Pigmalião | Bernard Shaw

Pigmalião | Bernard Shaw

Pigmalião | Bernard Shaw" A Florista entra com solenidade, em roupas domingueiras. Está razoavelmente penteada. O vestido é quase limpo e procura afetar elegância. O que mais chama a atenção é o seu chapéu de palha, encimado por três plumas de avestruz, uma amarela, outra azul e outra vermelha. O coronel se comove diante daquele vulto, tão deploravelmente patético em sua inocente presunção.

Henrique (para quem as pessoas só têm interesse do ponto de vista da fonética, sem dissimular a decepção grita logo:) — Ora, ora!

Mas é a florista de ontem! Não me serve de nada! Já anotei tudo quanto me poderia fornecer de interessante. Aliás, sobre o Querosene e o Estácio já tenho documentação completa. (À pequena) — Pode ir indo. Não preciso de você.

A florista— Já começou a meter a bronca? E ainda nem sabe por que é que vim aqui! (À Cândida, que ficou à porta esperando ordens)

— Madama não disse a ele que eu vim de automóvel?

D. Cândida— Que tolice, meu Deus! Isso não interessa a uma pessoa como o professor Henrique.

A florista — Olhe a paspalhona, também contra mim! Que turma do contra! Mas não pensem que eu vim aqui para ser desacatada. Se não vão com a minha cara, digam logo, que o meu dinheiro vale tanto quanto outro qualquer.

Henrique — Seu dinheiro? Mas para quê?

A florista — Quero aprender uns troços, taí! E vou pagá, não pense que não.

Henrique (estupefato) — Aaaah!... (segurando a respiração para não estourar de rir) — E o que é que você pensa que eu vou responder?

A florista — Se o senhor fosse um cara alinhado, me convidava pra sentar. Já não disse que venho a negócio?

Henrique — Que acha, coronel Guimarães? Faço-a sentar, ou jogo essa cafajeste pela janela afora?

A florista (revoltada, refugia-se ao piano) — Êh, Êh! (Repentinamente magoada e choramingando) — Não quero que me chamem dessas coisas... Eu vou pagá... Eu vou... (Sem se moverem, os dois olham para ela, perplexos.)

Guimarães (com gentileza) — Vamos, menina, diga aquilo que quer.

A florista— Quero arrumar um emprego nessas lojas de flor, em vez de andar vendendo por aí. Mas ninguém me aceita porque eu não sapeco o verbo em condições. E ele disse que era capaz de me ensinar... Eu pago, não estou pedindo favor, e ele me trata pior que cachorro. Eu pago...

Henrique — Quanto?

A florista (subitamente vitoriosa) — Ah! Falou em gaita a escrita muda, hein? Já está querendo de volta um pouco da granulina que me deu ontem! (Baixando a voz, confidencial) — Ontem tu estava um bocado escabrio, ahn?

Henrique (imperiosamente) — Sente-se.

A florista — Isso é cantada?

Henrique (berrando) — Sente-se!

D. Cândida (com severidade) — Senta, minha filha. Vai fazendo o que te disserem. (Puxa uma cadeira para ela.)

A florista — Eu vou pirar. (Fica de pé, intimidada e cheia de raiva.)

Guimarães (cortesmente) — Tenha a bondade de sentar-se.

A florista — Obrigada, seu general. (Senta-se e olha para o coronel com gratidão.) "

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