Vicente do Rego Monteiro

Vicente do Rego Monteiro

Vicente do Rego MonteiroRespondendo a um inquérito entre artistas, organizado por Walmir Ayala, Vicente do Rego Monteiro alinhou, como influências que mais fundamente o marcaram. ‘o Futurismo, o Cubismo, a estampa japonesa, a arte negra, a Escola de Paris. nosso Barroco e sobretudo a arte do nosso ameríndio da ilha de Marajó". Nascido em Recife, em 1899, numa família de artistas. já em 1911 Vicente do Rego Monteiro estava em Paris (em companhia da irmã mais velha), cursando, por pouco tempo, a Academia Julian. Talento precoce, cri 1913 participou do Salão dos Independentes, na capital francesa. De volta ao Brasil em 1917, dois anos mais tarde realizou, em Recife, sua primeira mostra individual; em 1920 e 1921, apresentou-se no Rio de Janeiro, em São Paulo e Recife. Em São Paulo entrou em contato com os artistas e intelectuais que desencadeariam a Semana de Arte Moderna da qual participou com dez de pinturas: três retratos, duas O duas Lendas Brasileiras, Baile no e dois quadros intitulados Cubismo. Logo em seguida retornou a Paris, e integrou-se a tal ponto na vida artística e cultural da capital francesa que nos anos 20, era dos pintores estrangeiro mais conceituados na França, com assídua e notável participação em mostras duais e coletivas. Expondo na Galeria Fabre, em 1925, mereceu do critico Maurice Raynal as mais elogiosas referências: "Em vez de se dedicar comodamente caligrafia acadêmica, Rego Monteiro repudiou essa tradição latina, que sufoca geralmente os artistas do seu país, para ressuscitar a influência da tradição indígena, que devia ser a primeira a provocar e inspirar todo artista brasileiro". Em 1928, nova individual, na Galeria Bernheim, Jeune, também em Paris, motivou comentários favoráveis do grande pintor e teórico do Purismo. Amédée Ozenfant. No ano seguinte, o crítico Geo-Charles consagrou-lhe um ensaio dos mais elogiosos. Por essa época, 

Vicente integrou-se aos principais grupos de vanguarda artística parisiense, juntando-se a Ozenfant, Metzinger e Herbin no grupo L’Effort Moderne. Quadros de sua autoria eram adquiridos pelo Museu de Arte Moderna e pelo Museu do Jeu de Paume. de Paris, pelo Museu de Grenoble e pelo Palácio dos Congressos Internacionais, de Liège. Alternando praticamente toda a sua existência entre a França e o Brasil, Vicente só pouco antes de falecer desfrutou algum prestigio maior em sua terra natal, onde nunca chegou a receber a consideração que sua importância exigia. Por outro lado, nem sempre ele se manteve fiel à pintura, pois considerava-se pelo menos tão bom poeta quanto pintor. Foi o fundador da revista Renovação, em Recife, e de 1947 a 1956 manteve em Paris La Presse à Bras, editora que lançou várias plaquetas de poesia; com outros poetas, fundou o Mia de Poémes do Salâo de Maio (1948/52) e organizou o Primeiro Congresso Internacional de Poesia, realizado cm Paris em 1952. Como escritor, mereceu, em 1960,0 Prêmio Apollinaire, por seu Livro de poemas Broussais La Charité. 

Em 1957, fixou-se no Brasil. passando a lecionar sucessivamente na Escola de Belas-Artes de Recife, na de Brasília e de novo na de Recife. Em 1966 o Museu de Arte de São Paulo dedicou-lhe uma retrospectiva, o mesmo tendo feito, após sua morte, em 1970,0 Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. Muitas das melhores telas de Rego Monteiro perderam-se num incêndio, no fim da década de 20; anos mais tarde, o artista tentou reproduzi-Ias de memória ou lançando mão de esboços e desenhos preliminares; mas, evidentemente, as obras perderam muito em emoção e sentimento. Em seus melhores momentos, Vicente é pessoal, embora aparentado a outros artistas de seu tempo. Sua peculiaridade é a insistência com que abordou temas nacionais, o que o transforma em precursor de uma tendência artística latino-amencana. Seu mundo de idéias oscilava entre as figuras do panteão americano e a Bíblia, os clássicos e outros temas grandiloqüentes, que tornam sua arte grave e profunda. Mas ele sentiu também, como poucos, a sedução do movimento fascinado que era pela dança e pelo esporte — e, homem de seu tempo, em determinada fase da carreira viu-se empolgado pelo não figurativismo. Características de sua arte são a plasticidade, a sensação volumétrica que se desprende dos planos, a textura quase imaterial, de tão leve, o forte desenho, esquematizado. e a ciência da composição, que o torna um clássico, preocupado com a construção das formas. Vicente do Rego Monteiro foi também escultor, tendo deixado figuras em madeira, articuladas, num espírito afim com o do cubista Léger. Sua influência tendeu a crescer após sua morte: a ele, de certo modo, é que se referem muitos dos melhores artistas contemporâneos do Nordeste, inclusive João Câmara e Gilvan Samico.