Guerra de Secessão nos Estados Unidos da América

Guerra de Secessão nos Estados Unidos da América


Guerra de secessão é uma das denominações da guerra civil dos Estados Unidos da América, travada de 1861 a 1865 entre o governo federal e 11 estados do sul do país, que afirmavam seu direito de se separarem da União. Também chamada guerra entre estados, teve motivação econômica, política e doutrinária que se centralizou no conflito pela manutenção ou abolição da escravatura. A tentativa de secessão dos estados de Carolina do Sul, Mississippi, Flórida, Alabama, Geórgia, Louisiana, Texas, Virgínia, Arkansas, Tennessee e Carolina do Norte e a deflagração das hostilidades armadas marcaram a culminância de décadas de crescentes fricções entre os estados e o governo federal sobre comércio e tarifas, escravidão e a doutrina dos direitos dos estados.

Momento decisivo de afirmação da nacionalidade americana que cobrou um alto preço em vidas, a guerra civil dos Estados Unidos fortaleceu o poder central da União e resultou num dos mais graves problemas da vida social americana contemporânea: a inserção do negro na sociedade e o combate ao racismo.

Antecedentes da Guerra de Secessão
Guerra de Secessão nos Estados UnidosNa década de 1850, chegou ao ponto máximo de tensão o conjunto de lentas transformações que, especialmente ao longo dos cinqüenta anos anteriores, se processavam nos mais diversos níveis da realidade dos Estados Unidos. A federação americana, que se caracterizava pela grande autonomia de suas unidades e uma relação distante das comunidades locais com o governo central, experimentou mudanças estruturais profundas com o progresso econômico e tecnológico. A construção de canais, rodovias e ferrovias aproximou as comunidades e tornou mais presente o governo de Washington na vida local, decorrente da própria necessidade de uma administração centralizada das redes de transportes que cruzavam fronteiras estaduais. A difusão de jornais baratos e do telégrafo ampliou o universo de conhecimentos e informações das populações até então isoladas e incentivou maior mobilidade das pessoas. Fortaleceu-se a tendência à nacionalização de um estilo americano de vida.

Ao mesmo tempo, crescia nas diversas regiões forte reação ao novo estado de coisas. A hostilidade à mudança traduziu-se num acirramento das lealdades regionais, na afirmação do direito de cada unidade da federação de se separar e na defesa de modos de vida tradicionais, especialmente marcantes nos estados do sul, onde predominava o estilo de vida rural aristocrático, das grandes fazendas de algodão, fumo e açúcar, que tinham na mão-de-obra escrava negra sua base fundamental.

A abolição da escravatura tornou-se então o foco central da discussão política. Os estados do norte, que se industrializavam e recebiam ondas crescentes de migrantes europeus, condenavam a escravidão em nome da moral e da dignidade humana contemplados na constituição do país. Os estados do sul defendiam seu direito constitucional à autonomia e os interesses dos fazendeiros, que precisavam dos escravos para produzir e exportar seus produtos agrícolas a preços competitivos no mercado internacional.

A abertura dos territórios do oeste agravou a situação, porque grupos políticos sulistas defendiam a extensão da escravidão aos novos estados. O Congresso optou por transferir a decisão aos futuros habitantes. A questão provocou a cisão do Partido Democrata e favoreceu o Partido Republicano, que defendia o fim da escravidão. Pela primeira vez na história, os republicanos ganharam as eleições majoritárias e seu candidato, Abraham Lincoln, abolicionista convicto, tornou-se presidente. A crise irrompeu e os estados do sul declararam a secessão, ou seja, retiraram-se da União.

Organizados como Estados Confederados da América e presididos por Jefferson Davis, os estados do sul, para vencer uma guerra curta de independência, contavam com o fervor patriótico, a vantagem estratégica de linhas interiores de comunicação e a importância internacional de sua principal cultura agrícola, o algodão, essencial para as indústrias têxteis britânicas. Assumiu o comando das tropas confederadas o general Robert E. Lee. A União, presidida por Abraham Lincoln, comandava mais que o dobro da população e dispunha de vantagens ainda maiores em capacidade industrial e transportes.

Nos estados confederados viviam nove milhões de habitantes, dos quais mais de três milhões eram escravos. De economia rural, carente de indústrias, o sul ficou na dependência das armas que pudesse comprar no exterior. Contava, porém, com um efetivo militar de qualidade superior. O norte não só tinha capacidade de fabricar armas como dispunha de uma poderosa esquadra para bloquear de forma eficaz e imediata os portos da confederação. Seus recursos econômicos e sua população, de aproximadamente 21 milhões, eram muito superiores. Suas forças militares, porém, não eram organizadas nem tinham a tradição de excelência que caracterizava os oficiais dos estados sulistas, formados em academias militares de alto nível.

Início das hostilidades
A guerra começou em Charleston, Carolina do Sul, em 12 de abril de 1861, quando forças confederadas atacaram o Forte Sumter com fogo de artilharia. Os dois lados rapidamente mobilizaram seus exércitos. Em 21 de julho, trinta mil soldados da União, comandados pelo general Irvin McDowell, que marchavam em direção à capital confederada de Richmond, Virgínia, foram detidos em Bull Run e obrigados a recuar para Washington D.C. pelas tropas confederadas sob o comando dos generais Thomas Jonathan "Stonewall" Jackson e P. G. T. Beauregard. O choque da derrota galvanizou a União, que pediu mais 500.000 recrutas.

Durante o ano de 1862 ocorreram numerosos choques de grande intensidade. Em fevereiro, o general nortista Ulysses S. Grant arrebatou aos confederados as posições de Fort Henry e Fort Donelson, no oeste do Tennessee. Em abril, ainda no mesmo estado, o norte venceu a batalha de Shiloh, o que lhe permitiu ocupar Corinth, entroncamento de estradas de ferro, e Memphis. Foi a primeira grande vitória das forças nortistas. No sul, o comandante nortista David G. Farragut assumiu o controle naval de Nova Orleans, entrada crítica para o rio Mississippi. No nordeste, o exército nortista do Potomac, comandado pelo general George B. McClellan, tentou apoderar-se de Richmond. Sob o comando do general Lee, as forças confederadas resistiram em batalhas que se estenderam por sete dias e terminaram com a derrota e a retirada das tropas nortistas. Animados pelo feito, os sulistas experimentaram invadir o território da União pelo oeste de Washington. Foram derrotados em Antietam, ao norte da capital, em meados de setembro. Em dezembro, um exército da União fez nova tentativa de invadir o território confederado, mas Lee os conteve e derrotou em Fredericksburg.

As inúmeras escaramuças do primeiro ano resultaram apenas num pequeno avanço das operações da União no Tennessee e ao longo do rio Mississippi. As modificações importantes sobrevieram nos dois anos seguintes, sobretudo em 1864. Em nova tentativa de flanquear Washington, em julho de 1863, Lee foi derrotado pelo general George C. Meade em Gettysburg, na Pensilvânia, num dos momentos mais importantes da guerra, em que as forças sulistas começavam a soçobrar. Quase ao mesmo tempo, Grant capturou Vicksburg, no Mississippi, com o que todo o rio, via de transporte essencial, e os territórios situados a oeste ficaram sob controle da União.

Em março de 1864, Grant foi nomeado chefe supremo dos exércitos do norte. Durante dez meses sitiou Petersburg, ao sul de Richmond, enquanto o general William T. Sherman penetrava na Geórgia pelo vale do Tennessee. Em setembro capturou Atlanta e, em dezembro, o porto de Savannah, encerrando uma marcha de 480km que deixou um rastro de devastação e dividiu o sul ao meio.

No início de 1865, os confederados se encontravam em situação desesperadora, sem suprimentos e com suas forças muito diminuídas pelo imenso número de mortos e feridos. Grant começou e terminou sua ofensiva final em abril. Capturou Richmond, pôs em fuga o governo confederado de Jefferson Davis e aceitou a rendição de Lee em Appomattox em 9 de abril. Em ofensiva a partir do sul, Sherman alcançou Durham, Carolina do Norte, onde, em 26 de abril de 1865 as forças comandadas por J. E. Johnston capitularam.

Consequências
A guerra de secessão foi desastrosa para o país: provocou a morte de mais de 600.000 combatentes, a destruição de diversas cidades e unidades produtivas, a perda de vultosos recursos econômicos e o fim de um estilo de vida característico das camadas rurais ricas do sul. A população permaneceu dividida e antagônica e o presidente Lincoln, que havia sido reeleito para um segundo turno na presidência, foi assassinado seis dias após a rendição.

Os estados confederados reintegraram-se politicamente à União num processo lento e negociado com o Congresso e o executivo. Uma emenda constitucional aboliu a escravidão em todo o território nacional e reconheceu aos negros os direitos de cidadania e voto. Difícil foi apaziguar o ódio recíproco, aplicar as novas leis no sul e adaptar os negros à vida de homens livres, eleitores e assalariados. A discriminação racial, objeto de campanhas civis que mobilizaram o país, foi ostensiva, em diversos estados da federação, até a segunda metade do século XX.

A reconstrução econômica, ao contrário, foi bem mais rápida. O norte, além de pouco sofrer as consequências da guerra, desenvolvera sua indústria de forma extraordinária. O dinheiro disponível em seus bancos permitiu aos produtores e exportadores de algodão, tabaco e açúcar refazer seus negócios e ampliar as plantações ao longo do baixo Mississippi.

A guerra de secessão teve características de guerra moderna pelo profundo impacto tecnológico no desenvolvimento de armas e técnicas de logística e combate. Houve diversas inovações. Pela primeira vez na história, ferrovias foram usadas para o transporte de tropas e suprimentos, ocorreram combates navais entre encouraçados, o telégrafo desempenhou papel significativo, a imprensa fez ampla e permanente cobertura e a fotografia foi usada para documentação. Mais ainda, a guerra deu origem a uma discussão ampla sobre a nacionalidade, que abriu uma nova página na história do pensamento nos Estados Unidos da América, e estabeleceu os princípios da democracia liberal contemporânea.

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