Olga | Fernando Morais

Olga | Fernando Morais

Olga | Fernando Morais"Foram quase sete horas de viagem sob uma temperatura que beirava zero grau. Na escuridão do amplo compartimento de presos, as únicas imagens que os olhos de Olga distinguiam eram vagos perfis de soldados, iluminados por brasas de cigarros ou por instantâneas chamas de fósforos que se acendiam alternadamente. Com as mãos estiradas ao lado das pernas e algemadas a argolas soldadas ao banco de metal do camburão, Olga passou a sentir fortes cãibras a partir da primeira meia hora de viagem, mas achou melhor não falar nada e resistir até a chegada. Pouco depois do meio-dia o veículo chegou a Berlim sob chuva forte e com a temperatura ainda mais baixa. As portas foram abertas e Olga percebeu onde estava: no prédio número 15 da Barnimstrasse, a temida prisão de mulheres da Gestapo, uma construção de mais de um século por onde havia passado, duas décadas antes, sua heroína Rosa Luxemburgo. Avisada pelo pressuroso Moniz de Aragão, a polícia secreta alemã havia preparado um verdadeiro comitê de recepção para a prisioneira: além do aparato enviado ao porto de Hamburgo, uma cabeleireira esperava-a na enfermaria da prisão, de tesoura na mão. Olga sentou-se numa cadeira, sempre algemada, e ouviu um oficial dizer:

— Vamos cortar seu cabelo para evitar a propagação de piolhos. Você sabe, isto é muito comum em judeus e comunistas."

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