Madame Bovary | Gustave Flaubert
Porque havia três anos que ele a evitava cuidadosamente, pela natural covardia que caracteriza o sexo forte; e Ema continuava com movimentos de cabeça mais indolente que uma gata amorosa:
– Tu amas outra, confessa. Eu por mim compreendo-as; desculpo-as; naturalmente seduziste-as como me seduziste a mim! Tu és homem e tens tudo que é necessário para te fazeres amar! Mas recomeçaremos, não é verdade? Haveremos de nos amar! Olha, já estou a rir, já me sinto feliz!... Fala, vamos...
E estava encantadora, com o olhar onde uma lágrima tremia como a água de uma tempestade num cálice azul.
Rodolfo puxou-a para a janela e acariciava-lhe os cabelos, nos quais, com a claridade do crepúsculo, brilhava como que uma flecha de ouro no último raio do sol. Ema curvava a fronte, Rodolfo acabou por beijá-la nas pálpebras, docemente, com o bico dos lábios.
– Mas tu choraste – disse ele. – Por quê?
Ema rompeu em soluços. Rodolfo supôs que era a explosão do seu amor; e, como ela se calasse, tomou aquele silêncio por um derradeiro pudor e então exclamou:
– Perdoa-me! Tu és a única que me agrada. Fui imbecil e mau! Amo-te e hei de amar-te sempre!... Que tens tu? Dize!
E ajoelhou-se.
– Pois bem! Estou arruinada, Rodolfo! E tu vai emprestar-me 3.000 francos!
– Mas... mas... – disse ele erguendo-se pouco a pouco, ao mesmo tempo que sua fisionomia tomava uma expressão grave.
– Como sabes – continuou ela precipitadamente –, meu marido depositou todos os seus haveres nas mãos de um tabelião, que fugiu.
Depois contraímos empréstimos; os clientes não pagavam. Além disso, a liquidação não está concluída; e mais tarde, havemos de ter... Hoje, porém, por falta de 3 000 francos, fazem-nos uma penhora agora, neste mesmo instante; e, como contava com a tua amizade, vim procurar-te...
– Ah! – pensou Rodolfo, empalidecendo repentinamente. – Foi para isso que veio!"
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