Encontro Marcado | Fernando Sabino

Encontro Marcado | Fernando Sabino

Encontro Marcado | Fernando Sabino– Na boca, não.
– Na boca, sim.
Beijou-a na boca, desajeitadamente, depois lambeu os lábios para ver que gosto tinha: gôsto de cuspe. A menina baixou os olhos:
– Agora somos namorados – sussurrou.
– Não: eu quero que você me faz um favor, você faz?
– Faço.
– Quero namorar primeiro a Leda. Pergunta a ela se ela quer me namorar.
– Estou de mal com você para toda a vida - e a menina saiu correndo.
Ficaram de mal para toda a vida. Leda. Estavam namorando? Ele não saberia dizer: emprestou-lhe um livro chamado " "Travessuras de Juca e Chico". Muito engraçado. Leda leu, achou muito engraçado, devolveu com uma manchinha de manteiga.
– Desculpe.
– Não tem importância, é para manchar mesmo.
– Por que você não põe uma capa? Eu encapo todos os meus livros.
– Eu não.
– Pois eu sim. Sou a primeira das meninas. Você não é nem o quinto ou sexto dos meninos.
Ser o primeiro. Ficava em casa estudando, fazendo exercício. Dona Estefânia estranhando maravilhada.
– Não sei o que deu nesse menino. Agora é isso toda noite. Eu não dizia? Eu não dizia?
– Dizia o quê, mulher? – resmungava seu Marciano.
– Que êle endireitava? Verdadeiro milagre.
Milagre do amor. Amava Leda, mas não ousava sequer pensar em beijá-la. Beijo não era bom assim, feito diziam. Amando em silêncio.
Às vêzes se declarava:
– Leda, eu gosto muito da sua letra.
– Leda, eu gosto muito do seu estojo.
– Leda, eu gosto muito.
De noite, dormia abraçado, com ela, era bem melhor. Leda cariciosa, Leda travesseiro. Iniciava-se naquilo que iria ser, vida afora, o motivo de suas horas mais alegres e mais miseráveis imaginava tudo - passeios, conversas, piqueniques, banho na piscina. Um dia salvou-a de morrer afogada. Leda tinha piscina em casa. Leda era toda queimada de sol, devia ser branquinha debaixo do vestido - imaginava tudo. Um dia imaginou um presépio.
– Papai, quero fazer um presépio.
Era Natal. O pai ajudou Eduardo a fazer o presépio - seu Marciano mesmo ajeitou o papel fingindo de montanha, serrou madeira, colocou o espelho, fingindo de lago com dois patinhos de celulóide, trouxe da cidade as figuras. Eduardo compareceu com dois soldadinhos de chumbo, espingarda ao ombro, para montar a mangedoura. Mas a finalidade última - chamar a Leda para vir ver - não foi atingida. O menino não teve coragem, e foi melhor assim. Na casa dela havia de ter um presépio muito mais bonito. E achava a sua casa velha demais para ela: tinha um vidro partido na janela da sala, a pintura do lado de fora descascando - a sala de jantar mesmo era antiquada, móveis velhos e gastos - era preciso reformar os móveis, reformar a casa e reformar o mundo, para merecer a presença de Leda. Foi melhor assim.
– Este menino é mesmo esquisito - convenceu-se seu Marciano. – Convém a gente nunca discutir com êle. Não vê que ele estava dizendo que ainda ontem, no Grupo...Último ano, último dia do ano: Leda é a primeira entre as meninas, Eduardo é o primeiro entre os meninos. Por desfastio, já não queria impressioná-la assim:
– Juro que não queria ser o primeiro.
– O que é que você queria?
Não sabia o que queria, e vida afora se faria cada vez mais infeliz, agindo como se soubesse. Naquele dia, por exemplo: houve a manifestação promovida pela diretora, Leda iria ganhar uma medalha de ouro por ter sido a primeira da classe. Os meninos protestaram:
– Não faço manifestação.
– Para um pedaço de latão.
Eduardo uniu-se a eles, impensadamente, rompendo com sua deusa. Ganhou também uma medalhinha, mas não ligou: preferiu a gritaria. Leda, desde esse dia nunca mais viu, ficou por isso mesmo."

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