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Humanismo e a Gênese do Humanismo Italiano

Humanismo e a Gênese do Humanismo Italiano

Humanismo e a Gênese do Humanismo Italiano

Conhece-se por humanismo o movimento intelectual que germinou durante o século XIV, no final da Idade Média, e alcançou plena maturidade no Renascimento, orientado no sentido de reviver os modelos artísticos da antiguidade clássica, tidos como exemplos de afirmação da independência do espírito humano. Como primeira tentativa coerente de elaborar uma concepção do mundo cujo centro fosse o próprio homem, pode-se considerar o humanismo a origem de todo o pensamento moderno.

Nos últimos séculos da Idade Média, sobretudo nas cidades da Itália, ocorrera um notável crescimento da burguesia urbana. Os nobres e burgueses enriquecidos adquiriram condições de dar à cultura um apoio antes exclusivo da igreja e dos grandes soberanos. A necessidade de conhecimentos que habilitassem os burgueses a gerir e multiplicar suas fortunas também os impelia na direção da cultura. Juntaram-se portanto duas linhas com um mesmo fim: maior valorização da cultura e necessidade de uma educação mais prática do que a teologia medieval podia oferecer.

Retornou-se assim à fonte do saber, a antiguidade greco-romana, despojada dos acréscimos teológicos medievais, e adaptaram-se seus ensinamentos à nova época. O programa de estudos, orientado para facilitar conhecimentos profissionais e atitudes mundanas, compreendia a leitura de autores antigos e o estudo da gramática, da retórica, da história e da filosofia moral. A partir do século XV deu-se a esses cursos o nome de studia humanitatis ou "humanidades", e os que os ministravam ficaram conhecidos como humanistas. No Renascimento, o humanismo representou também uma ideologia que, sem deixar de aceitar a existência de Deus, partilhava muitas das atitudes intelectuais e existenciais do mundo antigo, integradas com as contínuas descobertas sobre a natureza e as novas condições de vida geradas pelo auge do comércio e da burguesia mercantil. Os mestres deram as costas à idealização medieval da pobreza, do celibato e da solidão, e em seu lugar destacaram a vida familiar e o uso judicioso da riqueza.

Gênese do humanismo italiano Enquanto reflexão sobre o homem, o humanismo sempre existiu. Como movimento cultural coerente e programático, ocorreu num lugar e numa época histórica determinados: as cidades-estado italianas do século XV, de onde logo se estenderia por toda a Europa. Esse movimento, iniciado já no século XIV por autores como Petrarca e Boccaccio, defendia a capacidade do homem de pensar por si mesmo, sem entraves nem tutelas, e admitir diferentes soluções para qualquer problema, entre eles os filosóficos, ainda quando tivessem caráter "pagão". Assim, frente ao pensamento teocêntrico medieval, a religiosidade humanista quis chegar a Deus por meio do exercício da razão.

Produziu-se, além disso, uma inversão de valores fundamental, que logo seria denominada "giro copernicano", em alusão ao sistema heliocêntrico desenvolvido por Nicolau Copérnico. Inicialmente era o celeste que dava sentido ao terrestre; para os humanistas, ao contrário, seria o terrestre que daria sentido - um sentido novo e reprovável, na visão da ortodoxia oficial - ao celeste. Na Terra seria o homem, destronado do centro do universo junto com seu planeta, que mediria o celeste; e o faria segundo sua própria proporção. Isso ficou muito patente na arte renascentista (Leone Battista Alberti, Leonardo da Vinci). O corpo humano passou a ser a unidade com que se comparavam as coisas naturais, e assim se tornou certa a máxima do sofista grego Protágoras: "O homem é a medida de todas as coisas."

O humanismo atacou vigorosamente a divisão aristotélica estática entre mundo lunar e mundo sublunar, que subordinava o homem. Aristóteles, pelo menos na interpretação que dele fizera a escolástica medieval, foi o grande perdedor na renovação clássica realizada pelo humanismo, já que surgiram escolas neo-aristotélicas que tentaram reelaborar seu pensamento. Galileu, uma das grandes figuras do Renascimento, deu combate sem trégua a Aristóteles por sua ignorância em matemática e sua incapacidade para compreendê-la. Em oposição a ele glorificou-se Platão, que em seu sistema idealista dera à matemática um lugar destacado, e exaltou-se a concepção neoplatônica do universo como um todo harmônico em que o homem constitui o traço de união entre Deus e o mundo sensível. Não só renascia a filosofia de Platão, mas toda a física -- Demócrito, Epicuro, Lucrécio - que os intérpretes de Aristóteles haviam considerado ultrapassada. A revalorização desses filósofos contribuiu para evidenciar que a teoria de Aristóteles não constituía a única hipótese da realidade e que seus livros não eram "a física", mas uma física entre outras. A discussão científica pôde prosseguir, não nos limites da obra aristotélica, mas à margem dela. E nesse sentido, a tarefa dos humanistas revelou-se decisiva.

A ruptura com o mito de um livro humano depositário privilegiado da "verdade" deu também lugar ao desenvolvimento das disciplinas que se ocupavam do Homo faber, construtor de seu mundo e de sua felicidade, que encarava a ética como norma para construir a si mesmo, a economia como instrumento para administrar seus bens e a política como a arte de gerir sua cidade-estado. Esse novo enfoque reativou a discussão sobre as artes e as técnicas. Vivendo entre pintores, arquitetos e engenheiros, os pensadores humanistas abriram caminho para uma revisão fundamental das relações entre o plano prático e o teórico.

Chegou-se, em suma, a uma concepção integradora do saber humano, que espelhava a harmonia do mundo. Assim, Leonardo da Vinci, que afirmou que "nenhuma pesquisa humana pode denominar-se ciência verdadeira se não passa pelas demonstrações matemáticas", não hesitou em considerar que a pintura era "ciência e filha legítima da natureza, porque esta natureza a gerara". A exaltação do homem foi característica comum a todos os humanistas italianos. Para Marsilio Ficino, o homem era vicário de Deus, imagem de Deus, nascida para reger o mundo, e podia pretender todas as coisas. Pico della Mirandola, com expressão dramática, pôs na boca de Deus a seguinte imprecação: "Tu, que não estás sujeito a nenhum limite, determinarás por ti mesmo tua própria natureza, segundo tua livre vontade."

Traços básicos do programa humanistaPode-se sintetizar o programa humanista em três pontos fundamentais: (1) o objetivo básico do conhecimento é o homem e o significado da vida, e em função dele devem-se estabelecer as questões cosmológicas; (2) nenhum filósofo detém o monopólio da verdade; e (3) existe uma afinidade entre a cultura clássica pagã e o cristianismo, já que o ensinamento sobre o homem, a vida e a virtude ministrado pelos autores clássicos pode ser integrado ao cristianismo.

Nem todos os humanistas, no entanto, acataram a doutrina cristã. O italiano Giordano Bruno, queimado pela Inquisição, negou o cristianismo que separava Deus do mundo e refutou toda espécie de hierarquia ontológica e cosmológica, pois para ele o universo constituía um único nível de ser. Outro pensador italiano, Pietro Pomponazzi, não hesitou em refutar a imortalidade da alma individual.

Enquanto na Itália o humanismo foi antes de tudo artístico e filosófico, no centro e norte da Europa apresentou um matiz religioso muito acentuado. Seu principal representante, o holandês Erasmo de Rotterdam, uniu a sua devoção pela antiguidade uma dura crítica à escolástica e a formulação de uma reforma da espiritualidade cristã. Destacados humanistas não italianos, além dos citados, foram os franceses Jacques Lefèvre d'Étaples e François Rabelais e os ingleses Thomas More e Francis Bacon.

Agonia do humanismoCom o tempo o humanismo degenerou num culto puramente linguístico e formal da antiguidade, voltado para uma erudição que carecia de vitalidade criadora. Desde meados do século XVI, se tornara pedante e livresco. As teses do reformador Martinho Lutero, com ênfase na especificidade do cristão em oposição à cultura pagã, bem como o retorno à ortodoxia estrita encarnada pelos teólogos contra-reformistas, representaram um golpe de misericórdia para o humanismo.

As guerras que assolaram a Europa após a Reforma contribuíram igualmente para quebrantar os ideais humanistas de harmonia natural e social. Contudo, a noção de racionalidade e a nova visão do mundo difundidas pelo humanismo sobreviveram nos pensadores racionalistas e empiristas e formaram a base do pensamento iluminista.

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Inferno | O Que é Inferno?

Inferno | O Que é Inferno? 

#Inferno | O Que é Inferno? Historicamente, a concepção de inferno está ligada ao destino que se atribui às pessoas depois da morte. Na maioria das religiões antigas, não comportava a ideia de castigo. Mesmo em Israel, somente depois de lenta evolução da consciência moral foi que se impôs a ideia de punição depois da morte, paralelamente à noção dos escolhidos por Deus para a partilha de sua vida e de sua felicidade. Os excluídos seriam então condenados a sofrer num lugar de horrores, que se chamava geena, alusão ao vale de Ge Ben-Hinnom, lugar onde tinham sido cremadas crianças sacrificadas a Moloch e onde se queimava o lixo de Jerusalém.

No Novo Testamento, alude-se frequentes vezes a um lugar em que serão punidos os condenados: "geena" (Mc 9:44; Mt 5:22,29 e 18:9); "fornalha" (Mt 13:42,50), "lago de fogo, que arde com enxofre" (Ap 19:20); "fogo eterno" (Mt 18:8; 25:41; Jd 7) etc. Com a penetração do cristianismo na cultura greco-romana, a palavra infernum veio a prevalecer, embora tenha conservado sentido mais vago, quando empregada no plural (inferna).

Essas expressões, tributárias ainda de uma visão mítica, não têm o sentido que lhes foi atribuído por uma pregação excessivamente moralizante e individualista, destituída de conteúdo teológico. Nas chamadas "missões populares", a consciência dos simples muito se angustiou, por se centrar a pregação num inferno imaginoso, estranho aos dados da fé.

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Analogia em Filosofia

Analogia em Filosofia

Analogia em Filosofia

Do grego anà lógon, "em conformidade com uma razão", a analogia é, originalmente, uma semelhança em relações proporcionais. Pode ser uma semelhança entre duas figuras (por exemplo, triângulos) que se diferenciam em escala, ou entre duas quantidades, uma das quais, embora não conhecida, pode ser calculada ao se saber que sua relação com a outra é semelhante à apresentada por duas outras quantidades conhecidas. Assim, se 2:4::4:x, verifica-se que x = 8. Platão empregou uma analogia funcional quando argumentou que a Idade do Bem torna o conhecimento possível no mundo inteligível exatamente como o Sol possibilita a visão no mundo da percepção.

Valioso instrumento da lógica e do raciocínio, a noção de analogia foi bem definida pelos gregos, teve amplo emprego na Idade Média e se tornou indispensável em diversos campos de conhecimento.

Na Idade Média, acreditava-se que o universo formava uma estrutura ordenada tal que o modelo macrocósmico do todo se reproduziria no modelo microcósmico das partes. Poder-se-ia pois, por analogia, tirar conclusões sobre o todo a partir das partes e vice-versa. A lei da natureza concebida no sentido jurídico, que prescreve a ordem adequada das relações humanas, podia ser assimilada ao sentido físico do direito, que descreve a ordem reinante no mundo natural. Assim como o mundo natural apresenta graus hierárquicos de subordinação, também as relações humanas deviam apresentar essa subordinação.

Afirmava-se, por exemplo, que como havia dois astros para iluminar o mundo e duas autoridades instituídas sobre os homens (o papado e o império), então, já que a luz da Lua é um reflexo da luz do Sol, também a autoridade imperial devia derivar-se da papal. Dante, em sua De monarchia (c. 1313), embora afirmasse que o império deve subordinar-se ao papado não em relação à autoridade, mas à sabedoria (luz), concordou com os princípios em que tais raciocínios se baseavam.

No pensamento científico, as analogias ou semelhanças podem ser utilizadas para formular hipóteses ou a existência de alguma lei ou princípio, especialmente se pode ser feita uma comparação entre as funções dos elementos de dois sistemas, como quando a observação das luas de Júpiter inspirou a moderna concepção do sistema solar. O raciocínio do economista inglês Thomas Robert Malthus de que as populações tendem a crescer mais do que os meios de sua subsistência inspirou a Charles Darwin a hipótese evolucionária da seleção natural. A fecundidade de tais analogias depende de se poderem deduzir delas consequências comprováveis. Não seria lícito, por exemplo, concluir do modelo do núcleo atômico, tomado como miniatura do sistema solar, que o processo de fissão nuclear é semelhante àquele pelo qual os novos sistemas planetários podem ser formados ou destruídos.

No debate político e social, as analogias podem esclarecer algum aspecto desconhecido em função de um outro, mais conhecido. Desse modo, as analogias biológicas podem indicar que uma comunidade tem uma relação "orgânica". Essas analogias, no entanto, são enganosas na medida em que negligenciam o fato de que os integrantes individuais da comunidade também têm objetivos, direitos e responsabilidades próprias.

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Agnosticismo, Ateísmo e Ceticismo

Agnosticismo, Ateísmo e Ceticismo

#Agnosticismo, Ateísmo e CeticismoO termo "agnosticismo" apareceu pela primeira vez em 1869 num texto do inglês Thomas H. Huxley, Collected Essays (Ensaios reunidos). O autor criou-o como antítese ao "gnóstico" da história da igreja, que sempre se mostrava, ou pretendia mostrar-se, sabedor de coisas que ele, Huxley, ignorava. E foi como naturalista que Huxley usou do vocábulo. Com ele, aludia à atitude filosófica que nega a possibilidade de dar solução a todas as questões que não podem ser tratadas de uma perspectiva científica, especialmente as de índole metafísica e religiosa. Com isso, pretendia refutar os ataques da igreja contra o evolucionismo de Charles Darwin, que também se havia declarado agnóstico.

A identificação do agnosticismo com o ceticismo  filosófico, de um lado, e com o ateísmo religioso, de outro, deu ao adjetivo "agnóstico", de uso muito amplo, uma pluralidade de significados que induz à confusão.

Bases históricas  - A definição de Huxley viria possibilitar diferentes concepções do agnosticismo. O propriamente filosófico seria o que limita o conhecimento ao âmbito puramente racional e científico, negando esse caráter à especulação metafísica. Tais concepções, que podem ser rastreadas já nos sofistas gregos, tiveram formulação precisa, no século XVIII, nas teses empiristas do inglês David Hume, que negava a possibilidade de se estabelecer leis universais válidas a partir dos conteúdos da experiência, e no idealismo transcendental do alemão Immanuel Kant, que afirmou que o intelecto humano não podia chegar a conhecer o númeno ou coisa-em-si, isto é, a essência real da coisa. O positivismo lógico do século XX levou ainda mais longe essas afirmações, negando não só que seja possível demonstrar as proposições metafísicas mas também que elas tenham significado.

No âmbito religioso, o agnosticismo tem sentido mais restrito. O agnóstico não nega nem afirma a existência de Deus, mas considera que não se pode  chegar a uma demonstração racional dela; essa seria, em essência, a tese de Hume e de Kant, muito embora este considerasse possível demonstrar a existência de Deus como fundamento da moralidade. Por outro lado, já na Idade Média a chamada "teologia negativa" questionava a cognoscibilidade de Deus, se bem que para enfatizar que só era possível chegar a Ele pela via mística ou pela fé. Essa seria uma das bases da "douta ignorância" postulada no século XV por Nicolau de Cusa, e sua influência é visível em filósofos dos séculos XIX e XX, como o dinamarquês SØren Kierkegaard e o espanhol Miguel de Unamuno, os quais, embora admitam a necessidade de um absoluto, não aceitam sua personalização.

Agnosticismo, ateísmo e ceticismo - Como se vê, a rigor não se pode falar de agnosticismo, mas de agnosticismos e, melhor ainda, de agnósticos, já que existe notável variedade tanto no processo intelectual pelo qual se chega às teses agnósticas, como na formulação dessas teses.

Em essência, o agnosticismo emana de uma fonte profundamente racionalista, isto é, da atitude intelectual que considera a razão o único meio de conhecimento suficiente, e o único aplicável, pois só o conhecimento por ela proporcionado satisfaz as exigências requeridas para a construção de uma ciência rigorosa. E isso tanto no caso de doutrina que se mostre claramente racionalista é o que ocorre em relação a Kant, como no caso de filosofias nas quais o racionalismo oculte-se sob a aparência de positivismo ou materialismo.

Como consequência, o agnosticismo circunscreve o conhecimento humano aos fenômenos materiais, e rejeita qualquer tipo de saber que se ocupe de seres espirituais, transcendentes ou não visíveis. Não nega -- nem afirma -- a possível existência destes, e sim deixa em suspenso o juízo, abstém-se de pronunciar-se sobre sua existência e realidade e atua de acordo com essa atitude. Nessa ordem de coisas, ainda que admita a possível existência de um ser supremo, ordenador do universo, sustenta que, científica e racionalmente, o homem não pode conhecer nada sobre a existência e a essência de tal ser. É isso que distingue o agnosticismo do ateísmo, pois este nega radicalmente a existência desse ser supremo.

Por outro lado, o agnosticismo se distingue também claramente do ceticismo, que, segundo a formulação clássica do grego Sexto Empírico (século III a.C.), não se limita a negar a possibilidade do conhecimento metafísico ou religioso, mas também a de tudo aquilo que vá além da experiência imediata. Assim, o ceticismo, pelo menos em seu grau extremo, não é compatível com a ciência positiva.

No século XX, "agnosticismo" tende a ser interpretado como um posicionamento diante das questões religiosas. Nesse sentido, costuma-se distinguir entre um agnosticismo em sentido estrito e outro "dogmático": o primeiro sustentaria que é impossível demonstrar tanto a existência quanto a inexistência de Deus; o segundo se manifestaria em favor da primeira, mas negaria que se possa chegar a conhecer alguma coisa a respeito do modo de ser divino. Esta última via é a habitualmente defendida pelos pensadores que postulam um caminho místico ou irracional de abordagem do absoluto.

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O Absurdo e a Filosofia Existencial

O Absurdo e a Filosofia Existencial

O Absurdo e a Filosofia Existencial

O grande marco do absurdo moderno foi a obra de ficção de Franz Kafka. Nos romances e contos desse autor, que não apontam saídas, a ação dos personagens parece desprovida de significação, pois está condicionada a potências que, além de imprevisíveis, são também invisíveis. Tais personagens ignoram os crimes de que são acusados e suas tentativas de defesa revelam-se assim grotescas e destinadas de antemão ao fracasso.

A noção do absurdo da existência, subjacente em alguns precursores da filosofia existencial (SØren Kierkegaard, Miguel de Unamuno e outros), foi convertida em núcleo básico de importantes expressões filosóficas e artísticas do século XX.

A tese do absurdo existencial foi explicitada por Albert Camus em Le Mythe de Sisyphe, essai sur l`absurde, (1942; O mito de Sísifo, ensaio sobre o absurdo), onde o personagem mitológico Sísifo, rolando montanha acima uma pedra que sempre volta a cair, encarna a inutilidade do esforço humano. Ao lado da expressão filosófica, a obra ficcional e dramática de Jean-Paul Sartre e Camus revelaria também, por meio de situações típicas, a problematização do absurdo. As mais características, nesse sentido, seriam Le Mur (1939; O muro), contos de Sartre em que os personagens decidem sobre seus destinos contra as leis da razão social; e Caligula (1944) e La Peste (1947; A peste), drama e romance de Camus em que os personagens se rebelam contra a própria condição humana, reduzida a sua impotência individual ou coletiva.

Marcados pelo clima de desespero associado às duas guerras em que a Europa mergulhou na primeira metade do século XX, os existencialistas rejeitaram as hipóteses metafísicas e teológicas para a explicação da existência. Em seu lugar, introduziram a noção do fracasso ontológico do homem, cuja vida seria uma "paixão inútil" (Sartre).

Os existencialistas procuram uma saída para o dilema da condição humana, propondo a escolha lúcida do próprio destino (Sartre) ou a revolta (Camus). Esta saída foi negada pelos representantes do teatro do absurdo (Samuel Beckett, Eugène Ionesco), que não admitem sequer a possibilidade de explicação para o real, proclamando a impotência dos atos humanos. Neles, ao contrário dos existencialistas, de expressão quase sempre realista, o absurdo emerge funcionalmente na própria representação cênica, com a mímica grotesca, o nonsense, o humor negro e as expressões parabólicas.
No passado mais remoto, a noção do absurdo esteve latente nas filosofias irracionalistas ou nas que se recusavam a encontrar uma explicação racional para a existência. Paralelamente a essas filosofias, tal noção encontrava-se também subjacente em muitas expressões artísticas, sobretudo nas manifestações do nonsense, do fantástico, da literatura dos sonhos, do humor negro etc. O nonsense, o fantástico e o humor negro são conceitos afins ao de absurdo no sentido moderno, mas distintos.

O nonsense seria o disparate puro e simples, enquanto o absurdo teria sempre um sentido, embora inexplicável e recôndito; o fantástico se situaria numa fronteira indefinida entre a realidade e a irrealidade, ou seria um modo peculiar de ver a existência, por meio de fantasias individuais, enquanto o sentimento do absurdo estaria ligado ao real em si mesmo, independentemente das projeções subjetivas. Já o humor negro se caracterizaria como expressão essencialmente gratuita, não comprometida com a busca de significações para o real.

Apesar dessas diferenças, a afinidade de tais manifestações com o absurdo evidenciou-se em autores do século XX que utilizaram o nonsense e o fantástico como elementos de uma nova indagação sobre a existência. Mesmo o humor negro, caracterizado pela  gratuidade em autores de um passado recente (os surrealistas, por exemplo), revelou-se carregado de novas conotações nas obras de Kafka ou Beckett.

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Filosofia | História da Filosofia

Filosofia | História da Filosofia

Filosofia | História da FilosofiaA filosofia ocidental tem uma longa história. Ela costuma ser dividida em quatro grandes eras.

Em Filosofia Antiga, estuda-se o surgimento da Filosofia e seu desenvolvimento  pelos gregos, especialmente, e pelos romanos. Em geral, ela é repartida, tomando-se Sócrates como referência. Assim, há o período pré-socrático e o pós-socrático. Corresponde ao período compreendido entre os séculos VI e V a.C. Suas figuras de destaque são Platão e Aristóteles, além de outros de quem se sabe menos, como Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito, Parmênides, Empédocles e Demócrito. A transição entre esta etapa e a Filosofia Medieval não é muito nítida. Ela se dá quando o cristianismo ganha status e recorre ao pensamento grego para dar fundamento teórico a suas teses. Em termos cronológicos, esse período coincide aproximadamente com a queda de Roma, no século V.

A Filosofia Medieval se estende até aproximadamente o século XV, quando ocorre o que se chama Renascença. Ela está principalmente subordinada à Igreja Católica e seus representantes capitais são Santo Agostinho e São Tomás de Aquino. É quase totalmente uma filosofia escolástica. Há ainda alguns filósofos de origem árabe ou judaica, mas não fazem parte da tradição filosófica ocidental, embora seus trabalhos tenham sido fundamentais para que o pensamento antigo atingisse nossos dias.

O período que compreende à Filosofia Moderna vai do final da Idade Média até fins do século XIX. Há propostas de que seja dividido em Filosofia da Renascença e Filosofia Moderna. A primeira é marcada pela descoberta de obras desconhecidas de Platão e Aristóteles, além de outras obras do mundo grego, sendo seus principais pensadores Maquiavel, Montaigne, Erasmo, Morus, Giordano Bruno, etc. Na segunda, predomina 'a ideia de conquista científica e técnica de toda a realidade, a partir da explicação mecânica e matemática do Universo e da invenção das máquinas”, nas palavras de Marilena Chaui, e seus representantes mais destacáveis foram Galileu, Bacon, Descartes, Pascal, Hobbes, Espinosa, Leibniz, Locke, Berkeley, Newton, Hume e Kant.

Estendendo-se de meados do século XIX até nossos dias, a Filosofia Contemporânea é o período mais complexo de definir, afinal está em construção, e não temos o distanciamento afetivo e cronológico para nos ajudar a entendê-lo.

Filosofia
O termo filosofia deriva do grego phílos ("amigo", "amante") e sophía ("conhecimento", "saber") e tem praticamente tantas definições quantas são as correntes filosóficas. Aristóteles a definiu como a totalidade do saber possível que não tenha de abranger todos os objetos tomados em particular; os estoicos, como uma norma para a ação; Descartes, como o saber que averigua os princípios de todas as ciências; Locke, como uma reflexão crítica sobre a experiência; os positivistas, como um compêndio geral dos resultados da ciência, o que tornaria o filósofo um especialista em ideias gerais. Já se propuseram outras definições mais irreverentes e menos taxativas. Por exemplo, a do britânico Samuel Alexander, para quem a filosofia se ocupa "daqueles temas que a ninguém, a não ser a um filósofo, ocorreria estudar".

O homem sempre se questionou sobre temas como a origem e o fim do universo, as causas, a natureza e a relação entre as coisas e entre os fatos. Essa busca  de um conhecimento que transcende a realidade imediata constitui a essência do pensamento filosófico, que ao longo da história percorreu os mais variados caminhos, seguiu interesses diversos,  elaborou muitos métodos de reflexão e chegou a várias conclusões, em diferentes sistemas filosóficos.

Pode-se definir filosofia, sem trair seu sentido etimológico, como uma busca da sabedoria, conceito que aponta para um saber mais profundo e abrangente do homem e da natureza, que transcende os conhecimentos concretos e orienta o comportamento diante da vida. A filosofia pretende ser também uma busca e uma justificação racional dos princípios  primeiros e universais das coisas, das ciências e dos valores, e uma reflexão sobre a origem e a validade das ideias e das concepções que o homem elabora sobre ele mesmo e sobre o que o cerca.

Ao longo de sua evolução histórica, a filosofia foi sempre um campo de luta entre concepções antagônicas - materialistas e idealistas, empiristas e racionalistas, vitalistas e especulativas. Esse caráter necessariamente antagonista da especulação filosófica decorre da impossibilidade de se alcançar uma visão total das múltiplas facetas da realidade. Entretanto, é justamente no esforço de pensar essa realidade, para alcançar a sabedoria, que o homem vem conquistando ao longo dos séculos uma compreensão mais cabal de si mesmo e do mundo que o cerca, e uma maior compreensão das próprias limitações de seu pensamento.

Origem da filosofia
As culturas mais primitivas e as antigas filosofias orientais expunham suas respostas aos principais questionamentos do homem em narrativas primitivas, geralmente orais, que expressavam os mistérios sobre a origem das coisas, o destino do homem, o porquê do bem e do mal. Essas narrativas, ou "mitos", durante muito tempo consideradas simples ficções literárias de caráter arbitrário ou meramente estético, constituem antes uma autêntica reflexão simbólica, um exercício de conhecimento intuitivo.

Observando que os antigos narradores - Homero, Hesíodo - só transmitiram tradições, sem dar nenhuma prova de suas doutrinas, Aristóteles, um dos fundadores da filosofia ocidental, distinguiu entre filosofia e mito dizendo ser próprio dos filósofos o dar a razão daquilo que falam.

Estabeleceu-se assim na cultura ocidental uma primeira delimitação do conceito de filosofia como explicação racional e argumentada da realidade. No entanto, não havia sido definida nesse momento a separação da filosofia e das diversas ciências. Aristóteles, por exemplo, investigou tanto sobre metafísica especulativa, como sobre física, história natural, medicina e história geral, todas reunidas sob a denominação comum de filosofia. Somente a partir da baixa Idade Média e mais ainda do Renascimento, as diversas ciências se diferenciaram e a filosofia se definiu em seus atuais limites e conteúdos.

Filosofia grega - Foi na Grécia, no século VI a.C., que nasceu a filosofia. Ali, em apenas três séculos, foram propostos os grandes temas de que se ocupou o pensamento filosófico ao longo da história. A figura de Sócrates, cujos ensinamentos só são conhecidos por meio da obra de seus discípulos, Platão e Xenofonte, tem servido tradicionalmente de linha divisória para estabelecer as duas grandes etapas da filosofia grega: o período pré-socrático e o da maturidade, representado este, fundamentalmente, pelas obras de Platão e Aristóteles.

Pré-socráticos. O objeto primordial da primitiva filosofia grega foi a reflexão acerca da origem e da natureza do mundo físico e dos elementos que o constituem e permitem explicá-lo. Isto é, aquilo que em termos atuais seria denominado uma metafísica da matéria. O pensamento pré-socrático desenvolveu-se entre uma cosmologia monista e outra pluralista, entre o materialismo e o idealismo, entre a afirmação dos grandes valores transcendentes e o relativismo antropológico.

Cosmologias monistas. O primeiro pensador que, segundo Aristóteles, pode ser considerado filósofo foi Tales de Mileto, um dos chamados "sete sábios" da Grécia, que viveu no século VI a.C. Como cientista, aplicou seus conhecimentos matemáticos e astronômicos à medição de distâncias e à previsão de eclipses; como filósofo, estabeleceu uma explicação racional -- sem apoio no mundo mitológico -- sobre a origem do mundo, que disse ser formado de água.

Anaximandro, contemporâneo e concidadão de Tales, escreveu o primeiro texto filosófico conhecido, que intitulou Sobre a natureza. Ao estabelecer  que o princípio (arké) de todas as coisas seria o "indeterminado" (ápeiron), Anaximandro deslocou o problema do plano físico material para o plano lógico. Anaxímenes, seu discípulo, voltou a um princípio material, que ele identificou no ar.

Cosmologias pluralistas. Empédocles, nascido na Sicília no século V a.C., foi sacerdote, vidente, taumaturgo - realizador de milagres --, político, médico, poeta e cientista. Estabeleceu como princípio da matéria, quatro elementos ou raízes do ser: fogo, água, ar e terra. As misturas ou separações entre esses elementos se produziriam pelo efeito de duas forças cegas, o "amor" e o "ódio". Por sua vez, Anaxágoras, seu contemporâneo, propôs uma inteligência (nous) que teria agitado as partículas primitivas, de modo que logo chegaram a formar as atuais combinações. Mais tarde, Demócrito defenderia a existência de átomos de igual natureza mas de diferentes formas e magnitudes, que, ao constituir diversas combinações no espaço, dariam origem aos diferentes corpos que se conhecem.

Realidade e aparências. Parmênides (século V a.C.), fundador da escola eleática, pensava que nada pode começar a existir, nem tampouco desaparecer, porque procederia do nada ou se converteria em nada, o que não é possível porque o nada não existe. Também não existe o movimento ou mudança, e somente, portanto, um único ser, total, imutável e compacto. Seu discípulo Zenão propôs o famoso argumento segundo o qual Aquiles, o mais veloz entre os corredores, não poderia alcançar uma tartaruga, porque lhe seria necessário para isso percorrer a metade do espaço interposto entre eles, em seguida a metade da metade e assim por diante interminavelmente. Desse modo, os filósofos eleáticos separaram, de um lado, as aparências (doxá, "opiniões") que os sentidos percebem e que se mostram contraditórias em uma análise racional e, de outro lado, a realidade que a razão oferece e que é objeto do verdadeiro conhecimento.

Heráclito de Éfeso (século VI a.C.) havia afirmado, pelo contrário, que somente existia o movimento (a mudança, o devir). Tudo flui e nada permanece: "Ninguém pode banhar-se duas vezes no mesmo rio." O movimento se produz pela tensão entre os contrários e provoca "o eterno retorno" de todas as coisas, regido pelo logos, que constitui a lei do universo. Segundo interpretações modernas, não há contradição entre Parmênides e Heráclito, uma vez que suas respectivas doutrinas enfocam dois planos diferentes do ser: o absoluto (metafísico) e o cosmos (físico).

Metafísica do número. Pitágoras de Samos (século VI a.C.), bom conhecedor do Oriente e do Egito, fundador de um grupo ao mesmo tempo científico e religioso, introduziu na Grécia a ideia da reencarnação das almas, não sob a forma vulgar modernamente conhecida, mas como transmigração por várias formas de existência. Sua principal contribuição à filosofia foi considerar os números, as relações e formas matemáticas como a essência e a estrutura de todas as coisas. Cada coisa possui um número (arithmós arkhé), que expressa a "fórmula" da sua constituição íntima. De outro lado, as leis que governam o cosmos são também relações matemáticas.

Relativismo antropológico dos sofistas. Os sofistas fizeram do ato de pensar uma profissão remunerada. Seu ceticismo em gnosiologia levou-os a uma moral oportunista. Se é impossível conhecer o mundo real, o que importa são as aparências e, por conseguinte, o êxito na vida e a influência sobre os outros. Daí o valor que concederam à retórica e à oratória. A célebre máxima "o homem é a medida de todas as coisas" constitui um resumo do relativismo filosófico dos sofistas.

Grandes filósofos atenienses. Sócrates. Interessado, como os sofistas no homem concreto, cujo saber interrogava, Sócrates pretendeu, no entanto, exatamente o contrário deles. Procurou demonstrar as incongruências entre ideias e atos, incitar o homem a distinguir por si mesmo o justo do injusto e a agir corretamente. A probidade ética de Sócrates desagradou tanto aos conservadores quanto aos defensores da democracia, que o acusaram de impiedade e o condenaram à morte. Ele poderia tê-la evitado, mas aceitou-a por obediência às leis.

Platão. A teoria das ideias, uma das principais contribuições filosóficas de Platão, procurava solucionar o problema da realidade e das aparências, da unidade ou pluralidade do ser. Platão considerava que as coisas que percebemos são imagens -- sombras projetadas em nossa estreita caverna -- de realidades superiores que existem imutáveis no mundo das ideias, presididas pela ideia do bem. O filósofo argumentava que, apesar de não existirem duas figuras exatamente iguais, a matemática demonstra a existência do princípio da perfeita igualdade, que deve existir para que exista uma verdadeira ciência.

Toda a filosofia posterior continuaria a se questionar sobre a localização das essências imutáveis que fundamentam uma ciência ou uma ética, e sobre serem essas essências algo mais que uma mera probabilidade. Os primeiros filósofos cristãos situaram o mundo das ideias na mente divina, como causa exemplar (arquétipo, modelo) de toda a criação. A filosofia de Platão -- idealista, simbólica, estética -- se desliga do mundo cotidiano, o mundo das aparências, e estimula a penetrar num mundo mais profundo, que de alguma forma estaria subjacente ao mundo de cada dia e que seria estimulado por este último. Muitas das contradições que aparecem nos escritos de Platão só poderiam ser resolvidas mediante o conhecimento do ensino oral do filósofo, que o considerava a parte mais importante de seu pensamento. Mas as pesquisas que permitiriam reconstituir o conteúdo desse ensinamento oral só puderam ser realizadas no século XX.

Aristóteles. Discípulo de Platão e preceptor de Alexandre o Grande, Aristóteles foi o grande organizador da filosofia ocidental e muito especialmente da metafísica (estudo do ente enquanto tal) e da lógica, que, nas colocações formuladas por ele, sobreviveu sem a mínima variação até a aparição da moderna lógica formal ou matemática. O método aristotélico associa a observação minuciosa com uma sistematização racional radical. Como a filosofia depois se dividiu em empiristas e racionalistas, muito se veio a debater se Aristóteles pertencia a uma ou outra dessas correntes, porém o mais exato é dizer que ele tem uma posição intermediária: o conhecimento vem pela experiência (como pretendem os empiristas) mas só se torna válido quando está em conformidade com os princípios lógicos. A contribuição mais duradoura de Aristóteles foi a organização do sistema das ciências como totalidade orgânica e o estabelecimento dos graus de confiabilidade dos vários métodos e conhecimentos.

Últimas filosofias da antiguidade. A dissolução, em primeiro lugar, da cidade-estado e a decomposição, mais tarde, do império de Alexandre o Grande mergulharam a antiga Grécia numa época de decadência e incerteza. Aos grandes sistemas filosóficos anteriores sucederam outros de ambições mais modestas, cujo objetivo fundamental era ajudar os homens a obter tranquilidade. Assim, enquanto a escola estoica preconizou a moderação das paixões, o epicurismo enfatizou a busca da felicidade. O ceticismo, por sua vez, negou a possibilidade de um conhecimento absoluto e sublinhou a importância dos interesses individuais.

Outra corrente filosófica do final da antiguidade foi o neoplatonismo, sobretudo com Plotino (205-270 da era cristã). De índole simbólica e mística, essa filosofia muito influenciou o cristianismo medieval, até a redescoberta da filosofia de Aristóteles.

Filosofia medieval
O cristianismo, que impulsionou a cultura ocidental durante toda a Idade Média, trouxe uma nova visão de Deus, da criação e do destino humano, na qual se destacavam temas completamente estranhos à filosofia grega, como os da imortalidade da alma individual, da autoconsciência como fundamento do conhecimento etc. Foi muito forte, nesse período, a vinculação entre filosofia e teologia.

Os primeiros padres da igreja recorreram à terminologia conceitual da filosofia neoplatônica para explicar sua própria fé. Destacou-se entre eles o pensamento de santo Agostinho, retomado pela escola franciscana.

Filosofia escolástica. Traduções e comentários dos textos aristotélicos, conhecidos em boa parte por intermédio dos pensadores árabes, como Avicena e Averróes, e judeus (Maimônides) deram na Idade Média nova orientação às escolas teológicas e despertaram novo interesse pela lógica e a metafísica. Santo Alberto Magno e santo Tomás de Aquino foram os principais artífices da adaptação da filosofia aristotélica, que se impôs após grandes dificuldades, entre elas condenações eclesiásticas.

Frente ao intelectualismo aristotélico-tomista sobreviveu na filosofia medieval outra corrente voluntarista augustiniana, cujos principais representantes foram são Boaventura, John Duns Scotus e, em uma linha mística mais neoplatônica, Mestre Eckhart e Nicolau de Cusa.

O século XIV representou a decadência da escolástica, empenhada em controvérsias cada vez mais sutis e incapaz de formular novas contribuições de interesse para a filosofia. Exceções a isso foram Guilherme de Ockham, que propôs uma distinção mais rigorosa entre teologia e filosofia, e a escolástica portuguesa, que continuou a desenvolver-se até o século XVII, mas sem exercer, por seu isolamento, qualquer influência no resto do pensamento europeu.

Do Renascimento ao idealismo alemão
Renascimento. As grandes transformações culturais, econômicas e sociais dos séculos XV e XVI afetaram também a filosofia, que, de monopólio até então quase exclusivo da classe universitária ("escolástica" é o mesmo que "escolar") passou a interessar a uma outra camada de intelectuais, sem vínculo com a universidade e mais ligados à aristocracia e à cultura dos palácios. O resultado foi a ruptura dos vínculos com a teologia e um crescente processo de  secularização da filosofia. Entre muitos dos novos intelectuais, o interesse primordial já não era pelos temas sacros (divinae litterae, "letras divinas") e sim pela literatura secular (humanae litterae), daí seu nome de "humanistas". As preocupações dos filósofos renascentistas, que seriam desenvolvidas nos séculos posteriores, giraram em torno de três grandes temas: o homem, a sociedade e a natureza.

Foram os humanistas que se encarregaram da reflexão sobre o primeiro desses temas. A nova organização do pensamento renascentista fez prevalecer Platão sobre Aristóteles, a retórica sobre a dialética medieval, os diálogos literários sobre as disputas lógicas escolásticas. Com a recuperação da literatura clássica, manifestaram-se também as influências das filosofias do último período da antiguidade, como o atomismo, o ceticismo e o estoicismo.

No pensamento social, sobressaiu a figura de Nicolau Maquiavel, que defendeu em O príncipe (1513) a aplicação da "razão de estado" sobre as normas morais. No século XVII destacaram-se no pensamento político as figuras do inglês Thomas Hobbes e do holandês Hugo Grotius. O primeiro defendeu a existência de um estado forte como condição da ordem social; Grotius apelou para a lei natural como salvaguarda contra a arbitrariedade do poder político.

Filosofia da natureza. Se os filósofos medievais haviam concebido a natureza como um todo orgânico, hierarquizado segundo uma ordem estabelecida por Deus, os renascentistas conceberam-na como uma pluralidade regida pelas leis da mecânica e presidida pela ordem matemática. Seu método consistia numa fusão da experiência com a matemática, ora enfatizando esta (Galileu), ora aquela (Bacon). A atitude científica do Renascimento se manifestou sobretudo nas obras de Nicolau Copérnico e de Galileu Galilei, e encontrou seu apogeu na figura de Isaac Newton, que publicou em 1687 sua fundamental Philosophiae naturalis, principia mathematica (Princípios matemáticos da filosofia natural).

Racionalismo. A natureza e a matemática, a observação e a especulação racionalista, unidas em princípio, acabaram separando-se em duas correntes distintas, o empirismo e o racionalismo. Ambos os sistemas filosóficos se desenvolveram fora das universidades, onde se continuou a ensinar um aristotelismo cada vez mais diluído.

O racionalismo, em cuja base se encontra a confiança na capacidade absoluta da razão para alcançar o conhecimento, serviu-se do método dedutivo para suas elaborações teóricas. Seu principal representante foi René Descartes, iniciador do subjetivismo moderno. O pensamento de Descartes, desenvolvido sobretudo em seu Discurso sobre o método (1637), fundamenta-se numa primeira evidência -- "penso, logo existo" -- a partir da qual já era possível a aquisição de novas idéias. A garantia da certeza dessas últimas se produzia quando cumpriam a condição de serem claras, distintas e não contraditórias. Importantes adeptos dessa corrente filosófica foram também Spinoza e Leibniz.

Empirismo. O empirismo, que foi em suas origens apenas um método de investigação científica, acabou por se transformar, com o tempo, em uma corrente filosófica de suma importância para o pensamento e a ciência posteriores. Seu primeiro representante foi o inglês Francis Bacon, que propôs tal método em seu Novum organum (1620), cujo título era um claro convite à renovação do organum, ou seja a metodologia lógica de Aristóteles. Bacon postulava como elementos fundamentais da investigação científica a observação, a experimentação e a indução.

Figuras fundamentais do empirismo, além de Hobbes e Newton, foram também John Locke e David Hume, que, na segunda metade do século XVII e na primeira do XVIII, estabeleceram a formulação definitiva dessa corrente filosófica.

Iluminismo. O século XVIII, conhecido como o Século das Luzes ou Iluminismo, representou o apogeu do empirismo clássico e do racionalismo. Mais do que a contribuição de novas idéias filosóficas, o que caracterizou essencialmente esse período foi a sistematização e divulgação das que haviam sido formuladas até então. A publicação da Encyclopédie (1751-1772), sob a direção do francês Denis Diderot, constitui exemplo excepcional desse empenho. Seu compatriota Voltaire, literato, historiador e filósofo, é, talvez, a personalidade que melhor representa o espírito do Século das Luzes.

No terreno da filosofia social e política destacaram-se Jean-Jacques Rousseau e o barão de Montesquieu, que defenderam a liberdade e a igualdade entre todos os cidadãos. Montesquieu propôs em L'Esprit des lois (1748; O espírito das leis) a divisão dos poderes como garantia da liberdade política. Rousseau, por sua vez, em Du contrat social (1762; O contrato social), reconheceu como depositário do poder o povo, que o cede aos governantes mediante uma delegação revogável segundo sua vontade. No campo da filosofia especulativa, o século XVIII viu nascer um pensamento materialista e ateu, cujo principal representante foi Diderot.

Idealismo alemão. Immanuel Kant, contemporâneo dos iluministas e identificado com suas idéias políticas, foi também fundador do idealismo alemão. Retratando sobre o modo pelo qual a filosofia obtém seus conhecimentos científicos universais a partir dos dados sensíveis particulares, Kant afirmou que a missão da filosofia é determinar a capacidade da razão para alcançar a verdade. Para ele, a razão aplica certas categorias -- condições a priori, isto é, anteriores -- aos fenômenos da experiência. Não se conhece, portanto, a coisa em si, mas seu "fenômeno", sua manifestação. Esse modo de conhecimento não é aplicável aos objetos da metafísica, como Deus ou a imortalidade da alma, que não podem ser conhecidos pela razão teórica, mas somente pela razão prática, que opera na ordem moral.

São também representantes destacados do idealismo alemão Johann Gottlieb von Fichte, Friedrich Wilhelm von Schelling e G. W. F. Hegel, filósofos que levaram a tal extremo o racionalismo subjetivista iniciado no Renascimento que chegaram a beirar o irracionalismo romântico. Romântica foi, efetivamente, sua aproximação da religião e seu distanciamento da ciência experimental; sua exaltação cósmica do eu e a preeminência que concederam à vontade e à moral.

Positivismo e ciências sociais
Positivismo. No tempo em que na Alemanha prevalecia o idealismo, no Reino Unido e na França a evolução do empirismo deu lugar à aparição do utilitarismo de Jeremy Bentham e de John Stuart Mill e ao positivismo de Auguste Comte. O utilitarismo, que propunha "a maior felicidade para o maior número possível de indivíduos", negou a validade dos princípios abstratos e criticou o autoritarismo. O positivismo, por sua vez, definiu a existência de três estágios de desenvolvimento na história da humanidade -- o teológico-mitológico, o metafísico e o positivo -- e considerou que, já superados os dois primeiros, cabe ao pensamento filosófico, no estágio positivo, unicamente a descrição dos fenômenos, abstendo-se de interpretá-los metafisicamente.

Marxismo. Karl Marx propôs como objeto da reflexão filosófica o estudo das relações econômicas e sociais e afirmou que a missão da filosofia, que até então tinha sido a de pensar o mundo, devia ser agora a sua transformação. Marx subverteu a dialética de Hegel, segundo a qual a história culminava no estado, garantia da liberdade do homem, e considerou a luta de classes como a força motora da história.

Novas correntes. A segunda metade do século XIX assistiu ainda ao surgimento de diversas tendências filosóficas, entre as quais sobressaíram o pragmatismo de William James; o irracionalismo de Søren Kierkegaard, que antepôs o mundo emocional ao racional; a filosofia da vontade de Schopenhauer; o vitalismo de Nietzsche, destruidor dos valores tradicionais e arauto do super-homem; e, sob o impulso da obra do naturalista Charles Darwin, o evolucionismo.

Filosofia na atualidade
A partir do começo do século XX teve início uma reflexão radical sobre a natureza da filosofia, sobre a determinação de seus métodos e objetivos. No que diz respeito ao método, destacaram-se as novas reflexões sobre a epistemologia ou ciência do conhecimento -- surgidas a partir do estudo analítico da linguagem -- e o impulso dado à filosofia da ciência. As preocupações fundamentais do pensamento filosófico foram as concernentes ao homem e sua relação com o mundo que o cerca.

Dentro da chamada filosofia analítica, o empirismo lógico do Círculo de Viena foi uma das correntes filosóficas que mais ressaltaram ser a filosofia como um método de conhecimento. Para essa corrente, o objeto da filosofia não é a proposição de um sistema universal e coerente que permita explicar o mundo, mas sim o esclarecimento da linguagem das proposições lógicas ou científicas. Ora, para que elas tenham sentido, devem ser verificáveis, de tal modo que as que não o forem -- por exemplo, proposições acerca da ética ou da religião -- carecem de qualquer interesse filosófico. Também a escola de Oxford considerou a linguagem como objeto de seu estudo, se bem que tenha concentrado sua atenção na linguagem comum, na qual quis descobrir, latentes, as várias concepções elaboradas sobre o mundo. O austríaco Ludwig Wittgenstein insistiu na importância fundamental do estudo da linguagem e afirmou que ela participa da estrutura da realidade, já que não é senão um reflexo, uma "figura", da mesma.

A fenomenologia de Edmund Husserl propôs uma análise descritiva que permitisse chegar à evidência da "própria coisa", não como existente mas como pura essência. Para o vitalismo de Henri Bergson há dois modos de conhecimento: o analítico, no campo da ciência, e a intuição, própria da filosofia e único meio de captar a profundidade do homem e do mundo.

No que diz respeito às inquietaçôes e propostas da moderna filosofia, cumpre citar o instrumentalismo de John Dewey, que estabeleceu como orientação da filosofia e como critério da verdade a utilidade de uma ideia face às necessidades humanas e sociais; o existencialismo, que antepôs, na sua reflexão filosófica, a própria existência do homem a qualquer outra realidade; ou o estruturalismo, que postulou, no estudo de qualquer realidade, que ela devia ser considerada nas suas inter-relações com o todo de que faz parte.

Numerosos filósofos integraram em seu pensamento elementos pertencentes a escolas filosóficas diferentes. Sartre, por exemplo, foi existencialista e marxista, e os pensadores da chamada escola de Frankfurt ensaiaram uma síntese de marxismo e psicanálise.

Tanto o marxismo, que com sua pretensão de constituir um instrumento transformador da sociedade, ultrapassou a simples classificação de escola filosófica, quanto a psicanálise, que, ao contrário, somente pretendeu em princípio ser uma teoria e uma terapia psicológicas, exerceram influência poderosa no pensamento filosófico contemporâneo.

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Zhan Zhuang (站椿)

Zhan Zhuang (站椿)

Zhan Zhuang (站椿)O Zhan Zhuang é mais conhecido no ocidente como método "abraçando a árvore" é uma forma de meditação em pé e imóvel. É um exercício básico do I-Chuan.

Zhan Zhuang ou Chang Chuang (站椿) - pinyin: zhàn zhuāng - é um termo chinês que se refere a uma forma de meditação que é feita em pé, conservando-se o praticante num estado de aparente imobilidade. Pode também ser classificada como uma técnica de Chi Kung estática.

O termo pode ser traduzido literalmente por "em pé" como uma "Estaca". Assim, esta prática tornou-se mais conhecida no ocidente como "Postura da Árvore", "Abraçar a Árvore" ou "Chi Kung da Árvore".

Este método de treinamento é comum a diversas artes marciais chinesas, é especialmente enfatizado entre os estilos internos (neijia). Existem diversas posturas distintas para realizar este treinamento.

Em aparente imobilidade o praticante pode realizar exercícios respiratórios revigorantes e formas de meditação que auxiliem a desenvolver a força interior e o equilíbrio.

Objetivos da prática - O Mestre Cai Wen Yu destaca o Zhan Zhuang como base do treinamento da arte marcial (link para o artigo entre as "páginas externas"): "O Zhan Zhuang é uma postura aparentemente estática onde o indivíduo exercita tensão e relaxamento, treinando o espírito, a mente e o corpo."

Posturas estáticas são utilizadas por um lado para desenvolver a paciência, ampliar a capacidade de meditar, aumentar a força das pernas e a vitalidade do corpo como um todo.

Seu objetivo é desenvolver a energia vital (Qi ou Ch'i) do ser humano, proporcionando um nível elevado de harmonia entre corpo e mente.

Os praticantes de Zhan Zhuang alegam terem recebido a partir da realização frequente desta prática diversos benefícios para sua saúde.

Para um aprendizado correto e consistente é necessário estudá-lo com pessoas muito bem preparadas, que realmente compreendam os seus princípios e tenham praticado esta técnica por vários anos, usufruindo de seus benefícios.

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