Literatura Brasileira

Literatura Brasileira

Literatura Brasileira
O ponto de vista historicista encontra apoio no fato de ser a literatura considerada, por seu aspecto orgânico, como um conjunto de obras ligadas em sistema enquanto expressão do complexo histórico, social, geográfico e racial.

Ao analisarem a origem da literatura brasileira, a crítica e história literária têm adotado duas orientações básicas. Uma, de pressupostos historicistas, tende a vê-la como uma expressão da cultura que foi gerada no seio da tradição portuguesa. Sendo muito pequena, nos primórdios, as diferenças entre a literatura lusitana e a praticada no Brasil, essa corrente salienta o processo da formação literária brasileira a partir de uma multiplicidade de coincidências formais e temáticas.

A outra corrente crítica, cujos critérios se inclinam à aferição predominantemente estética, assinala as divergências que se acumularam na psique do homem americano, desde o início, e influíram na composição das obras. Aqui, considerando-se que a situação do colono tinha de engendrar uma nova concepção da vida e das relações humanas, com uma correspondente visão dessa realidade, pretende-se valorizar o esforço pelo desenvolvimento das formas literárias no Brasil, em busca de uma expressão própria e, tanto quanto possível, original.

Estabelecer a autonomia literária é descobrir, portanto, os momentos em que as formas e artifícios da escrita serviram para fixar a nova visão estética dessa realidade nova. De tal modo, ao invés de conter-se em períodos cronológicos, a literatura deverá ser dividida de acordo com os estilos correspondentes às suas diversas fases: barroco, arcadismo, neoclassicismo, romantismo, realismo, naturalismo, parnasianismo, simbolismo, modernismo e concretismo.


Dos primórdios ao fim do século XVIII

Primeiros textos. Os primeiros documentos escritos produzidos no Brasil não pertencem à literatura, mas à história e à sociologia. São obras "sobre" o país, de conhecimento e valorização da terra, escritas para os europeus. Algumas se enquadram no "ciclo dos descobrimentos" da literatura portuguesa, dedicando-se ao relato da expansão pelos mares e suas consequências morais e políticas, ora com fins de catequese, ora com um fundo econômico (caça ao escravo, conquista e desbravamento de novas terras, mercados e fontes de riqueza).

Desses motivos saíram as "primeiras letras" escritas na colônia acerca de fatos, coisas e homens: a obra dos jesuítas, com uma parte tipicamente literária, lírica ou dramática, outra composta pelo acervo de cartas e informes em torno das condições da colônia; a literatura dos viajantes e descobridores, os roteiros náuticos, os relatos de naufrágios, as observações geográficas, as descrições da natureza e do selvagem; e as tentativas de epopeias com assunto local __ tudo marcado por uma tendência à exaltação lírica da terra ou da paisagem, espécie de crença num eldorado ou paraíso terrestre.

Pero Vaz de Caminha, Bento Teixeira, Gândavo, Gabriel Soares de Sousa, Fernandes Brandão, Rocha Pita, Vicente do Salvador, Botelho de Oliveira, Itaparica, Nuno Marques Pereira são manifestações da série de cânticos genetlíacos, da "cultura e opulência" ou "diálogo das grandezas", ou roteiros de viagens, que constituem essa literatura de catalogação, exaltação e conhecimento da terra, expressões do espírito nativista em ascensão.

Não tendo um cunho de invenção, essas obras, em sua maioria, não pertencem à literatura no sentido estrito. Correspondem à ânsia do brasileiro do século XVII de conhecer e revelar a terra brasílica. Mas delas proveio o conhecimento dos fatores geográficos, econômicos e sociais sobre os quais se erigiu a civilização brasileira. E delas derivou a produção de um vasto campo de trabalho, o dos estudos brasileiros, que iria adquirir com o tempo extraordinária importância.

Os textos dos primeiros tempos, contudo, não se livraram da impregnação do estilo artístico em vigor, o barroquismo, nem de expressar o mito ufanista. Justifica-se por isso o estudo dos principais autores que tiveram, nessa fase, sentido estético, alguns dos quais são bastante representativos do barroco literário, a que não escaparam nem mesmo os historiadores e pensadores, como Vicente do Salvador e Rocha Pita, ou os escritores políticos, os oradores, os autores de panegíricos ou de trabalhos jurídicos ou militares. Os gêneros literários mais cultivados foram o diálogo, a poesia lírica e a epopeia, ao lado da historiografia e da meditação pedagógica. De todos o barroco tirou o melhor partido, misturando o mitológico ao descritivo, o alegórico ao realista, o narrativo ao psicológico, o guerreiro ao pastoral, o solene ao burlesco, o patético ao satírico, o idílico ao dramático, sem falar no mestiçamento da linguagem, necessário à própria evangelização e resultante da nova sensibilidade linguística de que decorrerá a diferenciação de um estilo brasileiro.

Sob o signo do barroco. A literatura brasileira nasceu sob o signo do barroco, definido não só como um estilo de arte senão também como um complexo cultural e um estilo de vida. Mais precisamente, foi pela voz barroca dos jesuítas que ela teve início. Descontada a literatura de conhecimento da terra, a primeira manifestação de sentido estético foi a literatura jesuítica, de missão e catequese, produzida sobretudo por Anchieta, o fundador da literatura brasileira. Na obra de padre Antônio Vieira e em Gregório de Matos encontram-se as expressões máximas, respectivamente, da prosa e da poesia barroca no Brasil. A importância da vida social, já existente na cidade de Salvador, com os primeiros sintomas de organização literária que irá dar no movimento das academias, levou alguns historiadores a falar em "escola baiana", denominação imprópria para arrolar os homens que se dedicavam à cultura no século XVII e tinham a poesia como atividade central.

Formaram o grupo: Bernardo Vieira Ravasco, Eusébio de Matos, Domingos Barbosa, Gonçalo Soares da França, Gregório de Matos, Manuel Botelho de Oliveira, José Borges de Barros, Gonçalo Ravasco e João de Brito e Lima. Com raras exceções, em especial a de Gregório, cultivaram um barroco inferior, de imitação, que se prolongou pelas academias setecentistas. A literatura barroca estendeu-se, no Brasil, do final do século XVI ao final do século XVIII, quando se misturou com o arcadismo e o neoclassicismo.

O espírito nacionalista. O espírito do barroco, dominante no século XVII, deteve a marcha da corrente inaugurada com o Renascimento na Itália e que, na literatura, atingiu seu ponto culminante na França das últimas décadas do século XVII, com o chamado classicismo francês da época de Luís XIV. Mas essa tendência classicista penetrou pelo século XVIII, criando focos de neoclassicismo nas literaturas ocidentais.

Ao gosto barroco do grandioso e da ostentação sucedeu a procura das qualidades clássicas da medida, conveniência, disciplina, simplicidade e delicadeza, que desaguaram no arcadismo. No final do século também entraram em cena correntes que reivindicavam o sentimento, a sensibilidade, o irracionalismo, ao lado de pontos de vista racionalistas e "ilustrados" que produziriam o iluminismo da revolução francesa de 1789.

O Brasil, no século XVIII, atingiu um momento decisivo de sua história. Foi a época de criação da consciência histórica no brasileiro. A descoberta e posse da terra, as façanhas dos bandeirantes e a defesa contra os invasores deram margem a uma consciência comum, a um sentimento da figura do "brasileiro", mestiço de sangue e alma, já falando uma língua bastante diversa daquela da metrópole. Os recursos econômicos e as riquezas aumentaram, a população cresceu, a vida das cidades melhorou, a cultura se difundiu. O espírito nacionalista desabrochou por toda parte.

Combate ao barroquismo. As academias, embora exprimindo uma literatura encomiástica e um barroco decadente, testemunharam um arremedo de movimento cultural organizado, com letrados e salões. O espírito neoclássico, que se infiltrou nas mentes luso-brasileiras de então, procurou combater o barroquismo em nome dos ideais de precisão, lógica e medida, com a restauração das normas clássicas, codificadas em tratados de preceptística, verdadeiros códigos mecanizados e rígidos, baseados na lei da imitação ou no espírito didático, a governar a criação.

Esse ideal neoclassicista dominou o final do século XVIII e princípios do século XIX, aparecendo em alguns escritores tingido de cores "ilustradas" e de liberalismo ideológico, ou então de elementos pré-românticos, como o sentimentalismo e o nacionalismo.

De todas as manifestações neoclássicas, foi a corrente arcádica de procedência italiana a que maior importância assumiu no Brasil, com o chamado grupo, plêiade ou "escola mineira" (denominação aliás imprópria, pela inexistência de escola no sentido literário estrito): Cláudio Manuel da Costa, Basílio da Gama, Santa Rita Durão, Alvarenga Peixoto, Tomás Antônio Gonzaga e Silva Alvarenga. Seu início é assinalado pela publicação das Obras poéticas (1768) de Cláudio Manuel da Costa.

Parece fora de dúvida que não houve uma Arcádia brasileira e que os brasileiros foram "árcades sem Arcádia", como disse Alberto Faria, pois nenhum documento idôneo comprova a existência da Árcadia Ultramarina, de que falam alguns historiadores. De todos os árcades, o único que pertenceu a uma corporação dessa natureza foi Basílio da Gama, filiado à Arcádia Romana.

A reação clássica relativa ao arcadismo significava uma volta à simplicidade e pureza dos antigos, segundo os modelos anacreôntico e pindárico. Realizava-se sobretudo através do verso solto, em odes e elegias, numa identificação com a natureza, onde residiriam o bem e o belo. Daí a valorização da vida pastoril, simples, pura e pacífica.

O século XVIII, com as descobertas e exploração das minas, transferiu o eixo econômico, no Brasil, para a província de Minas Gerais, onde se desenvolveu uma sociedade dada ao fausto e à cultura, principalmente na capital da província, a antiga Vila Rica. Aí a fermentação econômica e cultural permitiu que se reunisse um grupo de intelectuais e artistas, entre os quais se destacaram os referidos acima. Constituem eles o início do lirismo brasileiro, pela transformação do veio nativista e da exaltação da natureza, pela adaptação da temática clássica ao ambiente e ao homem, com sentimentos e emoções peculiares. Ocorreu em suma, nesse processo, a fusão do individualismo com o sentimento da natureza e o ideal clássico.

Até o desabrochar do romantismo, foi justamente graças ao espírito arcádico que se manteve o ideal nativista, contrabalançando a tendência passadista do neoclassicismo, cuja marca exterior mais forte foi o gosto da linguagem arcaizante, quinhentista, dita "clássica". E isso se deve também ao fato de, pela primeira vez, se reunir um grupo de artistas conscientes de seu ofício e superiormente dotados de valor. O arcadismo confunde-se com o que hoje se chama o rococó literário: culto sensual da beleza, afetação, refinamento, frivolidade, elegância, linguagem melodiosa e graciosa, sentimentalismo, lascívia, gosto da natureza, intimismo. Passa-se com ele da época cortês para o subjetivismo da era da classe média. Gonzaga, o vate de Marília, é o modelo brasileiro da literatura arcádica e rococó.

Uma literatura autônoma

Romantismo. O espírito autonômico e nativista desde cedo conduziu a literatura brasileira para uma diferenciação cada vez maior, num processo de adaptação ao meio físico, à nova situação histórica, ao homem novo que havia surgido e se achava em desenvolvimento. De Bento Teixeira a Gregório de Matos, a Botelho de Oliveira, ao movimento academicista do século XVIII, ao rococó arcádico, o processo nativista foi-se estruturando para se consolidar, no século XIX, com o romantismo.

Foi então que a literatura brasileira, tendo lançado suas bases no século XVI, tornou-se realmente autônoma. Daí a importância extraordinária do movimento romântico no Brasil, pois entre 1800 e 1850 a literatura brasileira saiu da fase incaracterística do neoclassicismo, do barroco e do Iluminismo para a integração artística, com formas novas e temas nacionais, além de consciência técnica e crítica dessa situação.

Herdado em grande parte da Europa, através da influência de autores como Chateaubriand, Victor Hugo, Lamartine, Musset e Byron, e também graças à transferência para Paris do foco de irradiação situado antes em Lisboa, o romantismo assumiu no Brasil um feitio peculiar, devido às condições locais. Na prosa, José de Alencar lhe serviu de centro. Estimulou a renovação, pondo em relevo os interesses brasileiros, os temas e motivos locais, a linguagem do país, a paisagem física e social, distanciou-se dos gêneros neoclássicos e criou uma ficção autônoma, no mesmo instante em que o lirismo se fixava com Gonçalves Dias e os poetas surgidos nos rumos por ele desbravados, de Álvares de Azevedo a Castro Alves. As condições políticas e sociais, decorrentes da permanência da corte portuguesa no Brasil (1808-1821) e, logo a seguir, da independência (1822), favoreceram a fermentação intelectual, com a inauguração de estudos superiores e a instalação da imprensa.

Anunciado pelo pré-romantismo (1808-1836), o romantismo no Brasil divide-se em quatro fases distintas: a de iniciação (1836-1840); a indianista (1840-1850); a do individualismo e subjetivismo (1850-1860); e a liberal e social (1860-1870). O apogeu se situa entre 1846 e 1856. Essas fases correspondem às chamadas gerações românticas, cada qual caracterizada menos por uma doutrina homogênea do que por um corpo de tendências visíveis nas personalidades que as representam.

O pré-romantismo, no qual estão englobados os antecessores ou precursores, fundiu algumas qualidades tipicamente românticas a recursos formais do passado. O jornalismo político e literário, a oratória sacra e profana, a poesia lírica e a história foram gêneros cultivados pelos pré-românticos, dentre os quais se destacaram José Bonifácio de Andrada e Silva e frei Francisco de Mont'Alverne.

A fase de iniciação se deve ao grupo fluminense, que lançou o manifesto romântico de 1836, com a revista Niterói. No mesmo ano saiu o livro Suspiros poéticos e saudades, de Domingos José Gonçalves de Magalhães, a principal figura dessa fase, ao lado de Manuel de Araújo Porto Alegre, ambos cultores da poesia lírica. O indianismo da segunda fase, na busca da temática nacional, elevou o selvagem a símbolo da civilização nova. Praticando a poesia lírica e narrativa, o teatro e a ficção, Gonçalves Dias, José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo e Bernardo Guimarães são autores bem representativos da tendência.

É sobretudo pela poesia que se caracteriza a terceira fase, em que o lirismo individualista do "mal do século", influenciado por europeus como Musset, Byron, Leopardi, Espronceda e Lamartine, manifesta-se nas obras de Álvares de Azevedo, Junqueira Freire, Fagundes Varela e Casimiro de Abreu. A quarta fase, a do romantismo liberal, de cunho político e nacionalista, liga-se às lutas pelo abolicionismo e à Guerra do Paraguai (1864-1870). Na poesia, ora prevaleceu o lirismo intimista e amoroso, ora o condoreiro, assim chamado pelo uso frequente de metáforas arrebatadas, por influência do francês Victor Hugo. Castro Alves foi o grande poeta a incorporar essa prática.

O romantismo foi uma revolução literária que deu ênfase à tendência brasileira ao sentimentalismo lírico, à exaltação da individualidade, à inspiração. Daí sua popularidade e a repercussão que o levou a adentrar-se, em manifestações tardias, pelas primeiras décadas do século XX. Imbuído de espírito contemplativo, o romantismo antecipou certos enfoques ecológicos ao destacar a natureza tropical e a paisagem americana. Aos gêneros, deu autonomia estética. Além disso, valorizou a linguagem brasileira, dignificou a profissão de escritor e ampliou as faixas de público, consolidando a literatura brasileira, em suma, como entidade própria com diferente visão do mundo e formas peculiares de expressão.

Um capítulo à parte é constituído pela poesia satírica entendida como arma de combate às convenções sociais, na qual se distinguiu Luís Gama; e pelos textos e fragmentos circunstanciais nos quais os poetas românticos, todos bem jovens, revelam sua condição de dissidentes da sociedade burguesa em formação.

Naturalismo-realismo. De 1870 em diante desencadeou-se forte reação anti-romântica. Os gêneros adquiriram maior autonomia estética, libertando-se da política e do jornalismo. Uma mentalidade objetivista, realista, positiva e científica combateu o romantismo já exangue. A ficção, superando os métodos anteriores, encaminhou-se para assumir as formas ditadas pela observação do mundo externo, fosse à maneira urbana, regionalista ou naturalista. Por volta de 1880 surgiram os primeiros rebentos importantes do novo complexo estilístico que se desenvolveu contra o subjetivismo anterior para concretizar-se, na prosa e na poesia, sob as rubricas de realismo, naturalismo e parnasianismo.

O materialismo e o cientificismo biológico e sociológico serviram de base ao sistema de ideias condicionantes, expressas no darwinismo, doutrina da evolução, culto do progresso, teoria da seleção natural, espírito de observação, crença em leis mecânicas, determinismo biológico, geográfico e racial, negação dos valores espirituais e sobrenaturais. Essa foi a concepção de mundo que orientou a chamada geração do materialismo, que entrou em cena a partir de 1870 para realizar o novo período estético e histórico.

Tanto a prosa realista e naturalista quanto a poesia parnasiana obedeceram às mesmas regras de objetividade, exatidão, minúcia, fidelidade ao fato, economia de linguagem e amor à forma. O realismo prestou grande serviço à ficção brasileira. Procurando ser o retrato fiel da realidade, no ambiente e nos personagens, e mais independente da ideologia materialista do que o naturalismo, já havia começado de fato antes de 1870, por intermédio do costumbrismo de Manuel Antônio de Almeida e Martins Pena, do realismo de transição do visconde de Taunay e Franklin Távora ou do coloquialismo e da pintura da vida cotidiana de Joaquim Manuel de Macedo. A partir de 1880, o realismo passou a produzir algumas das mais altas expressões da ficção brasileira, com Machado de Assis e Raul Pompéia, prolongando-se enquanto tradição nas obras de caráter regionalista do final do século XIX e do século XX.

O naturalismo, como escola, existiu somente na própria década de 1880. Iniciou-se com O mulato (1881), de Aluísio Azevedo, a que se seguiram outros livros do autor, de Adolfo Caminha, Inglês de Sousa e Domingos Olímpio, sob forma regional ou urbano-social.

O parnasianismo, caracterizado pela ânsia de uma forma perfeita, classicizante, impassível, pela tendência às descrições nítidas, pelas concepções tradicionalistas sobre metro, ritmo e rima, pela manutenção de gêneros fixos como o soneto e a preferência pelo verso alexandrino, surgiu no Brasil pela mesma época, contido no mesmo clima filosófico-científico, realista e materialista.

O nome da escola veio de Paris e se referia a antologias francesas publicadas a partir de 1866, sob o título de Parnasse contemporain, que incluíam poemas de Gautier, Banville e Lecomte de Lisle. Depois de Teófilo Dias, cujas Fanfarras (1882) são vistas como o primeiro livro do parnasianismo brasileiro, a escola teve mestres seguros em Olavo Bilac, Raimundo Correia, Alberto de Oliveira e Francisca Júlia. Renovada pelo lirismo de  Vicente de Carvalho, perdurou até as duas primeiras décadas do século XX com as produções amaneiradas e cada vez menos interessantes dos chamados neoparnasianos, como Goulart de Andrade e Hermes Fontes.

Simbolismo. Como reação ao sistema de ideias e normas estéticas implantado pela geração materialista de 1870, surgiu um movimento em nome da subjetividade contra o objetivismo realista, do indivíduo contra a sociedade, da interiorização contra a exteriorização. Essas ideias novas, mas que continham, sem dúvida, fortes resíduos da postura romântica, começaram a circular no Brasil a partir de 1890, também por influência francesa, e concretizaram-se no simbolismo, que desde então teve existência paralela à do parnasianismo e seus prolongamentos.

Embora diferisse do parnasianismo na linguagem, no estilo, na atitude espiritual e na postura ante o mundo, o simbolismo mesclou-se não poucas vezes com ele na obra de muitos escritores, como B. Lopes. Com nitidez, sua autonomia se afirmou com nomes de primeira grandeza que lhe deram impulso, como Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens.

Rotuladas de decadentistas, as ideias simbolistas entraram em voga desde 1887, mas foi em 1891, no jornal Folha Popular, do Rio de Janeiro, que se constituiu o primeiro grupo simbolista. No Ceará, em 1892, sob as mesmas inspirações, fundou-se a sociedade literária Padaria Espiritual. Em 1893, Cruz e Sousa publicou Broquéis e ainda um livro de poemas em prosa, Missal, nos quais indicou com força e originalidade os rumos que seriam seguidos.

Com laivos de revivescência do espírito romântico, o simbolismo foi uma revolta contra o positivismo e o objetivismo, revolta que através de uma linguagem ornada, altamente metafórica e muitas vezes exótica iria dar grande relevo às preocupações espirituais. Nos termos da evolução europeia, que continuava a se refletir no Brasil, o simbolismo reagiu às correntes analíticas de meados do século XIX, assim como o romantismo reagira ao Iluminismo que havia triunfado no fim do século XVIII. Ambos os movimentos exprimiram a desilusão em face das vias racionalistas e mecânicas que se vinculavam na prática à ascensão da burguesia.

Na esteira de Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens, que foram as matrizes diretas do simbolismo brasileiro, surgiram em diferentes estados poetas de dicção bem própria, como os paranaenses Emiliano Perneta e Dario Veloso, os gaúchos Felipe d'Oliveira e Alceu Wamosy, o baiano Pedro Kilkerry e o piauiense Da Costa e Silva, um isolado precursor do concretismo com o poema "Madrigal de um louco", do livro Sangue (1908).

A revista Fon-Fon, editada no Rio de Janeiro, foi a mais influente das muitas então fundadas para difundir a produção simbolista. Seus animadores, tendo à frente o poeta Mário Pederneiras, diluíram o verso e usaram-no frequentemente para a expressão de conteúdos intimistas. Sob rótulos como penumbrismo, que serviram para caracterizar seus prolongamentos, o simbolismo se manteve ainda atuante, se bem que exposto não raro a hibridações e metamorfoses, até a fase modernista. A seus preceitos fundamentais se ligaram, de uma forma ou de outra, autores cuja adesão ao modernismo nunca foi radical, como Ribeiro Couto, Murilo Araújo, Olegário Mariano, Guilherme de Almeida ou Onestaldo de Pennafort.


A estética do século XX

Transição eclética. Uma fase de absoluto ecletismo estende-se do alvorecer do século XX a 1922, ano em que dois eventos - a Semana de Arte Moderna e o centenário da independência - tiveram reflexos profundos sobre a evolução literária. A Semana rompeu com todo o passado e abriu caminho para a criação de um estilo, o modernista, que em meio a variações momentâneas seria a marca do século. A independência, ao fazer cem anos, aguçou o espírito nacionalista e, como no tempo dos românticos, fez a literatura embevecer-se com a exaltação do Brasil. Tornaram-se comuns, por um lado, os estudos sobre o país e suas tradições em gestação recente. Por outro, com o furacão iconoclasta do modernismo, essas mesmas tradições foram contestadas no que traziam de mais óbvio como acomodação e mesmice.

Foi aproximando-se já desses limites que as duas primeiras décadas do século XX foram marcadas por poetas de posição singular, como Augusto dos Anjos ou Raul de Leoni, ou por prosadores da estirpe de Euclides da Cunha, Graça Aranha ou Adelino Magalhães. A ausência de um estilo unificador nessa fase seria preenchida por mesclas de maneiras passadas, com vestígios românticos, parnasianos e simbolistas agregando-se em obras de aparência nova. O grosso da produção eclética, é verdade, perderia todo o interesse com a estética do modernismo, mas muitos autores isolados chegaram a uma dicção convincente na criação de seus textos.

Em linha derivada da prosa realista, autores como Lima Barreto, Monteiro Lobato, Antônio Torres ou Gilberto Amado caracterizaram claramente um espírito pré-modernista, seja pela desenvoltura dos textos, seja por suas posições ostensivas contra a escrita empolada que lembrava com insistência os movimentos passados. No outro extremo, o da adesão às velhas formas, triunfou na mesma época a prosa preciosa de Coelho Neto.

O teatro evoluiu e, na senda aberta por Martins Fontes e Artur Azevedo, abrasileirou-se a passos largos. A ficção regionalista, que, após submeter-se à revisão modernista, seria um dos filões mais explorados durante o século XX, lançou marcos de significação expressiva com o baiano Afrânio Peixoto, o mineiro Afonso Arinos ou o gaúcho Simões Lopes Neto.

Ainda na fase de transição eclética para o modernismo, a imprensa assumiu grande influência sobre o destino das letras. Foi em parte graças a uma ativa presença nos jornais da belle époque que autores tão diversos como Humberto de Campos, Emílio de Meneses, Álvaro Moreira ou João do Rio (Paulo Barreto) conquistaram público e fama.

Modernismo. A apoteose do novo, com toda a carga de agressividade que costuma envolvê-la, foi o vetor que sustentou a implantação do modernismo no Brasil, como aliás ocorreu com o futurismo na Itália, o cubismo e o surrealismo na França, o expressionismo na Alemanha. E a expressão mais vistosa desse estado de espírito, a Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo, em fevereiro de 1922, ficaria lembrada como uma espécie de mise-en-scène, cheia de humor e provocação, de um programa único: o da modernidade como ruptura.

A mudança dos meios expressivos, quer na literatura, quer, em plano paralelo, nas artes plásticas, correspondia à maturação de uma crise mais geral, que envolvia toda a estrutura sócio-econômica de um país que ia deixando de ser uma vasta fazenda exportadora de matérias-primas para assumir uma feição diversa, especialmente em São Paulo. A primeira obra poética modernista chamou-se Paulicéia desvairada, de Mário de Andrade, e em estilo urbano-internacional foram vazados os romances auto-satíricos de Oswald de Andrade, as Memórias sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande.

O período heroico do movimento, o tempo que vai da Semana de 1922 à revolução de 1930, foi pontilhado de intenções nacionalistas que atuaram de vários modos. É fundamental apontar: a pesquisa folclórica sistemática de Mário de Andrade, voltada para a elaboração de uma práxis lingüística e melódica brasileira; a proposta de um ideal de vida e de cultura primitivista e "antropofágico", explícito no roteiro de Oswald de Andrade e implícito na poesia mítica de Raul Bopp; e o apelo às matrizes da raça tupi e cabocla difuso em obras de Guilherme de Almeida, Cassiano Ricardo e Plínio Salgado. Entre 1922 e 1930 houve grupos e revistas cujos nomes valiam por si sós como manifestos nativistas: Terra Roxa e Outras Terras, Pau-Brasil, Bandeira, Revista de Antropofagia, Verde e Anta.

No mesmo período, obras de Antônio de Alcântara Machado, Manuel Bandeira, Menotti del Picchia e Ronald de Carvalho contribuíram para ampliar o campo de expressão modernista. Na trilha aberta por Klaxon, mensário de arte moderna que circulou em maio de 1922, surgiu em 1924 a revista Estética, lançada no Rio de Janeiro por Sérgio Buarque de Holanda e Prudente de Morais Neto.

Como contracorrente, dentro do modernismo, é necessário lembrar o grupo e a revista Festa, fundada em 1927, por Tasso da Silveira, com um programa espiritualista ainda próximo das fontes simbolistas. O grupo da Anta, importante pelo peso de suas conotações políticas, encarregou-se de difundir um verde-amarelismo de tendências direitistas.

De São Paulo e Rio de Janeiro o processo de atualização literária caminhou para os estados, revelando nomes já em perfeita sintonia com a modernidade, como os gaúchos Augusto Meyer e Mário Quintana. No Nordeste surgiu um poeta regionalista como Ascenso Ferreira. Em um segundo tempo, operou-se uma absorção das liberdades modernistas na prosa social de José Américo de Almeida em diante, até Raquel de Queirós.

A partir de 1930, um momento de recomposição de valores, em busca de novas sínteses, parece ter sucedido ao individualismo extremado e à inventividade quase anárquica dos anos heroicos do modernismo. Tentativas de compreensão dos problemas do país e de uma criação mais elaborada manifestaram-se então com romancistas como Graciliano Ramos e José Lins do Rego, poetas como Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Dante Milano e Joaquim Cardozo, ensaístas sociais como Caio Prado Jr., Gilberto Freire, Sérgio Buarque de Holanda e Alceu Amoroso Lima. Para todos eles, o modernismo fora uma porta aberta. Mesmo a lírica antipitoresca e antiprosaica de Cecília Meireles, Augusto Frederico Schmidt, Vinícius de Morais e Henriqueta Lisboa, próxima do neo-simbolismo europeu, só foi possível porque tinha havido uma abertura a todas as experiências modernas no Brasil pós-1922.

A morte de Mário de Andrade, em 1945, pode ser tomada como o marco final do modernismo propriamente dito. No mesmo ano operou-se na poesia um decidido retorno à tradição. Com a chamada geração de 45, integrada por Ledo Ivo, José Paulo Moreira da Fonseca, Domingos Carvalho da Silva, Afonso Félix de Sousa, Bueno de Rivera, Tiago de Melo e Marcos Konder Reis, entre muitos outros, a poesia voltou a ser composta sem transgressões à forma, reativando o uso de seus antigos recursos, como a rima e a métrica. João Cabral de Melo Neto, cronologicamente incluído na mesma geração, dela se distinguiu no entanto por escrever com rigor sem incidir no já visto. Sua obra se tornaria, após a de Carlos Drummond de Andrade, a mais elogiada e influente desde meados do século.

Caminhos da ficção. Contrapondo-se à ficção regionalista, que deitara fundas raízes, o romance introspectivo ou psicológico definiu-se em contornos nítidos, graças a nomes como Cornélio Pena, Lúcio Cardoso, José Geraldo Vieira e Otávio de Faria. Com Clarice Lispector, essa linha de ficção intimista deu um salto do psicológico ao existencial, da notação individual à meditação sobre o ser. Os enredos e cenários urbanos, herdados da tradição realista, nutriram obras marcantes como os romances de Marques Rebelo e os contos de João Antônio.

Tal qual a desses e muitos outros autores, a prosa de Jorge Amado, José Lins do Rego e Érico Veríssimo, tríade da mais alta expressão, beneficiou-se amplamente da descida à linguagem oral, aos brasileirismos e regionalismos léxicos e sintáticos que o típico estilo modernista havia preparado. O filão dos temas regionais levou a uma vasta produção de romances onde o aspecto documentário sobressai com frequência, como os escritos por Dalcídio Jurandir, Herberto Sales, Adonias Filho, Amando Fontes, Mário Palmério, Josué Montelo, Bernardo Élis e José Cândido de Carvalho.

Com Guimarães Rosa, a costumeira oposição entre romance regionalista e romance psicológico resolveu-se em termos puramente estéticos, no plano das estruturas narrativas e, sobretudo, no plano da criatividade linguística. Uma acentuada preocupação com a originalidade da forma e as invenções estilísticas surgiu por outro lado como traço em comum entre ficcionistas de orientações bem distintas, como Osman Lins, Campos de Carvalho, Dalton Trevisan, Sérgio Santana, Ivan Ângelo, Raduan Nassar e Hilda Hilst.

Nas últimas décadas do século XX, criada frequentemente em sintonia com as grandes correntes internacionais, a ficção brasileira projetou-se no mundo, sendo extensa a lista de traduções então feitas para diversas línguas. Além dos nomes citados, convém lembrar, pela repercussão de suas obras, autores como Rubem Fonseca, Antônio Calado, Autran Dourado, Inácio de Loiola Brandão, Ana Miranda, Nélida Piñon, Lígia Fagundes Teles, Márcio de Sousa e Moacir Scliar, já publicados também no exterior.

Do concretismo à poesia marginal. A partir da década de 1950, o tema e a ideologia do desenvolvimento assumiram grande relevo no Brasil, à medida que a industrialização se processava em ritmo cada vez mais intenso. Nesse contexto foi formulado o concretismo, que se propunha como vanguarda para os novos tempos e abolia a escrita discursiva, instaurando em seu lugar uma expressão consubstanciada em signos e representações gráficas que pretendiam dizer mais que as palavras.

Aos paulistas Décio Pignatari e Augusto e Haroldo de Campos uniram-se poetas radicados no Rio de Janeiro como Ferreira Gullar, Vlademir Dias Pino e Ronaldo Azeredo, para o lançamento oficial do movimento, feito em São Paulo, em 1956, com a I Exposição Nacional de Arte Concreta. Nos anos seguintes, enquanto os irmãos Campos se orientavam para especializar-se em obras de erudição e tradução de poesia, o grupo carioca, com Ferreira Gullar à frente, distanciou-se das origens comuns para lançar no Rio de Janeiro o movimento neoconcreto. Na década de 1960, alguns poetas antes comprometidos com a linguagem visual do concretismo voltaram a escrever versos, que tinham porém agora um ostensivo sabor de panfletagem política.

Renovou-se simultaneamente o gosto da arte regional e popular, fenômeno paralelo a certas ideias motrizes dos românticos e dos modernistas, os quais, no afã de redescobrirem o Brasil, haviam também se dado à pesquisa e ao tratamento histórico do folclore. Mas dessa vez, graças ao novo contexto sócio-político, toda a atenção foi reservada ao potencial revolucionário da cultura popular.

Na década de 1970, a da chamada poesia marginal, que se inseriu no movimento internacional da contracultura, a expressão dos primeiros modernistas voltou à ordem do dia. Escrever versos de qualquer maneira e, se possível, com forte entonação satírica passou a ser a nova moda numa época em que o inimigo comum, sob todas as suas formas, era a repressão. Daí para a frente, a herança do concretismo ora mesclou-se ao coloquialismo em produções híbridas, ora inspirou uma poesia sucinta, de versos curtos, que se requintava ao tentar dizer o máximo com o uso de muito poucas palavras.

Os avanços da crítica. A consciência histórica e crítica do modernismo foi expressa de início pelos próprios criadores da época mais dotados de espírito analítico, como Mário de Andrade. Fora do grupo, mas voltada para a inteligência da arte nova, avultou a obra de Tristão de Ataíde, pseudônimo de Alceu Amoroso Lima, que acompanhou com simpatia a melhor literatura publicada após a década de 1920.

Álvaro Lins foi, em seguida, um dos críticos mais ativos e percucientes, muito próximo do estilo dos franceses pelo gosto da análise psicológica e moral. A Afrânio Coutinho coube o mérito de divulgar no Brasil os princípios do New Criticism anglo-americano e sistematizar algumas ideias e informações sobre o barroco.

A tarefa de repensar a literatura brasileira à luz de critérios novos, atentos à gênese e à estrutura interna, foi superiormente cumprida nas várias obras de Antônio Cândido. Com Augusto Meyer o ensaísmo brasileiro recebeu um estilo pessoal, reflexivo e irônico. Os estudos comparatistas devem a Eugênio Gomes alguns achados de valor: foi ele o primeiro a detectar com precisão fontes inglesas em escritores brasileiros, rastreando-as sobretudo na obra de Machado de Assis. Este, pelo lugar central que ocupa, foi objeto de minuciosos estudos por críticos de formação bem diversa, como Astrojildo Pereira, José Aderaldo Castelo e Miécio Tati.

Cumpre lembrar que a erudição de tipo universitário, relativamente nova no Brasil, deu frutos consideráveis no trato da historiografia literária. Graças a trabalhos monográficos sobre períodos, gêneros e autores, já se pode acompanhar com relativa segurança o desenvolvimento de toda a literatura nacional. Destaquem-se ainda, na evolução da crítica, os nomes de importantes pesquisadores como Andrade Murici, Fábio Lucas, Mário da Silva Brito, Cavalcanti Proença, Franklin de Oliveira, Francisco de Assis Barbosa, Antônio Houaiss, Brito Broca, Wilson Martins, José Guilherme Merquior, Eduardo Portela, Péricles Eugênio da Silva Ramos e Fausto Cunha. Entre os críticos nacionalizados, é indispensável citar Otto Maria Carpeaux, Paulo Rónai e Anatol Rosenfeld. Menção à parte merece o trabalho de crítica historiográfica desenvolvido pelos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, que levou à redescoberta de valores como Sousândrade, Pedro Kilkerry e Patrícia Galvão.

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