Gargantua e Pantagruel | François Rabelais

Gargantua e Pantagruel | François Rabelais

Gargantua e Pantagruel | François Rabelais"O bom Grandgousier, que bebia e se divertia com os outros, ao ouvir o grito medonho dado pelo filho quando veio à luz deste mundo, isto é, quando berrou pedindo: "Beber! Beber! Beber!", exclamou: "Que Garganta a tua! Maior que a do teu pai!"Ao escutarem essas palavras, os assistentes disseram que, na verdade, ele devia chamar-se GARGANTUA, porque tinha sido essa a primeira palavra pronunciada pelo pai por ocasião do nascimento, de acordo com a imitação e o exemplo dos antigos hebreus. Isso foi aprovado por este e satisfez plenamente a mãe. Para sossegá-lo, deram-lhe de beber bastante e, em seguida, levaram-no até à pia sagrada e o batizaram, segundo o costume dos bons cristãos.

Para aleitá-lo ordinariamente, foram reservadas 17.913 vacas de Pautille e de Bréhémond, pois não era possível descobrir em todo o país uma ama capaz de amamentá-lo, dada a grande quantidade de leite necessária à sua nutrição. É verdade que alguns doutores scotistas afirmaram que ele foi amamentado pela mãe, que podia tirar das maminhas nove bilhas de leite de cada vez. Isso, porém, não é verossímil e tal afirmação foi pela Sorbone declarada mamilarmente escandalosa, ofensiva aos ouvidos piedosos e cheirando de longe a heresia. Assim viveu até à idade de um ano e dez meses, quando a conselho dos médicos, começou a ser guiado. Para esse fim foi construído um bonito carro de boi, inventado por Jean Deniau, no qual ele era alegremente levado a passeio. 

Ficava muito bem assim, pois tinha uma bonita cara, com quase dezoito queixos, e quase não gritava. Apenas se borrava a todo instante, porque era maravilhosamente flegmático de nádegas, quer por competição natural, quer por uma disposição acidental que lhe adviera por sorver demais o licor de setembro. E não bebida uma gota sem motivo: quando acontecia que estava impaciente, irritado, zangado, triste, ou quando estrebuchava, chorava ou gritava, davam-lhe de beber, e ele logo voltava ao natural, ficando quieto e alegre. Uma de suas governantes jurou-me que estava tão habituado a isso que o simples ruído dos barris e das garrafas fazia-o entrar em êxtase como se gozasse das alegrias do paraíso. Tendo em conta essa compleição divina, é que todas as manhãs, para divertido, faziam barulho nos copos com uma faca, nas botijas com a rolha de vidro e nos barris com a tampa. Ele, então, exultava, sacudia-se todo e chegava mesmo a embalar-se sozinho, afagando a cabeça, monocordizando os dedos e abaritonando o cu."

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