Senhorita Júlia | August Strindberg


Senhorita Júlia | August Strindberg

Senhorita Júlia | August Strindberg
" Júlia
Como um ser humano pode estar tão imerso na lama!

Jean
Limpe-a, se não lhe agrada.

Júlia
Criado! Lacaio! Levante-se para falar comigo!

Jean
Prostituta de lacaio! Mulher de criado! Cale a boca e saia daqui! Não lhe cabe dar lições sobre brutalidade, já que foi a mais brutal esta noite! Acha que alguma empregada se atiraria assim para um homem? Já viu alguma mulher de minha classe implorando dessa maneira? Eu nunca vi. Só animais e prostitutas.

Júlia ( abatida )
Continue. Pode me bater, pode pisar em mim... Eu bem que mereço. Sou podre. Mas me ajude! Se há algum modo, me ajude!

Jean ( mais delicado )
Não nego minha participação na honra de seduzi-la, mas será que a senhorita acha que qualquer pessoa, em minha posição, teria ousado olhá-la, se a senhorita mesma não estivesse querendo? Ainda me espanto...

Júlia
E se orgulha.

Jean
E por que não? Se bem que deva admitir que a vitória foi fácil demais para me fazer perder a cabeça.

Júlia
Continue sendo brutal.

Jean ( erguendo-se )
Não, pelo contrário. Peço desculpas pelo que disse. Não bato em quem está no chão... muito menos numa mulher. Não posso negar que há certa satisfação em descobrir que aquilo que nos jogou ao chão foi apenas luar, que as costas do falcão são cinzas afinal, que há pó-de-arroz na face linda, que unhas pintadas podem estar sujas, que o lenço está sujo, se bem que perfumado. Por outro lado, o que fere é saber que aquilo que lutávamos por obter não era alto e não era real. Dói ver a senhorita caída tão baixo, abaixo mesmo de sua cozinheira. Dói como quando se vê a última flor do verão sendo esmigalhada pela chuva e transformada em lama!"

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