História Secreta de Isabel | Marquês de Sade

História Secreta de Isabel | Marquês de Sade

História Secreta de Isabel | Marquês de Sade"Todos conhecem as quiméricas pretensões de Eduardo III ao trono de França: foram, no entanto, esses os únicos direitos que Henrique V reclamou para se apoderar dessa coroa; mas, por muito empreendedor que fosse esse príncipe, teria ousado fazer valer tais direitos sem o apoio da rainha que, para o encorajar, só podia oferecer-lhe a facção de Borgonha? Assim, todo o seu comportamento para com o único príncipe que podia levá-la a atingir esse fim é explicável pelo supremo desejo que ela tinha de o alcançar. Foi em 1415 que se desferiram os primeiros golpes: que ousadia, apesar de tudo, e que inconsequência! Pois quê! o filho de um usurpador, ainda mal seguro no trono de Inglaterra, atrevia-se a querer ocupar o de Carlos VI! Era preciso uma mulher como Isabel para conceber tal plano, e um homem tão ambicioso como Henrique para o executar. Mas quanto mais a justiça e a sabedoria opõem diques à ambição, mais esta terrível paixão se esforça por rompê-los. Henrique compreendeu, no entanto, que precisava de usar, neste caso, tanto de diplomacia como de coragem; consequentemente, não pediu senão a entrega imediata da maior parte da França. Isabel era a alma de todas essas deliberações secretas: dirigia-as, retificava-lhe as bases. Era ela quem ditava aos embaixadores de Henrique V qual a melhor maneira de dividir a França, ou antes, e aviltá-la, colocando-a em segundo lugar na reunião projetada; ao mesmo tempo, cobria de humilhação não só os filhos como seu infeliz esposo. Mas com que objetivo, podem perguntar-nos, assim agia a rainha? Vamos, mais uma vez, responder a essa objeção, embora já o tenhamos feito por várias vezes, principalmente através de uma conversa entre a rainha e d’Arundel, em que é a própria princesa a expor os seus motivos.

Dada a perpétua instabilidade da saúde de Carlos, poderia a rainha ter a veleidade de conservá-lo? A partir do momento em que esse príncipe expirasse, que passaria a ser, na corte, uma rainha-mãe completamente à mercê da esposa que escolheriam para seu filho? A ser relegada para segundo plano, esperaria ela alimentar as paixões que podiam satisfazer quando ocupava uma posição de primeiro plano? Ser-lhe-ia necessário renunciar a tudo, retirar-se, mesmo, da corte, sem mais se ocupar com o que lá se passasse, sem participar em coisa alguma, e observando, como simples espectadora, o que outrora encarava como rainha: porventura, perguntamos nós, poderia a mulher mais altiva e mais ambiciosa do seus século submeter-se a essa situação subalterna?"

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