Rio Grande do Sul | Geografia, História e Sociedade Gaúcha

Rio Grande do Sul | Geografia, História e Sociedade Gaúcha


O estado do Rio Grande do Sul é uma unidade da República Federativa do Brasil localizada no extremo sul do país. Com uma área de 282.062km2, o que corresponde a pouco mais de três por cento do território brasileiro, o Rio Grande do Sul limita-se a leste com o oceano Atlântico, ao norte com o estado de Santa Catarina, a oeste com a Argentina e ao sul com o Uruguai. A área do estado inclui uma substancial massa de águas interiores, representadas por lagoas costeiras como as dos Patos, Mirim e Mangueira. A capital é Porto Alegre.

Palco de sangrentas lutas desde os primeiros tempos da ocupação, e sobretudo em todo o século XVIII, o esforço da colonização forjou na gente rio-grandense um caráter forte e altaneiro. No século XIX o Rio Grande tornou-se o laboratório de uma bem-sucedida experiência de imigração européia.

Geografia física
Geologia e relevo.
O estado do Rio Grande do Sul apresenta, em sua maior parte, relevo baixo, com setenta por cento de seu território a menos de 300m de altitude. A única porção elevada, com mais de 600m de altitude, no nordeste, compreende 11% da superfície total. Podem-se descrever quatro unidades morfológicas no estado: a planície litorânea, o planalto dissecado de sudeste, a depressão central e o planalto basáltico.

Rio Grande do Sul, Geografia, História e Sociedade Gaúcha
Planície litorânea
Toda a fachada leste do estado é ocupada pela planície litorânea, que consiste em terrenos arenosos com cerca de 500km de extensão no sentido nordeste-sudoeste e largura muito variável. Os areais se desenvolvem tanto nas margens orientais quanto nas ocidentais das lagoas dos Patos e Mirim. Essas lagoas apresentam um desenho característico, com recorte lobulado, em virtude das pontas de areia que de uma e outra margem se projetam para dentro delas. Ao contrário do que acontece no interior das lagoas, a linha da costa apresenta traçado regular. A planície litorânea é constituída pela justaposição de cordões litorâneos (restingas), que às vezes deixam entre si espaços vazios ocupados por lagoas alongadas ou banhados (antigas lagoas colmatadas).

Planalto dissecado de sudeste
Também denominado impropriamente serras de sudeste, o planalto dissecado de sudeste compreende um conjunto de ondulações cujo nível mais alto não ultrapassa 500m. Trata-se de um planalto antigo, cuja superfície tabular só foi preservada entre alguns rios. Esses terrenos pré-cambrianos constituem o chamado escudo rio-grandense e ocupam toda a porção sudeste do estado, formando uma área triangular cujos vértices correspondem aproximadamente às cidades de Porto Alegre, Dom Pedrito e Jaguarão. O conjunto está dividido, pelo vale do rio Camaquã, em duas grandes unidades, uma ao norte e outra a sul, denominadas serras de Erval e Tapes, respectivamente. É o domínio típico das campinas, cuja melhor expressão é encontrada na campanha gaúcha.

Depressão central
Constituída por terrenos da era paleozóica, a depressão central forma um arco em torno do planalto dissecado de sudeste, envolvendo-o dos lados norte, oeste e sul. Forma um amplo corredor com aproximadamente cinqüenta quilômetros de largura média e 770km de extensão, dos quais 450 no sentido leste-oeste, 120 no sentido norte-sul e 200 no sentido oeste-leste. A topografia suave e a pequena altitude em relação ao nível do mar (menos de cem metros), permitem classificar a depressão central como uma planície suavemente ondulada.

Planalto basáltico. A porção norte e oeste do estado é ocupada pelo planalto basáltico, que descreve uma meia-lua em torno da depressão central. Esse planalto, que tem como traço marcante a estrutura geológica, é formado pelo acúmulo ou empilhamento de sucessivos derrames basálticos (isto é, derrames de lava), intercalados de camadas de arenito. Alcançam espessura muito variável. No nordeste do estado registra-se a espessura máxima, responsável pela maior elevação do planalto nessa área.

A superfície do planalto apresenta uma inclinação geral de leste para oeste. No nordeste, junto ao litoral, alcança sua maior elevação, entre 1.000 e 1.100m; em Vacaria atinge 960m; em Carazinho, 602m. Em Cruz Alta, 469m; no extremo oeste do estado, junto à barranca do rio Uruguai, não ultrapassa cem metros. A topografia é plana ou levemente ondulada, mas os rios, que banham a parte mais elevada, abriram nela profundos sulcos ou vales, isolando compartimentos tabulares.

Um aspecto saliente do planalto é a forma de transição para as terras mais baixas com que se articula. A nordeste, cai diretamente sobre a planície litorânea, com um paredão íngreme ou escarpa, de quase mil metros de desnível: são os chamados "aparados da serra". Os rios favorecidos pelo forte declive abriram aí profundas gargantas ou taimbés. Nesse trecho, próximo à divisa com Santa Catarina, a escarpa à borda do planalto corre paralela à costa. À altura de Osório, desvia-se bruscamente para oeste e a partir daí vai diminuindo progressivamente de altura. Nesse trecho voltado para o sul, os rios que correm para a depressão central abriram amplos vales. O rebordo do planalto basáltico recebe no Rio Grande do Sul, como nos demais estados meridionais, a denominação de serra Geral.


Clima
Dois tipos climáticos caracterizam o Rio Grande do Sul. O clima subtropical com chuvas bem distribuídas durante o ano e verões quentes (Cfa na escala de Köppen) ocorre na maior parte do estado. Registra temperaturas médias anuais de 18°C e uma pluviosidade de 1.500mm. O clima Cfb, subtropical com chuvas bem distribuídas no ano e verões amenos, ocorre nas porções mais elevadas do território sul-rio-grandense, isto é na porção mais alta do planalto basáltico, e no planalto dissecado de sudeste. Registra temperatura média anual de 16°C e pluviosidade de 1.100mm anuais.

Dos ventos que sopram no estado, dois têm denominações locais: o pampeiro, vento tépido, procedente dos pampas argentinos; e o minuano, vento frio e seco, originário dos contrafortes da cordilheira dos Andes.

Hidrografia
A rede de drenagem compreende rios que pertencem à bacia do Uruguai e rios que correm para o Atlântico. Os rios Jacuí, Taquari, Caí, Gravataí, Guaíba e dos Sinos, entre outros, são razoavelmente aproveitados para a navegação. Toda a região ocidental do estado e uma estreita faixa de terras ao longo da divisa com Santa Catarina pertencem à bacia do Uruguai. Compreende, além do rio Uruguai e seu formador, o Pelotas, os afluentes da margem esquerda: o Passo Fundo, o Ijuí, o Piratini, o Ibicuí e o Quaraí.

À vertente atlântica pertence toda a metade oriental do estado, drenada por rios cujas águas, antes de atingir o Atlântico, vão ter a uma das lagoas litorâneas. Assim, a lagoa Mirim recolhe as águas do rio Jaguarão, a lagoa dos Patos, as dos rios Turucu, Camaquã e Jacuí, as deste último por meio do estuário denominado Guaíba. A lagoa dos Patos se comunica com a lagoa Mirim através do canal de São Gonçalo, e com o Atlântico por meio da barra do Rio Grande. Além das duas grandes lagoas, há numerosas outras, menores, na planície litorânea, entre elas a Itapeva, dos Quadros, do Peixe e Mangueira.

Vegetação
Dois tipos de cobertura vegetal ocorrem no Rio Grande do Sul: campos e florestas. Os campos ocupam cerca de 66% da superfície do estado. De modo geral recobrem as áreas de topografia regular, plana ou ligeiramente ondulada, ou seja, a depressão central e a maior parte do planalto basáltico.

As florestas cobrem 29% do território estadual. Aparecem na encosta e nas porções mais acidentadas no planalto basáltico, no planalto dissecado de sudeste e, ainda, na forma de capões e matas ciliares, dispersas pelos campos, que recobrem o resto do estado. Nas áreas de maior altitude, com mais de 400m, domina a chamada mata de pinheiros, uma floresta mista de latifoliadas e coníferas, a chamada mata de pinheiros. Nas demais áreas ocorre a floresta latifoliada.

Nos dois tipos de floresta está presente a erva-mate, objeto de exploração econômica desde o início do povoamento do estado. Em cerca de cinco por cento do território ocorre a vegetação do tipo litorâneo, que se desenvolve nos areais da costa.

População
A população do Rio Grande do Sul é de origem predominantemente européia, ali fixada sobretudo a partir do século XVIII e reforçada, no século XIX, por imigrantes alemães e italianos. A área de povoamento mais denso do estado é a de Porto Alegre, que inclui 21 municípios próximos. As regiões vizinhas do litoral norte e do rebordo do planalto basáltico figuram também entre as mais povoadas. Seguem-se a elas, na porção ocidental do estado, as áreas de Passo Fundo e Iraí.

Todo o território do Rio Grande do Sul se encontra na área de influência da cidade de Porto Alegre. A ação da capital gaúcha alcança ainda uma pequena faixa meridional do estado de Santa Catarina. No interior do Rio Grande do Sul a influência de Porto Alegre se efetiva por meio de centros intermediários, como Caxias do Sul, Passo Fundo, Pelotas-Rio Grande, Erexim, Santa Cruz do Sul, Cruz Alta, Ijuí, Santa Maria, Bajé, Santana do Livramento, Alegrete e Uruguaiana.

A capital gaúcha figura entre as maiores cidades do Brasil. A expansão de sua área urbana pelos municípios vizinhos levou à firmação de uma área metropolitana de que participam Alvorada, Cachoeirinha, Campo Bom, Canoas, Dois Irmãos, Eldorado do Sul, Estância Velha, Esteio, Glorinha, Gravataí, Guaíba, Ivoti, Nova Hartz, Novo Hamburgo, Parobé, Portão, São Leopoldo, Sapiranga, Sapucaia do Sul, Triunfo e Viamão. 

Economia
Agricultura e pecuária. Com uma expansão vertiginosa de sua cultura na década de 1970, a soja se tornou o principal produto agrícola do Rio Grande do Sul. A área de produção se encontra difundida por todo o quadrante noroeste do estado e compreende algumas porções da depressão central e sobretudo do planalto basáltico. O trigo, cultivado em condições ecológicas muito diferentes, é plantado quer em zonas de campo, quer em áreas florestais. Nas primeiras, assume o caráter de monocultura extensiva e mecanizada. Nas zonas de floresta surge como pequena lavoura integrada no sistema de rotação de cultura praticado por pequenos lavradores. A principal região produtora é o planalto basáltico, sobretudo sua porção ocidental.

Porto alegre
Porto alegre
O arroz é cultura típica das áreas de menor altitude do estado. É quase sempre cultura irrigada e na planície litorânea, em decorrência da pobreza dos solos arenosos, recebe considerável aplicação de adubos químicos. O milho é cultura bastante difundida nas áreas de solos florestais e está comumente associado à criação de suínos, para o qual contribui como ração. A mandioca tem distribuição geográfica semelhante à do milho. Além de utilizada na alimentação da população rural, é empregada como forragem por criadores de suínos e bovinos.

O cultivo do fumo concentra-se na região da encosta inferior da serra Geral, nas zonas dos rios Taquari e Pardo. Outra cultura importante do estado é a da uva, que se concentra na região da alta encosta da serra Geral, nas zonas dos rios Taquari e Caí.

O Rio Grande do Sul destaca-se por sua produção agropecuária. O gado bovino criado na região do planalto destina-se sobretudo à produção de leite, enquanto que o criado no sul do estado, nos grandes estabelecimentos localizados na região da Campanha, ou estâncias, destina-se ao corte. A criação de ovinos concentra-se sobretudo na porção mais meridional da Campanha enquanto a de suínos, que absorve parte significativa da produção de milho e mandioca é típica das regiões florestais.

Merecem destaque as pastagens naturais da campanha gaúcha, em sua maioria utilizadas em pastoreio continuado e geralmente em potreiros de grande extensão, de modo a permitir a expansão das atividades pecuárias, de grande repercussão na economia regional.


Indústria
O Rio Grande do Sul é um dos estados com maior grau de industrialização no país. O principal gênero de indústria é o de produtos alimentícios, responsável por substancial parcela do valor da produção fabril. Seguem-se a metalurgia e as indústrias mecânica, química, farmacêutica, de vestuário e calçado e de madeira e mobiliário. A área industrial da região de Porto Alegre é a mais desenvolvida do estado. Os principais produtos são carnes frigorificadas, charques, massas alimentícias e óleo de soja. A indústria de calçados e artefatos de couro destaca-se particularmente em São Leopoldo e Novo Hamburgo. A indústria mecânica e metalúrgica alcança também considerável expressão, sobretudo em Porto Alegre, Novo Hamburgo e São Leopoldo. A esses centros junta-se São Jerônimo, que abriga a usina siderúrgica de Charqueadas.

Outra área industrial é a chamada região de colonização antiga, na qual se integram os municípios de Caxias do Sul, Garibaldi, Bento Gonçalves, Flores da Cunha, Farroupilha e Santa Cruz. A atividade fabril é marcada pela produção de vinho e beneficiamento de produtos agropastoris, tais como couro, banha, milho, trigo e fumo. No restante do estado encontram-se diversos centros industriais dispersos, todos ligados ao processamento de matérias-primas agropastoris. Destacam-se nesse grupo Erexim, Passo Fundo, Santana do Livramento, Rosário do Sul, Pelotas, Rio Grande e Bajé.

Entre os produtos minerais do estado destacam-se o cobre e o carvão. O Rio Grande do Sul foi pioneiro no refino de petróleo, com a instalação, em 1932, da Destilaria Sul-Riograndense, em Uruguaiana. Duas refinarias de petróleo e um pólo petroquímico, que utiliza matéria-prima da refinaria Alberto Pasqualini, da Petrobrás (Canoas), dão ao estado posição de destaque na petroquímica nacional. Entre as ocorrências minerais conhecidas encontram-se jazidas de carvão mineral, minérios de cobre, chumbo, tungstênio e cristal de rocha.

As reservas de pinheiros do norte do estado, embora já limitadas em face da exploração intensa, constituem uma das principais riquezas vegetais. Os ervais, em apreciável extensão, também proporcionam extração vegetal para atender ao grande consumo regional. Vegetais taníferos, como, por exemplo, a acácia-negra, embora com produção reduzida, incluem-se entre os principais recursos da região.

Energia
Entre as principais usinas elétricas do estado sobressaem as hidrelétricas de Passo Fundo (220.000kW), no rio Uruguai; de Jacuí (150.000kW) e Passo Real (125.000kW), no rio Jacuí; e as termelétricas Candiota II (126.000kW), em Bajé, Charqueadas (72.000kW), em São Jerônimo, e Osvaldo Aranha (66.000kW), em Alegrete.

Transportes
O sistema ferroviário se desenvolve em torno do eixo central formado pela linha que, partindo de Porto Alegre, se dirige para oeste através da depressão central, indo alcançar a fronteira com a Argentina, em Uruguaiana. Desse tronco longitudinal se desprendem diversos ramos. De grande significação para o estado são as linhas que o ligam ao resto do país. Uma delas parte de Santa Maria, no eixo longitudinal, dirige-se para o norte e atravessa os estados de Santa Catarina e Paraná. Mais para leste, desenvolve-se outra linha no sentido norte-sul, passando por Monte Negro, Bento Gonçalves e Vacaria, cortando em seguida o leste de Santa Catarina e Paraná.

Outros ramos do eixo central se desenvolvem na porção sul do estado. Entre eles figura a ligação Rio Grande-Pelotas, Bajé-Cacequi, os ramais de Jaguarão, de Santana do Livramento e de Quaraí. No oeste do estado, assinalam-se ainda as ligações Uruguaiana-São Borja, São Borja-Santa Maria, Santiago-São Luís Gonzaga e Santa Rosa-Cruz Alta.

A malha de rodovias federais pavimentadas tem configuração diversa: forma um leque de estradas que convergem para a capital estadual. Ao longo do litoral norte corre a BR-101, que, partindo de Osório, chega até Natal RN. Ainda para o norte desenvolve-se a BR-116, que em demanda de Curitiba passa por Caxias do Sul e Vacaria. Para noroeste, a BR-386 passa por Lajeado e Carazinho. Para sudoeste, a BR-290 corre em direção a São Gabriel e Rosário do Sul. Finalmente, para o sul traça-se a ligação Porto Alegre-Pelotas-Chuí (BR-116 e BR-471).

Rio Grande do Sul
Rio Grande do Sul
A rede de vias de transporte do Rio Grande do Sul inclui ainda dois sistemas de navegação interior. O primeiro compreende, na parte leste do estado, as lagoas Mirim e dos Patos, o estuário do rio Guaíba e os rios Jacuí e Taquari. O segundo sistema compreende os rios Uruguai e seu afluente Ibicuí. Destacam-se no estado os portos de Porto Alegre, Rio Grande, Pelotas e São Borja. No porto de Rio Grande, reaparelhado em 1981, estão instalados terminais de granéis líquidos, sal, fertilizantes, trigo, soja, contêineres, carnes, carga geral, minérios e pescado. Para melhor aproveitamento de sua finalidade, organizou-se junto ao porto o Distrito Industrial do Rio Grande.

História
Ocupação. As peculiaridades geográficas do atual estado do Rio Grande do Sul, dividido em 11 diferentes regiões fisiográficas, influíram para retardar a ocupação da terra, a leste, pelo conquistador europeu. Outro fator negativo foi o Tratado de Tordesilhas, de 1494, que dividiu a soberania sobre os descobrimentos entre Portugal e Espanha por um meridiano ideal. No caso do Brasil, o meridiano estendia-se das proximidades da ilha de Marajó até a baía da Laguna, em Santa Catarina.

Ante as dúvidas surgidas sobre o ponto exato em que deveria passar a linha convencionada e achando-se o rio de São Pedro justamente na zona cuja confrontação se discutia, nenhuma daquelas duas nações se apressou a ocupá-lo, pelo temor de novas dificuldades diplomáticas. Contudo, em princípios do século XVII a Espanha penetrava na margem esquerda do Uruguai, por intermédio dos jesuítas que, a partir do Paraguai, estabeleceram suas reduções em vários pontos, chegando mesmo às cercanias da futura cidade de Porto Alegre e, de modo geral, senhoreando-se de todo o oeste rio-grandense.

Os paulistas, por sua vez, não deixaram de entrar em contato com o indígena da região (tupi-guarani, jê e guaicuru), sobretudo para garantir, através do mu, ou compadrio, o intercâmbio que se baseava no resgate do aborígine escravizado pelas tribos rivais. Daí resultou que habitantes de São Vicente, Santos e Piratininga, antes mesmo do aparecimento das bandeiras, fizessem ali freqüentes penetrações.

A seguir, os bandeirantes destruíram a província do Guairá, desceram à província do Tape, no coração do Rio Grande, e à província do Uruguai, desbaratando as aldeias e aprisionando os índios, que levavam como escravos para suas lavouras. Antônio Raposo Tavares foi um dos maiores chefes dessas expedições predatórias. As aldeias foram arrasadas, seus habitantes mortos ou aprisionados, e os sobreviventes fugiram com os jesuítas, para o sul, onde se fixaram junto à margem direita do rio Uruguai.

Ao levar a catequese, o aldeamento, as estâncias e os ervais a uma larga faixa do território, entre 1632 e 1634 os jesuítas estabeleceram reduções no alto Ibicuí (São Tomé, São Miguel, São José, São Cosme e São Damião). Ampliaram a área de penetração, alcançaram a bacia do Jacuí e fixaram outras reduções, inclusive para além da província do Tape (Santa Teresa, Santa Ana, São Joaquim, Natividade, Jesus Maria, São Cristóvão).

Nessa linha recuada, próxima às bases de socorro do poder espanhol do Paraguai e do Rio da Prata, não encontraram a tranqüilidade esperada. Acossados tenazmente pelos bandeirantes, não puderam consolidar suas conquistas territoriais. A vitória alcançada contra os paulistas na batalha de Mbororé, em 1641, não foi suficiente para permitir a fixação das reduções. O êxodo das populações indígenas -- já iniciado depois do assalto da bandeira de Raposo Tavares, em 1637 -- se intensificou, com a transferência dos jesuítas e dos índios para a margem direita do rio Uruguai, na fértil mesopotâmia do Paraná.

Concluiu-se, por força de tais acontecimentos, a primeira fase da civilização jesuítica no território do atual Rio Grande do Sul, com o abandono de terras abertas aos que primeiro chegassem para ocupá-las, aventureiros e colonizadores. Somente depois de 1680, com a fundação da Colônia do Sacramento, na margem superior do rio da Prata, a região passou a ser objeto de disputa política por parte de portugueses e espanhóis.

Os Sete Povos
A pressão dos bandeirantes não pôs fim à presença dos jesuítas na margem oriental do rio Uruguai. Retornaram os religiosos cinqüenta anos depois do êxodo, atraídos pelas disponibilidades econômicas da região, sobretudo pelo gado. Inaugurou-se, na volta ao território perdido, a segunda fase da penetração jesuítica, que na realidade só terminou com a fulminante ação militar de 1801 -- precedida de longas e indecisas ações diplomáticas --, a qual incorporou definitivamente a região ao Rio Grande do Sul.

A segunda fase cifra-se na história dos Sete Povos das Missões, com o marco inicial de 1687 (São Francisco de Borja, São Nicolau, São Luís Gonzaga, São Miguel Arcanjo, São Lourenço Mártir, São João Batista, Santo Ângelo Custódio). O perigo dos paulistas não cessara, embora se tornasse menos ameaçador, concentrada a ação do poder dos portugueses na faixa litorânea, de que a Colônia do Sacramento seria o ponto extremo.

Situados em terras de domínio nominal da Espanha, sob o comando de Buenos Aires, os Sete Povos abrangiam, as extremas dos grandes rebanhos de gado, que se concentravam nas vacarias -- as Vacarias do Mar, que alcançavam o extremo sul do atual Rio Grande do Sul, penetrando em território uruguaio, e a Vacaria dos Pinhais, na região da hoje ainda chamada Vacaria, no nordeste do estado.

Ao fato da coincidência geográfica do território, acentuado por alguns historiadores para vincular a história do Rio Grande do Sul às missões jesuíticas, agregam outros estudiosos o motivo econômico, sobretudo baseado na expansão do gado. As duas fases das Missões assinalam diferenças qualitativas. Na primeira predominou o zelo evangelizador, integratório dos indígenas na civilização espanhola; a segunda foi marcada pelo fundamento econômico da expansão, de índole utilitária e dominada por preocupações agora marcadamente políticas, de exclusivismo nacional, embora, em certo momento, arredia e até hostil à autoridade espanhola.

O gado, de início aclimatado na margem do rio Uruguai, é de origem paulista, introduzido em São Vicente, onde Martim Afonso estabelecera o principal curral. Invadindo o Paraguai, depois de proliferar, irradiou-se pelas pastagens vizinhas, com a distribuição, pelos jesuítas, de 99 cabeças para cada aldeamento, em 1634. A matança foi proibida nos primeiros anos. Provavelmente, esse núcleo original se havia ampliado com cabeças vindas do Peru, já a partir de 1569, acrescidas das manadas que se projetaram da atual província de Corrientes, na Argentina. A bagualada já campeava livremente nos pampas, trazida pela expedição de Pedro de Mendoza, que em 1535 desembarcou no Prata 72 cavalos e éguas.

Os rebanhos, alimentados pelas pastagens naturais e protegidos pelos acidentes das florestas e rios (os rincões), proliferaram com abundância, espraiando-se nas Vacarias do Mar e prolongando-se na Vacaria dos Pinhais, onde se localizou extenso depósito de gado para o abastecimento das aldeias. Aos currais das aldeias somaram-se os das invernadas, os campos de cria, alimentados com rebanhos nascidos em regiões mais distantes. Ovelhas e cabras, de procedências várias, completavam o rico plantel das Missões, que só começou a ser saqueado por elementos estranhos, portugueses e espanhóis, depois da fundação da Colônia do Sacramento, em 1680, e no segundo decênio do século XVIII, com a gente de São Paulo e Laguna, que o explorou para satisfazer às necessidades da população de Minas Gerais, durante o ciclo do ouro.

A civilização jesuítica, um caso de subcultura regional, mesmo na herança fluida e fantasmagórica que deixou ao império lusitano, ao ser incorporada definitivamente em 1801, foi apenas um corpo estranho, jamais absorvido no processo histórico português e brasileiro. Tenazmente combatido pelas armas e interiormente desintegrado, não deixou a permanente junção da continuidade histórica. A conquista do Rio Grande e seu povoamento, de caráter luso, legado ao império brasileiro, serão obra da gente portuguesa, paulista e lagunista de diversas procedências, gente de toda a colônia. As Missões Orientais são um episódio malogrado da corrente que procurou o Atlântico, de Buenos Aires e, depois, do vice-reinado do Prata.

Tal ponto de vista, acentuando essas razões e desfazendo equívocos, será confirmado em obra de 1945, de autoria de Serafim Leite, insuspeito de antipatia à causa jesuítica. Para esse historiador, as Missões jesuíticas do Rio Grande do Sul se incluem na história da Espanha e, por via desta, na do Paraguai. Seriam portanto desligadas da futura história do extremo-sul, diretamente vinculado ao processo civilizatório do Brasil. O resíduo espiritual das Missões tem significado irrelevante. Ao serem absorvidas pelo Brasil, já se haviam desintegrado; o próprio contingente de sua população praticamente nada representava: cerca de 14.000 pessoas numa área de 170.825km2, em 1801.


A expansão
O litoral do atual território do Rio Grande do Sul só foi explorado pela expedição de Martim Afonso de Sousa, cabendo-lhe provavelmente a primazia na descoberta da barra do rio Grande ou rio de São Pedro. O mapa de Martim Viegas, de 1534, consigna o local e o nome, aludindo ao Tratado descritivo do Brasil, de Gabriel Soares de Sousa, em 1587, as relações comerciais entre os vicentinos e os indígenas do litoral sulino, referências confirmadas por documentos posteriores.

O Tratado de Tordesilhas não impediu que a coroa portuguesa se atribuísse o território que hoje compreende o Rio Grande do Sul e a República Oriental do Uruguai. Era a capitania d'El Rei ou província d'El Rei e figura num mapa de 1562 com o nome "d'el Rei Nosso Senhor". Em 1676 o regente D. Pedro doou ao visconde de Asseca e a João Correia de Sá duas parcelas de terra, desde Laguna até a foz do rio da Prata. Ainda em 1676 o bispado do Rio de Janeiro se estendia até o rio da Prata, provavelmente em consonância com as reivindicações portuguesas. As capitanias, não exploradas, reverteram, em 1727, ao patrimônio real, negando-se D. João V a confirmá-las.

A partir de meados do século XVII, sob o estímulo e o comando oficial, a expansão portuguesa para o sul tomou o rumo da costa atlântica ou junto à margem oceânica, sempre com apoio marítimo. Em 1647 fundou-se Paranaguá, com a fixação, sete anos depois, de Curitiba, em movimento que tornaria impossível, no futuro, um avanço capaz de separar São Paulo e o Rio de Janeiro do extremo-sul. Em 1658 já existia São Francisco, como ponto de apoio, plantado no território do atual estado de Santa Catarina.

A metrópole deliberou expandir-se para o sul, tendo por ponto de apoio a ilha do Desterro, em Santa Catarina. Com uma pequena força, o governador do Rio de Janeiro, Manuel Lobo, construiu uma fortaleza, a Colônia do Sacramento, no estuário dos rios Paraná e Uruguai, em pleno rio da Prata, de onde se iniciaria o processo de consolidação da presença portuguesa na região. Com base no Tratado de Tordesilhas, o governador de Buenos Aires, José de Garro, se opôs à ocupação e deu início a um conflito que só teria fim 150 anos depois, com a criação definitiva de um novo país soberano, a República Oriental do Uruguai.

Entre o Rio de Janeiro e a Colônia do Sacramento, com os pontos intermediários de Paranaguá, São Francisco e a ilha do Desterro, a fundação de Laguna seria decisiva para fixar as comunicações e estreitar o espaço da ocupação do solo. Suas bases povoadas, com estrutura administrativa, seriam criadas em 1688, quando Domingos de Brito Peixoto, com seus dois filhos, aí estabeleceu casais, agregados e aderentes, fazendo plantações e promovendo o convívio com os índios. Laguna passou a vila em 1774, data em que, ainda por iniciativa oficial, se cogitou do caminho terrestre para o rio de São Pedro. O hiato de 150 léguas, bloqueado pela costa carente de acessos naturais, iria fechar-se no curso do século XVIII.

Não há dúvida de que antes da conquista e do povoamento, aventureiros de procedências várias viveram das Vacarias do Mar, explorando o comércio e o artesanato de couros, em precárias vias de trânsito, num roteiro conhecido desde 1703. Dentre esses aventureiros -- guerreiros e empresários a sua custa -- destacou-se Cristóvão Pereira, que se dedicou à extração, compra e exportação de couros da Colônia do Sacramento, penetrando as planuras e alcançando São Paulo por via terrestre.

A partir dessas duas linhas de penetração (Colônia do Sacramento e Laguna), fechou-se progressivamente o intervalo territorial, praticamente terra de ninguém. As iniciativas pioneiras, ambas da primeira metade do século XVIII, tiveram índole diversa. De Laguna partiu para o sul, sob o fascínio de grandes rebanhos de gados e cavalos, a incursão povoadora de João de Magalhães, que em 1725 fixou invernadas até o rio Grande (rio Guaíba), com a distribuição, mais tarde, de sesmarias aos colonizadores. Em 1727 abriu-se o caminho chamado de estrada dos Conventos, de Araranguá a Lajes, daí alcançando os campos curitibanos até chegar a Sorocaba, o grande entreposto, ainda nesse século, dos rebanhos de gado vacum, cavalar e muar. No seu contingente e nas suas inspirações, foi essa uma obra dos paulistas.

Em seqüência ao impulso do norte, de povoamento e exploração do gado, que em breve se consolidaria nas estâncias de criação, a metrópole incumbiu o general Gomes Freire de Andrade, governador da capitania do Rio de Janeiro, de ocupar e fortificar o porto do rio Grande. A chefia da empresa coube a seu substituto, brigadeiro José da Silva Pais, que, dentro de um plano que envolvia a defesa da Colônia do Sacramento e a tomada de Montevidéu, ocupou, em 19 de fevereiro de 1737, a barra do rio Grande.

Desde alguns meses, aguardava-o em terra Cristóvão Pereira, com 160 homens. Construiu o forte Jesus-Maria-José, onde depois se localizaria a cidade do Rio Grande. O comandante cuidou de colonizar as redondezas, com casais trasmontanos e do Rio de Janeiro, fortificando-se com reforço de homens e munições. As concessões de terras fixaram as populações no esboço da área urbana e nas regiões vizinhas, onde se iniciou o plantio, o recolhimento e a criação de gado. Os dragões de Minas Gerais ali se estabeleceram, com regimento regular. Em 1747 o aldeamento fortificado se constituiu em vila.

Em 1750 o Tratado de Madri, entre Portugal e Espanha, pôs termo ao núcleo de expansão, cedendo a esta o estabelecimento às margens do rio da Prata, que ficou desimpedido das incursões e embaraços lusitanos. Ao domínio português passariam as Missões Orientais do Uruguai, que se trasladariam, com sua gente e bens, para a outra margem do rio, continuando a reforçar econômica e militarmente o território espanhol. Embora o tratado não respeitasse, quanto às Missões, o princípio do uti possidetis, depois consagrado como dogma nas disputas territoriais, o grande ministro de D. João V, Alexandre de Gusmão, artífice principal das negociações entre as duas coroas, estabeleceu uma variante: a fixação da fronteira tendo em vista os fatores naturais. O realismo prevaleceu contra o mito da linha do Prata, insustentável com os recursos bélicos e humanos então possíveis.

A demarcação
Na demarcação dos novos limites, Gomes Freire de Andrade, o conde de Bobadela, governador e capitão-general da Repartição do Sul, encontrou tenaz resistência dos jesuítas espanhóis e seus catecúmenos aldeados. Estes -- entre os quais se destacava o índio Sepé Tiaraju, que o exagero e a inversão da perspectiva histórica quiseram batizar de primeiro caudilho rio-grandense -- enfrentaram as tropas portuguesas e espanholas no sangrento combate de Caibaté. No combate pereceu Nicolau Neenguiru, herói de Mbororé, dias depois da morte de Sepé Tiaraju, que a lenda popular elevaria à categoria de santo não canonizado -- o são Sepé.

Além de fixar populações, com a concessão de sesmarias, e de patrulhar o território desde os campos da Vacaria dos Pinhais a Chuí, a incursão demarcadora de Gomes Freire de Andrade conquistou e consolidou a base hidrográfica interior, da barra do rio Grande até o extremo dos rios interiores. No futuro, essa ocupação tornaria a região incólume às investidas castelhanas e forneceria as bases, já independente o país, ao resguardo da autoridade central. Foi durante a incursão de Gomes Freire de Andrade que surgiu a tranqueira do rio Pardo, em 1752, invicta nas lutas posteriores e que serviria de base para o domínio do território das Missões.

A par da empresa de conquista, a obra de colonização se acentuou pela introdução dos açorianos. Em sincronia com o movimento militar que ocuparia as Missões, encaminharam-se estes para o porto de Dorneles, depois Guaíba, para se entrosarem com os colonizadores dos Campos do Viamão. A ocupação açoriana, cujo contingente não raro tem sido exagerado em sua quantidade, visou, numa primeira fase, de 1751 a 1759, a finalidade precípua de substituir-se ao índio nas aldeias missioneiras; o povoamento metódico, com a distribuição de glebas aos povoadores, só teria início mais tarde. O curso da distribuição seguiu o seguinte: Rio Grande; Capela Grande do Viamão, compreendendo o porto de Viamão, mais tarde Porto Alegre; Triunfo; Santo Amaro; e Rio Pardo.

À margem da bacia fluvial formou-se o cinturão de lavouras que abasteciam as tropas responsáveis pela colonização do território. Mais tarde, na segunda fase, caracterizada pela valorização do gado no mercado interno, o trabalho agrícola foi substituído pela pecuária e a região se transformou em fonte de abastecimento das minas em prosperidade galopante, no ciclo de ouro das Gerais.

O traçado inicial da conquista -- do Rio de Janeiro (depois, de Laguna) à Colônia do Sacramento -- sofreu, a partir de 1750, uma retificação, com o eixo Rio Grande-Porto Alegre-Rio Pardo. A inflexão para o oeste, com a base do Rio Pardo dominando a bacia fluvial, configurou a fisionomia política e econômica do Rio Grande, agora definitivamente.

Em 1761, o Tratado de El Pardo anulou o Tratado de Madri, devendo a Colônia do Sacramento e as Missões Orientais voltar aos antigos senhores. A Espanha, preocupada em combater a influência inglesa, concertou em 1761 o "pacto de família", que permaneceu algum tempo secreto. Portugal, vinculado à Inglaterra, não aderiu, contando que, somente com o amparo inglês, poderia proteger seu domínio ultramarino.

O primeiro golpe desfechado contra o extremo-sul do território português foi a tomada, ainda uma vez, da Colônia do Sacramento, em 1762, pelo governador de Buenos Aires, Pedro de Ceballos Cortés y Calderón, que, depois de atravessar a planície uruguaia, ocupou a vila do Rio Grande, em 1763, lançando uma cabeça-de-ponte em São José do Norte. O governador do Rio Grande, coronel Elói Madureira, transferiu a sede do governo para Porto Alegre, onde permaneceria definitivamente. Em 1763 o Tratado de Paris pôs termo à beligerância, mas veio a ser desobedecido pelas autoridades do Prata, que apenas devolveram a Colônia do Sacramento.

Ao contrário da esperada paz, o novo governador de Buenos Aires, Juan Ortiz y Salcedo, chegou às portas da tranqueira do Rio Pardo, em 1773, mas a resistência que teve de enfrentar, sob o comando do governador do Rio Grande, coronel Marcelino de Figueiredo, conseguiu deter as posições-chave -- São José do Norte e Rio Pardo --, graças a um elemento novo e surpreendente, os guerrilheiros locais, treinados nas estâncias, comandados pelo primeiro caudilho rio-grandense, Rafael Pinto Bandeira, ex-coronel de milícias e grande proprietário rural. Contudo, somente uma ação de grande envergadura, com a mais numerosa força militar já concentrada em território brasileiro (6.800 homens), sob o comando do tenente-coronel João Henrique Böhm, conseguiu expulsar os espanhóis do Rio Grande, em 1776, depois de 13 anos de ocupação.

As comandâncias
A expansão militar espanhola obedecia a um plano, documentado com o ato de criação do vice-reinado do Rio da Prata, em 8 de agosto de 1776, abrangendo o território atual da Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Rio Grande do Sul. O Tratado de Santo Ildefonso, de 1º de outubro de 1777, encerrou a atribulada história diplomática do extremo-sul, que consolidaria em poder da Espanha a Colônia do Sacramento e as Missões Orientais. O acertado no tratado já se mostrava patentemente anacrônico, diante do predomínio social da região em favor dos portugueses.

Na verdade, o território das Missões, encurralado pela criação de gado e pelos sesmeiros, tornara-se um satélite do Rio Grande. Em 1801 uma manobra guerreira nativa, sob o beneplácito dos poderes oficiais, incorporou, num golpe de audácia, toda a região ao Rio Grande. Na operação se destacaram os descendentes da escola guerrilheira de Rafael Pinto Bandeira -- o filho de estancieiro José Borges do Canto e o aventureiro Manuel dos Santos Pedroso. A antiga civilização jesuítica não passava de uma sucessão de ruínas, de população escassa, só realmente povoada e colonizada pela gente de São Paulo, que desceu de Curitiba e Lajes, ao lado dos soldados aquinhoados, pelos seus títulos, com ricas sesmarias. Completou-se, assim, a integração geográfica do extremo-sul.

A estrutura administrativa deu consistência e coesão à obra de conquista militar e de povoamento. Fundada a fortaleza Jesus-Maria-José às margens do rio Grande, Gomes Freire instituiu um órgão de direção e coordenação, que recebeu o nome de comandância militar, nos moldes das já existentes em Santos e na Colônia do Sacramento. Instituiu-se assim a Comandância Militar do Rio Grande de São Pedro, subordinada à capitania do Rio de Janeiro, guarnecida inicialmente pelos dragões, de gloriosa e tumultuada história, no núcleo inicial e no rio Pardo. A administração do território cabia aos comandantes, como se fossem governadores-gerais.

O regime das comandâncias estendeu-se de 1737 a 1760, sob a chefia, sucessivamente, do brigadeiro José da Silva Pais, do mestre-de-campo André Ribeiro Coutinho e do coronel Pascoal de Azevedo. Desde 1710, a administração do extremo meridional subordinava-se à capitania de São Paulo, passando, em 1738, a constituir uma capitania, juntamente com Santa Catarina, dependente do Rio de Janeiro, embora dotada de administração própria -- simples capitania subalterna. A sede seria em Santa Catarina, residência do governador. Somente pela carta-patente de 9 de setembro de 1760 o governo do Rio Grande de São Pedro se tornou independente, com seus governadores chefiando a administração, mas, ainda assim, subordinado ao governo do Rio de Janeiro, e, além disso, numa fase atribulada e de lutas incessantes contra os invasores espanhóis.

A autonomia de fato só ocorreu em 19 de setembro de 1807, quando o regente D. João criou a capitania de São Pedro, subordinada, como as outras, ao vice-rei e capitão-general do estado do Brasil. A escolha do primeiro governador e capitão-general recaiu no conselheiro e brigadeiro D. Diogo de Sousa Coutinho, depois conde do Rio Pardo, que assumiu suas funções em 1809. Os corpos de milícias, criados com o recrutamento local, completaram a muralha militar que se articulou, no pampa e nas regiões agrícolas, contra o castelhano. Os chefes dessas forças, vinculados à estância e nomeados pelo rei, reuniam, pela lealdade e pela dependência, a peonada, que se compunha de índios, brancos e mestiços. Essa foi a origem dos heróis nativos Pinto Bandeira, Borges de Canto e Santos Pedroso, que deixariam, no curso da história futura, grande e não raro turbulenta descendência.

Na base dos organismos militares, uma faixa de população se formou, à margem do trabalho agrícola e do pastoreio organizado. Para abastecer as charqueadas, estabelecidas desde 1780, em busca da courama, entregaram-se esses aventureiros à preia do gado sem dono na fronteira retrátil, em expedições chamadas arriadas. Para a aventura do saque e da guerra, o regime do latifúndio enviou a legião nômade, os que seriam chamados de gaudérios, e depois de gaúchos, em sentido depreciativo. Matéria-prima das arriadas e guerrilhas, sua colaboração limitava-se às incertezas do gado a arrebanhar, desligando-se das obrigações militares ao seu arbítrio. Só no século XIX a expressão gaúcho perdeu o caráter depreciativo para adquirir índole respeitosa, na medida em que desaparece o nomadismo e se organizam as estâncias.

A integração
Um fator econômico, de relevância política e social, encerrou o processo de integração do Rio Grande do Sul colonial ao território lusitano. As necessidades prementes de muares e carne no ciclo do ouro exigiram a importação do extremo-sul, o que incentivou a abertura de estradas. Cessada a febre do ouro, o abastecimento das populações escravas e proletárias do café se fez à custa de charque, estimulada sua produção depois que o Ceará reduziu suas exportações, assolado pela seca de 1777. Encerrou-se o período de conquista predatória do território e consolidou-se a estância como centro produtor, complementada pela charqueada, servida esta com mão-de-obra escrava. O comerciante de gado -- muares, cavalos e vacas --, o tropeiro, enriqueceu e adquiriu relevo social.

A natureza econômica da região se definiu na economia subsidiária, com relação ao país, e na economia de subsistência, baseada sobretudo no trigo e na colonização açoriana. A valorização dos muares e da carne levaria, no entanto, ao abandono a cultura dos cereais. Em 1822 o Rio Grande, antes exportador de trigo para o mercado interno, passou a importar o cereal dos Estados Unidos. A paisagem se modificou, com o florescimento da região de São Francisco de Paula -- depois Pelotas --, que desenvolveu uma próspera rede de charqueadas. O produto sulino, baseado no trabalho escravo, só alcançaria, todavia, preços compensadores nos momentos de crise no Prata, que, além disso, fornecia charque da melhor qualidade.

O caráter subsidiário da economia, cada vez mais relevante, criou uma unidade diferenciada de produção, ligada ao mercado nacional, mas isolada dos interesses exportadores. Os grupos dominantes no país não se associariam às reivindicações do extremo-sul, antagônicas aos seus objetivos de alimentação barata para a escravaria. O grupo exportador de produtos de aceitação européia, sempre estimulado pelo centro político, no seu exclusivismo, infundiria à sociedade rio-grandense a consciência de isolamento econômico, social e político, que os componentes da formação militar tornariam, em certos momentos, explosiva.

Em 1807, quando da criação da capitania de São Pedro, já se definira a sociedade rio-grandense, dissolvendo-se a pequena agricultura, gradativamente, na expansão da grande propriedade estancieira, gerada sobre as sesmarias prodigamente concedidas. A campanha, com seus núcleos pastoris, só encontrou, com outro espírito, os centros urbanos e os evanescentes grupos agrícolas, pacíficos e situados a leste, em torno de Porto Alegre, mais tarde revigorados, com a pequena propriedade, na colonização alemã, que se desenvolveu a partir de 1824.


Emancipação nacional e império
Nas lutas em torno do domínio do Uruguai, que iriam redundar na criação da Província Cisplatina e sua transformação em país independente em 1828, sofreu o território rio-grandense forte sangria de homens e recursos. A região das Missões Orientais, ainda mal povoadas, servira de teatro às incursões determinadas por José Gervásio Artigas, que nela se abasteceria de cavalhada e gado. Para sustento dessa campanha malograda, o Rio Grande mobilizou todos os seus recursos humanos e materiais.

Ao lado das tropas regulares que a corte enviou ao sul, os milicianos locais retemperaram nova camada militar, agora unida estreitamente à estância, com suas reservas do proletariado rural, o gaúcho. Entre os chefes, surgiram nomes gloriosos, que iriam influir no futuro: Bento Gonçalves da Silva, José de Abreu, João de Deus Mena Barreto, José Antônio Correia da Câmara, Manuel Marques de Sousa.

Nos sucessos da independência, governava a capitania, como capitão-general, o brigadeiro João Carlos de Saldanha, depois duque de Saldanha. Em 1821 criadas as províncias, em caráter provisório, por decreto das cortes de Lisboa, nas quais deveriam eleger-se juntas governativas subordinadas a Portugal, Saldanha foi eleito presidente. Os eleitores paroquiais, todavia, não cumpriram totalmente o decreto, considerando não escrito o artigo que vinculava o governo a Lisboa. O vice-presidente, marechal-de-campo João de Deus Mena Barreto, desconfiado da lealdade portuguesa de Saldanha, criou as condições para o bloqueio político do presidente, que em dezembro de 1822 se retirou para o Rio de Janeiro, sem articular a defesa da união dos reinos, com a hegemonia portuguesa.

Em seguida ao Fico, as câmaras municipais consolidaram o sentimento nativista, impossibilitando a reação, já ocupado o governo por Mena Barreto. Firmaram-se, nessa ação, sobre a rala camada militar portuguesa, o miliciano local, o estancieiro, a burguesia urbana e o gaúcho.

O Rio Grande expandira sua população e suas riquezas. Em 1780, segundo o primeiro recenseamento geral da capitania, a população era de cerca de 18.000 habitantes, enquanto em 1814 já alcançava a casa dos 71.000.

O número de escravos aumentou largamente no interregno desses 34 anos, de cinco mil para vinte mil, concentrando-se inicialmente nas zonas de produção de trigo, atingidas pela escassez de braços. Com a decadência do trigo, o escravo se trasladou, em pequena proporção, para a estância, já transformada em unidade produtiva e não mais de apropriação, e, em larga escala, para as charqueadas. A estância necessitava de pouca mão-de-obra, embora se costume exagerar a exigüidade do número de escravos nela empregados.

No curso do século XIX, as charqueadas assumiram incremento crescente, ao ponto de desarticular a economia de subsistência, que, pouco antes, tornava a estância um centro quase autárquico, servido pela chácara. O pastoreio e o charque tomaram conta da economia, e imporiam a importação de gêneros alimentícios se a colonização alemã não preenchesse, em breve, o hiato.

Prosperaram então os núcleos comerciais, com a ascendência de Porto Alegre, que centralizou as trocas das populações de leste, de origem açoriana, incentivando focos redistribuidores até as Missões. Ao lado de Pelotas, projetou-se a abertura marítima da província, Rio Grande, único porto da costa, embora de acesso difícil. Continuavam a ter relevo as vias terrestres, que levavam a produção pastoril ao norte, por via da feira de Sorocaba, principal centro distribuidor de São Paulo, Minas Gerais e Goiás.

Boa parcela do progresso se deveu ao consumo dos efetivos militares, sem embargo dos confiscos arbitrários, não raros em toda a região. Para uma população de 110.000 habitantes, no início do império, o rebanho bovino elevava-se a cinco milhões de cabeças, com um milhão de cavalos. As Missões Orientais povoaram-se com as sesmarias concedidas, em largas extensões, aos militares que se deslocaram na guerra e aos aventureiros que desciam de São Paulo, avolumados pelo êxodo de Santa Catarina e Paraná, para o pastoreio em glebas férteis.

Organizado o sistema político do império, ocupou a presidência do Rio Grande do Sul o desembargador José Feliciano Fernandes Pinheiro, visconde de São Leopoldo, futuro senador do império. Inaugurou-se, como para todo o país, o período das administrações curtas, incapazes de obra contínua, com 54 presidentes efetivos e 24 interinos, desde Fernandes Pinheiro a Justo de Azambuja Rangel, em 1889.

Em 1824, em virtude de plano elaborado nos conselhos da corte, desembarcaram em Porto Alegre os primeiros imigrantes alemães, destinados à agricultura. Retomou-se, com essa medida, a experiência da pequena lavoura açoriana (78 hectares para cada família), que, seduzida pela criação do gado, se rarefizera e fora atraída para a grande propriedade. A partir da margem esquerda do rio dos Sinos, onde depois se situaria a cidade de São Leopoldo, expandia-se, em levas contínuas, o mais importante impulso agrícola da época, assegurando a economia de subsistência, já praticamente em abandono.

Os imigrantes, que prosperavam na lavoura, no artesanato e na pequena indústria, equilibraram a paisagem pastoril com sua sociedade pacífica, sem vínculos com o patriarcado militar e alheia às tensões da economia do gado. Porto Alegre, o centro administrativo, viu com isso acentuada a sua posição de coordenadora da autoridade, subordinada à capital do império. Não obstante o ingresso de imigrantes agrícolas, até que a sociedade se transformasse, no longo processo de aculturação, predominavam as estâncias pastoris, cujos interesses, no curso do século XIX, já se haviam amalgamado ao patriciado militar, que se "afazendara", na obtenção de sesmarias e gado.

O dissídio entre o centro e a província, amortecido na guerra Cisplatina, se intensificou nas primeiras três décadas do século, até a explosão de 1835. Produtores de charque e derivados do gado e fornecedores de muares, os rio-grandenses não dispunham de meios para influenciar as linhas de conduta político-econômica do centro. Incapaz de concorrer com a produção platina, mais bem aparelhada e com custos inferiores, via-se a economia rio-grandense sujeita à instabilidade, em detrimento dos criadores e charqueadores. A carga tributária sobre a produção gaúcha tornou-se sufocante. As rendas fiscais, carreadas para o centro, revertiam em parcela mínima para o sul. De outro lado, os presidentes da província, agentes do Rio de Janeiro, não se mostravam solidários com os interesses locais.

A revolução decorrente desse estado de coisas, exaltada com o nome de Farrapos ou revolução Farroupilha e liderada pelo deputado provincial e coronel de milícias Bento Gonçalves da Silva, duraria dez anos -- a década heróica da história do Rio Grande do Sul: de 19 de setembro de 1835 até 1º de março de 1845, quando foi assinada a paz com o governo de D. Pedro II, depois que Luís Alves de Lima e Silva, então barão de Caxias, assumiu a província e o comando de suas armas.

Cuidou Caxias, depois de pacificar os ânimos, de atender algumas das mais urgentes reivindicações republicanas dos revolucionários, concernentes à instrução pública e às comunicações terrestres. As campanhas nacionais que se seguiram, com o Rio Grande por cenário -- a luta contra Rosas, em 1852, e a guerra do Paraguai, de 1864 a 1870 -- fortaleceram a economia sulina. Enquanto a revolução Farroupilha esgotou as reservas da principal riqueza da província, essas guerras, apesar dos sacrifícios com soldados (33.803 soldados rio-grandenses na guerra do Paraguai, a quarta parte dos combatentes), exigiram grande consumo de produtos agrícolas e pecuários, indenizados pelo justo valor. A agricultura, que a colonização alemã tornara florescente, contribuiu amplamente para alimentar as tropas. O Banco da Província, fundado em 1858, e ainda existente, seria uma das fontes de estímulo da riqueza local.

Não obstante a recuperação econômica, mantinham-se as causas do desequilíbrio regional, em desfavor da produção local. Também foi mantida a política econômica, ditada pelo centro e considerada espoliativa pelos estancieiros e charqueadores, acentuando o isolamento do Sul. A exigência de redução dos direitos sobre os couros, de 15 para 5%, e sobre o sal, de 240 para 50 réis por alqueire, permaneceu sem resposta. No que se referia ao charque, a exportação se achava com direitos mais altos do que o similar platino; o sistema escravocrata das charqueadas onerava a produção ao impedir a retração da mão-de-obra e exigir maior capital fixo.

Surgiu então um líder, Gaspar Silveira Martins, que em 1861 se propôs, constituindo o Partido Liberal Histórico, a criar uma base de operações políticas, de baixo para cima, nas estâncias e nos ranchos, com a pregação de casa em casa. Queria libertar sua terra da "asfixiante, vergonhosa tutela do poder central". Depois de 11 anos de luta, após dominar a assembléia provincial, Silveira Martins levou à Câmara dos Deputados uma bancada liberal, eleita sob gabinete conservador. Entre 1868 e 1878 o "Sansão do império", como era chamado, tornou-se o ídolo dos liberais.

Em 1874, foi instalado em Porto Alegre o Tribunal da Relação, libertando a província da dependência do Rio de Janeiro. Ao elenco das iniciativas oficiais se acrescentou o incremento das correntes migratórias -- entre 1875 e 1889 chegaram ao Rio Grande do Sul mais de sessenta mil italianos -- que, sobre a base agrícola, expandiram sua atividade no artesanato de produtos de couro e têxteis e na produção do vinho. O carvão passou a ser explorado a partir de 1866.

No quadro do progresso, um desajuste interno perturbou a sociedade. A estância, cada vez mais estruturada como empresa lucrativa, limitadas suas necessidades a poucos braços, abandonou o excedente, sem que este se adaptasse às zonas agrícolas -- onde, de resto, não lhes davam terras. Uma camada nômade, que se engrossou com os libertos, passou a errar pelos campos, vivendo das ocupações eventuais e do crime. O Partido Liberal, como resultado paradoxal de sua política de vínculo com o centro, perdeu o ímpeto popular. Fundou-se então o Partido Republicano, no qual desde logo se destacou, como jornalista, Júlio Prates de Castilhos.

A oficialidade que servia no Rio Grande do Sul, entre a qual se contava Deodoro da Fonseca, ligou-se aos rebeldes, sendo a união cimentada pelo positivismo, estuário comum de civis e militares. Tão veemente seria o vínculo que, em 21 de março de 1889 os propagandistas traçaram, como linha de ação, o levante armado, na eventualidade do terceiro reinado.

República
O ousado plano da rebelião armada frustrou-se por obra das circunstâncias, diante da surpresa da proclamação da república por Deodoro, comunicada aos propagandistas e conjurados pelo telégrafo. Dias antes Silveira Martins transmitira o governo a Justo de Azambuja Rangel. Este, por intimação de Deodoro, passou o cargo ao marechal José Antônio Correia da Câmara, visconde de Pelotas, de extração liberal.

Silveira Martins, então senador, chamado pelo imperador para organizar o derradeiro gabinete do império, foi preso e deportado. Com o visconde de Pelotas tentou-se a conciliação local. Seus secretários, entre eles Júlio de Castilhos e Ramiro Barcelos, rejeitaram a conciliação, mantendo a linha partidária. Entre os liberais e os republicanos não havia meio-termo possível, definidos os últimos na carta estadual autocrática de 14 de julho de 1891, promulgada entre ásperas dissensões, que culminariam na revolução de 1893.

Em pouco mais de três anos, 15 chefes do governo estadual, com o interregno de uma junta governativa, definiram a profundidade da instável situação política. Somente em 25 de janeiro de 1893 Júlio de Castilhos assumiu a presidência do estado, para, completando o mandato de cinco anos, transmiti-la a Antônio Augusto Borges de Medeiros, que, apenas com o hiato de um qüinqüênio, governaria o Rio Grande até 1928.

Já então o Rio Grande se dividia entre gasparistas -- Silveira Martins retornou do exílio em 1892 -- e castilhistas -- já com Júlio de Castilhos na chefia incontestável dos republicanos. Ambas as facções se definiam pelo federalismo, bandeira que, depois de arvorada pelos farroupilhas, se incorporou ao ideário gaúcho.

A ferro e fogo, o Partido Republicano conquistou as bases eleitorais e o controle político, reforçado, mais tarde, por uma poderosa milícia estadual, a Brigada Militar. Na revolução Federalista, que se prolongou por trinta meses, com dez mil mortos, na mais cruenta das guerras civis brasileiras, o castilhismo impôs-se ao estado, abatendo a oposição, sem a aniquilar. Os chefes, formados na tradição do cavalheirismo, não puderam deter a onda de terror que invadiu os campos e extravazou, nas colunas revolucionárias e legalistas, nos outros dois estados do Sul, Paraná e Santa Catarina.

A insurreição, apesar de mobilizar milhares de combatentes, limitou-se à guerrilha, incapaz de assegurar posições estáveis. Tampouco conseguiu sensibilizar os imigrantes, seus descendentes ou a população do leste, onde Porto Alegre avultara como centro econômico, político e administrativo.

A revolução de 1893 revelou o extraordinário talento guerreiro de Gumercindo Saraiva. Sua coluna, abandonando a orla da fronteira uruguaia, ao longo de 18 meses de combates, empreendeu uma marcha de 2.500km até Itararé, onde se deteve, incapaz de penetrar no estado de São Paulo. No seu encalço, o chefe legalista Pinheiro Machado combateu-o tenazmente, repelindo a surpresa do ataque com a surpresa do revide.

Morto o chefe rebelde em 10 de agosto de 1894, a guerra entrou em rápido declínio, limitada a irrupções momentâneas e descoordenadas. A paz, assinada em 23 agosto de 1895, depois que os insurretos fracassaram em Campo Osório, pôs termo ao dissídio, sem que o Partido Republicano pudesse ditar, sob o controle de Prudente de Morais, os termos da vitória.

Presença de Vargas
Já estava quase no fim o longo consulado de Borges de Medeiros. O castilhismo, de que se fizera continuador, perdera substância. Uma nova mentalidade exigia reformas sociais e postulava mudanças de estrutura, não mais se contentando com o simples jogo das influências partidárias. Foi nesse ambiente que Getúlio Vargas, então modesto advogado de São Borja, começou sua carreira política. Deputado estadual e federal, líder da bancada gaúcha na Câmara Federal e depois ministro da Fazenda, acabou por eleger-se presidente do estado em 1928. Sua primeira preocupação no governo foi pacificar os espíritos, para o que constituiu a Frente Única, integrada inclusive pelo Partido Libertador, herdeiro do Partido Federalista e em cujas fileiras passariam a militar muitos dos revolucionários de 1923.

A habilidade de Vargas conquistou confiança e repercutiu de imediato em outros pontos do país, sensibilizando a opinião e atraindo a simpatia de políticos como Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, presidente de Minas Gerais, que se uniu ao da Paraíba para lançar a Aliança Liberal, em favor da candidatura do presidente gaúcho à sucessão de Washington Luís. A vitória de Júlio Prestes, candidato do oficialismo, num ambiente de opressão e fraude, descontentou a opinião pública, levando-a a prestigiar a liderança que articulou a revolução de 1930.

Depois que São Paulo, por via revolucionária, tentara reaver o comando político da nação, em 1932, a vida do país havia retornado à normalidade constitucional, com Getúlio Vargas à frente do governo, em 1934, até a implantação do centralismo de 1937, o qual viria a afetar substancialmente a autonomia gaúcha, tanto quanto a das demais unidades da federação. A nova estrutura nacional impunha assim sua configuração às mudanças internas ocorridas no estado.

A tendência então era de superar o isolacionismo econômico e político em que até então se mantivera o Rio Grande do Sul. A indústria e a agricultura conquistariam gradativamente relevo no confronto com a estância. A criação do Banco do Rio Grande do Sul, durante o governo de Getúlio Vargas, reanimaria as atividades pecuárias e agrícolas do estado.

Depois de 1930
O estado, embora sem veleidades hegemônicas, conquistara o poder supremo da república. Por imposição de forças de caráter nacional -- Exército, povo e indústria --, modificou-se substancialmente a estrutura federal. Rivais de velha data, os partidos tradicionais rio-grandenses, o Republicano e o Federalista, este último depois denominado Libertador, engajaram-se no movimento político decorrente da ação revolucionária de São Paulo, ao passo que a massa popular gaúcha se manteve fiel aos princípios de 1930. O general Flores da Cunha, interventor federal no Rio Grande, valeu-se desse choque de correntes para organizar, sob sua presidência, um partido local -- o Partido Republicano Liberal Rio-Grandense (PRL) --, no qual se reuniram dissidentes daqueles dois partidos, comandantes dos corpos provisórios da milícia estadual e prefeitos municipais.

Na Assembléia Constituinte, de cuja atuação resultaria a Carta de 1934, quase toda a bancada gaúcha era integrada por elementos do novo partido. Flores da Cunha, nessa data, eleito indiretamente, passaria a governador do estado, mas sem dispor de maioria que lhe permitisse agir inteiramente livre da partilha do poder com o adversário. Dissensões locais acabaram por atingir o PRL, quando o agravamento das condições de vida política do estado chegou ao ponto de levar o governador a desavir-se com o presidente da república. Com o golpe de 1937, Flores da Cunha renunciou. O estado, antes das eleições fixadas pela constituição de 1946, teria sete interventores, inclusive um interino.

No setor das obras públicas, de 1930 ao início do Estado Novo, registrou-se sensível desenvolvimento das rodovias e estradas de ferro estaduais; quanto ao fluxo do comércio marítimo, iria incrementar-se por meio da aquisição, pelo governo, da frota rio-grandense. Uma política de continuidade e de planejamento, no tocante à rede viária, só seria adotada a partir da criação, após 1938, do Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (DAER).

Reaberto o debate partidário em fins de 1945, os velhos partidos e os velhos políticos não lograram restaurar as lealdades antigas e a bandeira de suas reivindicações anteriores a 1930. Somente resistiu, limitadíssimo no número de partidários, o Partido Libertador (PL), sobrepujado pelo Partido Social Democrático (PSD), que na primeira eleição elegeu quase a totalidade dos deputados federais, e pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), de fulminante crescimento.

O primeiro governador eleito seria Walter Jobim, do PSD, seguido pelo general Ernesto Dorneles, do PTB. Em seqüência, elegeu-se o engenheiro Ildo Meneghetti, sucedido pelo engenheiro Leonel Brizola, do PTB, que, por sua vez, com a derrota de seu partido, não evitou o retorno daquele.

Na verdade, depois de 1945, o estado se dividiu em dois partidos -- o PSD e o PTB -- coligados, eventualmente, aos menores. Somente na década de 1960 prepararam-se no estado as bases para a implantação da grande indústria, além da exploração, em moldes capitalistas e modernizados, da pecuária e da agricultura, particularmente o arroz, o trigo e, mais tarde, a soja.

História recente
O estado desempenhou importante papel na evolução da política nacional, sobretudo a partir do movimento militar de 1964, em que três gaúchos assumiram a presidência da república: Artur da Costa e Silva, Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel. No plano estadual, o período foi marcado pela implantação de um amplo programa energético e pela inauguração da refinaria Alberto Pasqualini. Com ajuda do poder central, os sucessivos governos estaduais construíram rodovias modernas e ampliaram o porto de Rio Grande, onde surgiu um centro industrial. Na mesma época, reaparelhada, a Viação Aérea Rio-Grandense (Varig) tornou-se a mais importante empresa aérea do país.

Mais tarde acelerou-se a industrialização, sobretudo nas áreas de metalurgia e química. Em 1997 deu-se a privatização da Companhia Estadual de Energia Elétrica (ceee), ao mesmo tempo em que, atraídas pelas possibilidades comerciais abertas pelo Mercosul, montadoras de veículos se instalavam no estado. 

Cultura
Entidades culturais
. Entre os principais estabelecimentos de ensino gaúchos destacam-se a Universidade Federal do Rio Grande do Sul e a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, ambas na capital; a Universidade de Passo Fundo (particular); a Universidade Federal de Pelotas; a Universidade Federal de Santa Maria; a Universidade do Vale do Rio dos Sinos (particular), em São Leopoldo; a Universidade de Caxias do Sul (particular).

Entre as associações culturais, destacam-se o Instituto Histórico do Rio Grande do Sul, que edita uma Revista desde 1860, a Academia Rio-Grandense de Letras e a Associação de Imprensa, em Porto Alegre. Funciona na capital, subordinado à Secretaria de Educação e Cultura do estado, o Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul.

Museus
Os museus mais importantes do estado são o Júlio de Castilhos, o Museu de Armas General Osório, o Museu de Arte do Rio Grande do Sul, o Museu de Arte Sacra e o Museu Rio-Grandense de Ciências Naturais, na capital; o Museu do Centro de Tradições Gaúchas Rincão da Lealdade, de produtos, trajes e objetos regionais, em Caxias do Sul; o Museu Antropológico de Ijuí; o Museu Histórico de Pelotas; o Museu Oceanográfico de Rio Grande; o Museu Histórico Vítor Bersani, em Santa Maria; o Museu Barão do Santo Ângelo, em Rio Pardo; o Museu Farroupilha, em Triunfo, instalado no antigo Palácio do Governo Farroupilha; e o Museu Colonial Visconde de São Leopoldo, em São Leopoldo.

Acervo arquitetônico
O estado possui rico acervo arquitetônico e dispõe de inúmeros monumentos tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), entre os quais se destacam a igreja de São Sebastião, em Bajé, construída em 1863 e onde repousam os restos mortais de Gaspar Silveira Martins; o forte inacabado de D. Pedro II, em Caçapava do Sul; o palácio do governo farroupilha (hoje Museu Farroupilha), o quartel-general farroupilha e a casa de Garibaldi, em Piratini; a igreja de São Pedro, em Rio Grande; as ruínas do Povo e da igreja de São Miguel, em Santo Ângelo; a igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Viamão.

Turismo
Além dos monumentos históricos e das festas religiosas e populares, destacam-se na capital o palácio Piratini (sede do governo estadual), a catedral metropolitana, a igreja de Nossa Senhora das Dores, o parque Farroupilha, o auditório Araújo Viana, a ponte móvel da travessia Getúlio Vargas, o morro de Santa Teresa (cujo belvedere proporciona uma visão panorâmica da cidade), o Teatro São Pedro, e o hipódromo de Cristal.

No litoral contam-se alguns balneários conhecidos. O principal é o de Torres, com as praias Grande, da Guarita, da Cal e a Prainha. Em Capão da Canoa, estão localizadas as praias de Araçá, Arco-Íris, Guarani, Zona Nova, Noiva do Mar, Rainha do Mar e Capão Novo; em Tramandaí, as praias Jardim Atlântico, Oásis do Sul e Jardim do Éden.

Entre os pontos de interesse turístico da zona serrana, destacam-se as cidades de Canela, Gramado e São Francisco de Paula, com parques e cascatas. Também na região serrana se encontram as cidades de Caxias do Sul e Bento Gonçalves, centros de produção vinícola.


Eventos
Dentre as festas religiosas do estado, destacam-se, na capital, a procissão fluvial de Nossa Senhora dos Navegantes, em 2 de fevereiro, também conhecida como "Melancias"; a festa do Divino, celebrada na igreja do Espírito Santo; e as procissões de Corpus Christi e de nossa senhora Madre de Deus (padroeira de Porto Alegre).

Ainda na capital, realizam-se exposições anuais de animais e produtos derivados (agosto), a Semana Farroupilha (14 a 20 de setembro) e a exposição estadual de orquídeas (de 1º a 8 de dezembro); em Santana do Livramento e São Borja realizam-se exposições agropecuárias (outubro); em Caxias do Sul, a famosa Festa da Uva (fevereiro); e em Gramado, a Festa das Hortências (bienal) e a Feira Nacional de Artesanato (anual). Em todas as cidades da campanha gaúcha realizam-se rodeios (reunião de gado para contagem, cura ou venda).

Danças típicas do estado são o bambaquerê (espécie de quadrilha), e congada (auto popular), a chimarrita (fandango), a jardineira (dança figurada e cantada, de pares soltos) e a quebra-mana (dança sapateada e valsada). Nas zonas de colonização alemã, realizam-se os kerbs (bailes populares que duram em geral três dias).

A cozinha típica tem como prato principal o churrasco (pedaço de carne cortada em tira comprida e atirada ao braseiro do fogão). A bebida geralmente usada e mais consumida é o chimarrão (chá de erva-mate quente e amargo sorvido por meio de uma bomba). O vinho e o conhaque de maçã são outras das bebidas preferidas dos gaúchos.

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