Argélia, Aspectos Gerais da Argélia

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Argélia, Aspectos Geográficos e Socioeconômicos da Argélia

Argélia - Aspectos Geográficos e Sociais da ArgéliaGeografia: Área: 2.381.741 km². Hora local: +3h. Clima: árido subtropical, mediterrâneo (litoral). Capital: Argel. Cidades: Argel (1.800.000), Oran (755.852), Constantine (668.000) (2016).

População: 38 milhões (2016); nacionalidade: argelina; composição: árabes argelinos 83%, berberes 17%. Idiomas: árabe, berbere (oficiais), francês. Religião: islamismo 96,7%, sem religião 3%, cristianismo 0,3%.

Relações Exteriores: Organizações: Banco Mundial, FMI, ONU, Opep, UA. Embaixada: Tel. (61) 248-4039, fax (61) 248-4691 – Brasília (DF); e-mail: sanag277@bsb.terra.com.br.

Governo: República com forma mista de governo. Div. administrativa: 48 departamentos subdivididos em comunas. Partidos: Frente de Libertação Nacional (FLN), União Nacional Democrática (RND), Movimento da Sociedade pela Paz (MSP), Frente Islâmica de Salvação (FIS) (ilegal desde 1992). Legislativo: bicameral – Assembleia Nacional Popular, com 389 membros; Conselho da Nação, com 144 membros. Constituição: 1976.

Localizada no norte da África, a Argélia é a segunda maior nação do continente, atrás do Sudão. Colônia da França por 132 anos, conquista a independência em 1962, após quase dez anos de guerra. A partir de 1992 vive uma onda de violência por causa da oposição entre o regime militar e grupos fundamentalistas islâmicos, que querem implantar no país um Estado muçulmano. A guerra civil já fez mais de 100 mil vítimas. A paisagem argelina é dominada pelo deserto do Saara, que ocupa 85% do território. Nele há extração de petróleo e gás natural, responsável pela quase totalidade das exportações. Na reduzida e fértil faixa litorânea, vivem 90% dos argelinos. A população compõe-se de árabes e de uma importante minoria berbere. As condições de vida na Argélia, entre as melhores do continente, são prejudicadas pela guerra interna e pela queda internacional no preço do petróleo.

Bandeira da ArgéliaHistória da Argélia

Na Antiguidade, as planícies férteis do litoral, originalmente habitadas pelos berberes, são ocupadas ou incorporadas por diferentes povos e impérios: fenícios (segundo milênio a.C.), cartagineses (século IX a.C.) e romanos (século II a.C.). Na Idade Média, vândalos e bizantinos sucedem-se na região. Com a expansão do islamismo, passa ao domínio árabe (século VII) e, no século XVI, torna-se possessão otomana, período em que é fundado o reino de Argel. Em 1830, a França inicia a conquista do país. A dominação definitiva só se dá em 1857.

Independência – A luta pela independência começa depois da II Guerra Mundial com o levante popular de 1945, violentamente reprimido. Em 1954 se organiza a Frente de Libertação Nacional (FLN), que inicia a insurreição armada contra o domínio francês. Em março de 1962, a França reconhece a independência argelina, e mais de 1 milhão de colonos franceses (os pieds-noirs, pés pretos) voltam a seu país. O poder fica com a FLN, que se declara partido único e escolhe Ahmed Ben Bella para presidente, num regime de tipo socialista. Em 1965, Ben Bella é deposto por um golpe militar e o coronel Houari Boumedienne, também da FLN, assume o poder. Boumedienne nacionaliza empresas petrolíferas francesas, distribui terras dos ex-colonos e adota política externa pró-soviética. Com sua morte, em 1978, Chadli Bendjedid assume a Presidência e inicia a reaproximação com a França e com os Estados Unidos (EUA).

Argel - Capital da Argélia
Argel, capital da Argélia
Fundamentalismo – Nos anos 1980, a queda na cotação do petróleo leva o país a uma crise econômica. O governo corta gastos públicos, sobretudo nas áreas sociais. Em 1988, uma crise no abastecimento de água e produtos básicos provoca protestos da população e o questionamento da legitimidade da FLN. Diante de pressões e agitações, uma reforma constitucional, em 1989, põe fim ao regime de partido único, dando liberdade às pregações fundamentalistas da Frente de Libertação Islâmica (FIS), uma das principais organizações oposicionistas. A FIS vence as eleições locais, em 1990, e as legislativas, em 1991, nas quais conquista 188 cadeiras no Parlamento, contra 43 dos demais partidos. A vitória iminente da FIS no segundo turno da eleição presidencial leva o Exército a dar um golpe de Estado, em janeiro de 1992. Os militares forçam Bendjedid a renunciar e instalam no poder um Alto Conselho de Segurança (HCS), que indica Muhammad Boudiaf à Presidência.O golpe tem o apoio velado do Ocidente – em especial da França, o maior importador do gás argelino. A decretação da ilegalidade da FIS e a prisão de militantes levam a uma onda de atentados, atribuídos ao Grupo Islâmico Armado (GIA), que mantém relações com a FIS. O conflito chega ao auge em julho de 1992, com o assassinato de Boudiaf. Ele é substituído por Ali Kafi, que condena o líder da FIS, Abbasi Madani, a 12 anos de prisão. Em 1994 surge o Exército Islâmico de Salvação (AIS), braço armado da FIS. No mesmo ano, o HCS indica o ministro da Defesa, Liamine Zéroual, à Presidência. Conciliação Em 1995, Zéroual é eleito presidente, sob acusações de fraude. Nas eleições de 1997, a União Nacional Democrática (RND), que apóia o governo, obtém a maioria no Parlamento, que tem parte das cadeiras ocupadas pela FLN e por islâmicos moderados. No mesmo ano, Madani recebe liberdade condicional. A FIS anuncia então a ruptura com o GIA e defende uma solução pacífica para o conflito. O período é marcado pela ocorrência de sistemáticas chacinas contra a população civil, que a Anistia Internacional atribui tanto aos fundamentalistas quanto aos grupos paramilitares pró-governo. Em busca do diálogo com a oposição islâmica, Zéroual inicia, em 1998, a aplicação da lei que torna obrigatório o uso do árabe nas repartições públicas. A medida descontenta a minoria berbere .

Novo presidente – O ex-primeiro-ministro Abdelaziz Bouteflika, da FLN, vence as eleições presidenciais de 1999, apoiado pelo governo. Em setembro, Bouteflika obtém 98,6% dos votos, num plebiscito, a favor da proposta de "concórdia civil". Em janeiro de 2000, o AIS abandona a luta armada, mas a guerrilha islâmica continua, com o GIA. Também seguem atuando grupos paramilitares pró-governo.

Nas eleições para a Assembleia Nacional, em 2002, os partidos no governo – FLN e RND – obtêm 247 das 389 cadeiras (63%). Jacques Chirac torna-se, em 2003, o primeiro presidente francês a visitar o país desde a independência (1962). Em maio, o presidente Bouteflika nomeia Ahmed Ouyahia primeiro-ministro, afastando Ali Benflis, que deseja concorrer à Presidência.

Reeleição – Em outubro de 2003, a FLN escolhe Benflis como candidato à Presidência. Dois meses depois, a Justiça suspende as atividades da FLN, a pedido da ala pró-Bouteflika, o que provoca uma cisão no partido. Em abril de 2004, Bouteflika concorre por uma coalizão e se reelege com 85% dos votos, derrotando Benflis (FLN), com 6,4%. Em janeiro de 2005 é preso o principal dirigente do GIA, Nourredine Boudiafi.

O berbere também passa a idioma oficial

A Assembleia Nacional da Argélia muda a Constituição em abril de 2002 e torna otamazirte, língua berbere, idioma oficial do país, ao lado do árabe. É uma concessão à minoria berbere da Argélia – 25% da população. O anúncio concretiza acordo feito pelo governo em outubro de 2001, após meses de rebelião berbere, com mais de 60 mortes. O povo berbere, originalmente nômade, habita o norte da África há milênios. Sua língua é da família do egípcio e do somali. Na Argélia, os berberes se concentram na Cabília – região próxima ao litoral, que se estende do leste de Argel à fronteira com a Tunísia. Os protestos começam em abril de 2001, após a morte de um estudante nas mãos da Gendarmerie – polícia militarizada. Milhares de pessoas atacam postos policiais, queimam viaturas e invadem prédios federais. Em maio, meio milhão de pessoas protesta em Tizi Uzu, na Cabília. Em junho, mais de 1 milhão se manifestam na capital. Mesmo após a oficialização do tamazirte, continua a tensão. As eleições legislativas de maio são largamente boicotadas na Cabília, com greve geral, choques de rua e poucas seções eleitorais conseguindo funcionar. A participação também é baixa nas eleições presidenciais de 2004.

Argel

Argel, capital e principal porto desse país, ergue-se sobre um promontório, na baía do mesmo nome. Na antiguidade o lugar foi ocupado por uma feitoria cartaginesa que, durante o domínio romano, era conhecida como Icosium. As posteriores invasões de vândalos e árabes destruíram a cidade, que no século X foi reconstruída pela dinastia fatímida e rebatizada com o nome de Argel. Incorporada em 1518 ao império turco otomano, ao longo do século XVI sofreu vários assédios por parte da esquadra espanhola, que pretendia acabar com a pirataria berbere. Em 1830 os franceses ocuparam o país e transformaram Argel num dos principais centros econômicos e administrativos de seu império colonial.

A cidade onde Miguel de Cervantes esteve em cativeiro chegou a ser capital provisória da França durante a segunda guerra mundial, antes da independência da Argélia.

Durante o domínio francês, a antiga casbá ou alcáçova (fortaleza) turca foi rodeada pela moderna cidade européia, que se espalhou entre a baía e as colinas circundantes. A atividade financeira e a exportação de vinhos através de seu porto incrementaram a importância econômica da cidade a partir de 1880. Na segunda guerra mundial as forças aliadas se estabeleceram em Argel, que entre junho de 1943 e agosto de 1944 foi sede do governo da França livre.

Na década de 1950, com o início do levante argelino contra a colonização francesa, Argel tornou-se o centro do movimento de libertação. Os choques entre os rebeldes e o exército francês duraram até 1962, quando a cidade passou a ser capital da Argélia independente. Depois disso, Argel manteve sua força como porto exportador de vinhos, cereais, cortiça e minerais e importador de produtos químicos e minerais. Suas principais indústrias são a mecânica, a química e a de transformação de produtos agrícolas.

Argel liga-se por terra com o resto do país e conta com um aeroporto. O conjunto arquitetônico da casbá contém diversas mesquitas e edifícios históricos.

Argel
Argel - Capital da Argélia
Argel - Capital da Argélia
Argel - Capital da Argélia

Apuleio Apuleio

Lúcio Apuleio nasceu em Madaura, na Numídia (moderna Argélia), por volta do ano 124. Educado em Cartago e Atenas, viajou pelo Mediterrâneo, interessando-se por ritos de iniciação como os associados ao culto da deusa egípcia Ísis. Versátil e familiarizado com os autores gregos e latinos, ensinou retórica em Roma antes de regressar à África para casar-se com uma rica viúva, cuja família o acusou de ter recorrido à magia a fim de conquistar seu afeto. Para defender-se de tal acusação escreveu a Apologia (173), obra da qual emanam as informações disponíveis sobre sua vida.

A crise ideológica de Roma no século dos Antoninos, quando o ceticismo cortesão se entrelaçou ao crescente influxo dos cultos orientais, serviu de pano de fundo à elaboração da obra de Apuleio, notável figura da literatura, da retórica e da filosofia platônica de sua época.

Escreveu ainda diversos poemas e tratados, entre os quais Florida, coletânea de trabalhos de eloqüência, mas a obra que lhe deu fama foi a narrativa em prosa em 11 livros a que chamou Metamorfoses e se tornou conhecida como O asno de ouro. São aí relatadas as aventuras do jovem Lúcio, que é transformado por magia em burro e só recupera a forma humana graças à intervenção de Ísis, a cujo serviço se consagra. O episódio mais destacado dessa obra-prima de Apuleio -- o único romance da antiguidade a chegar completo aos nossos dias -- é a bela fábula de "Amor e Psiquê", que pode ser interpretada como narração puramente estética ou, então, como alegoria da união mística. O episódio, aliás, destoa do estilo do romance em geral, pois este relaciona cenas grotescas, terrificantes, obscenas e, em parte, deliberadamente absurdas.
O tema de "Amor e Psiquê" foi retomado por muitos escritores, entre os quais, no século XIX, os poetas ingleses William Morris e Robert Bridges. Outras passagens de O asno de ouro reapareceram no Decameron, de Giovanni Boccaccio, no Don Quixote, de Miguel de Cervantes, e no Gil Blas de Alain Le Sage. Apuleio morreu em Cartago, provavelmente após o ano 170.

Louis Althusser Louis Althusser

Louis Althusser nasceu em Biermandreis, Argélia, em 1918. Passou a segunda guerra mundial em um campo de concentração na Alemanha e, embora católico na juventude, em 1948 ingressou no Partido Comunista Francês. Na Escola Normal Superior, de Paris, formou uma equipe de grande importância para a discussão de seu pensamento. Tanto que Pour Marx (1965; Em defesa de Marx) ainda é obra coletiva. Lire le Capital (1964-1965; Leitura do Capital, em colaboração com J. Rancière e P. Macherey), enfeixa o melhor de sua contribuição.
Apesar da dilaceração de sua vida emocional, o filósofo Althusser fascinou os jovens da década de 1960 e imprimiu unidade à reflexão marxista, cujas bases teóricas consolidou.

Althusser chama a atenção para as duas fases do trabalho teórico de Marx, mostrando que só a de 1845 em diante é efetivamente materialista e científica, dialética e revolucionária. Ligando-se a um grupo que congregava Claude Lévi-Strauss, Michel Foucault, Roland Barthes e Jacques Lacan, Althusser rejeita o humanismo em benefício de um "socialismo científico". Autor ainda de Lénine et la philosophie (1969), exerceu explosiva influência no movimento estudantil de março de 1968. Seus últimos anos foram marcados pela tragédia. Tomado por crises de psicose maníaco-depressiva, estrangulou a mulher em 1980 e foi internado em um hospital psiquiátrico. Morreu em Paris em 22 de outubro de 1990.

Ahmed Ben Bella Ahmed Ben Bella

Ahmed Ben Bella nasceu em Marnia, perto de Oran, em 25 de dezembro de 1918. Sexto filho de uma família rural abastada, estudou na escola francesa de Oran e, mais tarde, em Tlemcen, onde entrou em contato com os movimentos nacionalistas. Na segunda guerra mundial, lutou no exército francês e foi condecorado por bravura. Encerrado o conflito, seu ardor autonomista o levou a participar, em 1950, do ataque à administração dos correios de Oran, ação pela qual foi preso e condenado à pena de trabalhos forçados. Conseguiu fugir em 1952 para o Cairo e transformou-se em um dos principais dirigentes da Frente de Libertação Nacional (FLN) no exílio.

Conquistada a independência, a política de Ben Bella para a Argélia foi socializante no plano interno, e de neutralidade entre os blocos comunista e capitalista, no plano externo.

Em outubro de 1956, o avião em que viajava para Marrocos foi interceptado por aeronaves francesas. Levado para a França, Ben Bella só obteve a liberdade em 1962, quando foram assinados os acordos de Evian, pelos quais a França reconhecia a independência da Argélia. De volta a seu país, foi eleito chefe do governo e, no ano seguinte, presidente da república.

Em 19 de junho de 1965, foi deposto pelo golpe de estado de Houari Boumedienne. Encarcerado durante quase 15 anos, recuperou a liberdade em 1980. Desde então, participou da oposição ao regime argelino.

Santo Agostinho Santo Agostinho

Aurélio Agostinho, em latim Aurelius Augustinus, nasceu em Tagasta, atualmente Suk Ahras, na Argélia, em 13 de novembro de 354, filho de Patrício, homem pagão e de posses, que no final da vida se converteu, e da cristã Mônica, mais tarde canonizada. Agostinho estudou retórica em Cartago, onde aos 17 anos passou a viver com uma concubina, da qual teve um filho, Adeodato. A leitura do Hortensius, de Cícero, despertou-o para a filosofia. Aderiu, nessa época, ao maniqueísmo, doutrina de que logo se afastou. Em 384 começou a ensinar retórica em Milão, onde conheceu santo Ambrósio, bispo da cidade.

"O último dos antigos" e o "primeiro dos modernos", santo Agostinho foi o primeiro filósofo a refletir sobre o sentido da história, mas tornou-se acima de tudo o arquiteto do projeto intelectual da Igreja Católica.

Cada vez mais interessado pelo cristianismo, Agostinho viveu longo conflito interior, voltou-se para o estudo dos filósofos neoplatônicos, renunciou aos prazeres físicos e em 387 foi batizado por santo Ambrósio, junto com o filho Adeodato. Tomado pelo ideal da ascese, decidiu fundar um mosteiro em Tagasta, onde nascera. Nessa época perdeu a mãe e, pouco depois, o filho. Ordenado padre em Hipona (391), pequeno porto do Mediterrâneo, também na atual Argélia, em 395 tornou-se bispo-coadjutor de Hipona, passando a titular com a morte do bispo diocesano Valério. Não tardou para que fundasse uma comunidade ascética nas dependências da catedral.

Em sua vida e em sua obra, santo Agostinho testemunha acontecimentos decisivos da história universal, com o fim do Império Romano e da antiguidade clássica. O poderoso estado que durante meio milênio dominara a Europa estava a esfacelar-se em lutas internas e sob o ataque dos bárbaros. Em 410 santo Agostinho viu a invasão de Roma pelos visigodos e, pouco antes de morrer, presenciou o cerco de Hipona pelo rei dos vândalos, Genserico. Nesse clima, em que os cismas e as heresias eram das poucas coisas a prosperar, ele estudou, ensinou e escreveu suas obras.

Pensamento. As obras mais importantes de santo Agostinho são De Trinitate (Da Trindade), sistematização da teologia e filosofia cristãs, divulgada de 400 a 416 em 15 volumes; De civitate Dei (Da cidade de Deus), divulgada de 413 a 426, em que são discutidas as questões do bem e do mal, da vida espiritual e material, e a teologia da história; Confessiones (Confissões), sua autobiografia, divulgada por volta de 400; e muitos trabalhos de polêmica (contra as heresias de seu tempo), de catequese e de uso didático, além dos sermões e cartas, em que interpreta minuciosamente passagens das Escrituras.

No pensamento de santo Agostinho, o ponto de partida é a defesa dos dogmas (pontos de fé indiscutíveis) do cristianismo, principalmente na luta contra os pagãos, com as armas intelectuais disponíveis que provêm da filosofia helenístico-romana, em especial dos neoplatônicos como Plotino. Para pregar o novo Evangelho, é indispensável conhecer a fundo as Escrituras, que só podem ser bem interpretadas através da fé, pois apenas esta sabe ver ali a revelação de verdades divinas. Compreender para crer e crer para compreender, tal é a regra a seguir.

Baseado em Plotino, santo Agostinho acha que o homem é uma alma que faz uso de um corpo. Até naquele conhecimento que se adquire pelos sentidos, a alma se mantém em atividade e ultrapassa o corpo. Os sentidos só mostram o imediato e particular, enquanto a alma chega ao universal e ao que é de pura compreensão, como os enunciados matemáticos. Mas se não é através dos sentidos, por qual via a alma consegue alcançar as verdades eternas? Será através do sujeito particular e contingente, ou seja, o homem que muda, adoece e morre?

Tudo indica que, se o homem mutável, destrutível, é capaz de atingir verdades eternas, sua razão deve ter algo que vai além dela mesma, não se origina no homem nem no mundo externo, mas em Deus. Portanto, Deus faz parte do pensamento e o supera o tempo todo. Desse modo só pode ser achado e conhecido no fundo de cada um, no percurso que se faz de fora para dentro e das coisas inferiores para as coisas superiores. Ele não pode ser dito ou definido: é o que é, em todos os tempos e em qualquer lugar (é clara, nessa concepção, a influência de Platão, que santo Agostinho assume em vários pontos de sua obra).

Outra contribuição decisiva é sua doutrina sobre a Santíssima Trindade. Para Agostinho a unidade das três pessoas é perfeita: não se podem separar, nem uma se subordina à outra, como defenderam Orígenes e Tertuliano, mas a natureza divina seria anterior ao aparecimento das três pessoas; estas se apresentam como os três modos de se revelar o mistério de Deus. A alma, para santo Agostinho, se confunde com o pensamento, e sua expressão, sua manifestação é o conhecimento: por meio deste a alma, ou o pensamento, se ama a si mesma. Assim, o homem recompõe nele próprio o mistério da Trindade e se vê feito à imagem e semelhança de Deus: se ele ama e se conhece dessa maneira, ele conhece e ama a Deus, conseqüentemente mais interior ao ser humano do que este mesmo.

O famoso cogito de Descartes ("Penso, logo existo"), em que a evidência do eu resiste a toda dúvida, é genialmente antecipado por santo Agostinho em seu "Se me engano, sou; quem não é não pode enganar-se". Ele valoriza, pois, a pessoa humana individual até quando erra (o que, neste aspecto, não a torna diferente da que acerta). Talvez por isso dê o mesmo peso à parte humana e à parte divina no que diz respeito à encarnação do Cristo.

A salvação do homem, na teologia agostiniana, é algo completamente imerecido e que depende tão só da graça de Deus; graça que, no entanto, se manifesta aos homens por meio dos sacramentos da igreja visível, católica. Importantes para a salvação, esses sacramentos compreendem todos os símbolos sagrados, como o exorcismo e o incenso, embora a eucaristia e o batismo sejam os principais para ele.
Santo Agostinho caiu, porém, em profundas contradições, por ter combinado o neoplatonismo com antigas tradições do cristianismo popular, o que acontece na maneira como conceitua a predestinação, ensinamento que exercerá grande influência no pensamento teológico posterior. Para ele Deus pode salvar qualquer pessoa, mas ao mesmo tempo não tem como anular os sacramentos. Isso levou o filósofo a se referir à salvação como algo, nesse aspecto, um tanto relativo, de tal modo que muitos dos que se acham aparentemente afastados da igreja na verdade se encontram dentro dela.

Da mesma forma que concebe a natureza divina, santo Agostinho concebe a criação, idéia pouco tratada pelos gregos e característica dos cristãos. As coisas se originaram em Deus, que a partir do nada as criou. Pois o que muda e se move, o que é relativo e passa ou desaparece requer o imutável e o absoluto, essência do próprio Deus, que criou as coisas segundo modelos eternos como ele mesmo. Assim, o que o platonismo chamava de lugar do céu passa a ser, no pensamento agostiniano, a presença de Deus. Tudo o que existe no mundo foi criado ao mesmo tempo, em estado de germe e de semente. Como estes existem desde o início, a história do mundo evolui continuamente, mas nada de novo se cria. Entre os seres da criação existe uma hierarquia, em que o homem ocupa o segundo lugar, depois dos anjos.

Santo Agostinho afirma-se incapaz de solucionar a questão da origem da alma e, embora tão influenciado por Platão, não acha a matéria por si mesma condenável, assim como não encara como castigo a união da alma com o corpo. Não seria este, como se disse tanto, a prisão da alma: o que faz do homem prisioneiro da matéria é o pecado, do qual deve libertar-se pela vida moral, pelas virtudes cristãs. O pecado leva o corpo a dominar a alma; a religião, porém, é o contrário do pecado, é a dominação do corpo pela alma, que se orienta livremente para Deus, assistida pela graça.

Uma das mais belas concepções de santo Agostinho é a da cidade de Deus. Amando-se uns aos outros no amor a Deus, os cristãos, embora vivam nas cidades temporais, constituem os habitantes da eterna cidade de Deus. Na aparência, ela se confunde com as outras, como o povo cristão com os outros povos, mas o sentido da história e sua razão de ser é a construção da cidade de Deus, em toda parte e todo tempo. A obra de santo Agostinho, em si mesma imensa, de extraordinária riqueza, antecipa, além disso, o cartesianismo e a filosofia da existência; funda a filosofia da história e domina todo o pensamento ocidental até o século XIII, quando dá lugar ao tomismo e à influência aristotélica. Voltando à cena com os teólogos protestantes (Lutero e, sobretudo, Calvino), hoje é um dos alicerces da teologia dialética. Santo Agostinho morreu em Hipona, em 28 de agosto de 430. E nessa data, 28 de agosto, é festejado como doutor da igreja.

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