Eros e Civilização | Herbert Marcuse

Eros e Civilização | Herbert Marcuse

Eros e Civilização | Herbert Marcuse"A noção de uma ordem instintiva não-repressiva deve ser primeiramente testada nos mais ‘desordenados’ de todos os instintos: os da sexualidade. A ordem não-repressiva só é possível se os instintos sexuais puderem, em virtude de sua própria dinâmica e sob condições existenciais e sociais mudadas, gerar relações eróticas duradouras entre os indivíduos maduros. Temos de indagar se os instintos sexuais, após a eliminação de toda a mais-repressão, são capazes de desenvolver uma ‘racionalidade libidinal’ que seja não só compatível, mas promova até o progresso para as formas superiores de liberdade civilizada. Essa possibilidade será aqui examinada de acordo com os próprios termos de Freud. Reiteramos a conclusão de Freud de que qualquer decréscimo autêntico nos controles sociais exercidos sobre os instintos sexuais inverteria, mesmo sob condições ótimas, a organização da sexualidade, fazendo-a regressar a estágios pré-civilizados. 

Tal regressão romperia através das fortificações centrais do princípio de desempenho; anularia a canalização da sexualidade para a reprodução monogâmica e o tabu sobre as perversões. Sob o domínio do princípio de desempenho, a catexe libidinal do corpo do indivíduo e as relações libidinais com os outros estão normalmente limitadas ao período de lazer e dirigidas para a preparação e execução do intercurso genital; só em casos excepcionais, e com um elevado grau de sublimação, às relações libidinais é consentido que penetrem na esfera do trabalho. Essas restrições, impostas pela necessidade de conservar uma vasta proporção de energia e tempo aos labores não-gratificantes, perpetuam a dessexualização do corpo, a fim de que o organismo seja o sujeito-objeto de desempenhos socialmente úteis. Inversamente, se o tempo e energia de trabalho forem reduzidos a um mínimo, sem correspondente manipulação do tempo livre, as bases de tais restrições serão abaladas. A libido libertar-se-á e extravasará dos limites institucionalizados em que é mantida pelo princípio de realidade."

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