Cultura, Conceito Antropológico da Cultura

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Cultura,  Conceito Antropológico da Cultura

CULTURA, CONCEITOS GERAIS DE CULTURAEm antropologia, a palavra cultura tem muitas definições. Coube ao antropólogo inglês Edward Burnett Tylor, nos parágrafos iniciais de Primitive Culture (1871; A cultura primitiva) oferecer pela primeira vez uma definição formal e explícita do conceito: "Cultura ... é o complexo no qual estão incluídos conhecimentos, crenças, artes, moral, leis, costumes e quaisquer outras aptidões e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade."

Todos os povos, mesmo os mais primitivos, tiveram e têm uma cultura, transmitida no tempo, de geração a geração. Mitos, lendas, costumes, crenças religiosas, sistemas jurídicos e valores éticos refletem formas de agir, sentir e pensar de um povo e compõem seu patrimônio cultural.

Já o antropólogo americano Melville Jean Herskovits descreveu a cultura como a parte do ambiente feita pelo homem; Ralph Linton, como a herança cultural, e Robert Harry Lowie, como o conjunto da tradição social. No século XX, o antropólogo e biólogo social inglês Ashley Montagu a definiu como o modo particular como as pessoas se adaptam a seu ambiente. Nesse sentido, cultura é o modo de vida de um povo, o ambiente que um grupo de seres humanos, ocupando um território comum, criou na forma de ideias, instituições, linguagem, instrumentos, serviços e sentimentos.

Conceituação. A história da utilização antropológica do conceito de cultura tem origem nessa famosa definição de Tylor, que ensejou a oposição clássica entre natureza e cultura, na medida em que ele procurou definir as características diferenciadoras entre o homem e o animal a partir dos costumes, crenças e instituições, encarados como técnicas que possibilitam a vida social. Tal definição também marcou o início do uso inclusivo do termo, continuado dentro da tradição dos estudos antropológicos por Franz Boas e Bronislaw Malinowski, entre outros. Sobretudo na segunda metade do século XX, esse uso caracterizou-se pela ênfase dada à pluralidade de culturas locais, enfocadas como conjuntos organizados e em funcionamento, e pela perda de interesse na evolução dos costumes e instituições, preocupação dos antropólogos do século XIX.

Só o homem é portador de cultura; por isso, só ele a cria, a possui e a transmite. As sociedades animais e vegetais a desconhecem. É um complexo, porque forma um conjunto de elementos, inter-relacionados e interdependentes, que funcionam em harmonia na sociedade. Os hábitos, ideias, técnicas, compõem um conjunto, dentro do qual os diferentes membros de uma sociedade convivem e se relacionam. A organização da sociedade, como um elemento desse complexo, está relacionada com a organização econômica; os dois entre si relacionam-se igualmente com as ideias religiosas. O conjunto dessa inter-relação faz com que os membros de uma sociedade atuem em perfeita harmonia.

A cultura é uma herança que o homem recebe ao nascer. Desde o momento em que é posta no mundo, a criança começa a receber uma série de influências do grupo em que nasceu: as maneiras de alimentar-se, o vestuário, a cama ou a rede para dormir, a língua falada, a identificação de um pai e de uma mãe, e assim por diante. À proporção que vai crescendo, recebe novas influências desse mesmo grupo, de modo a integrá-la na sociedade, da qual participa como uma personalidade em função do papel que nela exerce. Se individualmente o homem age como reflexo de sua sociedade, faz aquilo que é normal e constante nessa sociedade. Quanto mais nela se integra, mais adquire novos hábitos, capazes de fazer com que se considere um membro dessa sociedade, agindo de acordo com padrões estabelecidos. Esses padrões são justamente a cultura da sociedade em que vive.

A herança cultural não se confunde, porém, com a herança biológica. O homem ao nascer recebe essas duas heranças: a herança cultural lhe transmite hábitos e costumes, ao passo que a herança biológica lhe transmite as características físicas ou genéticas de seu grupo humano. Se uma criança, nascida numa sociedade bororo, é levada para o Rio de Janeiro, passando a ser criada por uma família de Copacabana, crescerá com todas as características físicas -- cor da pele e do cabelo, forma do rosto, em especial os olhos amendoados -- de seu grupo bororo. Todavia, adquirirá hábitos, costumes, a língua, as ideias, modos de agir da sociedade carioca, em que se cria e vive.

Além desses hábitos e costumes que recebe de seu grupo, o homem vai ampliando seus horizontes, e passa a ter novos contatos: contatos com grupos diferentes em hábitos, costumes ou língua, os quais farão com que adquira alguns desses hábitos, ou costumes, ou modos de agir. Trata-se da aquisição pelo contato. Foi o que se verificou no Brasil do século XIX com hábitos introduzidos pelos imigrantes alemães ou italianos; o mesmo sucedeu em séculos anteriores, com costumes introduzidos pelos negros escravos trazidos da África. Tais costumes vão-se incorporando à sociedade e, com o tempo, são transmitidos como herança do próprio grupo.

É certo que essa transmissão pelo contato não abrange toda a cultura do outro grupo. Somente alguns traços se transmitem e se incorporam à cultura receptora. Esta, por sua vez, se torna também doadora em relação à cultura introduzida, que incorpora a seus padrões hábitos ou costumes que até então lhe eram estranhos. É o processo de transculturação, ou seja, a troca recíproca de valores culturais, pois em todo contato de cultura as sociedades são ao mesmo tempo doadoras e receptoras. Dessa forma, o homem adquire novos elementos culturais, e enriquece seu tipo cultural.

Esses elementos, que compõem o conceito de cultura, permitem mostrar que ela está ligada à vida do homem, de um lado, e, de outro, se encontra em estado dinâmico, não sendo estática sua permanência no grupo. A cultura se aperfeiçoa, se desenvolve, se modifica, continuamente, nem sempre de maneira perceptível pelos membros do próprio grupo. É justamente isso que contribui para seu enriquecimento constante, por meio de novas criações da própria sociedade e ainda do que é adquirido de outros grupos.

Graças às pesquisas em jazidas arqueológicas, tem sido possível recompor ou reconstruir as culturas, o que permite conhecer o desenvolvimento cultural do homem, sobretudo no campo material. É mais difícil, porém, conhecer o desenvolvimento da cultura espiritual, embora muita coisa já se tenha podido esclarecer. De qualquer forma o que se sabe é que, nascida com o homem, a cultura, sofreu modificações ao longo dos tempos, enriquecendo-se de novos elementos e adquirindo novos valores. A cultura acompanha, pois, a marcha da humanidade; está ligada à vida do homem, desde o ser mais antigo. Com a expansão do homem pela Terra, ocupando os grupos humanos novos meios ambientes, a cultura se ampliou e se diversificou em face das influências impostas pelo meio, cujas relações com o homem condicionaram o aparecimento de novos valores culturais ou o desaparecimento de outros.

Sentidos de cultura - Assim, dentro do conceito geral de cultura, é possível falar de culturas e, por isso, se identificam sentidos específicos segundo os quais a cultura é antropologicamente considerada. São quatro, a saber: (1) a cultura entendida como modos de vida comuns a toda a humanidade; (2) a cultura entendida como modos de vida peculiares a um grupo de sociedades com maior ou menor grau de interação; (3) a cultura entendida como padrões de comportamento peculiares a uma dada sociedade; (4) a cultura entendida como modos especiais de comportamento de segmentos de uma sociedade complexa.

O primeiro sentido apresenta aqueles elementos de cultura comuns a todos os seres humanos, como a linguagem (todos os homens falam, embora se diversifiquem os idiomas ou línguas faladas). São aqueles hábitos -- o de dormir, o de comer, o de ter uma atividade econômica -- que se tornam comuns a toda a humanidade.

No segundo sentido, encontram-se os elementos comuns a um grupo de sociedades, como o vestuário chamado ocidental, que é comum a franceses, a portugueses, a ingleses. São diversas sociedades que têm o mesmo elemento cultural; um exemplo é o uso do inglês por habitantes da Inglaterra, da Austrália, da África do Sul, dos Estados Unidos, que, entre si, entretanto, têm valores culturais diferentes.

O terceiro sentido é formado pelo conjunto de padrões de determinada sociedade, por exemplo, aqueles padrões culturais que caracterizam o comportamento da sociedade do Rio de Janeiro; ou as peculiaridades que assinalam os habitantes dos Estados Unidos.

O quarto sentido de cultura refere-se a de modos especiais de comportamento de um segmento de sociedade mais complexa. Uma dada sociedade possui valores culturais comuns a todos os seus integrantes. Dentro, porém, dessa sociedade encontram-se elementos culturais restritos ou específicos de determinados grupos que a integram. São certos costumes que, dentro da sociedade multíplice do Rio de Janeiro, apresentam os habitantes de Copacabana, os de uma favela ou de um subúrbio distante. A esses segmentos culturais de uma sociedade complexa, dá-se também o nome de subcultura.

São esses sentidos que permitem verificar a diferenciação de cultura entre os diversos grupos humanos. Tal diferenciação resulta de processos internos ou externos, uns e outros atuando de maneira diversa sobre o fenômeno cultural. Entre os processos internos, encontram-se as inovações, traduzidas em descobertas e invenções, que, às vezes, surgem em determinado grupo e depois se transmitem a outros grupos, não raro sofrendo modificações ao serem aceitas pela nova sociedade. Os processos externos explicam-se pela difusão: é a transmigração de um elemento cultural de uma sociedade a outra. Em alguns casos o elemento cultural mantém a mesma forma e função; em outros, modifica-as ou mantém apenas a forma e modifica a função.

A caracterização de Herskovits - Todos esses aspectos relacionados com o processo cultural de uma sociedade podem ser analisados à base de alguns princípios. De acordo com a caracterização de Melville Herskovits, a cultura deriva de componentes da existência humana, é aprendida, estruturada, formada de elementos, dinâmica, variável, cumulativa, contínua e um instrumento de adaptação do homem ao ambiente.

A cultura é derivada de componentes da existência humana, ou seja, origina-se de fatores ligados ao homem. São fatores ambientais, psicológicos, sociológicos e históricos, que contribuem para compor a cultura dentro de uma sociedade estudada. Ela é também aprendida, porque se verifica um processo de transmissão dos mais velhos -- pessoas ou instituições -- aos mais novos, à proporção que estes se vão incorporando a sua sociedade. São as chamadas linhas de transmissão, isto é, aqueles meios pelos quais se verifica a aprendizagem da cultura. A família, os companheiros de trabalho, os professores, o esporte, a igreja, a escola, são linhas de transmissão, ou seja, transmitem a cultura, que se torna assim aprendida pelos que se incorporam à sociedade.

Do mesmo modo, a cultura é estruturada, pois tem uma forma ou estrutura que lhe dá estabilidade no respectivo grupo humano, sem prejuízo das possibilidades de mudança, que são imensas. É estruturada no sentido de que, compondo-se de diversos valores, mantém entre eles uma estruturação orgânica.

Constituída de diferentes valores, a cultura forma os complexos que, unidos e inter-relacionados, dão o padrão cultural. A organização social, a língua usada, a organização política, a estética, as ideias religiosas, as técnicas, o sistema de ensino são alguns dos elementos existentes em uma sociedade. Esses elementos dão forma à cultura e a representam, em conjunto, de maneira a caracterizar a sociedade em que se manifestam. Não são iguais, porém, em todas as sociedades; daí a cultura ser variável. A cultura é também cumulativa; vão-se acumulando nela, em face da respectiva sociedade, os elementos vindos de gerações anteriores, sem prejuízo das mudanças que se podem verificar no decorrer do tempo.

Cada geração humana, em determinada sociedade, recebe os elementos vindos de seus antepassados, e ao mesmo tempo vai acolhendo novos elementos que se juntam àqueles. Por isso mesmo, a cultura é também contínua: vai além do indivíduo ou de uma geração, pois continua, mesmo modificada, mas sem interromper sua permanência na sociedade a que pertence. É o continuum cultural que liga cada sociedade a suas raízes mais antigas. Se alguns valores se alteram, desaparecem e são substituídos por novos, outros se mantêm constantes, vivos, geração após geração. Essa continuidade cultural dá à sociedade sua estabilidade, pois apesar das revoluções, invasões, novos contatos com grupos diferentes, o fato é que a cultura permanece, e a sociedade prossegue em sua existência.

Por fim, a cultura é um instrumento de adaptação do homem ao ambiente. É pelos valores culturais que o homem se integra a seu meio. Primeiro, como indivíduo. Ao transformar-se em personalidade que se incorpora a seu grupo, vai adquirindo os hábitos, os usos e os costumes da sociedade a que pertence, de forma a adaptar-se inteiramente a ela. Aprende a língua que deve ser falada; adquire as noções de relações com os companheiros; aprende os mesmos jogos infantis e as mesmas atividades juvenis; adquire uma profissão que atende aos interesses da sociedade. Em segundo lugar, cria instrumentos ou concebe novas ideias, que o capacitam a melhor adaptar-se ao ambiente.

Classificações da cultura - Apesar de formar uma unidade devidamente estruturada, cumulativa e contínua, a cultura pode ser dividida. É o que se chama de classificação de cultura, isto é, a divisão dos valores culturais exclusivamente por necessidade metodológica, ou para fins pedagógicos ou didáticos. Os elementos que integram uma cultura não dominam uns aos outros; unem-se e ajudam a compreender a cultura e seu funcionamento. A classificação ou divisão da cultura é apenas uma necessidade que têm os estudiosos para melhor apreciar os diferentes aspectos dessa cultura. Daí a própria variação dessas classificações ou divisões, em geral conforme as preferências ou pontos de vista em que se coloca cada autor.

A mais antiga classificação se deve ao sociólogo americano William Fielding Ogburn, que em Social Change: With Respect to Culture and Original Nature (1922; Mudança social: referida à cultura e natureza original) dividiu a cultura em material e não-material ou espiritual. A primeira compreenderia todos os elementos capazes de uma representação objetiva, em um objeto ou fato. A segunda seria tudo o que é criado pelo homem, como concepção ou ideia, nem sempre traduzido em objetos ou fatos.

Outras classificações podem ainda ser lembradas. Ralph Linton, baseando-se na constatação de que os fatos culturais resultam das necessidades humanas, dividiu a cultura em: necessidades biológicas, agrupando todos os fatos que correspondem à vida física do homem (alimentação, habitação, vestuário etc.); necessidades sociais, em que se reúnem todos os fatos relacionados com a vida em sociedade (organização social, organização política, ensino etc.); e necessidades psíquicas, que compreendem todos os fatos que representam manifestações de pensamento dos seres humanos (crenças, estética etc.). Melville Herskovits ofereceu a seguinte distribuição dos elementos culturais: cultura material e suas sanções; instituições sociais; homem e universo; estética, linguagem.

Pode-se ainda assinalar a classificação dos elementos culturais, tendo em vista os sistemas operacionais de ação do homem: sistema ou nível adaptativo, em que se verificam as relações do homem com o meio (ecologia, tecnologia, economia); sistema ou nível associativo, em que se estudam as relações dos homens entre si (organização social, família, parentesco, organização política); e sistema ou nível ideológico, onde se compreendem os produtos mentais resultantes de relações entre os homens e as ideias ou concepções (saber, crenças, linguagem, arte etc.).

Uma última observação deve ser feita, em face da aplicação do sentido de cultura: é que muitas vezes se tem confundido, na linguagem menos científica, o sentido de cultura com o de raça ou de língua. Falar-se, por exemplo, de uma raça ariana é um engano, pois o que existe são povos que falaram originariamente as línguas indo-europeias ou arianas, tronco de onde nasceram as modernas línguas faladas na Europa contemporânea. Da mesma forma é um engano falar-se de raça judaica, pois o que existe são elementos humanos, que se aglutinam pela cultura, em particular pelos mesmos ideais ou sentimentos religiosos, e nunca pelas mesmas características físicas.

Convém salientar que as três variáveis -- cultura, raça e língua -- são independentes e não seguem a mesma direção. Encontram-se casos em que persistem as características raciais e se modificam as linguísticas e culturais, como se verificou com os negros da África e na América do Norte ou com os vedas do Ceilão (hoje Sri Lanka). Em outras ocasiões, persistem as características linguísticas e modificam-se as raciais; foi o que sucedeu com os magiares na Europa, vindos de um mesmo tronco linguístico, mas de variada formação racial. Pode também suceder a persistência de características culturais e a modificação das características físicas ou linguísticas. É o exemplo encontrado nos povos chamados latinos. Com tais exemplos, conclui-se que cultura não se confunde com raça ou língua.

Padrão cultural - Em antropologia, a expressão padrão cultural se refere à soma total das atividades -- atos, ideias, objetos -- de um grupo; ao ajustamento dos diversos traços e complexos de uma sociedade. É aquela configuração exterior que uma cultura apresenta, traduzindo o conjunto de valores que expressa essa mesma cultura.

A ideia desse conceito começou a formar-se com o antropólogo americano Franz Boas, que em 1910 afirmou a individualidade da cultura em cada tribo indígena americana por ele estudada. Essa observação decorreu da presença de certos elementos que distinguem determinada cultura. No caso dos grupos estudados, Boas mencionou o conservantismo dos esquimós, sua capacidade de invenção, sua boa índole, seu conceito peculiar da natureza e outros aspectos. Tais elementos não são consequência de simples difusão: resultam, em grande parte, de seu próprio método de vida; e o esquimó mesmo vai remodelando os elementos obtidos de outros grupos, de acordo com os padrões dominantes em seu meio.

A ideia de padrão, em seu sentido antropológico, somente se formulou, no entanto, com a antropóloga americana Ruth Benedict, em sua obra clássica Patterns of culture (1934; Padrões culturais). Estudando as diferentes características das culturas tribais, ela ressaltou que existe um padrão psicológico modelador dos elementos culturais emprestados. Por sua vez, esse mesmo padrão afasta aqueles elementos culturais que a ele não se conformam. A cultura é como o indivíduo, e tem um padrão mais ou menos consistente em seu pensamento e ação. Benedict analisa as culturas dos índios zunis, indicando os padrões culturais de cada um desses grupos, para mostrar o que os caracteriza. Admite, igualmente, uma influência da psicologia gestaltista, que lhe permitiu demonstrar a importância de tratar o todo em lugar das partes e provar que nenhuma análise das percepções separadas pode explicar a experiência total.

Por meio dos três grupos tribais estudados na obra, Ruth Benedict procura explicar, e não apenas expor, as características que cada um apresenta em seu padrão cultural. Apesar da ampla difusão de sua obra e da imensa aceitação de seu conceito de padrão cultural, não se podem negar as críticas feitas a seu método de estudo, traduzidas principalmente nas observações de Robert Lowie; a este se afigurava que o desejo de distinguir um padrão de outro conduz necessariamente a uma tendência de sobreestimar diferenças. Dessa forma podem produzir-se sérias alterações em virtude de uma seleção subjetiva dos critérios. Enfim, a Lowie parecia que se deveriam esperar investigações ulteriores para chegar a uma definição adequada do conceito de padrão.

Escola histórico-cultural - Corrente etnológica que procura explicar o desenvolvimento cultural como processo de difusão, a escola histórico-cultural teve seus primeiros idealizadores na Áustria e na Alemanha, donde o nome com que é também conhecida: escola austro-alemã. O antropólogo e arqueólogo alemão Leo Frobenius é um de seus primeiros nomes. A ele se deve a ideia dos ciclos culturais, de que a constância na associação dos elementos culturais determina a formação de um ciclo -- um conjunto de determinados valores culturais partidos de um ponto único dentro da área ocupada. A área ocupada por esses valores de cultura é o círculo cultural.

Ao mesmo tempo que Frobenius aplicava essa teoria aos povos africanos, o etnólogo Fritz Graebner, em Berlim, estudava, dentro do mesmo critério, os povos da Oceania. Começaram então a surgir as bases dessa nova teoria antropológica, especificamente etnológica, repercutindo sobretudo em Viena, onde o padre Wilhelm Schmidt estudou também a distribuição dos grupos humanos em ciclos culturais. Viena e Berlim tornaram-se os centros fundamentais da formação e desenvolvimento dessa escola, cujos princípios metodológicos estão sistematizados por Graebner, em livro publicado na primeira década deste século, sob o título Methode der Ethnologie (1911; Metodologia etnológica). Também Schmidt publicou um livro com os fundamentos metodológicos da escola histórico-cultural.

Os estudos de Wilhelm Schmidt nem sempre concordaram plenamente com os de Graebner. Surgiram, entre os dois, certas divergências de detalhes que não invalidam, entretanto, o conjunto. Além dos critérios de Graebner, que são o de forma e o de qualidade, Schmidt estabeleceu o princípio de causalidade cultural, quer dizer, apontou a existência de causas externas e internas que incidem na formação da cultura. As causas externas são as que, de fora, influem sobre o homem, tais como as forças físicas e a própria atividade do homem; as causas internas são as vindas de dentro, do próprio grupo, de natureza instintiva. São causas que nem sempre podem observar-se, salvo quando se traduzem em formas concretas.

Uma das divergências entre Graebner e Schmidt era o estabelecimento dos ciclos culturais. Enquanto Graebner considerava os tasmanianos como o povo mais primitivo, Schmidt assim considerava os pigmeus da floresta da África. Ora, um ciclo de cultura caracteriza-se pelo conjunto dos valores culturais existentes naquele grupo, e pode não ter continuidade geográfica. Chegou-se, pois, à evidência de que nem os tasmanianos são mais primitivos que os pigmeus africanos, nem estes mais que aqueles. Cientificamente colocam-se num mesmo plano e, assim, dentro de um mesmo ciclo.

O círculo cultural, além de caracterizar uma distribuição geográfica, considera ainda a história do desenvolvimento cultural e estuda a estratificação dos elementos existentes. Nisso diverge do conceito, mais moderno, de área cultural, que considera territorialmente a existência dos elementos culturais em face de semelhança de cultura material e de condições geográficas. Não considera como importante a reconstituição histórica dos elementos. Baseia-se essencialmente em sua localização. O conceito de área cultural foi um dos traços de diversificação e divergência da escola americana, liderada por Franz Boas, em face da escola histórico-cultural, da qual se originou.

CULTURA: UM CONCEITO ANTROPOLÓGICO
Cultura: Um Conceito Antropológico - Pretende-se aqui delinear a evolução do conceito de cultura, pinçando ideias defendidas no passado tais como, o determinismo biológico, geográfico, antecedentes históricos do conceito de cultura, mostrando a conciliação da unidade biológica e da grande diversidade cultural da espécie humana. O desenvolvimento do conceito de cultura, ideias sobre a origem da cultura e teorias modernas sobre cultura organizacional e, fatores que compõem a cultura brasileira. Porém, ressalta-se que não se pretende esgotar a discussão nesta apresentação, pois a natureza e a amplitude do tema não permite findar esta discussão devido as perspectivas multidisciplinares e das diversas abordagens em que se pode visualizar o emprego e a intersecção do estudo da cultura, tais como a semiótica e a hermenêutica.

Origem da cultura e antecedentes históricos do conceito de cultura - O termo cultura segundo o Novo Dicionário da língua portuguesa significa “ato, efeito ou modo de cultivar. Complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e de outros valores espirituais e materiais transmitidos coletivamente e característica de uma sociedade" (p.508). Porém no final do século XVIII e no princípio do século XIX, o termo germânico Kultur era utilizado para simbolizar todos os aspectos espirituais de uma comunidade, enquanto a palavra francesa Civilization referia-se principalmente às realizações materiais de um povo. Mais tarde Edward Tylor (1832-1917) sintetizou os dois termos no vocábulo inglês Culture, que "tomado em seu amplo sentido etnográfico é este todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade".

Segundo Laraia (1996: 25) com a definição acima apresentada Tylor abrange em suma só palavra todas as possibilidades de realização humana, além de marcar fortemente o caráter de aprendizado da cultura em oposição a ideia de aquisição inata, transmitida por mecanismos biológicos.

Há muito se estuda o comportamento dos animais, inclusive o comportamento do homem, com a finalidade de entender o que o conduz as atividades cotidianas e, as relações entre eles na formação dos grupos e na relação entre outros grupos. Confúcio (VX séc. a C.) enunciou que "a natureza dos homens é a mesma, são os seus hábitos que os mantêm separados" este é um pensamento compartilhado por vários estudiosos até a atualidade, inclusive adotado pelas ciências sociais quando se trata de estudos inerentes a cultura organizacional. Pois, não há como se aceitar algo como bom ou mal, sem uma análise prévia, quando esta não é prática em sua terra, isto vale para práticas de gestão sugeridas a serem adotadas em uma organização. Há que se observar e analisar as possibilidades de adequação.

Segundo Sahlins apud Laraia (1996: 24),

"(...) a posição da moderna antropologia é que a cultura age seletivamente, e não casualmente, sobre o seu meio ambiente, explorando determinadas possibilidades e limites ao desenvolvimento, para o qual as forças decisivas estão na própria cultura e na história da cultura."

Apesar da evolução do conceito de cultura demonstrar que as questões biológicas e geográficas não interferem nas ações humanas, ainda existe alguns resquícios no que diz respeito as questões referentes a supremacia de raça (inteligência) e da melhor localização geográfica (nordeste brasileiro).

Desenvolvimento do conceito de cultura - O determinismo biológico, bem como o geográfico são ideias que no passado foram consideradas relevantes para conceituar cultura. Com o passar do tempo diversas investigações foram realizadas e chegou-se a conclusão de que estas teorias, apesar de terem sido importantes para o entendimento de algumas dimensões da natureza humana, apresentando limitações e inconsistência para o entendimento do conceito de cultura. Aí então, inaugura-se uma nova fase de estudos e interpretação de culturas.

Segundo Leibniz apud (Laraia, 1986) a natureza nunca age por saltos, analogamente conclui-se que, a cultura também não age por saltos, ela é resultado do acúmulo das ações dos homens, que inclusive altera a própria natureza, pois é necessário compreender a época em que se viveu e consequentemente o background intelectual de quem ou do que está se analisando.

A comunicação é um instrumento decisivo para a assimilação da cultura, pois a experiência de um indivíduo é transmitida aos demais, criando assim um interminável processo de acumulação permeado por valores cristalizados, o que nos leva a afirmar que a linguagem humana é um produto da cultura. Daí a necessidade de identificar as determinadas formas de comunicação que atinja todos as pessoas da organização quando da transmissão de uma mensagem.

Pois, para Hoebel apud (Barros & Prates, 1996: 15),

"O homem é o único animal que fala de sua fala, pensa o seu pensamento, que responde à sua própria resposta, que reflete o seu próprio reflexo e é capaz de diferenciar-se mesmo quando está se adaptando as causas comuns e estímulos comuns".

Comportamentos compartilhados são componentes da cultura o que nos leva inclusive a afirmar que, teorias behavioristas (Watson - condicionamento), Cognitivista (Piaget-psicogenética) quando aplicadas, mesmo que inconscientemente por um grupo de pessoas determinam algumas características culturais em relação ao padrão de comportamento. Normas impostas por organizações determinam padrões de comportamento, marcando de forma indelével a cultura organizacional. Portanto, pode-se afirmar que diferenças culturais não são genéticas e sim adquiridas no decorrer do tempo.

"Possuidor de um tesouro de signos que tem a faculdade de multiplicar infinitamente, o homem é capaz de assegurar a retenção de suas ideias (...), comunicá-las para outros homens e transmiti-las para os seus descendentes como herança sempre crescente." (Turgot apud Laraia 1986, 27).

De acordo com Kluckhohn apud Geertz (1989: 14) cultura pode ser vista como:
“...o modo de vida global de um povo; 2) legado social que o indivíduo adquire do seu grupo; 3) uma forma de pensar, sentir e acreditar; 4) uma abstração do comportamento; 5)Uma teoria, elaborada pelo antropólogo, sobre a forma pela qual o grupo de pessoa se comporta realmente; 6) um celeiro de aprendizagem em comum; 7) um conjunto de orientações padronizadas para os problemas recorrentes; 8) comportamento aprendido; 9) um mecanismo para regulamentação normativa do comportamento; 10) um conjunto de técnicas para se ajustar tanto ao ambiente externo como em relação aos outros homens; 11) um precipitado da história.”

Ao correlacionar o conceito de cultura apresentado por Kluckhohn com a "praxis" organizacional, emerge daí padrões de comportamento (normas), processo de adaptação (símbolos e signos), tecnologia e componentes ideológicos (religião, mitos, cerimônias), ou seja, valores compartilhados pelos membros da organização, resultado do processo de individuação, isto é, de atitudes individuais que ao mesmo tempo que interfere no comportamento do grupo, interfere na atitude individual de cada membro da organização, resultando numa configuração impar de cultura organizacional.

Teorias modernas sobre cultura - A utilização da antropologia para a análise organizacional deve-se ao fato de que esta área do conhecimento consegue abranger as dimensões da linguagem, do simbolismo, do espaço, do tempo e da cognição. A abordagem antropológica intensificou-se na década de 80, inclusive gerando críticas pelo uso acrítico, explicando tudo e qualquer coisa através do conceito de cultura. Porém, para seus defensores o grande mérito desses estudos foi justamente chamar a atenção para a dimensão simbólica que permeia a organização e os seus grupos. A necessidade de encontrar os significados das relações entre os elementos da cultura de uma organização e que dão sentido ao quotidiano das mesmas justifica o apelo ao estruturalismo, do qual Geertz (1989) é um dos representantes.

Para Geertz (1989: 15) o conceito de cultura é essencialmente semiótico, que vem de encontro com o pensamento de Max Weber "que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu". Geertz concebe a cultura como uma "teia de significados" que o homem tece ao seu redor e que o amarra. Busca-se apreender os seus significados (sua densidade simbólica).

Um dos métodos utilizados para entender a cultura é a descrição etnográfica que se baseia nas palavras dos informantes e o pesquisador interpreta-a e compartilha os significados juntamente com seus informantes, ou seja, aqueles que na verdade possuem o roteiro simbólico do que concebem e articulam logicamente entre suas visões de mundo. O respeito rigoroso à visão que os nativos têm sobre os aspectos analisados (sobre si mesmo, seus conhecimentos e práticas cotidianas, sua concepção do mundo) é fundamental.

Ao se analisar a cultura organizacional sob a ótica antropológica, faz-se necessário interpretar e decodificar a visão de mundo subjacente aos sistema de gestão utilizados e praticados pelas organizações. Pois a prática etnográfica estabelece relações e sendo assim é dialógica, ou seja é uma via de mão dupla, na qual o mesmo objeto ou fato deve ser visto e sentido do mesmo modo, o que requer uma descrição densa do que se está diagnosticando, que segundo Goodenough apud Geertz (1989: 21) "a cultura (está localizada) na mente e no coração dos homens".

Alguns estudiosos contemporâneos tal como Schein, apresentam alguns modelos para diagnosticar a cultura organizacional. Para Schein apud Monteiro et.al.(1999: 74) as categorias para investigar o universo cultural de uma organização são:

1) Analisar o teor e o processo de socialização dos novos membros;
2) Analisar as respostas a incidentes críticos da história da organização;
3) Analisar as crenças, valores e convicções dos criadores ou portadores da cultura;
4) Explorar e analisar junto a pessoas de dentro da organização as observações surpreendentes descobertas durante as entrevistas.

As categorias apresentadas por Schein vem sendo largamente utilizadas nas investigações sobre cultura organizacional, inclusive se tem chegado a algumas conclusões tais como: a importância do papel dos fundadores da organização no processo de moldar seus padrões culturais, que imprime sua visão de mundo aos demais membros da organização e, também sua visão do papel que a organização deve desempenhar no mundo.

Dentre os estudiosos da atualidade encontra-se Fleury, que apresenta o seguinte conceito de cultura organizacional:

“Cultura organizacional é um conjunto de valores e pressupostos básicos, expressos em elementos simbólicos que, em sua capacidade de ordenar, atribuir significações, construir a identidade organizacional, tanto agem como elementos de comunicação e consenso, como ocultam e instrumentalizam as relações de dominação.” (Fleury, 1991: 06).

Smircich apud Monteiro et al. (1999: 73-74) propõe duas linhas de pesquisa a serem seguidas na investigação da cultura organizacional que são:

1) A cultura como uma variável, como alguma coisa que a organização tem, estas variáveis são independentes externa (cultura da sociedade onde a organização está inserida) e interna (produtos culturais como lendas, ritos, símbolos).

2) A cultura como raiz da própria organização, algo que a organização é, considerando a organização como um fenômeno social.

A cultura não é determinante nas tomadas de decisões em uma organização, mas influencia sobremaneira nas diretrizes e práticas a serem adotadas, pois é um instrumento de poder a ser utilizado pelos gestores.

Uma visão antropológica - Para Beyer & Trice (1986), o rito se configura como uma categoria analítica privilegiada para desvendar a cultura das organizações, que é composta por redes de concepções, normas e valores, que são tão tomados por certos que permanecem submersas à vida organizacional. Para Horton & Hunt (apud Fleury, 1989), a cultura é tudo aquilo que é apreendido e partilhado pelos membros de uma sociedade. Esse conceito utiliza-se do método funcional, ou seja, a sociedade sofreu segmentação causada pela divisão de trabalho. Para Hofstede (apud Fleury, 1989), a cultura se baseia em modelo de pensamento que se transfere de pessoa para pessoa. Apesar desses pensamentos situarem-se na mente das pessoas, ficam cristralizados nas instituições e nos produtos tangíveis de uma sociedade.

Já para Horton & Hunt (1980), a cultura é tudo aquilo que é socialmente apreendida e partilhada pelos membros de uma sociedade. Desta forma, conclui-se que a antropologia funcional explica a gênese da cultura de uma sociedade e que as subculturas nasceram dentro deste mesmo processo funcional, pelo motivo de a sociedade ter sofrido segmentação causada pela divisão de trabalho e ainda que cultura é adequada por surgir uma necessidade a ser satisfeita, e se manteve porque se provou ser conveniente para um fim colimado.

Lakatos (1979) define que a cultura é um modelador de comportamento e está presente em qualquer agrupamento de pessoas com características próprias a cada um deles. Malinowski (1965) afirma que a cultura não é estática e que acompanha as modificações da sociedade; desta forma conclui-se que a organização formal é dinâmica e assim se transforma de acordo com as interações sociais.

Assimilação CulturalAssimilação Cultural - Assimilação cultural é o processo pelo qual um ou mais grupos numericamente mais fracos se ajustam progressivamente à cultura preponderante. Nas ciências sociais define-se assimilação como o processo pelo qual um grupo minoritário estabelece interação desvinculada de constrangimento com a sociedade inclusiva. Assim, desaparecem as barreiras impostas pela discriminação baseada na cor da pele, no credo religioso e na ideologia política.

Uma vez desencadeado o processo de contato interétnico, os indígenas do Brasil, cujos contingentes populacionais são extremamente minoritários em relação à população global, viram-se diante de duas alternativas: extinguir-se como grupo ou perder gradativamente a cultura original.

Para os antropólogos que se dedicam ao estudo das  sociedades tribais, o termo assimilação pode ser usado não só para designar o nível superior de aculturação, mas também para denominar todo o processo, que se inicia a partir do momento em que as minorias entram em contato sistemático com a cultura do grupo majoritário da sociedade. Nesse caso, a assimilação é avaliada em termos gradativos.

Como última instância do processo de aculturação, a assimilação se distingue da integração. Diz-se que  um grupo tribal está integrado à sociedade maior quando, apesar de haver perdido progressivamente os elementos básicos de sua cultura, como organização social característica, religião e língua, conserva um sentimento de auto-identificação étnica, se qualifica como diferente da maioria e é vista por ela como diferente.

Em relação ao processo como um todo, a assimilação tem início quando se fazem os primeiros contatos com as frentes de expansão pioneiras da sociedade envolvente, exemplificadas pelas entradas e bandeiras do Brasil colonial. Gradativamente, os padrões culturais da sociedade envolvente vão sendo impostos à sociedade indígena, que passa a sofrer um processo de destribalização, caracterizado pela perda de seus  valores tradicionais.

Cultura Afro-AmericanaCultura Afro-Americana - Ao final da violência, uma ironia. Pode-se sintetizar assim o processo que fez dos negros, transplantados à força para a América, uma das correntes mais fortes a participar da cultura que o Novo Mundo criou.

A cultura afro-americana compreende o grande conjunto de sobrevivências culturais africanas que podem ser encontradas nas Américas. Da música à culinária, das danças à religião, é quase impossível pensar atualmente num domínio da vida em que a presença dos afro-americanos, antes escravos oprimidos, não tenha adquirido com o tempo um papel de relevo-- e muitas vezes de supremacia.

Não se sabe ao certo o número de africanos transportados para a América, com os quais se iniciou todo esse longo processo; os historiadores hesitam entre a cifra de 12 milhões e a de cinco a seis milhões. Sabe-se, porém, que a população escrava foi submetida a uma tal pressão de aculturação, que as sobrevivências africanas encontradas na América não provêm em linha direta do tráfico dos séculos XVII e XVIII (exceto no caso dos quilombolas, ou negros refugiados em quilombos). Essencialmente, provêm do comércio negreiro do século XIX, mais próximo da supressão do trabalho servil e , por conseguinte, da possibilidade de que os africanos recuperassem a parte da cultura nativa adaptável ao novo meio.

O tráfico escravista trouxe para a América negros de diferentes etnias. Os grupos procedentes da África oriental (Moçambique, Angola e Congo) falavam dialetos da língua banto; os da África ocidental (Nigéria, Daomé e Costa do Ouro), dialetos da língua sudanesa. Esses negros diferenciavam-se não só pelos traços culturais (língua,gênero de vida e costumes) mas também pela constituição física. Ao mesclarem-se aos colonos europeus e às populações indígenas, sofreram toda sorte de influências, ao mesmo tempo em que contribuíam para a formação do contexto sociocultural americano.

Tanto os antropólogos que valorizam o número e a importância dos afro-americanismos (como Herskovits), quanto aqueles que, pelo contrário, os minimizam (como Frazier), reconhecem que os negros foram submetidos a pressão social exterior e forçados a se aculturarem. Voluntária e sistematicamente, os brancos tentaram destruir as culturas de seus escravos. No Brasil, por exemplo, os senhores proibiram que as religiões tradicionais africanas se manifestassem. Mas, como compensação à dureza do trabalho imposto, permitiram que seus escravos cantassem e dançassem nos domingos e feriados. Como os bantos predominavam entre os trabalhadores rurais, seu folclore se manteve, enquanto a religião se desagregava.

Domínio religioso. É no domínio da religião que os afro-americanismos têm sido mais bem estudados. Os cultos dos negros muçulmanos, genericamente chamados de malês, mantiveram-se no Brasil até o século XIX, mas depois de suas revoltas na Bahia, onde eram mais numerosos, tais cultos praticamente desapareceram.

A religião dos fons manteve-se numa confraria de São Luís do Maranhão, a Casa das Minas, irradiando-se dali para outras seitas africanas do estado, que apresentam um sincretismo muito curioso do orixá, Nagô, e do vodum, Fon. Projeções da mesma manifestação chegaram também à Amazônia, onde o culto dos voduns se vinculou, num segundo sincretismo, à pajelança dos índios, da qual constitui a linha africana.

Os bantos, depois de um primeiro período de autonomia religiosa, que se conhece através de documentos históricos, assistiram à transformação de seus cultos. Por um lado, esses deram lugar à macumba; por outro, amoldaram-se às regras dos candomblés nagôs, não se distinguindo deles senão por uma maior tolerância. Os cultos bantos em gradativo declínio acolheram os espíritos dos índios, o que iria levar ao surgimento de um "candomblé de caboclos", e adotaram cantos em língua portuguesa, ao passo que os candomblés nagôs só usam cantos em língua africana.

A religião negra que mais sobreviveu no Brasil foi a dos iorubas, encontrada no Nordeste e no Sudeste, particularmente nos candomblés da Bahia e de Alagoas, nos xangôs de Recife, e no Sul (o batuque do Rio Grande do Sul). Os afro-brasileiros acreditam num deus supremo, Olorum, mas como na África, não lhe prestam culto; este é dirigido a divindades inferiores, os orixás, que são as mesmas dos iorubas da Nigéria. Cada um deles preside a uma força da natureza (o raio, o mar, a água doce) ou a uma atividade social (guerra, metalurgia, amor).

Os orixás têm dois nomes: um de origem africana (Xangô, Obatalá, Iansã, Iemanjá) e outro católico (são Jerônimo, Jesus, Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa Senhora dos Prazeres). São adorados pelos membros de uma confraria, especialmente feminina, na qual se ingressa através de um ritual de iniciação cujas sequências-- desde o banho da candidata na água lustral até ao sundido ou banho de sangue-- são exatamente iguais aos rituais da iniciação ioruba na África.

No decorrer de danças extáticas, os deuses são invocados através de três tambores cerimoniais. Descem então sobre seus "cavalos"brasileiros e os fazem redramatizar por gestos, como num teatro sacro, os grandes mitos da cosmogonia africana: a luta dos dois irmãos (Ogum e Xangô) pelo amor de Oxum, a viagem de Oxalufon ao encontro de seu filho Xangô (ritual da água de Oxalá, que inicia o ano litúrgico), as aventuras amorosas de Obá etc.

As confrarias de culto são dirigidas por uma complexa hierarquia de sacerdotes. Em seu vértice se encontra, na tradição proveniente dos bantos, um homem, o babalorixá (sempre assistido por uma mulher, a Mãe Pequena), e, entre os nagôs, uma mulher, a ialorixá (sempre ao lado de um homem, o "proprietário"do peji). O culto dos antepassados ou egun, paralelo ao dos orixás, ora é feito na "casa dos mortos"de cada candomblé, ora através de uma confraria especial, composta apenas de homens, como as que celebram a festa dos antepassados na ilha de Itaparica.

Em Cuba, como no Brasil, prevalece a mesma religião ioruba, sob o nome de lucumi, conservando porém melhor a memória dos mitos. Encontram-se em Cuba os mesmos rituais,com as mesmas regras básicas, e os mesmos  orixás, só que com um sincretismo diferente (Xangô por exemplo não se identifica, como na Bahia, com são Jerônimo, mas sim com santa Bárbara). Além disso, encontram-se em Cuba um culto congo, essencialmente masculino, e uma religião levada pelos efiks, ou pelos efors do Calabar, que tomou a forma de sociedade secreta e na qual se redramatiza o mito africano da descoberta da voz misteriosa, ekué, que é a voz de Deus.

No Haiti, predomina a religião dos fons, sincretizada com a devoção aos santos católicos, que se tornou de certa forma a religião oficial de toda a comunidade camponesa. De fato, o vodu haitiano continua a ser o do Daomé, cultuando as mesmas divindades -- como Legba, que abre os caminhos; Ayzam Velequeti, que protege os mercados;ou Agoué, que rege o mar --, às quais se acrescentam outras de procedência ioruba (Ogum, Assang). Uma nota à parte foi o papel político que o vodu haitiano assumiu ao fortalecer a solidariedade dos negros em suas lutas vitoriosas contra os franceses. Mas, com a independência do país, as relações entre o Haiti e a África foram cortadas no início do século XIX. Em consequência, deixando de ser alimentado por novas contribuições africanas, o voduísmo perdeu traços de sua origem para ganhar cada vez mais caráter nacional, com a incessante formação de novos vodus crioulos.

Domínio do folclore. O folclore é o segundo campo em que os afro-americanismos foram mais estudados. A bibliografia a esse respeito (coleta de cantos, contos, provérbios, estudos críticos) é enorme. Enquanto as sobrevivências religiosas se limitam a certas regiões privilegiadas, o folclore de origem africana se estende por toda a América negra, dos Estados Unidos ao rio da Prata. Assim, esse folclore permite que os nacionalismos americanos ressaltem melhor a originalidade cultural da América em relação à Europa.

Se as sobrevivências religiosas são originárias da África ocidental, as sobrevivências folclóricas provêm fundamentalmente do mundo banto. Em Nova Orleans dançava-se a bamboula no terreiro dos congos, e mais tarde a cabinda; além disso, o folclore oral de origem africana espalhou-se por todo o sul dos Estados Unidos, graças às amas negras.

No México, os negros introduziram as ombligadas (danças com entrechoques dos umbigos); no Equador, a bomba; na Colômbia, o cullarengue, o currulao, o bambuco, bem como um folclore oral completo que foi recolhido, entre outros, por Rogério Velásquez; na Venezuela, as danças dos chimbangueleros, do malembé, do sangueo; na Argentina, Peru, Bolívia, a zamacueca(sincretizada com o flamenco andaluz), a calenda (com umbigadas), a bamboula (dança de bastões), o candomblé (que não se deve confundir com o candomblé brasileiro, por se tratar de uma dança profana e não religiosa).

Ao Haiti a África forneceu um elenco particularmente rico de contos, provérbios, adivinhações, instrumentos musicais, danças como a kalenda ou a bottonie e jogos de crianças como o abó e as combites. As Antilhas francesas conhecem por sua vez os contos de animais e certo número de provérbios de origem africana; no entanto, a célebre dança dessa região, o merengue, é mulata, e não negra.

No Brasil, o folclore de origem africana é muito rico e igualmente de procedência banto. Com nomes diferentes segundo as regiões -- bambelho, jongo, batuque ou samba (da palavra angolana semba) -- ocorre a mesma dança: ou em duas filas de homens e mulheres, frente a frente, com um par que se afasta, a fim de dar uma umbigada, ou numa roda única, igualmente com um par separado ou uma única moça, que dança, com acompanhamento de cantos improvisados ou de torneios entre os cantores. O afoxê do carnaval da Bahia parece representar uma reminiscência dos cortejos reais do Congo.

A capoeira, de Angola, antigamente praticada pelos valentões, perdeu o caráter agressivo devido às perseguições policiais, transformando-se numa luta corporal de intensa beleza plástica.
Os contos africanos se mantiveram, podendo ser divididos em dois tipos: contos de animais, cuja origem é difícil de ser identificada, uma vez que existem variantes em diversas etnias africanas, e contos de grande fantasia, que também têm correspondentes africanos.

Domínio musical. Do ponto de vista musical, é profunda a influência dos negros no contexto da América. Os africanos cantam e dançam em todas as circunstâncias: quando alguém nasce, casa ou morre, quando trabalham ou guerreiam e, sobretudo, nas cerimônias religiosas. Nenhuma cerimônia, por mais elementar que seja, far-se-á sem o concurso dos pontos ou toadas, marcados forte e ritmicamente pelos tambores. São os ritmos dos atabaques que fazem baixar os "santos"ou orixás, que provocam o estado de "possessão"ou transe, que determinam a coreografia da dança e, por vezes, parecem mesmo falar pela divindade.

O tamborileiro ocupa posição de destaque na hierarquia dos valores, tanto na sociedade africana quanto nos grupos afro-americanos. Dele depende todo o desenvolvimento do cerimonial. É o tamborileiro que estabelece a comunicação com os deuses, pois só ele conhece o ritmo, a batida que faz a divindade baixar. Os orixás contam com toques rítmicos, cânticos e danças próprias, com cujos passos e atitudes a pessoa incorporada deve se identificar. Assim, se estiver em causa Ogum, o deus da guerra, seus fiéis empunham espadas para simular uma coreografia de combates. As danças chegam com frequência a um clímax em que os fiéis, ao som dos atabaques, executam coreografias fantásticas em estado de grande exaltação.

Os pontos ou cantigas do candomblé baiano ainda estão impregnados de ritmos e melodias que atestam a procedência africana. O repertório litúrgico dos rituais, muito variado e cantado em língua nagô, constitui um mundo próprio dentro da música popular brasileira. As melodias, em geral de curta duração, repetem à exaustão seus motivos para evidenciar todas as características da música, que provoca um estado similar ao delírio.

Vários musicólogos já observaram que a concepção africana do ritmo é bem mais complexa do que a europeia, e é justamente o elemento rítmico o que mais se destaca na música surgida na América sob influência negra. A função do atabaque ou tambor na marcação das danças assume tanta importância que muitas vezes ele passa a designar a própria dança. Assim se vê no carimbó, nome dado ao atabaque na ilha de Marajó, que significa ao mesmo tempo o tambor e a dança. Da mesma maneira, a palavra caxambu, em Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro, indica a dança e o atabaque.

Um ruidoso acompanhamento instrumental de percussão marca os folguedos chamados congos, congadas ou ternos de moçambique, que em geral são vistos como o que há de mais especificamente africano no folclore brasileiro. Sua temática fundamenta-se em costumes sociopolíticos das terras de origem. Nos congos, em meio a bailados, exibições de agilidade e danças de bastões ou espadas para marcar o ritmo, é sempre feita a coroação do rei negro, enquanto embaixadas e cortejos dialogam sobre a paz ou a guerra.

No folclore musical dos Estados Unidos, onde se encontram os primeiros indícios do notável papel reservado aos negros na música contemporânea de expressão pessoal, a forma mais significativa é o spiritual (cântico espiritual). Sua origem remonta às grandes plantações do sul do país, no século XVIII. Derivados dos hinos e salmos que missionários metodistas e batistas difundiam entre os escravos, os spirituals foram assimilados pelos negros, que lhes imprimiram com o tempo sua marca, com letras, imagens, vocabulários próprios. Cantados como canções de trabalho e nas ocasiões mais diversas, os negro spirituals acabaram por romper os limites de expressão coletiva e do folclore, para darem inspiração, já no século XX, a canções de protesto.

Outro tipo de canção americana de proveniência negra é o blues, que não teve origem em corais, ao contrário do spiritual, e sempre foi forma compatível com a expressão da alma lírica. O blues, que, devido à sua estrutura, exige de quem canta qualidades de voz muito especiais, tornou-se posteriormente música urbana popular, com acompanhamento instrumental de banjo e depois de piano.

Desde o início do século XIX, e por muitas décadas, os minstrels, grupos de artistas brancos que costumavam pintar o rosto de preto, passaram a difundir os cantos e as danças dos negros em apresentações de muito sucesso. Coube aos minstrels, em particular, tornar conhecidas as plantation melodies, que iriam inspirar um dos maiores cancionistas dos Estados Unidos, Stephen Collins Foster. Na música popular de seu país, Foster marcou uma fase muito importante do nacionalismo de inspiração africana. No século XX, muitos outros, como George Gershwin, apropriaram-se dos fundamentos afro-americanos para revalidá-los em música de expressão pessoal.

A pan-mistura. No estudo das infinitas facetas da cultura afro-americana, os especialistas veem-se freqüentemente às voltas com um cipoal de sincretismos que tornam tarefa ingrata estabelecer distinções bem nítidas. Muitos falam por isso de uma pan-mistura, termo que pretende indicar que tanto os negros quanto os brancos apropriaram-se, ao longo da história, de elementos culturais que na origem pertenceram apenas a um ou outro dos grupos. Sob esse enfoque, já se observou por exemplo que poucas melodias europeias escaparam em Cuba à transformação pelos negros, e que a orquestra típica cubana é na verdade uma pan-mistura de instrumentos oriundos da Europa e da África.

Apesar disso, é também hábito, por questão metodológica, fixar certos limites entre o folclore africano e o folclore tipicamente crioulo. A parte mais notável do folclore crioulo seriam justamente danças e músicas que ora os brancos aprenderam com os negros, ora os negros recolheram dos brancos, transformando-as a tal ponto, num caso ou em outro, que as novas criações já não revelam suas verdadeiras raízes. O tango argentino, a habanera cubana e o calipso das Antilhas anglo-saxãs são exemplos do estoque negro metamorfoseado na execução dos brancos, assim como o jazz norte-americano é o exemplo mais conhecido de africanização da música originalmente branca.

Por processo análogo, as cavalhadas de origem hispânica, do Brasil meridional, tiveram seu sentido alterado com a participação dos negros, através da luta simbólica entre cristãos e mouros. As pastoris de Natal, que de início, na época colonial, eram festas privativas dos brancos da alta sociedade, foram da mesma forma adotadas pelos negros, que as transformaram em desfiles de fim de ano.

Um dos fenômenos mais ricos de africanização de um folclore europeu é o carnaval, onde as molas propulsoras, seja no Brasil, no Haiti e em quase toda a zona caraíba, são as expressões corporais e as batucadas dos negros. Artur Ramos definiu o carnaval do Rio de Janeiro como a fronteira entre a cultura africana e a cultura branca europeia, considerando-a sem limites precisos, como um ponto de fusão entre instituições e culturas. Em sua época (1935), apontou o totemismo, as realezas africanas, as danças antigamente perseguidas pela igreja e pelo estado como contribuições fundamentais da cultura negra ao carnaval carioca.

Nos campos em que se articula e expressa a vida cotidiana, uma causa associada à postura de dominação dos senhores parece ter influído para ceder amplo espaço à atividade criadora dos que a eles se sujeitavam. Não convindo aos brancos, por razões sociais, sujar as mãos, a maior parte das tarefas materiais cabia aos escravos. Estes puderam assim abrir caminho para a irrupção de afro-americanismos de monta no artesanato, na cozinha, na produção de medicamentos caseiros, nas técnicas de plantio ou colheita e outras áreas vinculadas à execução do trabalho. Alguns historiadores já notaram que os escravos de Minas Gerais introduziram processos de mineração, trazidos da Costa do Ouro, que se mostraram mais eficazes que os instrumentos europeus de recolhimento das pepitas.

No Brasil, o candomblé e os cultos congêneres formaram um domínio propício à expansão da inventividade plástica. Além dos três atabaques de uso consagrado na Bahia -- um pequeno (lé), um médio (rumpi) e um grande (rum) --, os rituais podem incluir outros instrumentos que são também obras de artesanato de extraordinário valor. O agogô, a cuíca, a cabaça, o berimbau, quer participem dos cultos, quer do carnaval ou folguedos, salientam-se no elenco dos afro-americanismos, não só pelo engenho como são concebidos, mas também por suas formas e o que nelas se expressa.

À beleza dos instrumentos, à desenvoltura das danças e ao ritmo contagiante das músicas corresponde a plasticidade do corpo, com que os negros suplantaram na América a compostura dos brancos. Há maneiras de olhar, sorrir, gestos, cafunés e requebros que a África inoculou pouco a pouco e hoje se confundem de todo na pan-mistura dos povos.

A expressão vocal associa-se naturalmente à expressão corporal. Assim como aconteceu com o inglês, na Jamaica ou no sul dos Estados Unidos, por exemplo, o espanhol e o português da América Latina sofreram alterações expressivas sob a influência das falas africanas. A alteração das sílabas átonas, a síncope da pré-tônica, o desaparecimento das nasais iniciais das palavras, a transformação do o final em u, a supressão do r e a aférese são alguns dos fenômenos já observados no caso. No que se refere ao português do Brasil, Gilberto Freire garantiu que os negros contribuíram para abrandá-lo, embora nem todos os linguistas sejam tão taxativos.

Menos sujeita a discussões é a contribuição específica com que os africanos enriqueceram o vocabulário dos países aos quais chegaram, nele introduzindo palavras de origem quimbunda, effik, fanti-ashanti, ewe, haussa, ioruba e senegalesa. Disseminadas por áreas de comunicação muito amplas, tais palavras se destacam, contudo, por seu emprego mais frequente nos domínios onde a participação africana foi mais forte, como a culinária e o trabalho, a medicina popular e a botânica, a religião e a magia. Em várias partes da América, esse processo de incorporação de termos mostrou-se tão radical que conduziu à formação de línguas totalmente híbridas, como o taki-taki crioulo falado no Haiti.

O crescente processo da urbanização, no século XX, mostrou de modo bem claro que a cultura afro-americana não ficou parada no tempo. Ao desligar-se em grande parte das origens rurais em que se plasmou, revestiu-se também de novas formas que lhe atestam o dinamismo. Nos Estados Unidos, o processo foi notado sobretudo na música. Dos cânticos agrários de expressão coletiva, os negros passaram aos blues dolentes, nutriram de modelos as canções de protesto, tornaram-se malabaristas do jazz e desaguaram no soul. Uma orquestração curiosa, onde as trajetórias da música parecem corresponder de perto a uma evolução da consciência política.

No Brasil, a radicalização do modo urbano de vida causou uma mudança dinâmica, e também radical, nas tradições religiosas de procedência africana. As diversas confrarias (fon, ioruba, banto) ainda ativas no Rio de Janeiro, no início do século XX, não puderam reter por muito tempo sua integridade de antes. Tiveram de se abrir à mistura, para sobreviver, e anexar a seu patrimônio as contribuições oriundas das seitas populares ameríndias. Foi assim que se formou a macumba, que Artur Ramos definiu como um sincretismo jeje (fon), nagô (ioruba), musulmi (islã-negro), banto, caboclo (índios), católico e espírita.

Como o carnaval e a música, a macumba uniu negros e brancos, tornando-se um ponto de fusão indistinta onde é difícil saber quem prevalece -- e como. As filhas-de-santo transformaram-se em médiuns, e as possessões que acompanhavam cantos e danças, depois de feita a fusão, tanto representam os espíritos dos mortos (entre os iorubas e os fons) ou espíritos da natureza (entre os índios).

Por ser aberta à possibilidade de receber espíritos de mortos, foi que a macumba se tornou permeável, por outro lado, à influência do espiritismo. Tornou-se mesmo, num segundo momento, uma forma particular de espiritismo, o espiritismo da umbanda, oposto ao de Alan Kardec, que seria antes de tudo um espiritismo de brancos.

Há quem veja na umbanda, de maneira simbólica, uma evolução que assinala o processo de integração dos negros na sociedade brasileira de classes, após seu longo período de marginalidade ostensiva. Os descendentes de africanos, sob esse prisma, teriam se inclinado a criar uma nova religião, que não seria nem puramente europeia, como o catolicismo, nem puramente africana, como o candomblé, mas que daria uma expressão mais perfeita ao casamento original das três raças de cujo sangue se constituiu o Brasil.

Cultura Araucana - Unidos mais por vínculos linguísticos que por homogeneidade étnica, os araucanos ocuparam, nos tempos pré-colombianos, os vales e as áreas férteis do centro do Chile, de Coquimbo, ao norte, à ilha de Chiloé, ao sul, embora sua influência se estendesse até a atual região de Buenos Aires. A sociedade araucana era estruturada em grupos tribais unidos por laços de consanguinidade e governados por caciques.

Habitantes do território hoje correspondente ao Chile, os araucanos, que receberam esse nome dos conquistadores espanhóis no século XVI, foram um dos povos ameríndios que por mais tempo conservaram sua independência.


As principais tribos eram as dos picunches, mapuches, huiliches e pehuenches. Esses povos, que habitavam regiões compreendidas na área de influência cultural do império inca, baseavam sua economia no cultivo de milho, batata, feijão e outros vegetais, assim como na caça, praticada com arco e flecha, e na pesca. Nos trabalhos agrícolas, de caráter comunitário, desenvolveram apuradas técnicas de irrigação. Domesticavam lhamas, alpacas e vicunhas. Sua cerâmica era tosca.

Depois de se baterem contra os colonizadores espanhóis e mais tarde contra as forças do governo do Chile, que se tornara independente em 1818, os araucanos foram vencidos e trasladados para reservas situadas no sul do país. Suas antigas terras foram entregues, para colonização, a imigrantes alemães, franceses e suíços. Mais de 250.000 índios araucanos vivem atualmente no Chile e na Argentina, mas sua cultura tende a degradar-se progressivamente.

Cultura La Tène Cultura La Tène - Cultura que floresceu entre os séculos V e I a.C.,   La Tène corresponde à idade do ferro da civilização celta e coincide com sua expansão para o norte da Europa e as ilhas britânicas. Os grandes cemitérios do início da cultura La Tène, decorados com vasos etruscos de bronze, cerâmicas gregas e joias em ouro, prata ou bronze, são indícios da existência de uma sociedade em plena renovação. A influência greco-etrusca não impediu que se afirmasse um estilo típico. Tudo o que se conhece sobre a cultura de La Tène provém do sítio arqueológico descoberto na embocadura do rio Thièle, na margem norte do lago Neuchâtel, Suíça.

Os arqueólogos reconhecem quatro períodos para La Tène. No período A (450-400/390 a.C.), quando ocorreram os primeiros contatos com influências gregas e etruscas do sul dos Alpes, criou-se o estilo característico de desenhos em forma de S, espirais e padrões circulares. No período B (400/390-c.300 a.C.) dissolveu-se a unidade, por força das migrações célticas, mas mantiveram-se certas características, como as longas espadas de ferro, os pesados facões, as pontas-de-lança e os túmulos horizontais ou cobertos por montes de pedra.

No período C (c.300-c.100 a.C.) mantiveram-se os padrões do anterior, mas ocorreu uma interpenetração da cultura primitiva com a nova. Dentre as peças de metal desse período, salientam-se as espadas de ferro com bainhas decoradas, cintos de corrente de ferro, chuços pesados e de folha larga, escudos de madeira com aplicações de ferro, tesouras e colares.   Durante o período D (c.100-50/15 a.C.) os celtas cederam à permanente pressão de invasores germânicos, procedentes do norte, e do Império Romano, do sul. Nesse período, usaram instrumentos típicos de lavradores: foices e segadeiras de ferro, serras, machados, relhas de arado e martelos, a maior parte de influência romana. A cunhagem de moedas de prata, iniciada no período anterior com base em protótipos gregos e romanos, tornou-se mais abundante e serviu como fonte de inestimável valia para o conhecimento dos nomes próprios celtas.

Cultura Mixteca
Cultura Mixteca
Cultura Mixteca - Originalmente pertencentes ao grupo olmeca, os mixtecas, no começo da era cristã, se deslocaram em direção ao sul, provavelmente a partir da região de Cholula (norte do México), até ocuparem as regiões altas do território denominado Mixteca (posterior estado mexicano de Oaxaca), nome que significa "país das nuvens". Entre os séculos IX e XIII, expandiram-se para regiões mais baixas, que disputaram com os antigos ocupantes, os zapotecas, cuja cultura teve influência considerável sobre a dos invasores.

A obra de arte mais elaborada da cultura mixteca são os pergaminhos de pele de cervo, sobre os quais figuras e sinais ideográficos de surpreendente capacidade descritiva se agrupam à maneira das modernas histórias em quadrinhos. A maior parte dos exemplares conservados data dos séculos XIV e XV.

O povo mixteca dividia-se em vários reinos ou domínios senhoriais distribuídos por numerosos vales. Às vezes uniam suas forças, em geral para fins defensivos, como ocorreu na segunda metade do século XV, quando o movimento de expansão dos astecas atingiu seu território. A organização social dos mixtecas, muito rígida, estruturava-se em duas castas: a dos militares e sacerdotes, e a de camponeses e artesãos, considerada inferior. A conquista de Mixteca pelos espanhóis realizou-se rapidamente a partir da terceira década do século XVI, em parte devido ao desejo dos próprios mixtecas de se livrarem do domínio asteca. Os conquistadores europeus não tardaram, no entanto, a impor um novo sistema de dominação que, somado aos efeitos das epidemias, dizimou a população.

Achados arqueológicos mostram que os antigos mixtecas eram grandes ourives. Na cerâmica, destacam-se os vasos decorados com figuras humanas ou de animais e apoiados em tripés, além de estatuetas de pedra, de temática variada e muito expressivas. Atualmente, um número considerável de descendentes dos antigos mixtecas habita o noroeste do estado mexicano de Oaxaca, bem como a divisa entre os estados de Puebla e Guerrero. Vivem em casas isoladas ou em pequenas aldeias, praticam uma agricultura tradicional de subsistência e, nos dias de festa, trocam entre si os excedentes agrícolas e produtos artesanais. Ainda hoje, a propriedade comunal é a forma mais difundida de distribuição e uso da terra.

A língua mixteca é de emprego corrente, mas a maioria dos usuários conhece o espanhol, idioma oficial do México. Evangelizada na época colonial, a população mixteca conserva práticas religiosas em grande parte sincréticas. Crenças e ritos pré-colombianos, como sacrifícios a espíritos da terra e da chuva e culto aos antepassados, se misturam a elementos católicos.

Cultura Tolteca
Cultura Tolteca - O nome tolteca -- que significa "canavieiro" e assumiu mais tarde o sentido de "urbano" ou "civilizado" -- foi dado pelos astecas ao povo que, entre os séculos X e XII, teve seu centro político-religioso em Tollan ("canavial"), próximo à posterior cidade de Tula. Durante certo período, a palavra tolteca designou genericamente artesão e foi aplicada  a povos distintos, até ser associada ao grupo étnico centrado em Tula.

O primeiro estado político-militar pré-colombiano foi o império tolteca, entre os séculos X e XII da era cristã. Comprovadamente, os toltecas introduziram na Meso-América o calendário, a escrita e o trabalho em metal, o que marca o início do período pós-clássico.

História Após a conquista espanhola, a tradição escrita dos toltecas foi reunida em crônicas como A história geral das coisas da Nova Espanha, de frei Bernardino de Sahagún, e a História tolteca-chichimeca. Segundo essas fontes, já no século VII ondas migratórias seguiam para o vale do México. Uma grande e repentina invasão, porém, teria acontecido no ano 900, quando grupos nômades de língua náuatle, procedentes do noroeste do México, conquistaram a decadente Teotihuacan, que fora um dia a maior cidade da América pré-colombiana. A civilização tolteca foi o resultado da fusão desses povos.

O chefe militar Mixcóatl fundou a primeira dinastia tolteca. Após combater durante anos outras tribos de língua náuatle, foi assassinado por um usurpador, em meados do século X. Seu filho Ce Acatl, ainda criança, não pôde herdar o poder. Já adulto, vingou a morte do pai e fundou a cidade de Tula. Adotou então o nome Topiltzin ("senhor") e restaurou o culto ao deus pacífico Quetzalcóatl, do qual tornou-se sacerdote, com o nome de Ce Acatl Topiltzin Quetzalcóatl.

Durante seu reinado, desenvolveram-se a economia, a religião, as artes e a organização sociopolítica. Não foi possível, no entanto, erradicar o culto a Tezcatlipoca, deus ao qual eram oferecidos sacrifícios humanos. Seus seguidores, em permanente choque com os representantes do culto oficial, acabaram por se impor e, no final do século X, expulsaram Ce Acatl da cidade. Os vencidos seguiram para Yucatán e se estabeleceram em Chichén Itzá e Mayapán, centros da florescente cultura maia-tolteca.

Instalou-se em Tula, definitivamente, um governo militarista, em substituição ao antigo poder sacerdotal. As inúmeras representações de guerreiros paramentados como deuses atestam seu papel como grupo social dominante. Iniciara-se, no entanto, a fase de declínio e, por volta de 1160, a cidade estava quase completamente despovoada, devido a secas, guerras e conflitos internos. A chegada dos povos bárbaros conhecidos como chichimecas -- grupo que absorveu as principais características da cultura tolteca e, mais tarde, originou o império asteca -- precipitou a queda do império. Em 1168, os toltecas abandonaram Tula, que foi tomada pelos chichimecas e acabou destruída, em guerras e conflitos políticos. Alguns grupos toltecas emigraram para as zonas lacustres do vale do México e fundaram Culhuacan, enquanto outros avançaram para o sul e ocuparam Cholula, por volta de 1290. Esses povos permaneceram na região até meados do século XIV.

A unidade cultural de Teotihuacan e Tula deu lugar à desagregação e a rivalidades entre as tribos. Enfraquecidos, os toltecas foram combatidos mesmo em Tula, e até pelos astecas, herdeiros de sua cultura e que os mencionavam como ancestrais.

Organização sociopolítica e cultural O traço mais característico da organização sociopolítica tolteca foi a formação de um novo sistema teocrático, no qual as funções guerreiras se confundiam com as religiosas e as prerrogativas da casta sacerdotal passavam às mãos dos dirigentes militares, agrupados em ordens totêmicas como as do Jaguar, do Coiote e da Águia. Esta circunstância não só permitiu a criação de um poderoso exército e a consequente expansão do império, como marcou também o começo do militarismo na América Central.

A cultura tolteca era muito avançada e, além de incorporar elementos da civilização de Teotihuacan, como o calendário e os sinais gráficos, dispunha de notáveis conhecimentos em astronomia e medicina. A metalurgia e a ourivesaria também se desenvolveram. Para administrar suas amplas possessões, os toltecas criaram uma eficiente burocracia e o primeiro sistema de correios da região, empregando mensageiros. As ruínas de Tula atestam a magnificência da metrópole, sendo notáveis os túmulos e os estádios para jogos com bola, de função ritual. Na estatuária, destacam-se figuras de guerreiros (entre os quais os célebres atlantes de Tula), serpentes emplumadas (que simbolizavam Quetzalcóatl), animais totêmicos e singulares figuras recostadas do deus Chac Mool.

Área Cultural Área Cultural - O conceito de área cultural começou a ser aplicado com relação aos índios norte-americanos mas, com o tempo, junto a outras noções e critérios, também se vem prestando à compreensão de complexas sociedades européias.

Para o antropólogo americano Clark Wissler, que o formulou, o conceito de área cultural designa uma região em que predominam os traços característicos de uma dada cultura. Seria, portanto, o espaço geográfico em que tais traços se mantêm mais autênticos e homogêneos, mesmo que a sociedade ou o grupo social que os apresenta se desloque para outra região ou ocupe várias.

Wissler apresentou o resultado de seus estudos a esse respeito na revista American Anthropologist, utilizando o conceito no esforço de tipificar diferentes tendências de cultura material dos grupos indígenas existentes no país, conforme os pontos do território em que se encontravam ou em que tiveram origem. Havia importantes antecedentes teóricos para a adoção desse instrumento, como a idéia das "províncias geográficas" do alemão Adolf Bastian, e a noção dos "ciclos culturais" empregada pela escola histórico-cultural alemã de Leo Frobenius e Fritz Graebner, o primeiro em seus trabalhos sobre povos africanos, o segundo em seu livro sobre a Oceania.

Wissler estudou com o americano Franz Boas, que já dedicara sua atenção à cultura indígena, sobretudo em seus aspectos lingüísticos. As observações de Wissler a respeito da identificação das áreas culturais despertaram o interesse de outro antropólogo americano, Alfred Kroeber, que fez ao conceito um reparo fundamental, ao explicitar a correlação de sua base geográfica com os dados da situação histórica de cada realidade pesquisada.

A partir desse passo, a idéia de área cultural adquiriu mais precisão e funcionalidade. Pôde-se constatar claramente, por exemplo, que ela nada tem a ver com a região natural ou político-administrativa: é freqüente o desenvolvimento de diferentes culturas em uma mesma área natural ou de uma mesma cultura em diferentes unidades administrativas.

Para determinar ainda melhor o que efetivamente pretendia abranger com seu conceito, mesmo porque vários outros profissionais passaram a empregá-lo com variantes ou adaptações, Wissler relacionou com cuidado os componentes indispensáveis à caracterização de uma área cultural: economia, alimentos e sua preparação; tipos de moradia e de transporte; vestuário; tecidos; armas; cestaria; cerâmica; trabalhos em pedra, osso, peles, penas, madeira, metal. Eram elementos de caráter principalmente material, compondo um conjunto a ser identificado em um dado espaço geográfico.

Outro aperfeiçoamento foi trazido pelo americano Melville Herskovits, que usou o conceito em estudos na África e salientou que o mais significativo na área cultural não é sua expressão geográfica, mas o grau de funcionamento dos componentes de sua cultura. A ênfase sobre o aspecto geográfico também foi uma vez mais relativizada por Kroeber que, para destacar o processo dos ciclos, trabalhou com a noção de clímax cultural.

Outra questão muito debatida foi a do objeto de aplicação do conceito. Para a maior parte dos que o empregaram, só se mostrava útil no estudo das sociedades primitivas. Outros consideravam, porém, que seria perfeitamente aplicável às sociedades complexas de qualquer época ou situação histórica, podendo-se hoje admitir, por exemplo, a existência das áreas culturais anglo-americana, luso-brasileira, hispano-americana, e assim por diante.

A variação dos outros critérios adotados tem levado, inevitavelmente, à variação das classificações. Na distribuição por áreas culturais dos povos indígenas da América do Sul, quatro antropólogos divergiram a ponto de oscilarem na identificação de 5 a 24 áreas. O conceito é, pois, um instrumento prático de uso pedagógico, hoje indispensável aos museus na ordenação do material e de grande valia na abordagem e caracterização das culturas.

Se consideramos os outros aspectos da realidade cultural -- sua formação, seu desenvolvimento tanto ao longo do espaço como do tempo, suas constantes e tendências históricas -, chegamos a um conceito mais genérico, o de tipo de cultura, que vem sendo muito valorizado nos estudos de orientação mais recente.

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