Morfologia linguística e História das Línguas dos Povos da Terra

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Morfologia linguística e História das Línguas dos Povos da Terra

A morfologia, uma das grandes divisões da gramática, ao lado da sintaxe e, segundo alguns linguistas, da fonética, ocupa-se da estrutura e formação das palavras, suas flexões e classificação. Nas línguas indo-européias, inclusive no português, as palavras em geral apresentam várias formas. Em algumas, como ocorre com o latim e o grego, a variedade morfológica é muito grande: em outras, como no inglês e no provençal, já houve grande simplificação. O português, nesse aspecto, está numa posição intermediária pois, ainda que disponha de muitas formas no verbo, reduziu-se bastante no nome.

As palavras dividem-se em partes menores, cada uma dotada de sua função. Por exemplo, apedrejar, que pode ser decomposta em -a (prefixo de aproximação) mais pedra (que indica a coisa, ou o material), mais -ejar (que transforma a palavra em verbo, equivalente a "jogar pedra"). Assim, também, numa palavra como flores, flor é a parte que nomeia o objeto, e -es indica seu número, neste caso, plural.

Estrutura e variação das palavras A parte variável da palavra ora se modifica por flexão, ora por derivação. Nos dois casos o segmento inicial recebe o nome de tema, mas no primeiro, como em rosa, rosas, o elemento agregado chama-se desinência e, no segundo, terminação (que pode ser apenas um sufixo), como no advérbio alegremente, formado do adjetivo alegre seguido do sufixo -mente. A flexão compreende, para os nomes, as categorias de gênero e número; e para os verbos, as desinências de modo, tempo, número e pessoa. Grau não é considerado flexão pois o elemento que o exprime não é desinência, mas sufixo.

Denomina-se morfema o elemento lingüístico que serve para relacionar as idéias, para definir a categoria gramatical (gênero, número e pessoa) etc. Os morfemas, que isolados não têm nenhum valor, podem ser dependentes, quando aparecem no vocábulo, como no caso dos afixos (prefixos e sufixos), desinências etc. Chamam-se morfemas independentes ou morfemas vocábulos as preposições, conjunções e advérbios de intensidade. Todos os elementos estruturais de uma palavra são morfemas, depois de se excluir o semantema, também chamado radical ou lexema, que é o elemento portador de significado comum a um grupo de palavras da mesma família. As palavras conformado, desconforme, formato, informação e reforma, por exemplo, contam com o mesmo radical -- form.

Flexão - Na língua portuguesa, os nomes ou substantivos, como os adjetivos, flexionam-se para exprimir gênero e número. Existe, assim, a desinência nominal de gênero (-a) e a de número (-s).

Há substantivos que são sempre de um mesmo gênero; outros são masculinos ou femininos. Quanto aos adjetivos, alguns são uniformes (exemplo: grande homem, grande mulher), mas em geral são biformes e flexionam segundo o gênero do substantivo (belo rio, bela avenida). Os números são dois -- singular e plural -- mas há substantivos que só se encontram num dos dois números, como ocorre, por exemplo, com o termo núpcias. Há também adjetivos invariáveis quanto ao número (exemplo: simples), mas isso é excepcional, pois normalmente flexionam com o substantivo (casa pequena, casas pequenas).

Os graus são dois: aumentativo (bengala, bengalão; bonito, bonitão) e diminutivo (bengalinha, bonitinho). Não se considera o grau como flexão não só pelo fato de sua formação ser feita com sufixos, mas também porque na gradação pode ocorrer alteração semântica, como no caso de casa, casarão e casebre, que exprimem conceitos distintos. Há um grau aumentativo que atinge particularmente os adjetivos de procedência latina: o superlativo (belíssimo, paupérrimo). Os advérbios só admitem flexões de grau quando formados a partir de adjetivos (belíssimo, belissimamente; maior, maiormente).

Os pronomes podem flexionar em gênero e número, mas há alguns invariáveis, como que e ninguém. Quatro são considerados neutros (isso, isto, tudo e aquilo).
Os verbos agrupam-se em três conjugações, mas há verbos que não se subordinam a nenhum padrão. As conjugações caracterizam-se por uma ligação, ou vogal temática, pela qual terminam seus radicais (am-a-ra, dev-e-ra, part-i-ra). Suas formas se distribuem por modos (indicativo, subjuntivo, imperativo), tempos e pessoas. Os tempos exprimem também aspectos, e as pessoas, números. Na flexão dos verbos há desinências modo-temporais (fala-va, comi-a, senti-a), e as número-pessoais (falava-s, comía-mos, parti-am).

Não é raro as flexões (que ocorrem sempre no fim dos vocábulos, e por isso chamadas por alguns de deflexões) serem acompanhadas de mutações internas do vocábulo, conhecidas como inflexões. Por exemplo: porco, abre o o no feminino e no plural. Pão faz no plural pães, e perdão faz perdões. Fiz, primeira pessoa do pretérito perfeito, muda-se para fez na terceira, sem qualquer deflexão. Com o verbo mover, diz-se movo e mova, com o fechado, mas moves, com o aberto. Tal estudo é sistematizado nas gramáticas sob o nome de apofonia.

Muitas locuções prepositivas da língua portuguesa se formam a partir de advérbios ou outras palavras, seguidos das palavras de, a, em ou com (antes de, junto a etc.). O mesmo acontece com diversas conjunções, quase todas terminadas em que (antes que, sempre que, porquanto, visto que etc.).
Classificação das Línguas
classificação das Línguas

Uma língua se define por suas características diferenciadoras. As diversas variantes adotadas regionalmente são denominadas dialetos, e freqüentemente um deles, por motivos políticos, históricos ou culturais, se impõe para servir como base da língua culta e literária. Do ponto de vista histórico, considera-se também que toda língua é um dialeto em relação àquela de que provém. Assim, todas as línguas românicas, como o português, o espanhol e o francês, seriam dialetos do latim.

Em todo o mundo se falam, atualmente, cerca de 2.500 línguas. No passado, com toda probabilidade, o número era maior, o que dificulta estabelecer uma classificação que seja universalmente aceita.

Critérios de classificação. O primeiro critério de classificação das línguas é o que distingue entre línguas vivas, ou faladas na atualidade, e línguas mortas, conhecidas apenas por meio de documentos, embora possam continuar sendo empregadas para uso escrito.

Segundo outros critérios, algumas línguas são  oficiais, quando adotadas por um estado para uso de seus habitantes; línguas de cultura, quando possuem literatura escrita; e línguas artificiais, quando criadas para utilização exclusiva de grupos fechados ou com o objetivo de se tornarem instrumentos universais de comunicação, caso de que o esperanto é o principal exemplo.

As línguas são usadas em diferentes registros, segundo as necessidades de comunicação. Nesse sentido, destaca-se a distinção entre língua vulgar e língua culta. A língua falada e a escrita também apresentam grandes diferenças, já que, embora sejam inter-relacionadas, muitas vezes seguem caminhos diversos. A língua escrita é mais explícita e precisa, pois lhe falta o apoio do contexto partilhado entre emissor e receptor da conversação oral; é também mais rica em recursos expressivos e mais conservadora. Uma variedade muito importante da língua escrita é a língua literária, usada com fins estéticos.

Do ponto de vista estritamente linguístico, pode-se classificar as línguas segundo o parentesco tipológico de sua estrutura interna. De acordo com esse critério distinguem-se quatro grupos fundamentais de línguas: isolantes, aglutinantes, flexivas e polissintéticas. As isolantes, entre as quais se encontra o chinês, caracterizam-se por formar as frases mediante a justaposição de uma série de elementos léxicos monossilábicos e invariáveis. As aglutinantes apresentam grande riqueza de afixos, partículas que formam palavras derivadas, completamente independentes em conteúdo e função; a esse grupo pertencem, por exemplo, o turco e o finlandês. As línguas flexivas, que incluem as indo-europeias e as semíticas, estabelecem as relações gramaticais por meio de modificações sofridas pela parte variável da palavra. Nas línguas polissintéticas, que compreendem algumas línguas ameríndias e as esquimós, as palavras se apresentam como conglomerados de elementos semânticos e gramaticais equivalentes a uma frase.

A tendência tradicional, porém, tem sido classificar as línguas segundo seu parentesco genealógico. Agrupam-se em famílias todas as línguas que têm um mesmo tronco, seja ele conhecido (como o latim no caso das línguas românicas) ou hipotético (como a suposta língua indo-europeia primitiva). O estabelecimento do parentesco entre várias línguas é polêmico, já que, mesmo quando se encontram indícios favoráveis a uma hipótese, podem faltar dados concludentes a respeito. Algumas línguas apresentam-se isoladas sem que seja possível achar uma vinculação clara com outros idiomas, como ocorre com o basco.

Famílias e grupos linguísticos Segundo a genealogia, as línguas se classificam em grandes famílias, divididas em grupos, subgrupos e ramos. A classificação aqui apresentada acha-se sujeita a variações segundo os diferentes autores, que podem estabelecer unidades maiores ou menores. Ou seja, as tentativas de agrupar essas famílias, grupos e subgrupos se baseiam mais em hipóteses, de maiores ou menores fundamentos, que em dados irrefutáveis.

(1) Família indo-europeia, a mais estudada e de maior número de línguas, que compreende pelo menos oito grupos vivos (o indo-irânico, o armênio, o céltico, o germânico, o itálico, o balto-eslavo, o grego e o albanês), e dois grupos extintos (o anatólico e o tocariano);

(2) Família camito-semítica ou afro-asiática, com os subgrupos semíticos ocidental e oriental, o aramaico-cananeu (a que pertencem o aramaico e o hebraico), o arábico-etíope, o egípcio-copta, o líbico-berbere, o cuchítico e o tchádio;

(3) Família caucasiana, que compreende um grupo muito numeroso de línguas faladas na vertente meridional do Cáucaso, com dois grupos fundamentais: o norte-caucásico e o sul-caucásico (no primeiro sobressaem os subgrupos das línguas tchetcheno-daguestanianas e tchetcheno-lesguianas; no segundo estão línguas como o georgiano e o mingrélio);

(4) Família fino-úgrica ou uraliana, com os grupos lapão, fínico (a que pertencem idiomas como o finês ou finlandês, o carélio, o estoniano e o morduínio), úgrico (a que pertence o húngaro) e samoiedo;

(5) Família altaica, que com as da família anterior forma o grande conjunto lingüístico uralo-altaico, e compreende os grupos manchu-tungúsio, turco, mongol, japonês e coreano;

(6) Família dravídica, com línguas como o télugo, o tâmil e o malaiala;

(7) Família sino-tibetana, com os grupos das línguas chinesas e tibeto-birmanesas;

(8) Família austro-asiática, com os grupos munda,   mon-khmer, a que pertence o khmer (língua oficial do Camboja) e o vietnamita;

(9) Família malaio-polinésia, com os grupos indonésio, polinésio e melanésio.

Muitas línguas não chegam a constituir a grande divisão conhecida como família e atingem, no máximo, a formação de um grupo:

(10) Grupo nilo-chariano, que compreende os subgrupos nilo-camítico e sudanês;
(11) Grupo nilo-saariano, com o subgrupo songhai;
(12) Grupo nígero-congolês;
(13) Grupo khoi-san, das línguas hotentote e boximane;
(14) Grupo de línguas indígenas americanas ou ameríndias.

Outras línguas. São numerosas as línguas sem nenhum vínculo claro com outras. Exemplos significativos são o basco, talvez relacionado com as línguas caucasianas, o aino do Japão, os dialetos das ilhas Andaman e o burushaski da Índia. Entre as línguas mortas de parentesco ignorado acham-se o sumeriano, falado na Mesopotâmia, e o etrusco, na Itália.
Línguas Africanas

Línguas Africanas

De uma perspectiva histórica, o mapa lingüístico da África indica a existência de dois grandes conjuntos de línguas. No primeiro estariam as propriamente africanas, em número superior a mil, que se dividem em quatro grandes grupos: o nilo-chariano, o nilo-saariano, o nígero-congolês e o khoin.

A enorme diversidade lingüística da África desmente a imagem de um continente homogêneo. Além disso, os conflitos entre as línguas locais e as provenientes de outras partes do globo têm refletido os choques culturais e sociais da região.

No segundo conjunto ficariam as línguas de raízes não-africanas faladas em todo o norte do continente e nas zonas costeiras. Também aqui haveria três grandes grupos. O primeiro seria o das línguas camito-semíticas. A ele pertencem: o árabe, falado nos estados das margens do Mediterrâneo -- Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia e Egito --, que conseguiu estender-se para o sul na zona do Saara; as diferentes línguas berberes; e as línguas cuchíticas, cuja esfera de influência se estende às margens do mar Vermelho, à Etiópia e à Somália.

Um segundo grupo seria constituído pelas línguas européias que penetraram na África em conseqüência da colonização, principalmente o francês, o inglês e o português. O francês é falado em diversos países do golfo da Guiné e da zona subsaariana, assim como no Zaire e em Madagascar; o inglês, no golfo da Guiné e em vários estados da costa sul-oriental (Quênia, Tanzânia) e do sul do continente (Zimbábue, Zâmbia, República da África do Sul); o português, fundamentalmente em Angola e Moçambique, além da Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.

O terceiro desses grupos se constitui de apenas uma língua, o malgaxe, que tem origem malaio-polinésia e se mantém na ilha de Madagascar.

ClassificaçãoApesar da enorme diversidade e dispersão das línguas propriamente africanas os especialistas classificaram essas línguas, como foi dito, em quatro grandes grupos.

Ao grupo nilo-chariano pertencem as línguas nilo-camíticas, como o teso, o massai e o tatoga, além do dinka, língua nilótica do Sudão; e as sudanesas, que se subdividem em centrais (faladas no Tchad e partes do Congo, Uganda e Sudão) e orientais (línguas núbias do Sudão e da Etiópia).

No grupo das línguas nilo-saarianas destaca-se em importância a família saariana, cujo principal representante é o kanuri, com falantes na Nigéria, Níger, Camarão e Tchad.

Muito numerosas -- cerca de 900 --, as línguas do grupo nígero-congolês abrangem uma ampla zona geográfica, da Mauritânia até o Quênia e a África do Sul. Os especialistas identificam aqui cinco subgrupos: mande, gur, ocidental, oriental e kwa. Entre os idiomas bantos, integrantes do subgrupo oriental e provavelmente originários do atual Camarão, o mais importante é o suaíle, que alcançou notável uso literário; também se destacam o ruanda, o luba-luuna, o sotho e o zulu-ngoni. O subgrupo mande, ou mandinga, é formado pelas línguas faladas na região situada entre Mauritânia e Gana. As línguas gur, ou voltaicas, se usam no Mali, Costa do Marfim e Nigéria; entre elas se destaca o dogon. No subgrupo ocidental, que se estende do Senegal à Nigéria, estão o fulani, o wolof, língua predominante no Senegal, e o kemne. O subgrupo kwa inclui o ioruba (ou nagô) da Nigéria e do Benin, o ibo da Nigéria e o akan.

Pertencem ao grupo khoin as línguas faladas no sudoeste do continente pelos hotentotes e bosquímanos, que habitam regiões semidesérticas. São línguas baseadas na emissão de sons laríngeos ("cliques").

Não chegam a quarenta o número de línguas africanas faladas por mais de dois milhões de pessoas. Esse fato guarda estreita relação com o aparecimento de línguas francas (as que, com estruturas simplificadas, adotam elementos dos falares locais e das línguas de uso mais comum), como o árabe no Sudão e no Tchad; o suaíle na Tanzânia, no Quênia, (países onde é língua oficial), e no leste do Congo; o lingala no Congo ocidental; o fanagalo na África do Sul etc. As línguas introduzidas pelos europeus também foram utilizadas para facilitar a comunicação em grandes áreas; assim se constituíram o inglês pidgin do Camarão e da África ocidental; os distintos idiomas crioulos portugueses; e o africâner, derivado do holandês, que junto com o inglês é uma das línguas oficiais da África do Sul.


Panorama geral No continente africano, é difícil estabelecer relações entre as línguas faladas e os diferentes modos de vida. Com alguma freqüência, grupos humanos falantes da mesma língua ou de línguas muito parecidas apresentam grandes diferenças raciais ou culturais; por outro lado, comunidades com caracteres raciais ou culturais muito semelhantes usam línguas diferentes, que às vezes não têm entre si nenhuma relação.

Apesar disso, não é de todo impossível estabelecer algum nexo de caráter geral. Por exemplo, os povos que falam línguas nilo-saarianas são sobretudo criadores de gado, mas os de línguas bantas se identificam com sistemas agrícolas sedentários. Embora também não se possa afirmar a existência de traços gerais comuns a todas as línguas africanas, alguns fenômenos alcançam considerável extensão: estão nesse caso o emprego do tom de voz para diferenciar palavras ou formas gramaticais que, sem isso, seriam foneticamente iguais; a utilização dos grupos consonantais kp ou gb; e as palavras iniciadas por uma nasal seguida de consoante (mb, nd). Em certas línguas as palavras se constituem unicamente de um radical, sem afixos ou desinências; em outras, ao contrário, existe um complexo sistema de agregação, com o que uma só palavra pode equivaler a uma frase inteira de uma língua européia. Outro elemento bastante comum é a escassa importância dada ao gênero dos substantivos.

Na maior parte dos países da África negra, há um conflito lingüístico entre as línguas autóctones e as de fora. As primeiras passaram a ser objeto de maior atenção após a independência dos diferentes países. Outro problema é o de determinar, em cada um deles, a língua local que deve ser utilizada na escrita e institucionalizada no sistema educativo e político. Em várias ocasiões, as rivalidades entre etnias diferentes dentro de um mesmo país tornaram aconselhável a adoção, pelos governos, das línguas coloniais como oficiais, principalmente o inglês (caso da Nigéria, Quênia, Tanzânia etc) e o francês (Camarão, Tchad, Senegal).

Tradicionalmente, as civilizações africanas tiveram caráter oral: os elementos acústicos (voz, percussão, instrumentos musicais) são decisivos, e a memória desempenha um papel fundamental. O desejo de desenvolver uma cultura escrita nas línguas autóctones, para afirmá-las frente às estrangeiras, suscitou nas nações africanas um esforço sem precedentes de consolidação lingüística, em que pesem as dificuldades de conciliar as formas orais com os novos meios de expressão. De qualquer modo, a crescente vitalidade da literatura em línguas africanas revela a melhor possibilidade de superar essas contradições.
Línguas Ameríndias

Línguas Ameríndias

Línguas AmeríndiasAs línguas ameríndias são as faladas pelos primitivos habitantes da América e por seus descendentes. Formam um conjunto claramente diferenciado frente às línguas européias de colonização. Nunca foi possível estabelecer uma relação entre elas e outras línguas não americanas, com a única exceção do esquimó, que veio da Sibéria e penetrou no extremo norte da América. O estudo e a classificação das línguas ameríndias foi sempre um problema de difícil solução, por várias razões: a falta de testemunhos escritos, a não ser em casos muito especiais; a grande dificuldade de acesso às zonas habitadas pelos falantes; a enorme fragmentação dialetal; o fato de muitas dessas línguas estarem ameaçadas de extinção; e a inexistência, ao que se sabe, de um tronco lingüístico comum que permita trabalhos comparativos.

Seria impossível entender a história da América sem avaliar a contribuição das comunidades que a povoavam antes da colonização européia. E a herança mais genuína dessas culturas são suas línguas, ainda vivas em muitas regiões do continente.

Estado atual - A colonização européia provocou o desaparecimento de numerosas línguas ameríndias (cerca da metade das do norte do continente, uma porcentagem menor no sul e todas as do Caribe) e destroçou muitas outras. Os grupos que mais resistiram foram o uto-asteca e o maia, na Meso-América (México, América Central e Antilhas), e o tupi e o quechumara, na América do Sul. Segundo estimativas feitas na década de 1980, apenas 15 línguas tinham mais de cem mil falantes, e eram muitas as utilizadas por somente algumas dúzias de pessoas. O bilingüismo é um fenômeno cada vez mais amplo e não são raros os empréstimos entre as línguas européias e as ameríndias. O grau de elaboração dessas últimas tem estreita relação com o desenvolvimento das sociedades que as empregam. Não se pode afirmar que tais línguas sejam "primitivas": ao contrário, todas se servem de sistemas gramaticais e fonológicos completos e seus vocabulários não se mostram tão reduzidos como levam a crer certas informações; alguns desses vocabulários incluem milhares de palavras e permitiram o florescimento de literaturas de grande brilho.

Classificação De acordo com um critério convencional, as línguas ameríndias foram divididas em três grandes blocos de base geográfica: o da América do Norte, o da Meso-América e o da América do Sul.

Línguas indígenas da América do Norte Nesse bloco se incluem as línguas indígenas do Canadá e dos Estados Unidos, assim como algumas das utilizadas no México, que fizeram sentir sua influência além da fronteira setentrional desse país. O número das línguas sobreviventes foi estimado em cerca de 200, com aproximadamente um milhão de falantes. Apesar de existirem algumas exceções, como a dos navajos, as línguas indígenas da América do Norte continuam perdendo terreno.

Até o momento não se conseguiu estabelecer nenhuma teoria que identifique uma possível origem comum para todos esses complexos lingüísticos. Embora se considere indiscutível que os primeiros povoadores da América procederam da Ásia, através do estreito de Bering, as tentativas de vincular as línguas do norte do continente às asiáticas se mostraram infrutíferas. A grande diversidade lingüística da América do Norte parece indicar que o povoamento se produziu ao longo de várias ondas de imigração de povos asiáticos, pertencentes a troncos lingüísticos distintos e, provavelmente, já desaparecidos.

O contato com o inglês e o francês originou uma precária situação de bilingüismo na qual as línguas indígenas ocupam posição socialmente subordinada. A influência externa afetou sobretudo o vocabulário e isso permitiu que, em linhas gerais, fossem respeitados os níveis mais profundos de estrutura da linguagem, como a fonética ou a sintaxe.

Entre os grupos lingüísticos dessa área do continente se encontram o na-dene, o macro-algonquino, o macro-sioux, o hoka e o penuti. O grupo uto-asteca, do qual se falará adiante, também se estendia por boa parte do território do que é hoje o oeste dos Estados Unidos.

À margem de todos esses grupos lingüísticos devem-se mencionar outras duas línguas, o esquimó e o aleúte, usadas na parte mais setentrional do continente americano. No início da década de 1980, o esquimó era falado por cerca de cem mil pessoas no Alasca, no norte do Canadá, na Groenlândia e entre os esquimós da Sibéria. O aleúte, com um número de falantes muito menor, sobrevive nas ilhas Aleutas, a oeste do Alasca.

Línguas indígenas da Meso-AméricaA esfera de influência das línguas do segundo bloco inclui o México, a Guatemala, Belize, El Salvador e regiões de Honduras e da Nicarágua, uma área geográfica de particular importância na história da América. O estudo lingüístico da Meso-América se interessou em primeiro lugar pela possível origem comum das línguas, deixando em segundo plano os critérios de distribuição geográfica. Nesse terreno, foi de grande utilidade o material acumulado pelos missionários dominicanos e franciscanos durante os séculos XVI e XVII. Hoje se dispõe de um bom número de gramáticas e dicionários, e também foram feitas coletâneas de literatura popular.

Entre os grupos delimitados pelos lingüistas estão o otopame, o popoloca, o mixteca, o zapoteca, o mixe-zoque, o totonaca, o misumalpa (ou misquitosumo-matagalpa), o uto-asteca e o maia. Os dois últimos são provavelmente os mais importantes. As línguas uto-astecas são ou eram faladas no sul dos Estados Unidos e em diferentes regiões do México. Entre elas se destaca o námatle, que na fase clássica é também chamado de mexicano ou asteca. Em seu grande momento de esplendor, essa língua refletiu a supremacia do México na Meso-América pré-colombiana. Antes da conquista espanhola, os astecas, orgulhosos de seu idioma (námatle significa "harmonioso", "suave ao ouvido"), qualificavam de selvagens (chichimecas) as outras línguas faladas no altiplano do Anahuac. O námatle contava com uma escrita própria -- combinação de ideogramas e símbolos fonéticos -- e teve importante uso literário.

No que se refere ao grupo maia, sua área de influência abrange a Guatemala -- uma importante minoria da população desse país se expressa em línguas maias --, Belize e o México (particularmente a península de Yucatán, Tabasco e Chiapas), assim como parte de Honduras e El Salvador. O maia propriamente dito é falado na península de Yucatán; outras línguas do grupo são o mam da Guatemala, o tzeltal, o quiché, o pocom e o huasteco (utilizado em Tamaulipas e Veracruz, no México). Um dos mistérios que cercam o maia pré-colombiano é o de sua escrita, que não foi decifrada.

Os astecas e os toltecas se expressavam em námatle, enquanto que os maias usavam provavelmente duas ou três línguas do grupo maia; em Monte Albán se falava, ao que parece, uma língua zapoteca. Não há certeza em relação às línguas empregadas em Teotihuacán e entre os olmecas. Embora vinte milhões de pessoas habitassem a Meso-América nos primeiros anos do século XVI e usassem portanto alguma língua autóctone, na década de 1980 eram só 7.500.000 os falantes de línguas indígenas na região central. Sobreviviam cerca de setenta dessas línguas. As mais faladas eram o námatle, entre as do grupo uto-asteca; o quiché-tzutujil-cakchiquei, e iucategue, o mam e o kekchi, do grupo maia; e o otomi, o zapoteca e o mixteca. Não se deve ignorar, no entanto, que a influência espanhola se faz notar sobretudo no vocabulário e na ordem das palavras, e que grande parte da população é bilíngüe. O próprio espanhol herdou várias contribuições, especialmente do námatle, no âmbito do léxico: nomes de plantas, animais, utensílios etc.

Línguas indígenas da América do Sul No terceiro bloco se incluem as línguas indígenas da América do Sul, das Antilhas e da parte mais meridional da América Central. Segundo vários cálculos, a população pré-colombiana dessa área ficava entre dez e vinte milhões de habitantes. Na década de 1980 os falantes de línguas locais eram aproximadamente 16 milhões, na maioria concentrados nas regiões andinas. O número de línguas utilizadas também está sujeito a discussão: só se dispõe de material lingüístico confiável sobre 550 a 600 delas (das quais 120 já desaparecidas).

De acordo com todos os dados antropológicos e arqueológicos, os índios sul-americanos procedem do norte do continente. É natural, portanto, que se tenham buscado possíveis relações entre as línguas faladas nesses dois espaços geográficos. Mas, até agora, só foi possível estabelecer uma relação, aliás bastante questionada, entre uma língua quase extinta falada na Bolívia, o uru-chipaia, e o grupo maia da Meso-América. A diversificação lingüística típica da América do Sul, mais óbvia que a do norte do continente, pode ser atribuída ao decurso de um tempo muito maior desde o momento em que os diferentes grupos sul-americanos perderam o contato entre si.

Também no caso da América do Sul, os missionários foram os primeiros a se interessarem pelas línguas indígenas. Em 1560 apareceu uma gramática quíchua e, durante os séculos XVII e XVIII, proliferaram gramáticas e dicionários, assim como catecismos escritos nas línguas locais. O estudo científico dessas línguas data da segunda metade do século XX. Embora algumas famílias lingüísticas coincidam em linhas gerais com grandes áreas físicas -- os grupos caraíba e tupi podem, por exemplo, ser associados com a selva tropical --, as superposições se mostram em geral muito mais complexas. Em vista dos problemas existentes, não é fácil distinguir uma língua de um dialeto, e parece inviável diferenciar com clareza uma família de um tronco lingüístico. Apesar dessas limitações, as línguas indígenas da América do Sul foram classificadas em vários grupos.

O grupo macro-chibcha compreende cerca de quarenta línguas utilizadas por 400.000 falantes em várias regiões situadas entre a Nicarágua e o Equador. A cultura muísca, que floresceu nos Andes colombianos, empregou uma língua chibcha. No grupo aruaque, que antigamente chegou a estender-se da Flórida à Argentina e dos Andes até o Atlântico, incluem-se mais de 55 línguas, algumas das quais ainda são faladas no Peru, na Colômbia, na Venezuela e nas Guianas; os primeiros índios encontrados por Colombo se expressavam em taíno, uma língua aruaque. O grupo caraíba compreende aproximadamente cinqüenta línguas e experimentou um evidente retrocesso em suas antigas áreas de influência, a saber: as Antilhas, o Brasil e as Guianas; seus falantes se concentram hoje na Venezuela e na Colômbia. O grupo tupi, cujos componentes ocupavam regiões situadas ao sul do rio Amazonas e em sua foz, é mais importante. Uma de suas formas atuais, o guarani, é língua habitual de comunicação da maior parte da população do Paraguai e tem abundante literatura. O guarani foi a língua utilizada nas missões paraguaias dos jesuítas.

O grupo lingüístico autóctone mais extenso da América do Sul é, no entanto, o quechumara, do qual fazem parte o quíchua e o aimará. As línguas desse grupo, que se estendem do sul da Colômbia até o norte da Argentina, ao longo da cordilheira dos Andes, opuseram tenaz resistência à influência do espanhol. Outros grupos são o macro-jê (Uruguai), o tucano (Amazonas ocidental) e o macro-pano-tacana (fronteira peruano-brasileira, Patagônia e Terra do Fogo).

Um futuro incertoCom a pressão exercida pelas línguas européias, que têm um peso cultural e gozam de apoio político e institucional, é problemático o futuro das línguas ameríndias. O fato de que se tenham conservado nas zonas economicamente mais desfavorecidas do continente não contribui de modo algum para melhorar sua situação. De qualquer forma, é inegável que a sobrevivência dessas línguas está indissoluvelmente vinculada à das sociedades que expressam e à própria identidade cultural do continente americano.
Língua Árabe
Língua ÁrabeAté o início do século VII, o árabe era um idioma de tribos nômades. A partir daí, por ter sido a língua em que se fez a Revelação consignada por Maomé no Alcorão, expandiu-se notavelmente, em decorrência do avanço do islaismo. As conquistas militares muçulmanas, no fim do século VIII, levaram o islaismo e a língua árabe a dominar vastas regiões, no oeste da Ásia, norte da África e península ibérica.

Falada durante séculos em grande parte da península ibérica, a língua árabe deixou fortes marcas no léxico do português e do espanhol. Hoje a mais importante das línguas semíticas, seu território ocupa uma faixa que vai do Marrocos ao Iraque, estendendo-se ainda a outros países.

Uma das características marcantes do árabe é a dicotomia entre a língua literária clássica, veículo de uma literatura muito rica, e os dialetos falados, que entre si apresentam amplas diferenças. A língua escrita formal, extremamente conservadora, ainda hoje pouco difere da do Alcorão, e é também a língua religiosa do mundo muçulmano. Já o árabe coloquial diversifica-se bastante de uma região para outra. O uso de um complexo alfabeto em que a forma dos caracteres varia segundo a posição inicial, medial ou final dificulta sobremodo o aprendizado da língua escrita, que fica assim fora do alcance da maioria dos falantes do mundo árabe.

O árabe clássico possui um sistema de declinações de três casos (nominativo, acusativo e genitivo), que não correspondem exatamente aos casos de mesmo nome em latim e que desapareceram nos dialetos modernos.

Fonologia - O árabe clássico é uma língua de vocalismo pobre (apenas três vogais: a, i, u) e de consonantismo rico (26 consoantes, entre as quais não figura o p). Duas das características mais notáveis da fonética árabe são a existência de seis consoantes guturais (velares ou pós-velares) e quatro enfáticas.

Morfologia - A estrutura das palavras árabes (típica das línguas semíticas) caracteriza-se pela existência de uma raiz aparente, constituída mais freqüentemente por três consoantes, que fornece o sentido lexical básico. As vogais que geralmente seguem cada consoante servem para caracterizar as funções gramaticais, numa flexão interna. Pode-se dar um exemplo com algumas das palavras formadas com a raiz ktb, que tem o sentido nuclear de "escrever": katib, "aquele que escreve", "escrevente"; kitab, "o que está escrito", "livro"; aktubu, "escrevo", "escrevia" ou "escreverei"; maktub, "carta", "o que está escrito" (no destino).

Nome e verbo - O nome, conforme a construção, funciona ora como substantivo, ora como adjetivo. Há dois gêneros, o masculino e o feminino, este caracterizado essencialmente pelo sufixo -at: gazalat, "gazela"; amirat, "princesa". Ao singular se opõem: um dual, marcado pelo sufixo -ani(babun, "uma porta"; babani, "duas portas") e um plural, ora marcado pelo sufixo -una (muslimun, "um muçulmano"; muslimuna, "muçulmanos"), ora por uma alteração do tema (rajulun, "um homem"; rijalun, "homens"). Substantivos e adjetivos apresentam-se ou determinados pelo artigo prefixado al (albabu, "a porta") ou indeterminados, com a desinência -n (babun, "uma porta").

O verbo distingue-se do nome pela presença de um afixo exterior à raiz. O sistema verbal árabe não se baseia na expressão do tempo situado em relação ao momento em que se fala (passado, presente, futuro), mas no "aspecto" do processo, conforme se considere acabado (perfectivo) ou inacabado (imperfectivo), qualquer que seja o momento em que se realize o processo relativamente ao ato da fala. Assim, katabtu (aspecto perfectivo) pode significar, segundo o contexto, "escrevi", "escrevera", "terei escrito" etc., ao passo que o imperfectivo aktubu equivalerá a "escrevo", "escrevia" ou "escreverei". Os verbos distinguem-se também segundo os modos: indicativo, subjuntivo e jussivo.

A duplicação da primeira vogal ou da segunda consoante empresta à forma verbal um valor intensivo. Como exemplo, com a raiz qtl, "matar": qatala, "ele matou"; qaatala, "ele procurou matar" (isto é, "ele combateu"); qattala, "ele massacrou".

Outra peculiaridade da conjugação é indicar o gênero: "tu mataste" assume as formas qatalta para o masculino e qatalti para o feminino. Existe ainda uma flexão verbal de número - singular, dual e plural. A atribuição de um predicativo a um sujeito faz-se sem verbo de ligação: Zaidun alimun = "Zaid (é) sensato".


Línguas Asiáticas

#Línguas Asiáticas

A complexidade étnica, cultural e histórica do continente asiático se encontra perfeitamente retratada no quadro linguístico da região, no qual existem inúmeras famílias, grupos, subgrupos, ramos, dialetos e variantes.

Alguns desses grupamentos linguísticos, como as línguas indo-irânicas e as uralo-altaicas, procedem das mesmas raízes que deram origem às línguas européias. Outras, como as sino-tibetanas e as dravídicas, desenvolveram-se no próprio continente asiático.

Línguas camito-semíticas As línguas da família camito-semítica são faladas no Oriente Médio e no norte da África. Dentro do continente asiático, as línguas dessa família correspondem fundamentalmente ao tronco semítico, de origem muito antiga, já que a ele pertenciam línguas já extintas, como o assírio, o fenício e o púnico, este falado em Cartago. Entre as línguas camito-semíticas subsistem ainda o árabe clássico e o hebraico.

Línguas indo-irânicasCom as migrações arianas em direção à Ásia, as línguas da família indo-europeia se disseminaram pelo continente, dando origem ao grupo indo-irânico, que se divide em dois grandes subgrupos: o índico e o irânico.

As línguas do subgrupo índico são faladas principalmente no sul da Ásia. O sânscrito é a fonte comum de todas elas e dele se distinguem duas variedades: o sânscrito clássico e o prácrito, língua vulgar que deu origem a cerca de vinte línguas modernas: o hindustani, idioma oficial da Índia; o urdo, idioma oficial do Paquistão; o bengali; o nepali; e o romani, falado no Afeganistão, que deu origem à língua dos ciganos.

As línguas pertencentes ao subgrupo irânico são faladas em todo o sudoeste da Ásia e, ocasionalmente, em regiões vizinhas. Entre elas há línguas já extintas, como o avéstico, o medo e o cita, e outras ainda empregadas atualmente, como o persa moderno, falado no Irã, no Afeganistão e no Tadjiquistão; o afegane (ou pashto), língua oficial do Afeganistão, falado também no Paquistão; e o curdo, empregado no sul da Armênia, Turquia, Síria, Irã e Iraque.

O armênio, embora incluído na família indo-europeia, teve desenvolvimento independente. É falado na Armênia, Geórgia, Azerbaijão, nordeste da Rússia e em algumas regiões da Síria, Irã, Líbano e Turquia.

Línguas dravídicasOs povos melano-indianos do sul, que constituem cerca de um quarto da população da Índia, falam línguas da família dravídica. Dentre  elas destacam-se o télugo, a mais importante, falada nos estados indianos de Misore e Andra Pradesh, ao longo do golfo de Bengala; o tâmil, falado na região de Misore e Madras e no Sri Lanka; o malaiala; e o canará.

Línguas uralo-altaicas As línguas uralo-altaicas, também denominadas turanianas, compreendem  duas  grandes famílias: a uraliana e a altaica, ou turco-tártara. As línguas uralianas faladas na Ásia pertencem ao grupo samoiedo, mas a maior parte delas se extinguiu ou foram bastante influenciadas pelo turco.

As línguas altaicas, ou turco-tártaras, compreendem os grupos tungúsio, turco e mongol, falados principalmente na Ásia central e na Turquia, o japonês e o coreano. As línguas do grupo tungúsio são faladas por comunidades siberianas distribuídas do oceano Pacífico ao rio Ienissei e do oceano Ártico ao rio Amur. O manchu, falado na Manchúria e no Sinkiang, é a única língua do grupo que apresenta literatura.

A área geográfica ocupada pelas diferentes línguas do grupo turco é vasta: ocupa parte da Ásia central e ocidental e alcança a Europa, no sul da Rússia e na Bulgária. São cerca de 12 línguas e diversos dialetos: o turco ou asmanli, língua oficial da Turquia, usada por minorias na Bulgária, em Chipre e na Rússia; o azerbaijano, língua mais próxima do turco, falado no Azerbaijão e no Irã; o gagaúzo, falado em comunidades da Rússia, na Ucrânia e na Moldávia e o turcomano, falado a leste do mar Cáspio, ao sul do mar de Aral, no norte do Irã e no Afeganistão. Existem ainda 12 dialetos turcomanos, entre os quais o mais importante é o tártaro, falado na Tartária e nas regiões vizinhas; o quirguiz, falado no Quirguistão e no norte do Afeganistão, e o usbeque, falado no Usbequistão.

As línguas mongólicas, excetuando-se o japonês e o coreano, que formam grupos independentes, são faladas numa área que vai do Afeganistão até a Mongólia, no   noroeste chinês e no sudeste da Sibéria. O japonês, língua oficial do Japão, tem bom número de usuários nos Estados Unidos, no Brasil e em Formosa (Taiwan). Apresenta três dialetos principais: o kyushu, o seibo e o tobu. O coreano, língua das duas Coreias, é falado também no Japão e na China. Tem sete dialetos, dos quais o seul foi adotado como língua oficial das Coreias.

Línguas sino-tibetanasA família sino-tibetana forma o conjunto linguístico mais completo da Ásia, no qual se distinguem dois grandes troncos: o tibeto-birmanês e o chinês.

As línguas tibeto-birmanesas ocupam uma área que se estende de Caxemira ao Vietnam, geralmente divididas em três grupos: o ocidental, que  compreende principalmente o tibetano; o central, com as línguas birmanesas; e o oriental, com as línguas kam-tai. O grupo ocidental é falado da Caxemira a Myanmar; o central, do nordeste da Índia e norte de Myanmar, compreende línguas como o bodo, naga, kachin, karen, chin e o birmanês, língua oficial de Myanmar; o grupo oriental é falado da Tailândia ao Laos, no Vietnam e em regiões da China. Inclui cerca de trinta línguas que, por sua vez, se subdividem em dialetos. O tai é a mais importante dessas línguas, entre as que se contam também o laociano e as línguas do ramo miao-yao faladas na China. Muitas dessas e de outras línguas faladas na Tailândia, Vietnam e Laos não tiveram forma escrita no passado e só são conhecidas por documentos contemporâneos.

A língua chinesa, por sua vez, tem no mandarim, falado no norte da China, nas províncias do centro, do oeste e do sudeste seu dialeto mais destacado. Apresenta outros cinco dialetos importantes, dos quais o cantonês, o wu e o min têm grande número de falantes.

Línguas malaio-polinésias As línguas faladas no arquipélago indonésio, na quase totalidade da Oceania e em Madagascar dividem-se em três grandes grupos: o  indonésio, falado nas ilhas de Sonda, Formosa e Madagascar; o polinésio, nos arquipélagos do oceano Pacífico, de Fidji à ilha da Páscoa e do Havaí à Nova  Zelândia; e o melanésio, nas ilhas da Oceania ocidental entre a Nova Guiné e Fidji.

O grupo indonésio constitui conjunto bastante diferenciado, com diversas línguas e dialetos derivados de uma língua comum já desaparecida. O malaio é a língua da Malásia propriamente dita, da costa oeste de Sumatra e da região de Jacarta, com grande número de dialetos. Hoje é também utilizado como língua franca do arquipélago de Sonda e suas comunidades litorâneas. O sundanês é falado na parte ocidental de Java e o madurês na outra extremidade da ilha. O batak e o minangkabau são, ao lado do malaio, as línguas mais importantes faladas em Sumatra. Em Madagascar fala-se o malgaxe, língua oficial, do qual se conhecem 15 dialetos. Algumas comunidades da Nova Guiné falam línguas indonésias.

O grupo polinésio caracteriza-se principalmente por seu ramo micronésio, encontrado nos arquipélagos da Micronésia, a noroeste da Oceania, que faz a ligação entre o mundo linguístico indonésio e as várias comunidades do Pacífico. Estima-se em cerca de vinte o número de línguas polinésias faladas em todo o Pacífico, principalmente nas ilhas da Oceania, do Havaí à Nova Zelândia e de Fiji à ilha da Páscoa. Cada uma delas se divide em maior ou menor número de dialetos. O maori, a mais importante dessas línguas, é falado na Nova Zelândia e promovido pelos movimentos nacionalistas do resto da Oceania, onde o inglês e o francês são usados como línguas oficiais.

O grupo melanésio inclui cerca de 45 línguas, agrupadas em dez conjuntos diferentes. As mais importantes são o banoni, em Bougainville; o areare, nas ilhas Salomão; o huailu, na Nova Caledônia, e o fidji. Na Nova Guiné e nas ilhas vizinhas surgiu uma espécie de pidgin à base de palavras inglesas, melanésias e de outras línguas, para satisfazer às necessidades de contato e intercâmbio entre as comunidades.

Outras línguasCabe citar ainda dois grupamentos linguísticos definidos por razões geográficas: o das línguas caucasianas, faladas no Cáucaso e em planaltos vizinhos, e o de línguas faladas em regiões do norte da Ásia que tomam o nome genérico de línguas hiperbóreas ou paleo-siberianas, aparentadas com a língua do povo esquimó.

Línguas Sino-tibetanas

Línguas Sino-tibetanas

A família das línguas sino-tibetanas compreende mais de 300 idiomas e dialetos asiáticos, com várias características tipológicas comuns. As correspondências fonológicas existentes entre elas constituem a principal evidência de que todas estão relacionadas e possuem uma mesma origem.

Entre as línguas atualmente classificadas como sino-tibetanas, muitas são conhecidas apenas por listas de palavras, enquanto outras não foram ainda estudadas o suficiente para assegurar a propriedade dessa classificação. A família, que inclui também o chinês, o tibetano e o birmanês, é a segunda no mundo em número de falantes, depois da indo-européia.

A grande maioria das palavras é monossilábica. A entonação expressa diferenças de significado, embora em algumas línguas sejam usadas não mais que duas inflexões diferentes com esse caráter. É freqüente a presença de sufixos morfológicos e derivacionais, a alternância de consoantes surdas e sonoras no início das palavras e a apofonia -- alternância de vogais que implica mudança de significado, como em português, nos vocábulos "fez" e "faz". Sobretudo nos mais antigos estágios evolutivos, não é clara a distinção das palavras em classes (verbos, substantivos etc.), embora haja evidências de que a diferenciação inexistente na escrita se imprimia à fala por meio da entonação.

O substantivo sino-tibetano típico é coletivo e designa todos os membros de uma categoria. Um indivíduo é designado por expressão formada pelo substantivo coletivo e um classificador. Pode-se fazer analogia com o que ocorre em português com a palavra gado, substantivo coletivo, e uma cabeça de gado, expressão composta que designa o indivíduo.

Línguas chinesasMuito antes da era cristã já existia um sistema de escrita chinesa, utilizado nas gravações dos primeiros documentos em ossos e cascas de tartaruga, feitas por encomenda dos reis, nos séculos XIII a XI a.C. Já nessa época, a escrita se mostrava quase inteiramente constituída como é atualmente. A língua falada se mantém, desde o século VIII, praticamente sem variações, mas difere um pouco da escrita.

Entre os diversos idiomas e dialetos chineses, a variante mais falada é o mandarim, língua materna de quase três quartos dos habitantes da China e na qual se baseia o chinês convencional moderno. Entre as principais línguas vernáculas estão o wu, falado em Jiangsu (Kiangsu) e Zhejiang (Chekiang); o min, característico da província de Fujian (Fukien); e o cantonês, de Cantão, Hong Kong e Macau. Muito diferentes na forma falada, são bastante semelhantes em sua expressão escrita, baseada numa linguagem literária culta, o wen-yan (wen-yen), predominante até o princípio do século XX.

As línguas chinesas compartilham alguns traços tipológicos importantes. Sua construção silábica obedece à estrutura consoante-semivogal-vogal-semivogal-consoante. Empregam entonação, sons glotais e, ocasionalmente, pressão. As palavras podem conter uma única sílaba; duas ou mais, cada qual contendo um elemento do significado geral; ou duas ou mais sílabas que individualmente não têm significado. As línguas do norte, como o mandarim, são mais semelhantes entre si e apresentam menos monossílabos que as do sul.

O sistema de escrita dessas línguas não é alfabético nem ideográfico, mas sim logográfico -- cada símbolo representa uma palavra. Embora os dicionários reúnam mais de quarenta mil caracteres, o número daqueles considerados imprescindíveis não chega a quatro mil. A necessidade de simplificar a escrita e as diferenças vocabulares e gramaticais existentes entre a linguagem oral e a escrita motivaram, durante o século XX, a elaboração de diversos planos para uma nova grafia. Com o objetivo de difundir o chinês convencional moderno, o governo, a partir da década de 1950, simplificou vários caracteres e promoveu a elaboração do Pinyin, sistema fonético de transliteração da língua chinesa para o alfabeto latino. O Pinyin foi internacionalmente adotado em 1979.

Línguas tibeto-birmanesas - Faladas no Tibet, em Myanmar (ex-Birmânia) e em regiões do Himalaia, as línguas tibeto-birmanesas evoluíram diferentemente, a partir de uma origem comum. Isso se deve, em parte, aos movimentos populacionais ocorridos na Ásia central e meridional. São geralmente divididas em três subgrupos: o ocidental, que compreende principalmente o tibetano; o central, com as línguas birmanesas; e o oriental, com as línguas kam-tai, cerca de trinta idiomas que se subdividem em dialetos.

A escrita tibetana foi desenvolvida por missionários budistas da Índia, entre os séculos VII e IX, em sistema alfabético. A fala tibetana atual difere muito da língua escrita. O tibetano, sobretudo os dialetos centrais, apresenta influência cada vez maior do chinês, em decorrência do controle político.

O sistema de escrita birmanês é alfabético e remonta ao século XV. Embora a fala tenha sofrido diversas alterações do ponto de vista fonético, as categorias gramaticais não evoluíram de forma significativa. Já as línguas do grupo kam-tai, em sua maior parte, não tiveram forma escrita no passado. São faladas na Tailândia, Vietnam e Laos e conhecidas por documentos contemporâneos.