História da Artilharia de Guerra

História da Artilharia de Guerra

História da Artilharia de Guerra

Das balistas e catapultas que lançavam flechas e pedras nas guerras da antiguidade até os mais modernos mísseis intercontinentais, a cuja ação o planeta inteiro talvez não resistisse, a artilharia desenvolveu-se como material bélico de lançamento dos projéteis de impacto coletivo e destruição de objetivos maciços.

Definição e classificaçãoChama-se artilharia o material bélico destinado a lançar projéteis de alvos coletivos e a grande distância, isto é, canhões, obuses, morteiros e lança-foguetes; a tropa especializada nessa ação e a arma ou corpo do exército à qual pertence; e ainda o tiro, a investida de bocas-de-fogo e as técnicas ou conhecimentos necessários a esse tipo de operação militar.

Durante e logo após a segunda guerra mundial, classificava-se o material de artilharia em dois grupos fundamentais: a artilharia móvel ou de campo, capaz de se transferir rapidamente de um lugar para outro, e a artilharia imóvel ou de posição, geralmente constituída de canhões pesados que, em fortalezas ou outros pontos do litoral, nunca ou raramente eram removidos.

Dadas, porém, as características da guerra moderna, que exige movimentos rápidos em áreas cada vez mais amplas, a artilharia móvel adquiriu importância dia a dia maior, enquanto as peças fixas tendiam à obsolescência. Em plena segunda guerra mundial, essa mobilidade pôde aumentar ainda mais, com o surgimento de um novo tipo de artilharia, a autopropulsada -- basicamente, de grandes canhões sobre reparos de veículos blindados, com lugar para os artilheiros.

História da Artilharia de GuerraHistóriaAntes da descoberta da pólvora, no século XIII, os engenhos bélicos de arremesso constituíam a artilharia chamada neurobalística (em referência às cordas empregadas nessas armas: em latim, nervus, além de nervo, é corda de arco), que teve as seguintes fases de evolução: (1) neurotona -- época dos onagros, aríetes, catapultas, balistas e arpéus, que usavam como força motriz a ação da gravidade ou a elasticidade das fibras de origem vegetal ou animal; (2) calcotona -- em que se substituiu a ação das fibras por molas de bronze batido; (3) siderotona -- identificada pelo uso de molas de aço no lugar das de bronze; (4) de básculo ou de funda -- na Idade Média, quando os aperfeiçoados processos de arremesso de dardos e pedras coexistiram com as primeiras armas de fogo.

A maioria dos historiadores concorda que foi na batalha de Crécy (1346), durante a guerra dos cem anos, que pela primeira vez se usaram os engenhos pirobalísticos, cujo emprego, já em fins do século XIV, se generalizara pela Europa. No século XV construíram-se gigantescas bombardas, algumas das quais ainda hoje se alinham entre as maiores peças de artilharia já fabricadas. A maior de todas, "o canhão do czar", de Moscou, podia arremessar um projétil de pedra de uma tonelada.

Algumas das mais formidáveis bombardas do século XV foram empregadas pelos turcos na tomada de Constantinopla (1453). Coube aos franceses o privilégio das primeiras tentativas eficientes de transformar a artilharia numa arma móvel, mas atribui-se ao militar italiano Bartolomeo Colleoni (1400-1475) o mérito de haver desenvolvido uma verdadeira artilharia de campo tática. No século XVI, Carlos V, da Espanha, e Henrique II, da França, voltaram sua atenção para os problemas de padronização das peças de artilharia e de redução de seu calibre. Mais importante do que essas alterações foi, todavia, o aparecimento das obras do matemático italiano Niccolò Tartaglia, publicadas entre 1537 e 1551, nas quais lançou os fundamentos de uma nova ciência, a balística.

No século XVII aperfeiçoaram-se os processos de fabricação da pólvora e reduziu-se o peso dos canhões a fim de aumentar-lhes a mobilidade. Foi decisiva, nesse período, a contribuição do rei Gustavo Adolfo, da Suécia, que criou a artilharia de campanha: os canhões, montados sobre rodas, acompanharam seus combatentes vitoriosos na batalha de Lutzen.

A artilharia evoluiu rapidamente no século XVIII, sobretudo após a publicação do livro Princípios do tiro de artilharia (1742), do inglês Benjamin Robins, que revolucionou os conhecimentos relativos à ação da pólvora e à trajetória dos projéteis. Notáveis aperfeiçoamentos foram introduzidos na Prússia, na Áustria e na França. Foi Frederico o Grande da Prússia o primeiro a empregar a artilharia montada (1759), que reapareceria durante a revolução francesa. Os últimos anos do século foram assinalados pela invenção (1784) do tenente inglês Henry Shrapnel: a granada para canhão recheada de balins, de uso antipessoal. Tornou-se conhecida como shrapnel e suplantou qualquer outra munição de artilharia durante mais de cem anos.

No século XIX, graças aos progressos realizados na química, mecânica, metalurgia, óptica e ciências correlatas, a artilharia fez-se ainda mais eficiente. Os americanos Daniel Treadwell e Robert Parrott e o inglês William Armstrong criaram novos modelos de canhões. O alemão Alfred Krupp construiu a primeira peça inteiramente de aço. Outras importantes inovações foram introduzidas por especialistas de toda a Europa. Como consequência, surgiram armas substancialmente mais eficazes nas guerras napoleônicas, na guerra da secessão e na franco-prussiana.

Primeira e segunda guerras mundiaisNa primeira guerra mundial, a artilharia evoluiu em seu equipamento e nos aspectos técnicos, organizacional e tático. Aumentou a participação do material médio e pesado; ampliou-se o alcance de todas as armas; reapareceram os morteiros, que pareciam abandonados; desenvolveu-se a observação aérea, para melhor controle de fogo; generalizaram-se armamentos de tiro rápido e tiveram início os de base ferroviária, os anticarros e os antiaéreos. O comando tornou-se mais centralizado, as peças passaram a ser camufladas, generalizou-se a ideia de que o novo papel da artilharia era preparar o terreno para a infantaria e, com a crescente mecanização dos transportes, a mobilidade ganhou novas dimensões.

Na segunda guerra mundial, esses últimos aspectos se multiplicaram: a artilharia integrou-se diretamente à ação das outras forças, inclusive repartindo-se pela infantaria e pelos blindados. O desenvolvimento das ciências aplicadas deu extraordinário impulso à tecnologia militar em geral e à da artilharia em particular. Aperfeiçoaram-se as munições, as ligações, a observação, a direção e o controle de tiro e sua precisão. Entre muitas invenções e novidades do período, duas merecem destaque pelos novos rumos que deram à artilharia: os lançadores de foguete, criação russa que com o nome de katyusha deu prejuízos definitivos ao Exército alemão, e as "bombas" V1 e V2 alemãs, que inauguraram a era do foguete teleguiado.

Tendências contemporâneasDa metade do século XX em diante, experimentaram-se canhões capazes de lançar artefatos atômicos e foguetes providos de cabeças nucleares ou convencionais. Os Estados Unidos testaram um canhão de 280mm destinado a operar com projéteis atômicos e o Skysweeper, canhão automático antiaéreo equipado com radar. Essas peças, contudo, foram superadas pelo gigantesco e variado arsenal de foguetes de curto, médio e longo alcances, guiados por controle remoto eletrônico e produzidos em grande escala pelas superpotências. O surgimento desses mísseis assinala o início de nova era na história militar e, provavelmente, o epílogo da longa carreira da artilharia tradicional como fator importante das guerras.

Funções e modalidadesA principal função da artilharia é prestar apoio às outras armas. Nas operações de ataque, suas tarefas ainda podem ser assim resumidas: (1) preparação; (2) fogo de cobertura; (3) apoio; (d) contra-ataque; (4) fogo de fustigação; e (5) cooperação na perseguição ao inimigo. Nas operações de caráter defensivo, tem as seguintes funções: (1) contra-preparação; (2) barragem para repelir assaltos; (3) defesa antitanque; (4) contra-ataque; e (5) fustigação. Outra importante função da artilharia é a defesa antiaérea, em que os mísseis terra-ar tendem a ocupar o lugar das peças convencionais.

Do ponto de vista da categoria e peso do material, a artilharia divide-se em leve, média e pesada, além das classes especiais, ou seja, os canhões antiaéreos e sem recuo, os morteiros e foguetes. A artilharia leve reúne as peças de calibre menor, dos canhões antitanque de 37mm aos canhões e obuses de 75, 76, 85 a 105mm; a média compreende armas de 152, 155mm; o material pesado vai de 175 a 305mm, ainda empregado pelas grandes potências e outros países fabricantes ou compradores.

Artilharia no Brasil Instalado o primeiro governo-geral no Brasil (1549), surgiram os terços (terça parte de um regimento em Portugal), equipados com pequenos canhões. Com a transferência da família real portuguesa para o Brasil, D. João VI organizou um corpo de artilharia a cavalo. Proclamada a independência, D. Pedro I criou 12 corpos de artilharia. A artilharia brasileira teve participação importante nas guerras contra o Uruguai, Argentina e Paraguai. Quando terminou este último conflito, ela contava com mais de cem canhões nos campos de batalha. Destacou-se então o marechal Emílio Luís Mallet, patrono da artilharia brasileira.

Em 1908 criaram-se novas unidades de artilheiros, voltando a arma a sofrer profundas modificações após a primeira guerra mundial e sob orientação de uma missão francesa. Foi o tempo dos canhões e obuses de 75 a 105mm, os primeiros ainda de tração animal e origem francesa. Na segunda guerra mundial, o Brasil novamente reformulou seus métodos e equipamentos, sob orientação americana. Nas décadas seguintes, quase todas as suas unidades de artilharia já estavam motorizadas. Havia ainda os materiais aerotransportados, antiaéreos e de costa, estes últimos, em muitos casos, sendo desativados ou substituídos.

A partir da década de 1970, o Brasil desenvolveu aceleradamente sua indústria bélica e passou a se reequipar com armamentos de artilharia computadorizada. Dentro do plano geral de reorganização do Exército denominado FT 90 (força-tarefa para a década de 1990), o país passou a fabricar lança-mísseis equipados com sistemas de controle e pontaria eletrônicos, além de outras armas produzidas para consumo interno e também exportação. Algumas delas tiveram ampla aceitação no exterior. Paralelamente, diversas unidades foram equipadas com obuses autopropulsados de 105mm, armas ainda hoje indispensáveis nas guerras ditas convencionais. O material antitanque também foi amplamente modernizado, especialmente com a inclusão de foguetes de 89mm. No campo da defesa aérea, procurou-se o máximo refinamento tecnológico e a precisão, salientando-se nesse aspecto os mísseis terra-ar Roland II.

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