Uma Mulher Sem Igual | Nadine Gordimer

Uma Mulher Sem Igual | Nadine Gordimer

Uma Mulher Sem Igual | Nadine Gordimer
"As meninas estavam acostumadas a acobertar umas às outras, quando uma delas tinha algo melhor para fazer do que ficar no cinema. Ele ficou calado; então murmurou: "Venha". Saíram agachados. Foi uma longa caminhada. Hillela pensou que seria mais sensato tornar o ônibus. Ele falava cada vez menos e uma vez ou outra levava a mão à orelha, como se o hálito da menina o queimasse. Logo chegaram a um bairro negro e ele não precisou dizer o que não tinha coragem de confessar nem a si mesmo. Chegaram a uma casa pequena cuidadosamente pintada e com objetos curiosos – a caixa do correio, uma miniatura de moinho de vento, a campainha de bronze com entalhe imitando nó de pinho. As portas no corredor tinham pequenas placas: "Refúgio de Charlene", "Entrada proibida: pessoas adormecidas trabalhando". Num quarto com três camas bem arrumadas que Don compartilhava com os irmãos mais novos, ele preparou-se solenemente para tocar guitarra, enquanto Hillela, sentada numa das camas, lia na moldura iluminada o texto do poema que aprendera na escola primária: "...Se es capaz de falar com a multidão e conservar tua virtude. Ou caminhar com reis – sem perder o contato com o homem comum; Se nem inimigos nem amigos podem te ferir; Se todos os homens são importantes mas nenhum demais para tua atenção; Se és capaz de encher o minuto inescapável com 60 segundos de caminhada, Tua é a terra e tudo que há nela, E – o que é mais – serás um Homem, meu filho!" O quadro estava colocado de modo a ser visto por Don, deitado na sua cama. Ele pôs um pé sobre um caixote vazio de frutas, para apoiar a guitarra na perna. Hillela ficou surpresa e excitada com a perfeição com que ele tocava – uma excitação diferente da que sentia no parque."