Cultura Celta, Cultura de Hallstatt e Cultura de La Tène

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Cultura Celta, Cultura de Hallstatt e Cultura de La Tène

#Cultura Celta, Cultura de Hallstatt e Cultura de La TèneAo longo de muitos séculos, praticamente as únicas fontes de informação sobre a cultura celta foram os autores gregos e sobretudo os latinos. Em grande parte, isso ocorreu porque os antigos celtas não conheciam a escrita. Todavia, com a cristianização da Irlanda, última região dominada pelos povos célticos, os monges introduziram o alfabeto latino. Dessa forma surgiu a primeira língua céltica com expressão escrita, o gaélico (uma outra variedade se desenvolveu em Gales e na Bretanha francesa). Assim, por volta do século XII, os mosteiros irlandeses reuniram em manuscritos as tradições orais - épicas e mitológicas - da Irlanda celta. Mais tarde, sobretudo a partir de meados do século XIX, as escavações arqueológicas trouxeram à luz um grande número de túmulos e objetos de arte.

Embora os povos celtas tenham chegado a ocupar, entre os séculos V e III a.C., a maior parte do continente europeu, sua fragmentação política e sua posterior derrota frente aos latinos - o que para eles significou desaparecimento ou assimilação - fizeram com que, durante muito tempo, sua cultura constituísse um enigma, duvidando-se até mesmo da existência de um nexo comum entre as chamadas tribos célticas.

O estudo conjunto da arte e da literatura - que, por sua vez, contribuiu para o conhecimento de suas concepções sociais e religiosas - levou à conclusão de que realmente existiu um substrato espiritual comum aos diversos povos célticos, caracterizado por um sentimento mágico da natureza e pela rejeição do realismo, que divergia radicalmente do racionalismo mediterrâneo. Fator importante nessa unidade cultural (e não política) das tribos celtas foi sem dúvida seu sistema de crenças religiosas, transmitidas por uma casta sacerdotal, os druidas, cujos ensinamentos seriam legados aos bardos e vates da Grã-Bretanha.

ReligiãoSacerdotes, poetas e sábios, os druidas formavam a classe intelectual dirigente. Conservavam de memória todo o saber literário, histórico e jurídico. Ingressavam em suas escolas já na infância e não tinham de prestar serviços na milícia, nem de pagar impostos e ficavam alheios aos cargos públicos. Em virtude de seu ofício, arbitravam os litígios, ensinavam, praticavam a adivinhação e a magia e ofereciam sacrifícios, os quais, sabe-se hoje,  raramente eram humanos, apesar do testemunho de escritores latinos como Júlio César.

Crenças A religião apresentava claro matiz animista. Os celtas não consideravam a natureza algo inerte, mas sim dotado de espírito próprio. Veneravam  animais como o javali, o touro, o urso, o cavalo, o porco e a serpente. O culto, inicialmente celebrado nos bosques, observava um calendário ligado à agricultura e suas festas mais importantes eram o Beltane, em 1º de maio, e o Samhaim, em 1º de novembro.

Os celtas possuíam também um complexo panteão, cujas figuras os romanos tentaram assimilar a seus próprios deuses. A tríade fundamental era encabeçada por Lug - identificado com o Mercúrio galo-romano -, deus-druida, mago, sábio e rei de deuses. Junto a ele encontrava-se Dagda - Taranis para os gauleses - senhor dos elementos e das tormentas, pelo que os latinos o relacionaram com Júpiter; era com frequência representado como Cernunnos, deus dotado de chifres de cervo, senhor dos animais. Por último, Ogme, deus da guerra, o Marte céltico. Havia diversas outras divindades; as femininas, como Epona, a deusa-égua, tinham grande importância e em geral eram associadas a ritos de fertilidade.

A assimilação dessas figuras às romanas foi puramente nominal, pois na religião celta os deuses não eram antropomórficos nem se atinham a funções determinadas, mas antes a esferas nem sempre precisas. Assim, é provável que as três divindades supremas constituíssem manifestações diferentes de um só deus. A essência da concepção céltica do mundo resultava de uma consciência da contínua inter-relação entre o mundo físico e o espiritual, e daí a concepção de uma realidade fluida e cambiante, que marcou todas as suas expressões artísticas. Nesse sentido, sua crença na transmigração das almas não se radicava tanto na ideia de uma sucessão temporal como, principalmente, na da possibilidade de assumir ao mesmo tempo diversas aparências: "Sou o vento no mar, sou um salmão na água cristalina, sou um lago na planície, sou a lança vitoriosa que combate, sou um homem que prepara fogo para uma cabeça."

Essa concepção do mundo como perpétua metamorfose explica a forma como a mitologia irlandesa representa o mar. Este é encarnado pelo deus Mannanan, força mágica e misteriosa em cujos confins encontravam-se as terras férteis e verdejantes do mundo futuro: o Tir na nog irlandês, a "terra da juventude", ou o Ynys Afallach galês, o "país das maçãs", que daria origem à ilha de Avalon das lendas do rei Artur. Todos esses nomes revelam que a imortalidade para os celtas não passava de um prolongamento dos prazeres deste mundo, que por sua vez era bafejado pelo sobrenatural.

ArtePor não estabelecerem uma clara distinção entre o real e o mágico os celtas destinaram sua arte mais aos homens do que aos deuses, pois a própria criação artística era tida como visionária. Além dos adornos pessoais também recebiam tratamento artístico os objetos domésticos e os próprios dos guerreiros, como carros, espadas, escudos ou capacetes.

A arte céltica trabalhou sobretudo o metal - em especial o bronze e o ouro - enriquecido com outros materiais nobres, como o marfim, as pedras preciosas, o âmbar e o coral. A pintura incidiu principalmente nas peças de cerâmica, enquanto a escultura só se desenvolveu a partir do século III a.C. e apresentou notáveis influências mediterrâneas.

#Cultura de Hallstatt

Cultura de Hallstatt

As manifestações artísticas do período de Hallstatt - séculos VII e VI a.C. - se caracterizaram por uma decoração geométrica disposta em faixas e motivos simétricos. Os temas prediletos foram as barcas solares, as rodas e algumas figuras de pássaros. Predominou o gosto pela ornamentação, às vezes excessiva, e já se conheciam certas técnicas que floresceram depois, como a articulação de peças metálicas e a incrustação em coral.

Cultura de La Tène

Desenvolvida entre os séculos V e I a.C., a cultura de La Tène irradiou-se dos vales do Reno e do Marne para grande parte da Europa. No início, manteve-se o predomínio da simetria e introduziram-se motivos mediterrâneos, mas logo sobreveio uma nítida preferência pelos motivos curvilíneos e entrelaçados. Um dos sítios arqueológicos mais importantes é o de Klein Aspergle, na região alemã de Württemberg, onde também foram descobertos restos etruscos que permitiram datar os objetos celtas encontrados.

A partir de meados do século IV a.C., desenvolveu-se o chamado estilo livre ou de Waldalgesheim, que se prolongou por mais de cem anos. Desapareceu a simetria, pelo menos no detalhe, e predominou a linha curva, que deformava a realidade e promovia uma fusão dos diversos motivos. As linhas se imbricavam para formar figuras zoomórficas e rostos humanos. Nesse estilo da maturidade, do qual constituem magníficos exemplos as moedas gaulesas, que reinterpretavam modelos gregos, a visão céltica do mundo encontrou sua plena expressão.

Acossados pelos germânicos a partir do século III a.C., os celtas tiveram de fortificar suas aldeias. A exaltação guerreira transparece da adoção de novos motivos. Os braceletes tornaram-se nodosos; e conservaram-se abundantes utensílios bélicos, como espadas, pontas-de-lança e escudos retangulares.
Decadência. A conquista romana da maior parte dos territórios celtas, no século I a.C., deu origem ao último estilo céltico, que às vezes é chamado de "barroco". Exemplo máximo de virtuosismo foi o caldeirão de Gundestrup, encontrado na Dinamarca, lavrado em prata com cenas mitológicas. Esse estilo durou pouco na Gália, onde não tardou a ser substituído pela arte galo-romana, mas se manteve nas ilhas britânicas, nas quais se conservam peças como o escudo de Wandsworth e o espelho de Desborough. A arte céltica sobreviveu nessas ilhas e marcou a arte medieval irlandesa - e, em menor escala, a britânica - tanto nos códices com iluminuras e decorados com linhas entrelaçadas como nas cruzes de pedra lavrada.

LiteraturaA literatura celta, conhecida pelos textos irlandeses (que influenciaram os da Escócia e da ilha de Man) e pelos galeses (modelo dos da Cornualha e da Bretanha francesa), constituiu-se da expressão escrita das arraigadas tradições orais, e foi obra de profissionais, com vistas a objetivos nacionais, locais e religiosos. Com a chegada do cristianismo, desapareceram os druidas, dada sua condição de sacerdotes pagãos, mas a tradição foi herdada, preservada e ampliada pelos filidh irlandeses e pelos bardos galeses. A esse fundo de folclore e de sabedoria ancestral se somariam elementos das culturas clássica (diretamente na Grã-Bretanha e na Bretanha francesa, mediante a conquista romana, e indiretamente na Irlanda, por meio do cristianismo), cristã e saxônica.

Na Irlanda, a cultura céltica teve muito menos dificuldades para sobreviver do que na Grã-Bretanha. Em primeiro lugar, porque ali não chegaram nem a conquista romana nem a invasão saxônica e, em segundo, porque a evangelização, embora profunda, foi muito mais tolerante com a tradição vernácula do que em qualquer outra região da Europa. O cristianismo introduziu a escrita na Irlanda; e graças à igreja se conservou grande parte da literatura oral primitiva, recolhida em coletâneas manuscritas em língua gaélica, nas quais figuram textos muito díspares. As mais antigas dessas coleções são o Leabhar na h-Uidhe (c. 1100; Livro da vaca castanha), também chamado Livro de Ulster, e o Leabhar Laighneach (c. 1150; Livro de Leinster). Depois, no século XVI, vieram juntar-se a esse acervo importantes coletâneas, como o Livro do deão de Lismore, que mostra a conexão cultural entre os celtas irlandeses e galeses. As obras incluídas nesses manuscritos estão agrupadas em ciclos: o de Ulster, mitológico e histórico, e o de Leinster. O primeiro desses ciclos é o mais importante, pois nele se acha contida a grande epopéia irlandesa, a Táin. Essa literatura se caracterizava por fundir história, magia e lenda, em narrações de grande plasticidade e força descritiva.

Onze contos galeses que formam o chamado Mabinogion (Disciplina) foram preservados, sobretudo em dois manuscritos: o Livro branco de Rhydderch e o Livro vermelho de Hergest, ambos do século XIV, embora incluam textos mais antigos. O nome Mabinogion só se aplica propriamente aos quatro ramos ou histórias de Pwyll, Braswen, Manawyddan e Math, narrativas cuja forma e temática derivam da tradição oral dos bardos. Acrescentam-se a elas um relato que parece provir de fontes muito antigas, Cuhlwch e Olwen, e outros três posteriores marcados pelas lendas do rei Artur - na versão do francês Chrétien de Troyes no século XII - por sua vez oriundas do folclore galês.

Na poesia, os filidh irlandeses e os bardos escoceses e galeses mantiveram a tradição de poemas panegíricos em metros muito rigorosos e complicados (o irlandês dan direach e o galês canu caeth). Essa tradição, à qual se somaram poemas descritivos e alegorias cristãs, se manteve na Irlanda até o século XVII, resistindo à dura hegemonia inglesa. Todavia, em consequência das perseguições e do exílio da nobreza, os filidh perderam seu prestígio e com eles se extinguiram o gênero e sua métrica. Em Gales - onde surgiu a figura mítica do bardo Taliesin - o desaparecimento das cortes principescas, em fins do século XIII, marcou o ocaso da profissão bárdica, e os cantos de louvor foram aos poucos sendo substituídos por poemas de amor e bucólicos, cuja linguagem aboliu os arcaísmos e a métrica dos anteriores.

Da primitiva literatura celta da Bretanha francesa e da região de Cornualha conservaram-se apenas pequenos trechos. Os escassos exemplos medievais e modernos indicam que, nessas regiões, os bardos sucumbiram muito mais rapidamente à pressão das culturas dominantes.

Mais tarde, os autores do País de Gales, da Escócia e da Irlanda começaram a escrever em inglês e os da Bretanha, em francês. Apesar disso, surgiram já em fins do século XIX importantes movimentos que pretendiam recuperar as línguas autóctones e promover seu emprego como idiomas literários. No âmbito temático, a magia e os devaneios da literatura céltica se estenderam pela Europa por meio das lendas arturianas, e em suas fontes se abeberaram muitos autores modernos.

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