê "plugada" no mundo, mas que está imersa na mediocridade. Gente que pensa estar em um salão de Paris, mas vive mesmo é na espelunca falsamente luxuosa de Mme. Pommery.


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