Eneida | Virgílio

Eneida | Virgílio

Eneida | Virgílio"Logo o deus vai ter com ele e lhe diz: "És tu, agora, que lanças os fundamentos da altiva Cartago, tu que, escravo de uma mulher, lhe ergues uma tão formosa cidade, esquecido, ai! esquecido do teu reino e do teu destino! O soberano dos deuses, em pessoa, cujo poder move o céu e a terra, me envia a ti do alto do Olimpo brilhante; ele próprio me manda trazer estas ordens pelos velozes ares: Quais são teus projetos? E que esperança consome teus dias ociosos nas terras da Líbia? Se o brilho das altas façanhas nada tem que te inflame e se não empreendes nada com vistas a tua própria glória, vê Ascânio que cresce e as esperanças de teu herdeiro Iulo, a quem são devidos o reino da Itália e a terra romana". Assim falou o deus do Cilene, e, no meio do seu discurso, furtou-se aos olhares dos mortais e se desvaneceu ao longe numa brisa ligeira. 

Entretanto, a esse aspecto, Enéias, fora de si, permanece mudo; eriçaram-se-lhe os cabelos e de horror a voz prendeu-se-lhe na garganta. Arde em desejos de fugir dessas doces terras e abandoná-las, logo que foi atingido com a advertência e com a ordem do deus. Ah! que fazer? que linguagem agora ousaria dirigir à rainha em delírio? por onde começar a entrevista? E ele detém seu pensamento rápido ora aqui, ora acolá, presa de diversos projetos, sem saber que partido tomar. Por fim, nessa alternativa, tomou a resolução que melhor lhe pareceu: chamou Mnesteu e Sergesto e o valoroso Cloanto. Que eles aparelhem a frota, em silêncio, e reúnam os companheiros na praia; que eles preparem as armas e ocultem a causa de tais medidas imprevistas; que ele, entretanto, enquanto a generosa Dido tudo ignora, e nem espera que tão grande amor seja rompido, haveria de tentar o acesso junto dela no momento mais favorável para lhe falar e o meio mais propício para atingir seus fins."

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