Línguas Indo-Europeias

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Línguas Indo-Europeias

Línguas Indo-Europeias

Línguas indo-europeias são as que descendem do tronco comum indo-europeu e eram faladas em vastas regiões da Europa e da Ásia numa época com certeza anterior ao ano 1000 a.C. Na Alemanha, essa família é chamada indo-germânica. O termo indo-hitita também é empregado pelos que acreditam que o hitita e outras línguas anatólicas não são apenas um ramo das indo-europeias, mas sim uma classe superior. A reconstrução, classificação e o estudo das origens e da posterior evolução dessas línguas, de acordo com dados linguísticos, históricos e arqueológicos, constituiu, desde o século XIX, um dos campos de pesquisa mais interessantes da linguística histórica.

Supõe-se que a partir do quarto milênio antes da era cristã, os povos indo-europeus, originários das estepes da Ásia central, expandiram-se pelos continentes asiático e europeu, levando consigo técnicas, tradições culturais e uma língua que deu origem a muitos dos idiomas atuais.

Classificação das línguas indo-europeias

A escassez de documentação escrita sobre esse período primitivo representou um dos maiores problemas na determinação das afinidades, relações e disposições hierárquicas da família de línguas indo-europeias. Em geral, aceita-se uma distribuição em dez grupos principais, ordenados de acordo com a antiguidade de textos e documentação disponíveis.

Anatólico

As línguas do grupo anatólico, hoje extintas, eram faladas durante os dois milênios anteriores à era cristã, na Anatólia (atual Turquia asiática e norte da Síria). Foram descobertas no início do século XX, em documentos encontrados nas escavações de Boghazköy. As mais importantes do grupo eram: hitita, palaíta, luvita, lício, lídio e cário.

Indo-irânico

O grupo indo-irânico, ou ariano, compreende dois grandes subgrupos: o índico e o irânico. O índico, falado antes de 1000 a.C., onde é hoje o norte da Índia e o Paquistão, tem como fonte originária o sânscrito védico, que daria origem ao sânscrito clássico, língua culta, e ao prácrito, língua vulgar falada. Esta, por sua vez, originaria um conjunto de dialetos locais do qual surgiram as línguas modernas: hindi (língua oficial da Índia), urdu (língua oficial do Paquistão), cingalês (Sri Lanka), bengali (Bangladesh), nepali (Nepal), penjabi e sindi (Paquistão), entre outras. Inclui-se nesse grupo também o romani ou cigano, antigo dialeto do norte da Índia que, a partir do século V a.C., estendeu-se pela Pérsia (atual Irã) até chegar à Europa e daí à América.

As línguas do subgrupo irânico eram faladas durante o primeiro milênio anterior à era cristã nas regiões mais tarde ocupadas pelo Irã e o Afeganistão, assim como numa ampla região que se estendia, ao norte, desde a Hungria até o Turquestão chinês. As mais antigas são o avéstico (ou zende) -- preservado no Avesta, coleção de livros sagrados dos seguidores do zoroastrismo -- e o velho persa, ou medo, conservado em inscrições cuneiformes dos séculos IV e V a.C. As línguas irânicas modernas são o persa, falado no Irã e em regiões do Afeganistão; o afegane (ou pachto, puchtu ou pushtu), língua oficial do Afeganistão; o curdo, falado no Curdistão; o beluchi, no Paquistão; e o osseto, na região central do Cáucaso.

Grego

Apesar de seus vários dialetos, o grego foi, no decorrer de sua história, uma língua única, falada na Grécia provavelmente a partir do fim do terceiro milênio antes da era cristã. As formas mais antigas que se conservam são as inscrições cretenses em alfabeto silábico, conhecidas como micênio ou linear B (1.400-1200 a.C.), língua pré-helênica primitiva. A fusão dessa cultura com a das tribos indo-europeias que chegaram à península no decorrer do segundo milênio (aqueus, jônios, eólios e dórios) deu origem ao povo grego. O prestígio político e cultural de que desfrutou Atenas durante o século V a.C. favoreceu a supremacia do ático sobre todos os demais dialetos. Ele chegou a transformar-se na base da koiné, ou língua grega comum, cujas diferentes variedades locais e evolução ao longo dos séculos originaram o grego moderno.

Itálico

A língua itálica predominante e mais antiga é o latim, cujas primeiras manifestações escritas remontam ao século VI a.C. Falado na região do Lácio e em Roma, o latim coexistiu com outras línguas -- osco, úmbrio e falisco --, que foram superadas quando Roma tornou-se o principal centro político da península itálica. A sobrevivência e posterior evolução do latim vulgar nos territórios europeus que faziam parte do Império Romano originou as línguas neolatinas ou românicas: catalão, dálmata, espanhol, francês, italiano, português, provençal, reto-romano, romeno e sardo. Essa classificação, porém, varia de acordo com as diferentes escolas.

Germânico

Em meados do primeiro milênio anterior à era cristã, as tribos germânicas habitavam o sul da Escandinávia e o norte da Alemanha. A partir de aproximadamente 200 a.C., no entanto, elas se expandiram pelo sul e centro da Europa. Dentro do grupo germânico distinguem-se três subgrupos: germânico oriental, nórdico e ocidental. Todas as línguas germânicas orientais estão extintas. A mais importante delas é o gótico -- documentado numa tradução da Bíblia realizada, no século IV da era cristã, pelo bispo visigodo Úlfila. No subgrupo germânico nórdico, que se expandiu pela Escandinávia e Dinamarca, distinguiram-se dois grandes ramos a partir do século IX: o nórdico oriental, no qual se classificam o sueco e o dinamarquês, e o nórdico ocidental, com o islandês, o norueguês e o feroico (falado nas ilhas Faroe). O subgrupo germânico ocidental, também chamado véstico, compreende seis línguas modernas principais: inglês, frisão (falado atualmente em três pequenas regiões dos Países Baixos e da Alemanha), holandês, africâner (falado na África do Sul), alemão e iídiche.

Armênio

A presença de povos armênios na região da posterior Turquia oriental e da Armênia registrou-se desde o século VI a.C. Apenas no século V da era cristã, no entanto, começou a surgir uma extensa literatura armênia, composta principalmente de traduções da Bíblia e de outros livros religiosos.

Tocariano

Hoje extinto, o grupo tocariano se conhece graças ao descobrimento, no fim do século XIX, de vários textos datados do período compreendido entre os anos 500 e 700 da era cristã. Escrito no alfabeto silábico indiano brami, falava-se no atual Turquestão chinês e dividia-se em dois subgrupos: o tocariano A, ou oriental, da região de Turfan, e o tocariano B, principalmente de Kutcha, mas também de Turfan.

Céltico

As línguas célticas eram faladas nos últimos séculos que precederam a era cristã, numa vasta região da Europa, desde a Espanha e as ilhas britânicas até os Balcãs, e subdividiam-se em celta continental e insular. O celta continental, ou gaulês, desapareceu depois de ter sido absorvido pelas línguas latinas e germânicas. Sobreviveu assim o celta insular, que se ramificou em celta gaélico, ou goidélico -- que compreende o irlandês, o gaélico escocês e o manx (extinto no começo do século XIX, na ilha de Man) -- e o celta britônico ou britânico -- que inclui o bretão (falado na baixa Bretanha, França), o galês (no País de Gales) e o córnico (extinto no fim do século XVIII, na Cornualha).

Balto-eslavo

As línguas balto-eslavas são faladas numa extensa área da Europa oriental e apresentam inúmeras afinidades. O subgrupo báltico compreende o prussiano antigo (extinto no século XVIII), o lituano e o letão -- línguas oficiais da Lituânia e da Letônia, respectivamente. Ao subgrupo eslavo, documentado, a partir do século IX, na forma denominada eslavônio eclesiástico antigo, pertencem o ucraniano, russo, bielorrusso, búlgaro, servo-croata, eslovaco, tcheco e polonês.

Albanês

Documentado a partir do século XV, o albanês é a língua oficial da Albânia e falado também em Kosovo, na Iugoslávia, e na Macedônia. Sua origem ainda é desconhecida, embora algumas teorias a relacionem com o ilírio, antiga língua do noroeste dos Balcãs.

Características e dispersão das línguas indo-européias

A ideia de uma relação de parentesco entre algumas línguas indo-europeias (grego, latim, sânscrito, germânico e celta) foi proposta pela primeira vez em 1786 pelo orientalista britânico Sir William Jones, que sugeria serem essas línguas derivadas de uma fonte comum. Foram, no entanto, os estudos comparados das línguas indo-europeias, iniciados poucos anos depois pelos alemães Franz Bopp e Jacob Grimm, que estabeleceram as correspondências fonológicas, as semelhanças gramaticais e afinidades léxicas entre as línguas da família indo-europeia. Para a reconstrução do indo-europeu original ou proto-indo-europeu, tomaram-se como modelos principais o sânscrito, o latim e o grego -- as línguas mais antigas, sobre as quais se dispunha de abundante documentação.

A estrutura fonética do indo-europeu inclui pequeno número de vogais: "a", "e", "o" e "i", "u", estas com função também de semivogais ("y" e "w"). A diferença entre longas e breves constitui o princípio rítmico da língua. Esse timbre, variável depois de acordo com as línguas, se determinava por condicionamentos morfológicos. Quanto às consoantes, o idioma é rico em oclusivas e pobre em espirantes. A morfologia do indo-europeu é flexiva, com predomínio de palavras variáveis, compostas de dois elementos: o tema, que indica o significado, e a desinência, que contém as marcas gramaticais. O sistema verbal baseia-se na oposição de aspectos (perfectivo, imperfectivo e optativo) e na determinação de tempos e pessoas por meio de desinências. O sistema nominal (substantivos e adjetivos) possui três gêneros, três números (singular, plural e dual) e oito casos (nominativo, acusativo, genitivo, dativo, ablativo, locativo, instrumental e vocativo). O sistema pronominal apresenta flexão diferente da nominal, não apresenta gênero e apoia-se na gradação vocálica da raiz para exprimir número e caso.

O estudo do léxico das línguas indo-europeias constitui um dos pontos mais obscuros na determinação do momento de sua dispersão. A impossibilidade de esclarecer com exatidão as circunstâncias que determinaram, por exemplo, as alterações semânticas, a presença de um mesmo elemento léxico com significados diferentes em várias línguas ou a ausência de formas afins de uma palavra em línguas aparentadas reduz as deduções a hipóteses.

É evidente, de qualquer maneira, que a interação entre as línguas próximas ou as modificações impostas a cada língua pela ampliação de seus limites territoriais -- uma vez produzida a diferenciação inicial das línguas indo-europeias -- provocaram sua evolução para formas lingüísticas, em sua maioria, mais simples que as do indo-europeu. São traços característicos dessa evolução: perda de flexões, redução ou desaparecimento do gênero gramatical; perda de casos e aumento do uso de preposições; substituição do complexo sistema verbal pela utilização de um único radical e a introdução de novos tempos e modos; e modificação do léxico.

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