Pequena Crônica | Anna Magdalena Bach

Pequena Crônica | Anna Magdalena Bach

Pequena Crônica | Anna Magdalena Bach
"Meu marido era um homem difícil de conhecer. Se desde o primeiro instante eu não o tivesse amado, certamente nunca o teria compreendido. Muito reservado, não se revelava através de palavras, mas por sua atitude e, naturalmente, por sua música. 

Eu nunca havia visto um homem tão religioso. (...) Houve um tempo, especialmente no começo do nosso casamento, em que eu tive medo da austeridade de pedra que dissimulava sua bondade, e mais ainda da estranha nostalgia da morte que o acompanhou por toda a vida, apesar de tão laboriosa. Eu não fazia outra coisa senão pressentir tal nostalgia, apesar de ele nunca me ter falado nisso, com medo de me assustar, pois eu era mais nova e muito menos corajosa. Enquanto Sebastian viveu eu nunca tive, aliás, o menor desejo de deixar este mundo, que me parecia tão bom; mas agora que já partiu, velha e sozinha compreendo melhor seu anseio de ir lá para onde todas as coisas são perfeitas, contemplar o seu Mestre, Jesus Cristo. 

No fundo de seu grande coração trazia sempre a imagem do Crucificado, e sua música mais elevada é o grito desse desejo de morte que lhe dava a visão do seu Senhor ressuscitado. Meus pais educaram-me piedosamente na fé luterana, mas a religião de Sebastian era algo maior ainda. Senti-o desde o dia do nosso casamento, quando, depois de todos se haverem retirado, ele veio ao meu encontro, tomou-me o rosto entre as mãos e, depois de me olhar longamente, disse estas palavras: ‘Agradeço a Deus ter Ele me dado você, Magdalena’. Eu nada pude responder, mas encolhi-me contra seu peito e murmurei apaixonadamente esta prece: ‘Meus Deus, tornai-me digna dele, tornai-me digna dele!’"
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