Dois Perdidos em uma Noite Suja | Plínio Marcos

Dois Perdidos em uma Noite Suja | Plínio Marcos

Dois Perdidos em uma Noite Suja | Plínio Marcos" Tonho
Quem pensa que eu sou? Um estúpido da sua laia? Eu estudei. Estou aqui por pouco tempo. Logo arranjo um serviço legal.

Paco
Vai ser lixeiro?

Tonho
Não, sua besta. Vou ser funcionário público, ou outra droga qualquer. Mas vou. Eu estudei.


Paco
Bela merda. Estudar, pra carregar caixa.

Tonho
Só preciso é ganhar uma grana pra me ajeitar um pouco. Não posso me apresentar todo roto e com esse sapato.

Paco
Se eu tivesse estudado, nunca ia ficar assim jogado-fora.

Tonho
Fiquei assim, porque vim do interior. Não conhecia ninguém nessa terra, foi difícil me virar. Mas logo acerto tudo.

Paco
Acho difícil. Você é muito trouxa.

Tonho
Você é que pensa. Eu fiz até o ginásio. Sei escrever à máquina e tudo. Se eu tivesse boa roupa, você ia ver. Nem precisava tanto, bastava eu ter um sapato... assim como o seu. Sabe, às vezes eu penso que, se o seu sapato fosse meu, eu já tinha me livrado dessa vida. E é verdade. Eu só dependo do sapato. Como eu posso chegar em algum lugar com um pisante desses? Todo mundo a primeira coisa que faz é ficar olhando para o pé da gente. Outro dia, me apresentei pra fazer um teste num banco que precisava de um funcionário. Tinha um monte de gente querendo o lugar. Nós entramos na sala pra fazer o exame. O sujeito que parecia ser o chefe bateu os olhos em mim, me mediu de cima a baixo. Quando viu o meu sapato, deu uma risadinha, me invocou. Eu fiquei nervoso paca. Se não fosse isso, claro que eu seria aprovado. Mas, poxa, daquele jeito, encabulei e errei tudo. E era tudo coisa fácil que caiu no exame. Eu sabia responder àqueles problemas. Só que, por causa do meu sapato, eu me afobei e entrei bem. ( Pausa ) Que diz, Paco?

Paco
Digo que quando você começa a falar, você enche o saco."

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