História da Bíblia

História da Bíblia

HISTÓRIA DA BÍBLIA
A Bíblia é uma coleção de textos, divididos em duas partes: o Antigo ou Velho Testamento, reunido por etapas nos dez séculos anteriores ao nascimento de Jesus Cristo; e o Novo Testamento, escrito durante o século posterior a sua morte. A palavra "testamento" (testamentum na tradução latina da Vulgata) traduz o grego diatheke, que por sua vez é  tradução do termo hebraico berith, "aliança". O uso do termo diatheke - testamentum nos Evangelhos (p. ex. Lc 20,22) e nas Epístolas (p. ex. Rm 9,1-11; Hb 8 e 9), que aludem a textos como Gn 9 e 15 e Ex 24, 8, estabelece uma unidade espiritual entre os escritos cristãos e a coleção judaica.

Há mais de cinco séculos em primeiro lugar na lista dos livros mais impressos, traduzidos, vendidos, lidos e comentados do mundo, a Bíblia, livro sagrado do judaísmo e do cristianismo, inaugurou a invenção da tipografia por Gutenberg, em 1450, e desde então seu texto já foi impresso em mais de 300 idiomas e suscitou a publicação de milhares de obras de divulgação, interpretação ou comentário.
Desde os primeiros textos, escritos em rolos de papiro, até às modernas edições comentadas do século XX - ao longo de cerca de trinta séculos -, o texto bíblico manteve uma surpreendente vitalidade e alimentou a fé de muitos povos e nações. Essa força decorre do permanente diálogo entre o livro, que interpela a consciência dos homens, e os homens, que o interrogam em busca de respostas a suas indagações transcendentes.

A palavra Bíblia corresponde ao plural grego de biblion e significa "os livros". Refere-se aos livros que a compõem, também denominados Sagradas Escrituras, devido a seu caráter canônico, isto é, enquadrados em um cânon, ou padrão, como livros sagrados, diretamente inspirados por Deus. Entretanto, o conjunto não é o mesmo para todas as religiões, pois o critério de canonicidade difere de religião para religião. Assim, no Antigo Testamento só são canônicos, para os judeus, os livros cujo original hebraico foi encontrado, o que exclui Judite, Tobias, I e II Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc, que são canônicos para os cristãos; e os livros do Novo Testamento, que testemunham a vida de Jesus Cristo e de seus apóstolos, são canônicos apenas para os cristãos.

Além desses livros, existem outros, que formam a chamada literatura intertestamentária, e englobam: (1) os livros apócrifos - alguns deuterocanônicos (ou seja, de canonicidade só reconhecida posteriormente) para a Igreja Católica; outros, canônicos para a Igreja Ortodoxa; e ainda outros não-canônicos para o judaísmo e o protestantismo; (2) os pseudepigráficos (erroneamente atribuídos a autores bíblicos), não-canônicos para todas as religiões;  e (3) os manuscritos do mar Morto, também considerados não-canônicos, embora ainda em estudo por parte de especialistas de todas essas religiões.

Arqueologia bíblica Até o século XIX, o estudo da Bíblia sofreu limitações decorrentes da quase total ausência de informações históricas extrabíblicas sobre os fatos narrados na Bíblia. Com as descobertas proporcionadas por escavações arqueológicas, foi possível compor um quadro geral mais nítido de todo o mundo antigo contemporâneo da história de Israel e do cristianismo primitivo, isto é, desde a civilização sumeriana, da qual saiu Abraão, até à época do helenismo e do Império Romano, em que se expandiu o Evangelho.

Vários são os aspectos pesquisados pela arqueologia - desde a construção de edifícios e confecção de vestuário, até a organização militar, administrativa, política, religiosa e comercial. Os meios de transporte, as armas e utensílios, a educação, o lazer, as profissões e ofícios, os meios de subsistência, a estrutura urbana, sanitária e viária, a escrita e as artes - tudo concorre para formar esse imenso pano de fundo, contra o qual se pode assistir com maior nitidez ao desenrolar da história relatada nos livros bíblicos.

A partir de escritos preservados em tábuas de pedra e barro, em hieróglifos ou em caracteres cuneiformes, foi possível uma compreensão mais clara de como os judeus e os povos com os quais coexistiram pensavam e agiam, como se vestiam, de que se alimentavam, que deuses cultuavam, quais os seus ritos, sua filosofia, suas artes, como guerreavam ou estabeleciam tratados de paz. Restaurar todos esses elementos, no grau em que foi possível, significou restabelecer todo um conjunto de símbolos, um sistema de significação que permitiu compreender melhor as inúmeras metáforas, a rede de sentidos figurados em que se tece a linguagem da Bíblia.

Várias descobertas desse teor podem ser citadas: as escavações realizadas em Ur, cidade natal de Abraão, que permitiram a descoberta de textos alusivos a uma grande enchente, que se pode correlacionar ao relato do dilúvio; e a localização de restos de uma construção que pode ser ligada à descrição da torre de Babel. Em Nuzi, encontraram-se referências ao sacrifício de crianças - que Abraão substituiu pelo de animais - e ao roubo de ídolos, como refere o Gênesis (capítulo 31). No Egito, levantaram-se relatos sobre a invasão dos hicsos, ao tempo de José. Em Susa, na Babilônia, restaurou-se o código de Hamurabi, contemporâneo de Abraão. Numa estela construída por volta do ano 1200 a.C., há citações sobre Israel e Palestina.

Interpretação da Bíblia

Existe uma hermenêutica bíblica, isto é, uma doutrina e um método de interpretação do texto bíblico, com regras gerais e particulares a serem aplicadas na busca e determinação de sentido. A exegese, que é a aplicação prática dessas regras, obedece a certas etapas: estabelecimento do texto original, com base em manuscritos, traduções antigas, documentos etc; configuração do sentido contextual, para resgatar os significados que as palavras e expressões possuíam na época e no meio em que foram formuladas. Além do sentido literal, os pesquisadores buscam sentidos adicionais, baseados em outros princípios hermenêuticos. O principal, e o único legítimo, é o tipológico, que interpreta os fatos, personagens e instituições do Antigo Testamento como "tipos" ou prefigurações das realidades da Nova Aliança (p. ex. Jo 3,14-15, aludindo a Num 21, 8-9; ver também 1Cor 10, 1-11, onde o termo typos é usado duas vezes). Antigamente usava-se também o termo "sentido alegórico", para indicar, na maioria das vezes, o que depois passou-se a chamar de sentido tipológico. Uma interpretação alegórica, porém, que se esmerasse em buscar sentidos mais "altos", mais "profundos", mais " espirituais", sem base no sentido literal entendido pelo autor humano, nem na tipologia, não seria uma verdadeira e legítima interpretação do texto bíblico.

O chamado "sentido pleno" nada mais é do que o resultado de uma comparação ou combinação de diversas fórmulas bíblicas de um mesmo tema. Isso pode levar a um enriquecimento da mente do leitor, mas não acrescenta nada ao sentido literal ou tipológico de cada texto.

Leitura e liturgia

A igreja primitiva considerava a leitura das Sagradas Escrituras uma maneira eficaz de entrar em contato com Deus. Essa postura determinou a disseminação de traduções, que acompanharam o crescimento da igreja, desde a Judéia e Samaria, até a Anatólia -- Éfeso, Pérgamo, Laodicéia, Filadélfia --, Grécia, e finalmente Roma, onde são Pedro estabeleceu sua sé. Os papas sempre aconselharam a leitura privada da Bíblia, como fonte de vida espiritual, pregação e catequese.

No rito católico, a liturgia da palavra e a celebração da eucaristia sempre estiveram juntas. Com as mudanças introduzidas na liturgia, a partir do papa João XXIII, a leitura de trechos do Antigo Testamento, de uma epístola e do Evangelho passaram a ser feitas não mais em latim, pelo texto da Vulgata -- tradução latina oficial da Igreja Católica -- mas na língua do lugar onde se celebra o culto. No entanto, a proliferação de traduções, nem sempre confiáveis, já havia levado a Santa Sé a estabelecer normas e limitar a leitura às edições devidamente revistas e aprovadas.

No rito oriental, sobretudo após as grandes controvérsias teológicas dos quatro primeiros séculos, incorporou-se a prática de compor textos de orações, hinos e cantos corais alusivos a diversas passagens da Bíblia, que funcionavam como pequenos sermões. A Igreja Ortodoxa oriental adota muitos textos nessa linha, como orações que proclamam a teologia ortodoxa, o canto diário de salmos, com maior ênfase no culto do domingo. Na tradição grega adotam-se hinos de composição livre, baseados em personagens ou episódios bíblicos, ou paráfrases de passagens das Escrituras.

A liturgia do judaísmo é a da sinagoga, que começou ao tempo do exílio da Babilônia, no século VI a.C. e substituiu aos poucos o culto do templo. Como a sinagoga estava separada do templo de Jerusalém, cada instituição adotava sua própria liturgia. A congregação dos rabinos prestava culto à parte, em certos dias festivos prescritos pela Bíblia; o povo prescindia de sacerdote, mas mantinha um estreito sentido de comunidade, que agia segundo a palavra de Deus, expressa nas Escrituras. Obedecia aos dias, semanas, meses e anos prescritos, o que dava uma ordem à vida comunitária. A leitura em voz alta, nas sinagogas, era o ponto alto do culto, e muito concorreu para que o texto bíblico se tornasse familiar aos judeus.

A fé protestante está dividida em tão grande número de grupos culturais e religiosos, com perspectivas teológicas tão diversas, que não há como generalizar sobre as relações entre o culto e a Bíblia. Para os anglicanos, como também para a maioria dos luteranos, no século XX, prevalecem as mesmas orientações vigentes para os católicos, com a composição de orações, hinos e cânticos inspirados na Bíblia. Certas correntes protestantes de orientação fundamentalista, que mantêm uma interpretação mais radicalmente literal, nada além da Bíblia deve servir como texto de culto. A liturgia protestante das demais confissões situa-se entre esses dois extremos.

Textos originais

De nenhum livro bíblico possui-se o manuscrito original. Existem, porém, numerosas cópias manuscritas de séculos posteriores que, comparadas entre si e com as mais antigas traduções, permitem uma reconstrução bastante fidedigna dos textos. Do Antigo Testamento hebraico e aramaico, foi elaborada uma versão definitiva pelos massoretas (de massora, tradição), entre os anos 750 e 1000. Na base de um grande número de manuscritos, praticamente uniformes desde o século II da era cristã, e da tradição oral, os massoretas estabeleceram um texto munido de um complexo sistema de sinais de vocalização e pronúncia, texto esse que sempre foi usado como base principal para todas as edições e traduções posteriores.

Dos livros do Antigo Testamento escritos em grego, e de todo o Novo Testamento, foram feitas várias edições críticas, com base em centenas de manuscritos, numa tentativa de reconstruir da melhor maneira possível a versão original dos autores inspirados. Esse imenso esforço crítico, que data principalmente do século XIX, forma a base de todas as traduções modernas, como por exemplo a francesa Bible de Jérusalem.

Traduções da Bíblia

O texto original da Bíblia, em hebraico e aramaico no Antigo Testamento e em grego no Novo Testamento, seria inacessível ao leitor comum. Toda a enorme influência religiosa, política, social e cultural da Bíblia deveu-se às traduções. Elas começaram bem antes do nascimento de Cristo, e multiplicaram-se a partir da disseminação da fé cristã. A invenção da imprensa de tipos móveis, no século XV, deu ensejo a nova onda de traduções, que continuaram a multiplicar-se até o tempo presente, quer de todo o texto canônico, quer de livros não-canônicos, mas de interesse para o estudo da mensagem judaico-cristã.

Traduções antigas

A mais antiga tradução do Velho Testamento é a Septuaginta, ou Versão dos Setenta, nome que tem sua origem na lenda segundo a qual 72 judeus, seis de cada tribo de Israel, teriam feito essa tradução do Antigo Testamento para o grego em 72 dias. Realizada em Alexandria, entre 250 e 150 a.C., aproximadamente, destinava-se aos judeus da diáspora -- os que, voluntária ou coercitivamente, se encontravam fora de Israel. Do Egito espalhou-se por outras regiões, até tornar-se a Bíblia oficial do judaísmo helenista. As traduções seguintes já compreendem a Bíblia inteira, e foram feitas pelos iniciadores do cristianismo nas regiões orientais do Império Romano. A principal tradução siríaca é a  Pechitta (a comum). A tradução do Antigo Testamento é muito antiga; foi começada desde o século II. O texto oficial da igreja síria para o Novo Testamento, na sua forma atual, remonta provavelmente a Rábulo, bispo de Edessa (411-435). A tradução armênia data do século V, pelo bispo Mesrop, e inaugura a língua literária nesse idioma.

Por volta do ano 170, Taciano, discípulo de são Justino, compôs o Diatessaron, compilação dos quatro Evangelhos em um só, também denominado Harmonia evangélica. Foi escrita provavelmente em grego, e traduzida para o siríaco pelo próprio Taciano. Esse texto serviu como uma espécie de Evangelho padrão para os sírios até perto do ano 400, quando foi substituído pelos quatro Evangelhos separados. Tanto o texto grego como o siríaco perderam-se e só podem ser reconstituídos, parcialmente, por fontes indiretas.

Após o cativeiro do Egito, o povo judeu já não mais entendia o hebraico, e por isso foi preparada uma tradução oral da Bíblia em aramaico, o Targum, posteriormente guardada por escrito. A cópia hoje conhecida data de época muito posterior, mas grandes trechos remontam ao período pré-cristão.

Por volta do ano 245, Orígenes, o mais influente teólogo e especialista em texto bíblico da nascente igreja grega, elaborou em Cesaréia, na Palestina, uma versão do Antigo Testamento, denominada Hexapla (em grego, livro sextuplicado). Apresentava as versões grega e hebraica em seis colunas paralelas, na seguinte ordem: texto hebraico em caracteres hebraicos; texto hebraico em caracteres gregos; texto grego de Áquila (autor de uma tradução literal do Antigo Testamento); texto grego do sábio judeu Símaco; texto da Septuaginta; e texto grego do helenista judeu Teodócio. O trabalho consumiu vinte anos e totalizou cerca de sete mil páginas. Talvez devido a essa extensão, jamais foi copiado integralmente, e dele restam apenas fragmentos.

Traduções latinas

Dentre as muitas traduções da Bíblia, as de maior importância para a expansão do cristianismo nascente foram as feitas para o latim. A mais antiga foi a Itala, realizada entre o ano 200 e o 250, na Itália, quando começava a se extinguir o conhecimento da língua grega nas regiões ocidentais do Império Romano. Foi substituída pela Vulgata, realizada por são Jerônimo, por ordem do papa Dâmaso, no século IV. Para o Novo Testamento, o tradutor respeitou o texto latino antigo, que já se tornara familiar, mas corrigiu-o de acordo com bons manuscritos gregos. Entre 386 e 389, são Jerônimo  corrigiu a tradução latina do Antigo Testamento na base da héxapla de Orígenes. Entre 390 e 406, porém, elaborou uma nova tradução latina do Antigo Testamento, diretamente do hebraico e do aramaico. No século VIII a versão definitiva de são Jerônimo acabou por suplantar as demais traduções latinas, mas foi somente por volta do século XVI que recebeu o nome de Vulgata, devido a sua larga divulgação. O termo era antes aplicado à versão dos Setenta ou à Itala. Quatro séculos depois, ao encerrar-se o Concílio Vaticano II, o papa Paulo VI designou uma comissão de peritos com a incumbência de realizar uma revisão da Vulgata, a fim de incorporar os resultados dos trabalhos exegéticos que se haviam acumulado nos últimos séculos e assim obter-se uma versão latina atualizada em relação à ciência bíblica atual.

Traduções portuguesas

Das traduções para o português, a mais antiga foi feita, no século XVII, por João Ferreira de Almeida, missionário católico na Índia, posteriormente convertido ao protestantismo. Baseada no texto grego, quase sempre discordou da Vulgata, embora fosse de orientação católica. De melhor qualidade é a segunda tradução para o português do Antigo e do Novo Testamento, realizada no século XVIII, por Antônio Pereira de Figueiredo. Baseada na Vulgata, teve maior acolhida dos protestantes que dos católicos.

Em 1981 foi publicada a Bíblia de Jerusalém, traduzida dos originais, com introduções e notas traduzidas de La Sainte Bible, publicada em 1973 sob a direção da École Biblique de Jérusalem. Outras boas versões são a Bíblia Sagrada da Editora Ave Maria, traduzida dos originais hebraico, aramaico e grego, mediante a versão francesa dos monges de Maredsou, Bélgica, pelo Centro Bíblico de São Paulo; e a Bíblia do Pão, da Editora Vozes, diretamente dos textos originais, com introduções e notas explicativas e remissivas.

Traduções alemãs

Para o alemão, o Novo Testamento foi traduzido por Martinho Lutero, em 1522. Zwingli mandou acrescentar-lhe, em 1530, uma tradução do Antigo Testamento feita por seus companheiros Pellican, Bibliander e outros (Bíblia de Zurique), mas esta foi logo suplantada pela tradução do Antigo Testamento por Lutero, em 1534. A Bíblia de Lutero tornou-se de uso comum por todos os protestantes de língua alemã. É o primeiro e talvez o maior documento da literatura alemã moderna, cuja língua foi determinada por essa obra.

Traduções inglesas

A primeira tradução para o inglês, de John Wycliffe, caiu em esquecimento, com o fracasso de seu movimento reformador. A reforma da igreja da Inglaterra por Henrique VIII foi precedida e acompanhada pelas traduções de William Tyndale (Novo Testamento em 1525, Pentateuco em 1531), em estilo solene e arcaico. Em 1535, Miles Coverdale traduziu a Bíblia inteira, tradução oficialmente aceita depois da revisão pelo arcebispo Cranmer, em 1540. Adeptos de uma reforma mais radical, William Whittingham e outros criaram em 1560 a Bíblia de Genebra, texto lido pelos puritanos, pelos Pilgrim Fathers na América e por Cromwell.

Rejeitando o texto dos calvinistas de Genebra, a Igreja Anglicana mandou fazer outra tradução, a do arcebispo Matthew Parker e de outros bispos (Bishop's Bible, 1568). O rei Jaime I encomendou uma nova versão dessa Bíblia, realizada em 1611 por uma comissão de 47 tradutores sob a direção de Lancelot Andrewes, e cujo uso na Igreja Anglicana foi autorizado. É esta a Authorized Version, dita também King James Bible, um dos maiores monumentos da língua e que exerceu influência profunda sobre toda a literatura inglesa.

Traduções italianas

O primeiro tradutor protestante da Bíblia na Itália foi Pagninus (1528), seguido por Antonio Brucioli (1530-1532). Os católicos responderam com o Velho Testamento traduzido por Santi Marmochini, e o Novo Testamento traduzido por Zaccheria (1538). A mais importante tradução protestante da Bíblia para o italiano é a de Giovanni Diodati (1607). Uma tradução católica é a de Antonio Martini, do século XVIII.

Traduções francesas

Em 1530 saiu a tradução do católico Jacques Le Fèvre D'Étaples, seguida pela do protestante Pierre Robert, dito Olivétan, cuja tradução de 1535 conquistou o protestantismo francês, sendo revista por Ostervald em 1724. Depois da tradução do católico Corbin, veio a melhor de todas, a do jansenista Louis-Isaac Le Maître de Sacy. Traduções mais modernas são a do protestante L. Segond (1880) e a do católico A. Crampon (1894). Em 1956 saiu a tradução completa feita sob a direção da École Biblique de Jérusalem, dominicana.

Outras traduções

Tanto nas línguas mencionadas como nas demais línguas da Europa apareceram numerosas traduções, parciais ou completas, desde a Idade Média até os tempos modernos, sempre na linguagem de cada época, e tanto do lado protestante como do lado católico e -- para o Antigo Testamento -- judaico. Muitas traduções da Bíblia foram feitas, integral ou parcialmente, com fins missionários, para línguas faladas fora do mundo cristão. Colonizadores ingleses na América do Norte fizeram uma versão para a língua dos índios algonquinos, no século XVII. No século XIX, apareceram traduções para o chinês, o birmanês e o sânscrito, esta última destinada às classes letradas da Índia. No século XX a Bíblia foi traduzida para o árabe (1965) e sobretudo para línguas africanas.

Livros da BíbliaLivros da Bíblia

A Bíblia cristã, em sua edição canônica completa, compõe-se de 73 livros -- 46 do Antigo Testamento e 27 do Novo Testamento. Esses dois grandes conjuntos estão segmentados em grupos, segundo sua natureza, autoria, sentido etc. Na Bíblia cristã, a titulação dos livros leva em conta a natureza de seu conteúdo. Na hebraica, toma-se a primeira palavra do texto como título.

A abordagem dos livros bíblicos por grupos proporciona uma visão do conjunto e ao mesmo tempo facilita a compreensão das linhas principais de pensamento que orientaram sua composição.

Antigo Testamento

Para os judeus, a coleção dos livros bíblicos escritos antes do nascimento de Jesus Cristo é a própria Bíblia. Os cristãos denominam essa coleção de Antigo ou Velho Testamento, porque entendem que eles testemunham os acontecimentos do passado, que preparam a vinda do Cristo e a prenunciam na palavra dos profetas. Cristo é a tradução grega da palavra hebraica mashiah, messias, "ungido", o que vem para salvar a humanidade.

Pentateuco

O conjunto formado pelos cinco primeiros livros da Bíblia denomina-se Pentateuco -- em grego, livro em cinco volumes. Os judeus o chamam de Torá, palavra hebraica que significa lei, diretiva, instrução -- ou seja, o conjunto das instruções, ou leis de Deus, transmitidas ao povo israelita através de Moisés, o grande fundador de Israel, como povo e como religião.

Gênesis

O primeiro livro do Pentateuco é o Gênesis, título que se refere a seu conteúdo, que é a origem, a gênese de todas as coisas, da Terra, do homem e do cosmo. Os judeus o intitulam Be-Reshit, em alusão às palavras iniciais "No princípio". A  primeira parte reporta-se, segundo a óptica monoteísta, às tradições da Mesopotâmia, região situada entre os rios Tigre e Eufrates, berço de antigas civilizações e cenário dos acontecimentos aí narrados. Inserem-se mitos e tradições populares em torno de fenômenos de ordem natural e cultural: o paraíso, o pecado original, o primeiro homicídio (Caim e Abel), o dilúvio e a aliança de Noé com Deus, a torre de Babel.

A parte restante relata a história dos povos precursores dos hebreus. Trata das dez primeiras gerações, desde Adão, ancestral da humanidade, até Abraão, progenitor do povo de Israel; e deste até os 12 filhos de Jacó, chefes das 12 tribos que constituem esse povo.

Êxodo

O segundo livro do Pentateuco é o Êxodo, título cristão que alude ao principal tema, a saída  dos judeus do Egito. O título judaico é Shemot ("Nomes"). Narra a opressão dos israelitas pelos egípcios, o surgimento de Moisés, que liderará a fuga em obediência ao comando divino, a revelação das leis de Deus impressas nas tábuas de pedra, a traição do povo, que na ausência do seu líder passa a adorar o bezerro de ouro, e a ira de Moisés, que castiga os infiéis com a ajuda dos levitas.

Levítico

O terceiro livro é o Levítico, intitulado pelos judeus Va-Yikra ("E chamou"). Contém quatro grupos de leis: o ritual dos sacrifícios; o cerimonial de investidura dos sacerdotes; as normas que discriminam o puro do impuro; e a lei da santidade, com calendário litúrgico, bênçãos e maldições. Seu caráter eminentemente legislativo interrompe a seqüência narrativa.

Números

A narrativa é retomada no quarto livro, intitulado Números, em alusão ao fato de enumerar as tribos de Israel. Em hebraico, denomina-se Bammidbar ("No deserto"). Relata a marcha dos judeus pelo deserto, desde a partida do Sinai, a montanha santa, precedida de um recenseamento do povo, até a chegada a Cades, de onde tentam, sem êxito, penetrar em Canaã. Chegam finalmente às estepes de Moab, defronte a Jericó, onde se estabelecem as tribos de Rúben e Gad.

Deuteronômio

O quinto e último livro do Pentateuco é o Deuteronômio, que significa repetição da lei, ou segunda lei. No cânon hebraico é chamado Elleh hadd barim ("Estas são as palavras"). Este livro, como a maior parte do Pentateuco, é de origem posterior. Foi elaborado por sacerdotes e profetas que se consideravam continuadores da obra de Moisés. Mesmo permanecendo anônimos, alegam a autoridade de Moisés e colocam as suas leis e exortações na boca do fundador.

Livros históricos

Na Bíblia cristã, esses livros estão agrupados em quatro blocos: (1) Josué, Juízes, Rute, Samuel e Reis; (2) Crônicas, Esdras e Neemias; (3) Tobias, Judite e Ester; (4) Macabeus. Na Bíblia hebraica, Josué, Juízes, Samuel e Reis são chamados profetas anteriores, para distingui-los de Isaías, Jeremias, Ezequiel e os 12 profetas menores, que são os posteriores. Chamam-se históricos porque têm como tema principal as relações de Israel com Iavé, nome pelo qual os israelitas designam Deus.

Primeiro bloco

O Deuteronômio, último livro do Pentateuco, relata em seu capítulo final que, após a morte de Moisés, "Josué, filho de Nun, estava cheio do espírito de sabedoria, porquanto Moisés lhe impusera as mãos." Eis por que Josué é o primeiro dos livros históricos, pois seu relato dá imediata continuidade ao Deuteronômio. Mostra como o povo eleito instalou-se na terra prometida, Canaã, depois de atravessar o Jordão. Por meio da conquista de Jericó, os israelitas, comandados por Josué, apropriam-se da nova terra, cuja posse vai ser mantida enquanto houver obediência à lei. É feita a divisão da terra entre as tribos transjordânicas e cisjordânicas, que testemunham sua unidade pelo altar comum dedicado a Iavé. Com a morte de Josué, os filhos de Israel consultam Iavé sobre quem os dirigirá doravante, e recebem como resposta o destaque da tribo de Judá.

Assim começa o segundo livro histórico, Juízes, cujo nome se refere aos heróis da libertação, chefes escolhidos por Deus para governar seu povo, no período entre a morte de Josué e a entronização de Saul, primeiro rei de Israel.

Rute, o terceiro livro histórico, narra a conversão da moabita Rute, seu casamento com Booz e o nascimento de seu filho, Obed, que será o avô de Davi. É um livro de genealogia judaica, de Farés até o rei Davi.

Os dois livros de Samuel, que na Bíblia hebraica constituem um só, relata o início do período monárquico. Foi Samuel, chefe religioso dos israelenses, quem ungiu o primeiro rei, Saul, seu sucessor, Davi, e quem os repreendeu por seus pecados.

Os dois livros dos Reis, quinto dos históricos, formam, como os de Samuel uma só obra na Bíblia hebraica. Seu relato abrange um longo período, que vai de Samuel até à queda de Jerusalém, e o cativeiro na Babilônia.

Segundo bloco

Crônicas, Esdras e Neemias formam um segundo grupo de livros históricos, que repetem e prolongam os relatos constantes dos livros anteriores. As Crônicas, tanto na Bíblia hebraica quanto na edição da Vulgata, recebem o nome de Paralipômenos, ou seja, livros que relatam as coisas omissas. Referem-se à época em que o povo judeu, que perdera a independência política, lutava por viver segundo as normas de sua lei religiosa. Contêm as listas genealógicas das tribos israelitas, desde Adão até Davi, um relato sobre o governo deste último e sobre o governo de Salomão -- com ênfase na construção do templo -- e a história do reino de Judá, até sua destruição. Esdras e Neemias narram a volta dos judeus da Babilônia e a reconstituição de Jerusalém.

Terceiro bloco

O terceiro grupo dos livros históricos compõe-se de Tobias, Judite e Ester. Os dois primeiros não foram admitidos nem pela Bíblia hebraica nem pelos protestantes. Para a Igreja Católica, são deuterocanônicos, admitidos depois do sínodo romano do ano 382. Os três livros são cheios de inconsistências históricas, misturam datas e lugares e apresentam omissões. No entanto, são extremamente bem escritos, de leitura agradável e absorvente, e inspiram-se em relatos patriarcais do Gênesis. Tobias é uma história edificante, em que se ressaltam a caridade, os deveres para com os mortos e o sentimento familiar. Judite conta a vitória do povo eleito contra seus inimigos, graças à coragem de uma mulher. O mesmo enredo é o tema de Ester, em que se evidencia a hostilidade que os judeus provocavam no mundo antigo, devido à singularidade de sua vida.

Quarto bloco

O último grupo dos históricos é formado pelos dois livros dos Macabeus, que não fazem parte do cânon judaico e do protestante e são deuterocanônicos para os católicos. O título refere-se a Judas Macabeu, filho do sacerdote Matatias, e seus seguidores, que lutaram pela liberdade religiosa de Israel contra Antíoco, rei dos selêucidas. É sobretudo impressionante o martírio da mãe e dos sete filhos, que preferiram a tortura e a morte a ter que transgredir a lei. O sacrifício serviu de incentivo à luta organizada por Matatias. Os dois livros não têm, em seu conjunto, um relato contínuo, e seu estilo literário é diferente.

Livros poéticos e sapienciais

Esse conjunto divide-se em dois grupos: os sapienciais -- Jó, Provérbios, Eclesiastes, Eclesiástico e Sabedoria; e os poéticos -- Salmos e Cântico dos Cânticos. O primeiro grupo apresenta menos considerações religiosas que profanas, pois preocupa-se com a arte de bem viver, no sentido amplo do termo. Entretanto, essa sabedoria é, em última análise, o temor a Deus, que se expressa na piedade. A obra-prima desse conjunto é o livro de Jó, história de um homem justo, que permanece heroicamente fiel a Deus, apesar das provações excepcionais a que é submetido. O livro que melhor tipifica a sabedoria de Israel é o dos Provérbios, que representa vários séculos de reflexão dos sábios judeus.

As palavras iniciais do Eclesiastes -- "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade" -- dão o tom desse livro, uma meditação contínua e dolorosa sobre a brevidade da vida e a inutilidade da labuta do homem, que nenhum proveito tira "de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol". O autor considera que os prazeres da vida, momentâneos e fugazes, são uma dádiva de Deus, que deles posteriormente pedirá contas. Apesar de passar uma sensação pessimista, o livro contém uma mensagem de esperança, ao recomendar uma atitude religiosa, de reverência a Deus e de observância de seus mandamentos, como forma de gozar dos prazeres honestos da vida, em consonância com a vontade divina.

Semelhante ao livro dos Provérbios, o Eclesiástico contém uma série de máximas e ensinamentos sobre os problemas da vida religiosa e profana. É um dos livros considerados deuterocanônicos pelos católicos e apócrifos por judeus e protestantes. Os padres dos primeiros tempos da igreja usaram-no como uma espécie de catecismo para instrução dos catecúmenos. Sabedoria, também deuterocanônico, mostra o papel da sabedoria no destino humano, expõe sua natureza e origem e os meios para adquiri-la, e exalta sua ação na história do povo eleito. Sua autoria é atribuída a Salomão, e destinava-se a mostrar aos judeus helenizados que a sabedoria de Israel em nada era inferior à grega.

Os Salmos, cerca de metade dos quais atribuídos a Davi, é uma coleção de 150 hinos de louvor a Deus, de arrependimento, de súplica, de ações de graças ou de rememoração de acontecimentos sagrados. Os judeus os usavam nas funções litúrgicas do templo. Os cristãos usam-nos desde o tempo dos apóstolos. O Cântico dos Cânticos é, de todos os livros do Antigo Testamento, o de interpretação mais polêmica devido a seu tema: o amor mútuo entre um amado e sua amada, que se unem, se perdem, se buscam e voltam a se encontrar. Por empregar a linguagem de um amor apaixonado, causou estranheza e suscitou dúvidas quanto a sua canonicidade. Uma das interpretações mais antigas é a que lhe atribui um sentido alegórico -- o amor de Deus por Israel, e do povo por seu Deus. Alguns exegetas católicos preferem a interpretação literal: os cânticos celebram o amor mútuo e fiel, confirmado pelo sacramento do matrimônio.

Livros proféticosLivros proféticos

O último conjunto de livros do Antigo Testamento refere-se a uma das instituições mais antigas da cultura dos povos semíticos: a profecia. A própria convicção de acreditar-se povo escolhido por Deus já constituía uma premissa suficiente para o surgimento de profetas, como intermediários especialmente enviados para transmitir a palavra divina. Os profetas representaram um papel decisivo para a propagação da moralidade judaica e do monoteísmo. A filosofia mosaica determinou o caráter fundamental das profecias, que é seu conteúdo moralizante. O motivo central do discurso profético é o ataque à corrupção religiosa e social, vista como prenúncio de graves problemas para a nação. Na perspectiva, porém, do castigo anunciado, surge sempre a esperança de uma futura conversão, e da eterna fidelidade de Deus a sua aliança com Israel, garantia de felicidade perene, na era messiânica. As declarações dos profetas eram inicialmente verbais, mas a partir do século VIII a.C. passaram a contar com registros escritos.


O profeta, como homem que tem uma comunicação direta e imediata com Deus, recebe a revelação de seus desígnios, que julga o presente e prevê o futuro, e é enviado por Deus para conduzir os homens a seu amor. É por essas características que se considera Moisés o primeiro profeta, o maior de todos, que inaugura a linhagem dos herdeiros de seu dom, a começar por seu sucessor, Josué. O Antigo Testamento apresenta os profetas em duas grandes divisões: os maiores e os menores. No primeiro grupo figuram Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel. Os profetas menores, assim chamados não por serem considerados de menor importância, mas pela pouca extensão de seus escritos, são Oséias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias.

Profetas maiores

As palavras de Isaías ressoam como uma profissão de fé em sua missão profética: "O espírito do Senhor Iavé está sobre mim, porque Iavé me ungiu; enviou-me a anunciar a boa nova aos pobres, a curar os quebrantados de coração e proclamar a liberdade aos cativos, a libertação aos que estão presos..." Nascido em 765 a.C., aos 25 anos Isaías recebeu, no templo de Jerusalém, a missão de anunciar a ruína de Judá e Israel, em castigo pelas infidelidades de seu povo. A vida do profeta divide-se em quatro períodos: o primeiro vai do início de sua vocação até à posse do rei Acaz e como principal preocupação a corrupção do reino de Judá, nascida do luxo decorrente da prosperidade econômica; o segundo é o da oposição à aliança de Acaz com a Assíria e a retirada de Isaías da vida pública; o terceiro é também de oposição a qualquer aliança militar, e de exortação à confiança em Deus; o quarto marca-se pelo apoio ao rei de Judá em sua resistência ao inimigo e em seu apoio a Jerusalém.

O livro de Isaías compõe-se de duas partes: a primeira é uma advertência ao povo sobre os castigos decorrentes de sua impiedade; a segunda, uma apresentação das revelações da misericórdia de Deus em predição da vinda de um messias e seu reino "porque Iavé irá a vossa frente, o Deus de Israel será a vossa retaguarda (...) entregou a sua alma à morte e foi contado com os transgressores, mas na verdade levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores fez intercessão". Por isso mesmo, o livro teve enorme influência sobre o Novo Testamento, que o cita textualmente mais de cinqüenta vezes.

Jeremias escreveu suas profecias entre os anos 620 e 590 a.C. e seu relato, embora não constitua uma autobiografia, dá a conhecer, como nenhum outro profeta, seu caráter e sua vida. Jeremias viveu no período trágico em que se consumou a ruína do reino de Judá. Dirigiu seus oráculos a todas as classes, aos sacerdotes, aos governantes e até às crianças. Os militares acusaram-no de derrotismo, pela força de suas profecias. Após a tomada de Jerusalém, permaneceu na Palestina, de onde foi obrigado a fugir para o Egito. Seu drama pessoal está não somente nos episódios catastróficos que foi obrigado a testemunhar, mas também na contradição entre sua índole pacífica e terna e a obrigação de lutar contra reis, sacerdotes e falsos profetas, e predizer tantas desgraças para seu povo.

O livro de Jeremias divide-se em quatro partes: as admoestações e ameaças; a salvação universal, em virtude da nova aliança; as profecias individuais; e as profecias das nações. A importância do texto decorre principalmente de sua concepção de Deus e da possibilidade de sua íntima união com o homem. A profecia de maior influência sobre o Novo Testamento é a da nova aliança, prometida por Iavé, "não como a aliança que selei com seus pais, no dia em que os tomei pela mão e os fiz sair da terra do Egito (...) porque esta é a aliança que selarei com a casa de Israel depois desses dias (...) porque vou perdoar sua culpa e não me lembrarei mais de seu pecado". Para os cristãos, esse é um dos oráculos do Velho Testamento que prefiguram a vinda de Cristo.

Ezequiel foi um sacerdote de educação esmerada, mandado para o exílio por Nabucodonosor, em 597 a.C. Aos trinta anos, recebeu o chamado profético, e durante 25 anos exerceu sua missão. O livro de Ezequiel divide-se em quatro partes, além da introdução: a primeira contém repreensões e ameaças contra os judeus antes do cerco de Jerusalém; na segunda, o profeta estende as maldições divinas às nações infiéis e seus cúmplices; a terceira passa-se durante e após o cerco e está cheia de consolações; a quarta encerra uma previsão da era messiânica. Suas visões darão origem à corrente escatológica, com nítida influência sobre o profeta Daniel e sobre o Apocalipse de são João.

O profeta Daniel pertencia a uma família importante de Judá. Deportado para Babel por Nabucodonosor, conseguiu um posto na corte. Graças a sua fiel observância da lei de Deus, foi favorecido com uma grande sabedoria, e com a capacidade de interpretar sonhos e mistérios. O conteúdo principal do livro de Daniel é a narrativa dos sucessos por que passou o profeta: a conquista da confiança do rei; o sonho de Nabucodonosor e sua interpretação; Daniel com seus amigos Sidrac, Misac e Abdênago, lançados na fornalha, e sua caminhada ilesos no meio das chamas; a previsão, a partir de outro sonho, da loucura de Nabucodonosor; o festim de Baltasar com os cálices de ouro saqueados do templo, a interpretação das palavras aparecidas na parede e as previsões da tomada do reino por Dario e da morte de Baltasar; Daniel na cova dos leões, a mando de Dario, por força de intriga palaciana, e sua salvação miraculosa. O principal objetivo do livro foi sustentar a fé e a esperança dos judeus em meio às vicissitudes.

Profetas menores

Os 12 livros dos profetas menores foram escritos durante um período muito extenso -- do século VIII ao III a.C. -- e por isso constituem fonte inestimável para o conhecimento da antiga civilização judaica, em seus aspectos sociais, religiosos e políticos. A ordem em que aparecem não é a mesma nas versões cristãs da Bíblia -- a Vulgata e a Setenta -- que por sua vez diferem da adotada pelo texto massorético. Em nenhuma das três a ordem observada é a cronológica. Na tradição hebraica, são conhecidos pelo nome de tere asar, que na língua aramaica significa 12, e estão colocados logo depois do livro de Ezequiel.

Oséias viveu no século VIII a.C., no reinado de Jeroboão II, que retomou os territórios anexados pela Assíria. No plano interno, apesar da prosperidade econômica, seu governo foi marcado pela corrupção e pela busca desenfreada de prazer e lucro. É nesse ambiente que Oséias -- como também Amós -- vai exercer sua atividade profética e anunciar o processo que Iavé vai abrir "contra os habitantes do país, porque não há fidedignidade, nem amor, nem conhecimento de Deus (...) aumentam o perjúrio, a mentira, o assassínio, o roubo e o adultério; sangue derramado soma-se a sangue derramado".

O segundo dos profetas menores é Joel, que faz uma descrição da praga de gafanhotos que se abaterá primeiro sobre os campos e depois sobre a cidade, como castigo de Iavé. O país, que antes da praga era "como um jardim do Éden, depois dele será um deserto desolado". Mas depois do flagelo, Iavé terá zelo e piedade: "Eis que vos envio trigo, vinho e óleo. Saciar-vos-ei deles. Não mais farei de vós um opróbrio entre as nações." Em seguida, Iavé derramará seu espírito sobre todo o povo: "Vossos filhos e filhas profetizarão, vossos anciãos terão sonhos, vossos jovens terão visões." E conclui com a promessa de que "Iavé habitará em Sião".

Pastor e podador de sicômoros, a vida profissional de Amós, terceiro dos profetas menores, se revela em seu estilo, cheio de imagens retiradas da natureza e  da vida campestre. Consciente da corrupção interna do reino de Jeroboão II, e de que a moralidade social é um fator determinante da vida de um povo, repreende as classes ricas, que exploram os trabalhadores. Em conseqüência desses pecados, "porque oprimis o fraco e tomais dele um imposto de trigo", para proveito próprio, muitos castigos sobrevirão. O penúltimo capítulo do livro relata as visões de pragas de gafanhotos, seca, fome e luto; no último, vêm as perspectivas de recuperação e de fecundidade paradisíaca, em que as cidades serão restauradas, os habitantes "plantarão vinhas e beberão o seu vinho, cultivarão pomares e comerão os seus frutos".

O livro que contém as profecias de Abdias, quarto dos profetas menores, consiste em um único capítulo, e é o menor da Bíblia. Sua profecia se apresenta em duas partes: o castigo de Edom, anunciado em pequenos oráculos dispersos pelo livro; e o dia de Iavé, em que Israel se vingará de Edom. O plano histórico em que desenvolvem essas profecias é o da invasão do sul da Judéia pelos edomitas, após a ruína de Jerusalém. Constitui na verdade um clamor de vingança, de espírito nacionalista, embora exalte a justiça e o poder de Iavé, a quem pertencerá finalmente o reino.

O livro de Jonas é atípico em relação aos outros profetas menores, por dois motivos: seu título não se refere ao autor, mas ao personagem principal; não apresenta fatos históricos, mas uma parábola. Jonas, encarregado por Iavé de pregar a penitência em Nínive, capital da Assíria, toma outro destino e embarca para Társis. Uma tempestade surpreende o navio, e os marinheiros suspeitam de que alguém atrai uma maldição divina. Jonas acusa-se, pede para ser lançado ao mar, é engolido por um grande peixe e cuspido na praia. Vai para Nínive, onde prega nas ruas, obtém o arrependimento do rei e do povo e assim evita o castigo. O livro é tido como uma preparação à revelação evangélica do amor de Deus, pela piedade demonstrada em relação a Jonas, salvo da morte, e a Nínive, salva da destruição.

Contemporâneo de Isaías, Miquéias é um homem do campo, conhece as agruras do trabalho na terra e as injustas relações de dominação que os donos impõem aos empregados. Por isso, investe contra "os que comeram a carne do meu povo, arrancaram-lhe a pele e quebraram-lhe os ossos". Ameaça os usurários, que roubam os campos, tomam as casas, oprimem "o homem e sua herança". O livro apresenta, em duas seqüências, as profecias de castigos e as promessas de salvação, e conclui por um apelo ao perdão divino, ao Deus que "tira a culpa e perdoa o crime, que calcará aos pés as nossas faltas e lançará ao fundo do mar todos os nossos pecados".

Diferentemente dos profetas menores já citados, Naum dirige suas críticas apenas aos estrangeiros, contra quem roga a vingança de Iavé. Em atividade no século VII a.C., entre a queda de Tebas e a de Nínive, por ele prevista, o profeta é um apaixonado cantor da liberdade. Seu livro, de apenas dois capítulos, começa por um canto de glorificação a Iavé, como o deus vingador; seguem-se um poema satírico contra Judá e Nínive, ameaças e palavras de consolação a Israel; no final, um canto de lamentação fúnebre aos assírios, com o comentário de que todos os povos aplaudem sua desgraça, pois sobre todos se abatera continuamente sua maldade.

O oitavo profeta menor é Habacuc, cuja mensagem é uma profecia de salvação. O livro não traz nenhuma informação sobre sua pessoa nem sobre a época em que viveu. Compreende três capítulos: o primeiro é um protesto à vitória dos caldeus sobre Nínive e ao domínio da iniquidade no mundo; o segundo, também sobre Nínive, apresenta-se na forma de um diálogo entre Deus e o seu profeta, e traz uma série de maldições contra o opressor, em forma de duras críticas aos arrogantes, aos que acumulam o que não lhes pertence, aos que ajuntam ganhos ilegítimos e "constroem uma cidade com sangue e injustiça"; o terceiro é um apelo à intervenção de Iavé: "Espero tranqüilo o dia da angústia que se levantará contra o povo que nos ataca."

Contemporâneo de Naum e dos primeiros anos de Jeremias, Sofonias profetizou em Judá, ao tempo do rei Josias. Seu livro segue a maior parte dos escritos proféticos, com antevisões de calamidades, oráculos contra povos estrangeiros e profecias de salvação. Em quatro capítulos, começa por uma longa série de anunciações do dia de Iavé em Judá, quando se levantarão urros e gritos, e os homens serão castigados. O segundo capítulo dirige-se contra as nações dos filisteus, moabitas, no ocidente, amonitas no oriente, etíopes no sul e assírios no norte. O terceiro concentra suas imprecações contra Jerusalém, a cidade "rebelde, manchada, opressora". O último contém as promessas de conversão dos povos e a volta dos dispersos.

O livro de Ageu, décimo dos profetas menores, apresenta-se antes como um relato de suas atividades do que como uma profecia. A época é o segundo ano de Dario, rei dos persas, que permitiu aos judeus a reconstrução do templo. A primeira alocução visa exatamente esse tema, ao concitar aos trabalhos, como forma de evitar desordens em Judá. A segunda promete bênçãos aos reconstrutores do templo; a terceira prediz que o esplendor do segundo templo será maior que o do primeiro; a quarta é uma consulta aos sacerdotes sobre as impurezas que ameaçam o templo; a última, uma profecia da escolha de Zorobabel como eleito de Iavé.

As exortações à reconstrução do templo, proferidas por Ageu, encontram eco em seu contemporâneo Zacarias, sacerdote e penúltimo dos profetas menores. Seu livro contém três profecias: uma conclamação à conversão, quando então Iavé se voltará para seu povo; uma narração de visões noturnas; um apelo à continuação do jejum do quinto mês, comemorativo do incêndio do templo. Os oráculos, também em número de três, apresentam-se nessa ordem: a vinda do reino de Iavé, com a aniquilação dos poderes terrestres e o recolhimento dos israelitas dispersos; uma alegoria, que descreve o bom pastor, desprezado pelo rebanho, e o mau pastor, cuja morte iniciará um processo doloroso de purificação; e dois ataques contra Jerusalém.

O último dos profetas menores, Malaquias, viveu por volta do século V a.C. Há dúvidas se esse era mesmo seu nome, ou um designativo da função de mensageiro. O livro é um longo diálogo, iniciado com a palavra de Iavé, ou de seu profeta, que é contraditado pelo povo, ou pelos sacerdotes, e volta a afirmar o que dissera, de modo mais categórico. O diálogo se desenrola ao longo de seis alocuções, na seguinte ordem: Iavé assegura seu amor por Israel; censura os sacerdotes por seu desleixo nos sacrifícios; censura os judeus por seus matrimônios mistos, com "filhas de um deus estrangeiro", e os divórcios; avisa que só virá como juiz depois que seu mensageiro purificar o sacerdócio e o templo; promete que tão logo os dízimos sejam pagos, pontual e integralmente, cessarão as pragas de gafanhotos e a perda de colheitas; promete também que no dia do juízo os justos serão recompensados e os pecadores castigados; finaliza com uma exortação à observância da lei de Moisés e com a previsão da vinda de Elias, o profeta, "antes que chegue o dia de Iavé, grande e terrível".

Novo TestamentoNovo Testamento

As origens mais remotas do Novo Testamento estão nas necessidades impostas pela catequese na igreja nascente. Na primeira festa de Pentecostes que se seguiu à morte e ressurreição de Jesus, o Espírito Santo desceu sobre a comunidade cristã de Jerusalém, em forma de línguas de fogo. Os discípulos, cujo idioma materno era o aramaico, passaram momentaneamente a falar em línguas estrangeiras, e assim puderam ser entendidos pelos judeus da diáspora, presentes ao encontro. O milagre de Pentecostes é entendido assim como um sinal para a divulgação do Evangelho (Boa Nova) a todos os povos do mundo.


Os apóstolos e os primeiros discípulos, que continuavam a participar do culto judaico, conservavam e transmitiam oralmente as lembranças e palavras de Cristo. Mas, à medida que se iam  distanciando, no tempo, da morte de Jesus, e no espaço, de Jerusalém, impôs-se a necessidade de registros escritos, como auxílio mnemônico no trabalho de catequese. Foi-se formando assim um acervo de textos. O Antigo Testamento desenvolvera-se em meio relativamente homogêneo. Os livros do Novo Testamento contemplam comunidades lingüísticas e culturais bem diversas, que compreendem, num primeiro período, desde os judeus da Palestina até os gentios do Egito, Pérsia, Roma e mar Negro. O registro escrito seria a forma mais segura e prática de manter a unidade de pensamento e assegurar a divulgação.

Os livros que compõem o Novo Testamento podem ser agrupados em quatro conjuntos: (1) os Evangelhos, que transmitem diretamente a palavra de Jesus e relatam os fatos de sua vida, paixão, morte e ressurreição; os três primeiros -- Mateus, Marcos e Lucas, chamados sinópticos -- podem ser vistos como um conjunto, em virtude da semelhança de suas versões, e nisso se diferenciam do quarto Evangelho, de autoria de são João; (2) os Atos dos Apóstolos, livro histórico, que narra os primeiros tempos do apostolado e a formação da igreja; (3) as epístolas, cartas dirigidas às primeiras comunidades cristãs pelos apóstolos, com a finalidade de instruí-las sobre pontos eventualmente polêmicos ou ainda obscuros e de incentivá-las à prática de uma vida autenticamente cristã; (4) o Apocalipse, único livro profético do Novo Testamento.

Evangelho de Mateus

Membro do grupo inicial dos 12 apóstolos escolhidos pessoalmente por Cristo, pouco se sabe da vida de Mateus. Era um publicano, cobrador de impostos sobre produtos importados. Esse serviço era uma concessão da autoridade romana, e por isso o publicano muitas vezes cobrava taxas superiores às estabelecidas, a fim de ressarcir custos e receber sua remuneração. Essa prática atraía o ódio do povo. Nessa profissão era necessário um registro acurado das atividades; por isso, é de supor que Mateus falava e escrevia bem sua língua materna e provavelmente o grego.

Obra destinada primordialmente a demonstrar a universalidade da missão de Cristo, em quem se cumpriram as profecias, aos judeus recém-convertidos, o livro de Mateus segue o esquema típico dos sinópticos: a atividade de Jesus na Galiléia, o sermão da montanha, os milagres, as parábolas, as incompreensões e ameaças, a entrada triunfal em Jerusalém, o sermão contra os escribas, ou doutores da lei, o ódio dos fariseus -- partido religioso que defendia uma rígida ortodoxia em relação à lei judaica -- a crucifixão e as aparições de Jesus e suas recomendações para a divulgação do Evangelho a todos os povos.

Evangelho de Marcos

Embora não tenha pertencido ao círculo mais íntimo dos apóstolos, Marcos participou ativamente dos esforços de evangelização. Acompanhou Barnabé -- de quem era sobrinho -- e Paulo nas viagens de Jerusalém a Antioquia, Chipre e Roma. Marcos parece ter-se ligado mais a Pedro, que o chamou de "meu filho", e a quem certamente serviu de intérprete. Deduz-se daí que seu Evangelho reflita primordialmente o testemunho e a visão de são Pedro. Segundo uma tradição, não confirmada, teria fundado a comunidade cristã de Alexandria, onde morreu.

O livro de Marcos consta de três partes, além do prólogo: a atividade de Jesus na Galiléia, a escolha dos 12 apóstolos, o mistério da identidade de Cristo, a pregação em parábolas; depois, a viagem a Jerusalém, a expulsão dos vendedores do templo, as respostas aos fariseus que tentavam enredá-lo em perguntas capciosas -- como ao indagarem se seria lícito pagar o imposto a César -- e a antevisão da ruína de Jerusalém; finalmente, a condenação à morte, o suplício e a ressurreição. No livro de Marcos, o relato dos fatos supera em número a transcrição das frases proferidas por Cristo.

Evangelho de Lucas

Gentio de nascimento, segundo o testemunho de Paulo, Lucas era provavelmente sírio de Antioquia. Médico, membro da comunidade cristã, era culto e parece ter conhecido bem o grego, pela elegância do estilo. Acompanhou Paulo na segunda viagem missionária, e permaneceu por seis anos em Filipos. Fiel companheiro, seguiu com Paulo quando este foi levado preso para Roma.

O roteiro adotado por Lucas obedece, com poucas variantes, ao esquema dos sinópticos. Seu Evangelho dirige-se primordialmente às comunidades dos gentios convertidos ao cristianismo. Fiel às normas de composição das obras clássicas da época, é rigoroso no que toca à exatidão das fontes, citação de testemunhas oculares, fidedignidade. Por isso, seu livro pode ser visto como parte da obra historiográfica, e assim formar uma unidade com os Atos dos Apóstolos. Outras características do livro são sua permanente lembrança da bondade de Jesus e a alegria pelo advento da salvação.

Evangelho de João. Cognominado Evangelista, para o distinguir de são João Batista, João, juntamente com seu irmão Tiago, foi o terceiro discípulo chamado por Jesus, logo depois de Pedro e André. Homem simples e sem instrução, como Pedro, ao lado de quem aparece em várias passagens dos Evangelhos, é citado como "o discípulo que Jesus amava", "que durante a ceia se havia reclinado no peito de Jesus", e que se posta ao pé da cruz, ao lado de Maria, a quem passa a receber em sua casa, como se fosse sua mãe, por instrução dada pelo próprio Jesus pouco antes de expirar.

Do ponto de vista formal, o Evangelho joanino distingue-se dos sinópticos por seu vocabulário, mais limitado, e por seu estilo próprio, em que as frases se sucedem de forma circular, em torno do mesmo objeto, não com o intuito de analisar ou definir, mas para contemplar, sob vários ângulos, o mistério que ele encerra. Quanto ao conteúdo, seu tema fundamental é a auto-revelação de Jesus, em que vê baseada toda a doutrina do cristianismo: Jesus pela encarnação entra no mundo, revela a luz e a vida, que traz para operar a salvação do homem imerso nas trevas do mundo. João procura deixar claro que não é propriamente ele quem fala, pois apenas transmite o que o Senhor revelou; e  que não foi senão pela fé incondicional que chegou ao sentido profundo das revelações. O objetivo de suas pregações está claramente expresso no próprio texto de seu Evangelho, escrito "para crerdes que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome".

Atos dos Apóstolos

Estilo, temática, tratamento dos assuntos -- tudo indica que o autor dos Atos foi Lucas. O grande valor desse livro está em ter sido escrito por uma testemunha ocular de grande número dos fatos nele narrados; e na abundância de documentos para os fatos não assistidos pessoalmente. Constitui portanto excelente fonte para o estudo das primitivas comunidades cristãs e particularmente do apostolado de Paulo, de quem o autor parece ter sido discípulo.

O roteiro do livro é como que o viés do  Evangelho de Lucas. Este começa a partir da Galiléia e, através da Samaria e da Transjordânia, chega a Jerusalém. Nos Atos, os apóstolos partem de Jerusalém, através da Samaria, "para todos os confins da terra", o que de fato acontece quando Paulo chega a Roma. Em obediência a um costume da historiografia antiga, o livro registra vários discursos, que têm a função de acentuar o sentido dos acontecimentos mais importantes, como Pentecostes, a primeira dispersão, o batismo de Cornélio -- centurião romano convertido à fé cristã -- e o discurso de Paulo no areópago, brilhante peça de catequese.

Epístolas

Sob esse título genérico situam-se tanto as cartas de Paulo quanto as chamadas epístolas católicas. Ambos esses conjuntos enfeixam escritos circunstanciais, que se remetem a situações concretas, seja com o intuito de criticar e repreender -- e também de elogiar e incentivar -- seja com o objetivo de esclarecer pontos doutrinários, seja finalmente para dar notícias das outras comunidades cristãs e de seus integrantes.

Embora não se possa buscar nas epístolas propriamente uma exposição doutrinária sistemática e completa, é certo que elas, em seu conjunto, esclarecem e reforçam certos princípios da filosofia e da teologia cristã. Assim, por exemplo, é por meio da Epístola aos Gálatas que Paulo critica a discriminação que Cefas começa a fazer entre os cristãos circuncisos (judeus convertidos) e incircuncisos (gentios que abraçaram a fé cristã) para deixar claro que "o homem não se justifica pelas obras da Lei, mas pela fé em Jesus Cristo", conforme o Evangelho.

Epístolas de Paulo

Paulo foi, na nascente comunidade apostólica, a figura mais polêmica do cristianismo. Ele mesmo trazia em si características pessoais extremamente marcantes. Sem ser fisicamente atraente nem ter saúde muito boa, possuía uma força de vontade e coragem pessoal inquebrantáveis. Essas qualidades somavam-se a uma coerência radical, que o fazia obedecer cegamente àquilo em que acreditava. Assim foi enquanto fariseu, quando perseguiu implacavelmente os cristãos; e após a conversão, quando enfrentou toda sorte de dificuldades, perigos, prisões e martírios, em nome da fé em Cristo.

O conjunto das epístolas paulinas compreende 14 textos: Romanos, Primeira e Segunda aos Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, Primeira e Segunda aos Tessalonicenses, Primeira e Segunda a Timóteo, Tito, Filemon e Hebreus. Em todas, perpassa sua linguagem candente, de apaixonado catequista, sem prejuízo de uma fina capacidade de argumentação e uma clara formulação de princípios doutrinários. Na carta aos tessalonicenses, por exemplo, baseia-se nas categorias apocalípticas do judaísmo para dizer que "o Senhor Jesus virá dos céus, com os anjos do seu poder, e destruirá 'o Iníquo' com o sopro de sua boca e o aniquilará com o resplendor de sua vinda". Nas suas cartas posteriores, porém, o apóstolo se torna cada vez menos apocalíptico e cada vez mais doutrinário; mais voltado também para a prática da vida cristã nas igrejas por ele fundadas. Na carta que dirige aos gálatas, resume sua posição em relação ao desvio legalista: "Quanto a mim, não aconteça gloriar-me senão na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo."

Na primeira epístola aos coríntios (1Cor 13, 1-13) encontra-se o "Hino à caridade", em que Paulo exalta o amor fraterno como o principal carisma, aquele que ficará para sempre. Das três virtudes teologais, fé, esperança e caridade, esta é a primeira, a maior de todas, a que jamais passará. Na primeira parte do capítulo, Paulo exalta a superioridade do amor, sem o qual, mesmo que "falasse línguas, as dos homens e as dos anjos... seria como um bronze que soa ou como um címbalo que tine". Na segunda parte, refere-se às obras da caridade -- paciente, prestativa, que "não é invejosa, não se ostenta, não se incha de orgulho"... "tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta". Na terceira parte, fala da perenidade do amor, que jamais passará, ao contrário "das profecias, das línguas e da ciência".

Por sua absoluta coerência com a conversão e a nova fé em Cristo, pela compreensão da universalidade da mensagem cristã, Paulo ficou conhecido como 'o apóstolo dos gentios', fundador, no espaço de poucos anos, de comunidades cristãs em todo o mundo greco-romano. Foi ele quem deu à comunidade cristã a idéia de autonomia, de separação da comunidade judaica. Um dos traços mais característicos do seu apostolado é a igualdade de todos os fiéis, sem distinção de raça, sexo ou classe. Daí o episódio de sua discussão com Pedro, narrada na epístola aos Gálatas, quando Paulo deixa claro que "o homem não se justifica pelas obras da Lei, mas pela fé em Jesus Cristo". Critica assim a tibieza de Pedro que, pressionado pelos circuncisos (judeus convertidos), passou a evitar a companhia dos gentios convertidos: "se tu, sendo judeu, vives à maneira dos gentios e não dos judeus, por que forças os gentios a viverem com os judeus?"

As sete epístolas que não são da autoria de Paulo são chamadas católicas (universais), talvez por se dirigirem à comunidade dos cristãos em geral. A Epístola de Tiago tem como temas principais a exaltação dos pobres e a condenação dos ricos e a execução de boas obras no lugar de uma fé estéril. A Primeira Epístola de Pedro tem como objetivo sustentar a fé dos cristãos em meio às dificuldades e perseguições; a segunda, apresenta um resumo da teologia em voga na época apostólica. Em ambas, percebe-se a simplicidade e a perseverança características do príncipe dos apóstolos. Das três epístolas de João, a primeira é uma encíclica às comunidades da Ásia, ameaçadas de cisão pelas heresias; a segunda, adverte contra os que negavam a realidade da encarnação; e a terceira destina-se a dirimir conflitos de autoridade. A Epístola de Judas objetiva estigmatizar os falsos doutores, que ameaçam a integridade da fé cristã.

ApocalipseApocalipse

Para o espírito moderno, a palavra Apocalipse remete ao sentido de uma catástrofe em escala mundial; mas em seu primitivo significado grego, significa simplesmente "pôr a nu, desvendar" os segredos humanos e divinos. A igreja primitiva herdou diretamente do judaísmo a perspectiva apocalíptica. O Apocalipse, último livro do Novo Testamento, da autoria de João, representa um gênero literário completamente diferente de todos os outros livros. O caráter estranho das visões que apresenta, o simbolismo insólito e muitas vezes enigmático que exprime, a dramaticidade das cenas grandiosas que evoca, tudo contribui para tornar esse livro um enigma. Esse aspecto misterioso é reforçado ainda pelo contraste doutrinário entre seu conteúdo e o dos outros livros do Novo Testamento.

O autor descreve as visões que teve em Patmos, a mais setentrional das ilhas do Dodecaneso. A ação desenrola-se no céu, mas a terra está sempre presente, seja restrita a Jerusalém, seja ampliada aos limites do mundo conhecido. É o final dos tempos, quando os castigos de Deus se abatem sobre seus adversários. O Filho do Homem, com uma foice afiada nas mãos, escoltado por seis anjos, procede à ceifa das nações, à colheita definitiva, o extermínio das nações pecadoras e pagãs. O demônio, após um interregno de mil anos, é finalmente vencido e lançado no fogo, onde junta-se para sempre às duas bestas. Deus venceu e instalou definitivamente seu reino. Os mortos ressuscitam e são julgados. Um novo céu e uma nova terra substituem o mundo antigo. Desce dos céus "uma Jerusalém nova, pronta como uma esposa que se enfeitou para o seu marido". E Deus finalmente habitará com os homens.