Satiricon | Petrônio

Satiricon | Petrônio

Satiricon | Petrônio"Fruimos todas essas delícias quando Trimalchão, ao som de música, apareceu carregado; e, ao ser colocado sobre almofadas macias, um imprudente não coube conter o riso. Imaginai uma cabeça completamente pelada saindo de um manto escarlate, em volta do pescoço, um pano com largas riscas vermelhas e com franjas caindo de todos os lados.

Trazia no dedo mínimo da mão esquerda um grande anel dourado e na falange inferior do anular um outro menor, inteiramente de ouro, segundo me pareceu, tendo em volta pequenas incrustações em forma de estrelas. E, querendo mostrar-nos ainda outras diquezas,

ele descobriu o braço direito, ornado por um bracelete de ouro e uma pulseira de marfim fechada por uma placa de esmalte.

Depois de encarafunchar a boca com um palito de prata, ele disse:

– Amigos, para dizer-vos a verdade, teria ficado de bom grado mais tempo fora do triclínio; mas para não vos impacientar demais com minha ausência, sacrifiquei o meu prazer. Permiti-me, todavia, que termine esta partida.

Avançou-se, então, um menino com um tabuleiro de terebinto e dados de cristal. Vi, em seguida, uma cousa surpreendente como refinamento: no lugar de fichas brancas e pretas, ele usava moedas e de ouro e prata.

E enquanto, no ardor do jogo, pronunciava as frases mais triviais do mundo, foi colocado diante de nós, que estávamos ainda no antepasto, um prato tendo em cima uma cesta, na qual se via, encolhida, uma galinha de madeira, com as penas em leque como se estivesse chocando. Aproximaram-se logo dois escravos e, sempre ao som da música, introduziram as mãos na palha, tirando do meio da mesma ovos de pavão que distribuíram aos comensais.

Depois dessa surpresa, Trimalchão voltou-se para nós e disse:

Amigos, fui eu que ordenei que pusessem ovos de pavão sob a galinha. E, por Hércules, receio já estarem eles chocos!

Experimentemos: talvez possam ainda ser engolidos facilmente.

Deram-nos colheres pesando não menos de meia libra, com as quais quebramos a casca dos ovos, feita com pasta de farinha. Quase atirei fora o que tocara, pois que me pareceu ver saltar um pintinho. Mas ouvi um comensal de profissão dizer:

– Quem poderá adivinhar a cousa boa que está aqui dentro!

Continuei, então, a quebrar a casca com a mão, e encontrei um papafigo dos mais gordos, nadando em gema de ovo apimentada.

Já Trimalchão, interrompida a partida, havia pedido tudo o que nos fora servido, e, em alta voz, tinha permitido, a quem quisesse repetir o vinho com mel, quando, inesperadamente, foi dado um sinal com a música, e os servos, cantando um coro infindável, levaram da mesa os restos do antepasto.

Mas, naquele momento de confusão, tendo caído no chão um prato de prata, um menino prontamente o apanhou; Trimalchão viu-o, e, ao mesmo tempo em que ordenava que o prato fosse de novo atirado ao chão, mandou dar, como lição, alguns socos no escravo.

Acorreu, sem demora, um copeiro, que removeu, juntamente com outro lixo, o prato de prata.
Entraram depois dois escravos etíopes com longas cabeleiras trazendo pequenos odres semelhantes aos utilizados nos circos para molhar o chão; mas no lugar de água foi vinho que caiu sobre nossas mãos.

O patrão, cumprimentado pelo seu bom gosto, disse:

– Marte ama a igualdade. Precisamente por isto quis que cada um tivesse a sua mesa; e também porque, aglomerando-se menos, estes fedorentos escravos não nos darão tanto calor. Entrementes, chegaram ânforas de vidro, fechadas cuidadosamente com gesso; em etiquetas de pano, amarradas no gargalo, lia-se:"FALERNO DE CEM ANOS DO CONSULADO DE OPIMIO"Enquanto olhávamos esses caracteres, Trimalchão bateu dolorosamente as mãos dizendo:

– Ah! O vinho tem, pois, uma vida mais longa do que nós, frágeis criaturas humanas?! Mas nós nos vingaremos sugando-o todo. No vinho está a vida. Além disto, este é o Opímio garantido. Ontem não mandei trazer à mesa vinho tão bom, e entretanto, havia pessoas de bem maior consideração!

Bebíamos, admirando toda esta magnificência em todos os seus particulares, quando um escravo trouxe um pequeno esqueleto de prata, fabricado de modo tal que as articulações e juntas podiam dobrar-se em todos os sentidos. Depois de atirá-lo várias vezes sobre a mesa, onde a mobilidade de suas juntas o fez tomar diferentes posições, Trimalchão assim declarou:

– Oh! Sorte humana! Muito pensamos ser e nada somos!

(Nada mais é que um leve sopro a existência!) Presa de Orco, este será de todos nós o aspecto Vivamos, pois, enquanto gozar podemos! Depois deste elogio da vida, foi-nos servido um outro prato que, ainda que não correspondendo à nossa expectativa, atraiu pela sua novidade os olhares de todos. Era uma vasilha em forma de globo que tinha em volta os doze signos do Zodíaco; sobre cada um o cozinheiro artista colocara uma iguaria que estava em estreita relação com a respectiva constelação: sobre Áries grãos de bico da primavera; sobre o Touro um pedaço de carne de vaca; sobre os Gêmeos testículos e rins; sobre o Câncer uma coroa; sobre o Leão figos da África; sobre a Virgem uma vulva de porca jovem; sobre a Balança uma balança que tinha num dos pratos um bolo e no outro uma torta; sobre o Escorpião, um peixinho do mar; sobre o Sagitário uma lebre; sobre o Capricórnio uma lagosta; sobre o Aquário um ganso; e sobre os Peixes dois salmonetes. No meio da vasilha via-se um favo de mel sobre um tufo de ervas."

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