Romanceiro, Composições Poéticas do Folclore Espanhol

Romanceiro, Composições Poéticas do folclore Espanhol

#Romanceiro, Composições Poéticas do folclore Espanhol
Romanceiro é o nome dado a coletâneas de composições poéticas, em geral do folclore espanhol, recompiladas e publicadas a partir do século XVI. Os chamados romances derivam das antigas baladas ibéricas medievais, enriquecidas com novos episódios extraídos de crônicas, lendas e fatos reais. Alternam descrições e diálogos, sobrepõem o lírico ao épico e criam enorme e rica variedade de modelos de composição.

A transmissão dos primeiros romances escritos encontrou grande obstáculo no analfabetismo das populações. Sua divulgação dependia dos jograis-recitadores, cantores e músicos medievais que apresentavam seu repertório musical e literário oralmente, nas feiras, castelos e cidades.

Salvo alterações mínimas, a métrica original, em versos de 16 sílabas, persiste até a atualidade. Nas edições subsequentes, as sílabas foram reduzidas para grupos de oito, depois para redondilhas (quadras de versos de sete sílabas). Menéndez y Pelayo classificou tematicamente os romances espanhóis em cinco tipos: os históricos espanhóis, os do ciclo carolíngeo, os do ciclo bretão, os novelescos soltos e os líricos.

Origens e desenvolvimentoO espírito guerreiro feudal imortalizava-se na literatura pelos cantares épicos: o ciclo germânico dos nibelungos, as sagas nórdicas e as canções de gesta francesas. O ciclo bretão refletiu o ambiente e o interesse pela vida na corte e inaugurou o romance de cavalaria: a temática foram as lendas celtas em torno do rei Artur e o ideal da Távola Redonda. A fusão de feitos de armas e histórias de origens variadas terminou por mascarar a nacionalidade e autoria originais. No século XIII, a começar pela França, as canções épicas entraram em declínio e foram sucedidas nas cortes pelo romance em prosa. A adoção do romance cortês assinalou também o desaparecimento de outras manifestações da tradição oral, como o jogral.

Na península ibérica, o gosto pela literatura heroica prolongou-se, alimentado pela mentalidade guerreira gerada pela luta contra os árabes. Em oposição aos temas sanguinários, o lirismo provençal, cantado na langue d'oc e marcado pelo individualismo, supera as diferenças sociais pelo amor. O romance cortês transpõe a ideia de vassalagem para o plano da submissão ao amante, enaltece o que há de delicado, sutil e suave na mulher. O Cantar de mío Cid, escrito por volta de 1140 e cuja única cópia manuscrita é do século XIV, é a mais antiga referência da literatura espanhola do século XII. Relata os feitos de um certo D. Rodrigo Díaz de Bivar, o Cid, dito também El Campeador, que viveu no século XI.

Atingidos pela repressão desencadeada contra os albigenses, seita à qual pertencia grande parte das populações do sul da atual França, os trovadores provençais se dispersaram. Continuaram, porém, a divulgar sua arte nas cortes da Itália, Aragão e outras regiões: tornam-se mestres de toda a poesia medieval posterior ao século XIII.

Segundo Menéndez Pidal, os romances que se seguiram a essa fase de declínio encontram-se nas recompilações e publicações dos séculos XIV e XV. A partir de então, o romance -- especialmente a literatura de cavalaria, cuja obra mais importante é o romance espanhol Amadís de Gaula, de possível origem portuguesa, escrito no início do século XVI -- alcançaria grande desenvolvimento na península ibérica, até o fim do século XVI. Paralelamente, o romanceiro recebeu também uma divulgação inusitada e duradoura ao longo do percurso dos judeus sefarditas egressos da península ibérica. A caminho da Anatólia, uma parte dos judeus seguiu pelo norte da África e outra, pela península balcânica.

Portugal Segundo Diego Catalán, os portugueses, à época, já contavam com mais de seis séculos de intercâmbio cultural e literário com a Espanha. Vários poetas do Cancioneiro geral (1516), publicado em Portugal, fazem referências em seus escritos a versos famosos de romances. Gil Vicente escreveu peças em castelhano, português e moçárabe; recolheu épicos, como Cantar de mío Cid, e temas novelescos de natureza amorosa. Em seu teatro também usou referências a romances entoados à viola no Portugal do século XVI. Camões aludiu constantemente aos romances espanhóis em seus poemas. A Nau Catarineta, em galego-português, e O infante de Arnaldos e a Filha do rei de França, colhidas por Juan Rodrigues no século XV, são igualmente portugueses e espanhóis.

BrasilCom os descobrimentos e a colonização, o gênero chegou à América espanhola e também ao Brasil, embora inicialmente sob a forma de acalanto. Sílvio Romero publicou Cantos populares no Brasil (1883) e reproduziu algumas versões brasileiras publicadas pelo pioneiro Celso de Magalhães (1873). No século XX, a partir de pesquisa realizada no Maranhão por Antônio Lopes e seus colaboradores, publicou-se a Presença do romanceiro (1967). Trata-se do documento mais extenso recolhido no país, acrescido das pautas musicais, quando recuperáveis. Destacam-se nesse romanceiro, pela identificação da origem, A Nau Catarineta, D. Duardo, Passo de Roncesval (derivado da Chanson de Roland (c. 1100), a mais famosa gesta francesa), Infanta de França, A moura cativa (ou Encantada); Bernal Francês, D. Infante e 47 versões de Juliana.

Influência na literatura moderna Os romances de cavalaria desapareceram no século XVII e foram caricaturados por Cervantes em seu D. Quijote de la Mancha (1605) -- marco que separa o antigo do novo romanceiro. A partir do século XVIII, decaiu na corte espanhola o prestígio do romanceiro, preterido pela forma erudita da poesia neoclássica, que rejeitou a improvisação e a linguagem poética mais primitiva. O gênero sobreviveu apenas nas povoações rurais, mais afastadas do centro, e nas ilhas Baleares e Canárias.

A retomada da estrutura poética do romanceiro, que    serviu de base às literaturas ibérica e brasileira, renovou periodicamente a literatura. No século XIX, o escritor romântico português Almeida Garrett recompôs romances como Bernal Francês (1828), recolhido na tradição oral. Na Espanha, Ramírez de Baquedano, o duque de Rivas, pesquisou e publicou seus Romances históricos (1841) e, em Portugal, destacou-se o Romanceiro geral (1867) de Teófilo Braga, que resume e amplia pesquisas anteriores. O romanceiro declinou novamente durante o simbolismo e o parnasianismo, para ressurgir na poesia erudita do século XX, tanto em língua espanhola como portuguesa, com Romancero gitano (1928), de Federico García Lorca, e Romanceiro da Inconfidência (1953), de Cecília Meireles.

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