Teatro do Absurdo

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Teatro do Absurdo

Teatro do Absurdo

As novas tendências que viriam a constituir o teatro do absurdo começaram a se desenvolver a partir da década de 1950. Entre seus predecessores se encontram Franz Kafka e Albert Camus, que apresentavam em suas obras uma visão desolada da existência humana. A ruptura com a herança psicologista e humanista, quanto ao conteúdo, e com as estruturas lógicas do teatro tradicional, quanto à forma, o pessimismo vital que determina suas manifestações e uma linguagem desprovida do sentido lógico são os sinais que identificam o movimento. Nascido na França, em cuja língua escreviam seus principais autores, o teatro do absurdo expandiu-se, constituiu-se como uma nova corrente e tomou novos rumos na segunda metade da década de 1960.

"A tentativa de comunicar onde nenhuma comunicação se faz possível é puro arremedo, vulgaridade ou abominável comédia, como se a loucura conversasse com os móveis." Essa afirmação, formulada pelo autor irlandês Samuel Beckett, exemplifica com perfeição o sentido do chamado "teatro do absurdo".

A obra que inaugurou o movimento foi La Cantatrice chauve (A cantora careca), de Eugène Ionesco, estreada em 1950. Os personagens da peça repetiam insistentemente lugares-comuns, inspirados, como revelou o autor, num manual de aprendizado da língua inglesa. En attendant Godot (Esperando Godot), de Samuel Beckett, estreou em 1953, inaugurando o teatro do absurdo como "presença em cena", no dizer do romancista francês Alain Robbe-Grillet. O mesmo autor acrescenta que "na obra de Beckett, tudo transcorre como se dois vagabundos se encontrassem em cena sem papel para representar", em oposição ao personagem clássico que se limita precisamente à representação. Eliminada a trama, a ação se torna uma série de encontros, casualidades e repetições da frase mais óbvia, que acaba perdendo o sentido. Anos mais tarde, com Fin de partie (1957; Fim de jogo), na qual se analisam as relações entre um senhor e seu servidor, Beckett leva ao extremo a dissolução da vida interior de seus personagens.

Mediante ao desmantelamento dos princípios que regiam o teatro ocidental, autores como Artur Adamov, de origem russa, o francês Jean Genet e o britânico Harold Pinter, além de Beckett e Ionesco, pretenderam criar o que se convencionou chamar "grau zero" do teatro, forma de literatura antiliterária que tem o objetivo de mostrar o interior humano em sua nudez, além das convenções intelectuais e lingüísticas. Não tardou que críticos e platéias começassem a atribuir sentido às parábolas encenadas, integrando a experiência inovadora ao teatro filosófico portador de mensagem, sob a alegação de que os propósitos do teatro do absurdo constituíam em si mesmos uma concepção do mundo.

As obras de Beckett e Ionesco foram representadas nos principais palcos do mundo. Tendo cumprido seu papel de agitador da dramaturgia burguesa do século anterior, o chamado teatro do absurdo deixou como saldo positivo o fato de ter dado início a uma transformação irreversível no teatro moderno, despindo-o de ideologias e artifícios retóricos.

O dramaturgo brasileiro Qorpo-Santo (José Joaquim de Campos Leão), autor de comédias escritas em sua maior parte em 1866, é considerado por alguns críticos como precursor do teatro do absurdo. Em seus textos humoristicamente críticos, o nonsense é levado às últimas conseqüências. As peças de Qorpo-Santo, esquecidas por um século, foram encenadas pelo Teatro de Cultura de Porto Alegre em 1966, que apresentou três delas, e levadas ao Rio de Janeiro para o V Festival Nacional de Teatro de Estudantes em 1968.

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