Raposo Tavares

Raposo Tavares

Raposo TavaresEm 1654, o padre Antônio Vieira escreve a seu superior, o padre provincial do Brasil, para falar da grande bandeira comandada por Raposo Tavares entre 1648 e 1651

Na primeira carta disse a Vossa Reverendíssima a grande perseguição que padecem os índios, pela cobiça dos portugueses em os cativarem. Não tenho que dizer de novo senão que ainda continua a mesma cobiça e perseguição, a qual cresceu agora mais, e assoprou muito o seu fogo um grande número de homens moradores em São Paulo, que por este tempo se acharam no Pará pela ocasião que brevemente aqui direi, posto que seja matéria de larga narração. No ano de 1649 partiram os moradores de São Paulo ao sertão, em demanda de uma nação de índios chamados os serranos, distante daquela capitania muitas léguas pela terra dentro, com intento de, ou por força ou por vontade, os arrancarem de suas terras e os trazerem às de São Paulo e aí se servirem deles como costumam. Constava todo o arraial de duzentos portugueses e mais de mil índios de armas, divididos em duas tropas. A primeira governava o mestre de campo Antônio Raposo Tavares, que ia também por cabo de tudo, a segunda o capitão Antônio Pereira. Andados [...] meses de viagem, encontrou esta segunda tropa com uma aldeia de índios da doutrina dos padres da Companhia, pertencente à Província do Paraguai, e estando todos na igreja, e o padre dizendo-lhes a missa solene, por ser dia de Todos os Santos, segundo a relação dos que menos querem encobrir a fealdade do feito, entraram os soldados de mão armada na aldeia, e dentro da mesma igreja prenderam e meteram a ferro a todos os índios e índias que não puderam escapar, e nem os altares, vestiduras e vasos sagrados perdoava a cegueira e cobiça, porque de tudo despojaram a igreja. (...)

Se os reis não emendarem por si estas tiranias, não há que esperar que os autores delas tenham nunca emenda. E bem se viu na ocasião desta jornada, porque, sobre virem tão açoitados e castigados dela, a contrição que tiraram deste castigo foi embarcarem-se logo alguns que em São Paulo têm maior poder e mais (cabedal), para de lá tornarem ao sertão do Pará, e tirarem dele os índios tupinambás e outros da língua geral, de que aqui tiveram notícias, e se teme que já os terão levado. Estas são, padre provincial, as notícias que posso dar a Vossa Reverendíssima desta conquista do Maranhão de onde faço esta.

[Ass.] Antônio Vieira
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