Ideias para a Sociologia da Música | Theodor Adorno

Ideias para a Sociologia da Música | Theodor Adorno

Ideias para a Sociologia da Música | Theodor Adorno"A interpretação sociológica da música é possível com tanto maior adequação, quanto mais alta for a categoria da música. A interpretação torna-se duvidosa quando a música é simplória, regressiva, nula. É mais difícil determinar as razões do sucesso de um ‘hit’ comparado a outro, do que diferenciar, digamos, o apelo social das várias obras de Beethoven. Enquanto que as técnicas de pesquisa para fins administrativos, especialmente as elaboradas na América pela Radio Research, acertam em cheio a sua análise do mercado da música leve, monopolisticamente administrado, a banalidade ela mesma, em sua existência e eficácia social, continua sendo até hoje o maior mistério. O teórico vienense Erwin Retz levantou a questão de saber por que é que a música pode ser comum, isto é, de saber o que seja a banalidade, estética e socialmente. 

A resposta exige também a resposta à pergunta contrária: como pode a música transcender a circulação do meramente vigente, à qual, por outro lado, ela deve a possibilidade da própria existência? A bipartição rígida da música, em séria e leve, hoje institucionalizada e administrativamente utilizada, precisa ser socialmente interpretada em seus vários níveis. Corresponde à ruptura entre arte alta e baixa, estabelecida desde a Antiguidade, que testemunha nada menos do que o insucesso de toda a cultura até nossos dias. No final, a indústria da cultura de massas se apresta a administrar a música globalmente. Mesmo a música divergente só subsiste economicamente e assim socialmente através da proteção da indústria cultural, à qual se opõe — uma das contradições mais flagrantes da situação social da música. 

É verdade que a direção centralizada irá pôr a música baixa em dia com a técnica — como nos procedimentos mais refinados do jazz — à maneira do que se passa, aliás, com os aspectos mais bárbaros do cinema. Ao mesmo tempo, entretanto, a música é administrativamente nivelada ao tipo de produção de mercadorias que se justifica com a vontade dos consumidores, vontade naturalmente já manipulada e reproduzida, que converge com a tendência da administração. A música, como setor do lazer organizado, iguala-se àquilo de que, por seu sentido, deveria divergir: este é o seu prognóstico sociológico. A contradição consigo mesma, em que se emaranha, mostra que é ilusória a integração de produção, reprodução e consumo que se está esboçando. A unidade da cultura musical contemporânea, como parte da indústria cultural, é a auto-alienação completa. Tolera somente o que traga a sua chancela, a tal ponto que os consumidores nem o percebem mais. Alcançou-se a falsa conciliação. O que estaria perto, a ‘consciência das necessidades’, torna-se insuportavelmente estranho. E o mais alheio, entretanto, que não contém mais nada dos homens, é metido neles a força de repetição pela maquinaria, achegando-se ao seu corpo e ao seu espírito: é o que está indiscutivelmente mais próximo."

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