Ideologia Religiosa e Filosófica

Ideologia Religiosa e Filosófica

Ideologia Religiosa e Filosófica

A ideologia e seu conceito histórico e filosófico - Define-se como ideologia o sistema de ideias que dá fundamento a uma doutrina política ou social, adotada por um partido ou grupo humano. Foi Karl Marx quem formulou a mais completa teoria sobre a origem e o papel da ideologia nas diversas formas de organização social. Para Marx, ideologia é um conjunto de ideias e conceitos que corresponde aos interesses de uma classe social, embora não obrigatoriamente professado por todos seus membros. Há uma ideologia da burguesia, como há uma ideologia do proletariado. A ideologia de certa classe decorre da posição que ela ocupa num modo de produção historicamente determinado.

Os pensadores da antiguidade clássica e da Idade Média entendiam ideologia como o conjunto de ideias e opiniões de uma sociedade. Maquiavel, no entanto, já dizia que as ideias são diferentes "no palácio e na praça", conforme as diferentes condições de vida dos que as defendem.

Segundo Marx, o acervo ideológico de uma sociedade constitui a superestrutura, que é condicionada pela realidade material, ou infra-estrutura. Assim, a filosofia, a arte, o direito, a política e a religião são formas de ideologia, pois se manifestam segundo os interesses específicos das classes sociais em que se constituem. A ideologia também atua sobre a realidade socioeconômica, modificando-a, num processo de reciprocidade.

Todo sistema de ideias se cria em relação estreita com circunstâncias históricas, econômicas ou sociais. Entre a ideologia e essas circunstâncias se dá uma interação dialética. As condições da realidade determinam certo tipo de pensamento, e esse pensamento age sobre ela, modificando-a. Como a realidade se modifica continuamente, as ideologias também desaparecem e dão lugar a novos corpos doutrinários.

Ideologia e religiãoMuitas vezes se fala em ideologia como se pertencesse à mesma categoria lógica da religião. Ambas são, de certa maneira, sistemas de ideias que compreendem questões referentes à verdade e à conduta, mas as diferenças entre as duas têm mais importância que as similaridades.

Uma teoria religiosa da realidade pode defender uma sociedade justa, mas dificilmente apresentará um programa político prático. Com ênfase na fé e no culto, a religião apela para a espiritualidade e seu objetivo é a redenção ou purificação do espírito, enquanto uma ideologia fala a um grupo, uma nação ou uma classe. As religiões em geral atribuem sua própria origem a uma revelação, enquanto a ideologia sempre pretende, ainda que de forma enganosa, existir apenas pela razão.

Apesar das diferenças, em certos movimentos religiosos se encontram os primeiros elementos ideológicos do mundo moderno, como no caso de Girolamo Savonarola, que no século XV tentou dar ao cristianismo uma dimensão ideológica e inspirou movimentos como o calvinismo e as comunidades puritanas do Novo Mundo. De fato, tanto na Reforma quanto na Contra-Reforma, quando o cristianismo se investiu de militância e intolerância renovadas e se deu uma nova ênfase à conversão, a religião aproximou-se muito da ideologia.

Ideologias modernasAs ideologias que mais direta e incisivamente determinaram a realidade contemporânea encontram-se ligadas a alguma forma de nacionalismo e de socialismo. O fascismo foi a mais extrema manifestação do nacionalismo.

As condições históricas, econômicas e sociais em que se encontrava a Europa após a primeira guerra mundial, com a recessão das atividades produtivas, foram responsáveis pelo aparecimento do fascismo e do nazismo, ideologias baseadas no valor absoluto da nacionalidade e na pureza racial como fator de liderança, opostos às noções de internacionalismo e solidariedade inter-racial. Tais convicções levaram esses povos a superarem as contradições internas de classes para confluírem numa ideologia hegemônica. Admitia-se a interferência do estado na produção, na educação, no lazer e em toda atividade individual que pudesse redundar em benefício para a nação.

Muitas correntes doutrinárias socialistas surgiram a partir de meados do século XIX. Todas têm em comum o objetivo de implantar uma organização social em que o regime predominante de propriedade seja coletivo, especialmente no que se refere aos meios de produção. Essa ideia básica orientou diversas tendências socializantes, como o anarquismo, o socialismo corporativista, o socialismo cristão, o marxismo, entre outras.

Gênese das ideologias. Uma ideologia pode ser determinada por fatores presentes no meio histórico-social que a gera, e se modifica ou desaparece quando o contexto que as criou se altera. A ideologia, como pensamento historicamente situado, é uma tomada de consciência da realidade ou, como querem alguns pensadores, um reflexo da realidade. As ideologias seriam, nesse sentido, um epifenômeno, ou uma espécie de representação mental de uma situação determinada.

Algumas ideologias se apresentam como instrumento de dominação de um grupo, ou de uma classe, sobre outros. Por exemplo, a oposição entre a aristocracia que representava o poder feudal e a elite ascendente dos comerciantes, ou burguesia, deu origem à estruturação de uma ideologia baseada em novos valores, como a ideia de êxito no desempenho de atividade econômica, a valorização do trabalho e o abandono do conceito heroico de honra. Esses novos valores se generalizaram entre as diferentes camadas na sociedade emergente, desfecharam o golpe de misericórdia contra o feudalismo e contribuíram para a vitória da burguesia.

Ideologia no BrasilNa sociedade brasileira podem-se identificar diferentes sistemas de ideias predominantes em cada grande período histórico. Na primeira fase da colonização vigorou a ideologia do colonizador que, a partir do século XVII, entrou em choque com os elementos ideológicos gerados no próprio país.

Assim, a primeira noção em torno da qual se formaram outras ideias foi a de dominação. O colono europeu era o dono e o conquistador da terra descoberta e, por isso, tudo se transformava em objeto de exploração. A dominação se fortaleceu com o regime paternalista, em que o patriarca ("coronel" ou senhor-de-engenho) era o árbitro universal e, ao mesmo tempo, o protetor de uma pequena comunidade familiar que dele dependia incondicionalmente.

Esse regime só pôde existir graças ao trabalho escravo aplicado à monocultura. Toda sociedade escravocrata necessariamente valoriza o lazer e deprecia as atividades manuais ou braçais e daí decorre o gosto brasileiro pelo direito, pela oratória e pelo beletrismo. A elite intelectual, filha da casa-grande alicerçada no suor escravo, lentamente elaborou os elementos principais de uma ideologia brasileira, que acabou por entrar em choque com o dogmatismo dominador.

O período da colonização, portanto, caracteriza-se por uma ambivalência ideológica, pois havia uma dualidade de interesses econômicos, políticos, intelectuais, enfim, uma ambivalência de clima social. A ideologia construída em grande parte pela simples implantação ou incorporação de valores externos convivia com uma ideologia autóctone em formação, que eclodiu nos movimentos nativistas: a insurreição pernambucana (1648-1654), a guerra dos mascates (1710) e a inconfidência mineira (1789), entre outros. Esses movimentos marcam o início de um período ideológico de transição, em que o choque entre os valores antigos e os novos fez nascer na consciência do brasileiro um sentimento de inferioridade em face do colonizador.

Entre todos os movimentos nativistas, somente na inconfidência esteve em jogo a realidade brasileira como um todo. Nos demais, de consciência ideológica parcial, uma comunidade nativa se insurgia contra outra, aventureira e de mentalidade exploradora. As lutas que se prolongaram durante o período do Reino Unido (revolução pernambucana de 1817), o primeiro reinado (guerra da independência da Bahia de 1823 e confederação do equador), a regência (cabanos, farrapos, balaiada e sabinada) e as do segundo reinado (revolução liberal de São Paulo e de Minas Gerais em 1842 e revolução praieira) atestam uma transição ideológica na mentalidade das elites do país.

O período seguinte, que começa depois da Guerra do Paraguai e da abolição da escravatura, é útil para compreender o que se pode chamar de paradoxo burocrático brasileiro. Com a abolição, em 1888, deu-se a desorganização de todo o setor agrícola, cujo sustentáculo era o café. Considerando que, teoricamente, na evolução de uma civilização, ocorre gradativamente a passagem do setor primário (agricultura) para o secundário (indústria), e deste para o terciário (comércio, serviços públicos e particulares), a vida nacional, assim perturbada, deveria ter-se ajustado no setor secundário. Isso, porém, não foi possível, pois não havia mentalidade industrial e, na época, a atividade econômica não estava ainda em pleno desenvolvimento.

Assim, a saída para a população mais favorecida foi saltar do setor primário para o terciário, o que inflacionou as atividades comerciais e os serviços burocráticos em todos os níveis. O político assumiu então o papel anteriormente desempenhado pelo senhor-de-engenho ou pelo patriarca da casa-grande, com uma clientela de protegidos que favoreceu o empreguismo público.

No século XX, consolidada a república, houve uma tomada de consciência nacionalista, entendendo-se pelo termo tanto o alcance nacional dos programas políticos como a defesa contra a dominação e a imposição de valores estrangeiros. A atividade política nos centros urbanos do país já industrializado viu-se profundamente influenciada pelas ideias anarquistas e comunistas dos imigrantes europeus, enquanto que nas regiões rurais predominava ainda o autoritarismo próprio da estrutura social arcaica herdada incólume da colônia.

A intermitente interferência das instituições armadas na vida política brasileira desde a proclamação da república contribuiu com elementos ideológicos importantes para a formação de uma consciência nacional pró-militarista e conservadora e de sua contrapartida democrática e progressista.

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