Ator, Técnicas de Interpretação

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Ator, Técnicas de Interpretação

#Ator, Técnicas de InterpretaçãoAtor é o profissional de artes cênicas que representa. O teatro pode sobreviver sem texto, como provam a commedia dell'arte, da época do Renascimento, e os happenings modernos; dispensa cenografia, como nas representações ao ar livre; não depende da música nem de figurinos especiais; prescinde mesmo da palavra, um de seus elementos fundamentais, como mostra o trabalho dos mímicos; e mesmo a função do diretor é de origem muito recente. O teatro só não existe sem o ator.

Os elementos básicos da arte do ator - declamação, canto e dança - existiram provavelmente nas mais antigas civilizações. Supõe-se que os egípcios encenassem representações religiosas e dramáticas quatro mil anos antes de Cristo. Os primeiros atores teriam sido, portanto, sacerdotes que declamavam litanias em memória dos mortos.

Antecedentes históricos - Nascida do culto ao deus Dioniso, a arte da interpretação na Grécia teve presumivelmente em Téspis seu primeiro representante, em aproximadamente 560 a.C. Conta a lenda que durante uma celebração, em lugar de narrar os fatos relativos a Dioniso na terceira pessoa, como era hábito, Téspis assumiu o papel do deus e disse "eu sou", criando o mais antigo papel teatral de que se tem notícia.

As primeiras tragédias gregas eram representadas por um único ator e o coro, cujo elemento mais destacado era o corifeu. Ésquilo introduziu o segundo ator e Sófocles, o terceiro. Nunca havia mais de três atores em cena, como se observa em algumas das mais importantes tragédias: Édipo rei, Antígona e Medeia. Não havia atrizes no teatro grego, sendo os papéis femininos representados por homens que se valiam de máscaras para expressar as principais informações sobre os personagens.

As primeiras manifestações teatrais de Roma datam provavelmente de 364 a.C., com a chegada de um grupo de atores etruscos. A princípio seguiram o modelo grego, embora os atores romanos fossem em geral escravos que não desfrutavam do prestígio de seus congêneres gregos. Uma arte nativa surgiu com a atelana, gênero farsesco grosseiro que muito agradava ao gosto popular. A atelana aboliu o uso de máscaras e atribuiu aos atores papéis fixos -- o velho, o tolo, o comilão, o parasita -- pelos quais eram imediatamente reconhecidos. O personagem arquetípico seria retomado em épocas posteriores pela commedia dell'arte e pelo teatro de Molière.

A representação teatral na Idade Média não tinha atores profissionais. Os jograis, menestréis, palhaços e acrobatas, que se dedicavam ao entretenimento popular nas vilas feudais e até mesmo no interior dos palácios, não podem ser chamados propriamente de atores. Foram sacerdotes católicos os primeiros atores medievais, que encenavam dramas litúrgicos com o propósito de difundir as verdades bíblicas. Progressivamente os textos latinos passaram a ser adaptados à prosa popular e incorporaram elementos cômicos. Os padres foram substituídos por leigos, membros de associações cívicas ou religiosas.

Na França, os mistérios medievais eram representados por grupos esparsos, o mais famoso dos quais era a Confraria da Paixão, do início do século XV. O grupo conhecido como Os Basoches, integrado por magistrados, advogados e escrivães, encenava moralidades e farsas. Na Inglaterra, as corporações de ofícios encenavam dramas sacros geralmente relacionados com a profissão de seus integrantes. Também no teatro medieval os papéis de mulheres eram representados por homens. O estilo de interpretação era declamatório e pomposo para os personagens solenes e vulgar para os demônios e inimigos da fé.

No Renascimento, a arte de representar ganhou novo prestígio, principalmente na Itália, na Espanha e na Inglaterra. O ator profissional moderno, no entanto,  nasceu com a commedia dell'arte, nas ruas e praças italianas, distante do teatro feito para as cortes. Grupos de atores talentosos e experientes improvisavam espetáculos sobre um roteiro básico. Cada ator representava o mesmo personagem fixo durante toda a vida e era confundido com ele. O innamorato e a innamorata formavam o par romântico; o pantaleone era um velho avaro e lascivo; o dottore, um médico tolo e pedante; e os zanni, criados caracterizados pelos movimentos acrobáticos, entre os quais o mais popular foi Arlecchino. Inteiramente baseada na arte do ator, a commedia dell'arte caracterizou-se também pelos papéis importantes atribuídos a atrizes, dentre as quais Isabella Andreini tornou-se a mais célebre.

Atores modernos - O ator inglês David Garrick, do século XVIII, é tido por alguns historiadores como o mais importante dos tempos modernos. Sua interpretação realista foi recebida como revelação pelo público, em contraposição ao estilo pomposo próprio da tradição francesa. Tornou-se célebre como Ricardo III, personagem da peça homônima de Shakespeare, e fez seu maior papel em Hamlet, do mesmo autor. Organizou sua própria companhia, de repertório predominantemente shakespeariano, e introduziu importantes modificações no espetáculo, como circunscrever os espectadores ao espaço reservado à plateia. Responsável pela redescoberta de Shakespeare e consequente influência desse autor sobre a cultura literária moderna, teve papel preponderante na criação de um teatro culto na Alemanha.

François-Joseph Talma, um pouco posterior e um dos mais conhecidos atores franceses de todos os tempos, integrou a Comédie Française, da qual se desligou para fundar sua própria companhia. Revolucionou a arte da interpretação ao abandonar a ênfase declamatória dominante em seu tempo e imprimir à interpretação um tom coloquial. Celebrizou-se interpretando peças de Corneille, Racine e Voltaire e também personagens shakespearianos.

Entre os teóricos modernos da arte de representar vale a pena citar o também dramaturgo G. E. Lessing, que formulou as inovações mais importantes do palco alemão de sua época em Hamburgische Dramaturgie (1767-1769; Dramaturgia de Hamburgo), na qual propõe um modo realista de interpretação. Em Weimar, Goethe, o outro polo da dramaturgia alemã, recomendava uma interpretação formalista e estilizada em Regras para atores, com que prescrevia para o palco seus ideais clássicos de harmonia e beleza.

Na França, Diderot escreveu entre 1773 e 1778 Paradoxe sur le comédien (Paradoxo sobre o ator). Nesse livro fundamental sobre a arte de representar, só publicado em 1830, rejeita com ironia a ideia de que o ator deve identificar-se com seu papel, sentindo e manifestando a emoção e o sofrimento que constam do texto dramático. Diderot admirava a arte de Mlle. Clairon, atriz que interpretava com fria lucidez os sintomas da paixão.
Técnicas de interpretação - A arte do ator do século XX se classifica segundo duas tendências básicas: o realismo e o não-realismo. O teatrólogo russo Konstantin Stanislavski codificou um sistema realista de interpretação, no qual desenvolveu teoricamente as técnicas empregadas por grandes atores de todos os tempos. O método Stanislavski - ou simplesmente "o método", como é referido pelos profissionais de teatro - propõe que o ator reproduza intimamente o processo psicológico vivido pelo personagem. A exteriorização correta da emoção só ocorre se ela for recriada interiormente com estímulos adequados.

Segundo o método, o ator representa não as falas e comportamentos exteriores, mas os processos subjetivos, as vontades e os conflitos do personagem. Para desenvolver esse processo, Stanislavski recomenda ao ator que aproveite suas próprias experiências sensoriais e emocionais por meio de técnicas que denominou memória sensorial, memória afetiva e circunstâncias dadas, entre outras. Os livros A preparação do ator e A construção do personagem tornaram-se manuais indispensáveis para todos os atores do Ocidente. A interpretação realista, como é proposta por Stanislavski, estabeleceu uma base sólida nos Estados Unidos com o Actors Studio, dirigido por Lee Strasberg.

Dentre as concepções não-realistas do trabalho do ator destaca-se a de Bertolt Brecht, criador do moderno teatro épico alemão e do estilo de interpretação que ele chamou distanciamento. Brecht pretende substituir o realismo psicológico de Stanislavski, que qualifica de ilusionista e hipnótico, por um estilo interpretativo em que o ator, em lugar de representar, expõe e comenta o personagem. O ator não vive o personagem, mas se distancia dele para que o público possa julgá-lo. O envolvimento emocional deve ser evitado porque anula no espectador a capacidade de raciocinar e criticar.

Formação do ator - O corpo e a voz são os instrumentos de trabalho do ator. O domínio sobre ambos constitui condição imprescindível para o bom desempenho teatral. Assim, as técnicas que contribuem para a preparação e para a valorização das qualidades inatas do ator referem-se principalmente ao preparo físico, vocal e dramático.

O conhecimento do corpo, de suas possibilidades e limitações se conquista por meio de técnicas de expressão corporal, que incluem exercícios de relaxamento, exploração das possibilidades expressivas e interação com outros atores. Além disso, sendo a exposição do corpo própria da atividade do ator, impõe-se um treinamento específico para que ele possa enfrentar com segurança uma plateia. A dança, a acrobacia e a esgrima são excelentes auxiliares na preparação física do ator.
A preparação da voz se faz por meio de técnicas de expressão vocal, em que o controle da respiração é fundamental. O ator aprende a ouvir a própria voz,  projetá-la em diferentes direções, assumir posturas corporais compatíveis com a emissão vocal perfeita e corrigir defeitos de dicção. "Colocar" corretamente a voz, ou seja, encontrar o tom adequado para a emissão, é uma técnica essencial para o bom desempenho e para manter a saúde das cordas vocais. O canto constitui uma disciplina complementar no treinamento da voz.

Aprende-se a representar por meio das técnicas de improvisação e dos jogos dramáticos. Improvisar é criar uma cena, sem texto, induzida por um elemento motivador que pode ser uma situação, um personagem ou um objeto. Os jogos dramáticos recuperam no ator o sentido do lúdico, desenvolvem a concentração, a inventividade e a capacidade de responder rapidamente a estímulos. Manipular objetos imaginários e contracenar com atores fictícios são bons exercícios de interpretação.

O modo brasileiro de representar. Pelo menos até a primeira guerra mundial, as plateias cultas do  Brasil privilegiavam as companhias europeias que  aqui se apresentavam, ficando as companhias brasileiras restritas a espetáculos populares. O ator João Caetano, em 1833, depois de atuar ao lado de intérpretes portugueses estabelecidos no Brasil, decidiu-se a acabar com a dependência de atores estrangeiros para nosso teatro e fundou uma companhia. A análise que fez de suas próprias interpretações testemunha uma admirável consciência artística. A obra Lições dramáticas (1861), excelente ideário estético da arte de representar, deixa claro seu empenho em corrigir os vícios declamatórios ao estilo lusitano, habitual nos atores brasileiros da época.

Francisco Correia Vasques, comediante de grande popularidade da segunda metade do século XIX, foi talvez o primeiro ator naturalista brasileiro. Não era culto nem belo como João Caetano, e tampouco contou com favores oficiais. Sensível, no entanto, ao gosto popular da época, notabilizou-se como intérprete cômico que buscava no trocadilho, na piada ingênua e na crônica sentimental seu material de trabalho, caracterizado pela espontaneidade.

Outro ator preocupado com o modo de representar brasileiro foi Leopoldo Fróis. Com Lucília Peres, Apolônia Pinto, Procópio Ferreira e Jaime Costa, fez parte do grupo Geração Trianon (1915-1930), que prestigiava a temática brasileira. Procópio Ferreira, admirador e biógrafo de Vasques, celebrizou-se como intérprete de Deus lhe pague, de Joraci Camargo. Quanto ao estilo de interpretação desses atores, é legendário seu desprezo pelo ensaio e pela atuação dos atores com quem contracenavam.

Pascoal Carlos Magno, depois de tomar contato com o teatro inglês em 1933, introduziu uma importante renovação no trabalho do ator brasileiro. Instituiu a direção artística, extinguiu o ponto (auxiliar que, fora de cena, lembrava aos atores as falas que deviam repetir), reafirmou o uso da fala brasileira no teatro e lutou pela dignidade da profissão de ator.

Na segunda metade do século XX, depois de um curto período áureo do cinema brasileiro, a televisão passou a ser um dos principais campos de trabalho dos atores. No entanto, seu nível mais baixo de exigência quanto à formação e à experiência dramática contribuiu negativamente para a qualidade média do intérprete brasileiro.

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