Guerra dos Mascates em Pernambuco

Guerra dos Mascates em Pernambuco

Guerra dos Mascates em PernambucoPortugal não havia confirmado os foros de cidade conferidos a Recife por Maurício de Nassau e, já em 1709, na transição de povoado a vila, os recifenses desejavam libertar-se da jurisdição de Olinda. Esse foi o cenário da chamada guerra dos mascates, que opôs, de um lado, a nobreza açucareira e demais produtores olindenses ligados à agroindústria canavieira, e de outro os comerciantes de Recife, que os exploravam e passaram a contar com a proteção do governador Castro e Caldas.

Tornou-se conhecida na história do Brasil como guerra dos mascates a luta entre o patriciado rural e a burguesia, então nascente, em Pernambuco, nos primórdios do século XVIII, e que se alongou até 1715, entremeada de episódios sangrentos. Os "mascates" eram os comerciantes estabelecidos em Recife, em geral portugueses que especulavam com escravos e financiavam a produção de açúcar. A cidade crescera sob o domínio holandês, entre 1630 e 1654, pois seu porto apresentava melhores condições de embarque e desembarque de navios. Os senhores de engenho, porém, continuavam em Olinda.

O antagonismo entre "mascates" e "naturais" assumiu características de guerra civil numa época em que a economia nordestina caía em profunda depressão, não só em consequência da descoberta de ouro em Minas Gerais, que desviou para o centro-sul do país as atenções da metrópole, como pela introdução do açúcar antilhano no mercado internacional, o que provocou súbita e pronunciada baixa nos preços. Os problemas criados por essa situação foram atribuídos pelos olindenses aos mascates, que pareciam estar agindo em prejuízo dos naturais, empenhados que estavam no engrandecimento de Recife em detrimento de Olinda.

Insurreição
A criação da vila de Recife sempre fora postergada. Em 1700, o rei de Portugal, D. Pedro II, indeferiu o pedido dos mascates, advertindo "que nunca mais se renovasse tão absurda pretensão". Ao iniciar-se o reinado de D. João V, no entanto, a questão veio novamente à tona, e dessa vez com êxito. Recife passou a ser vila, pela provisão régia de 19 de setembro de 1709, conhecida em Pernambuco em fevereiro do ano seguinte. Constituída a Câmara e erguido o pelourinho, iniciaram-se as hostilidades contra os mascates, com um atentado ao governador Sebastião de Castro e Caldas, em outubro, seguido de um levante em Santo Antão e da ofensiva dos olindenses sobre Recife, em novembro.

O governador abandonou o cargo e refugiou-se na Bahia. Os insurretos destituíram os camaristas e oficiais portugueses e mandaram destruir o pelourinho. Os senhores de engenho se reuniram numa assembleia. Os mais radicais, com Bernardo Vieira de Melo à frente, propuseram o estabelecimento de um governo autônomo, independente de Portugal, organizado em colegiado nos moldes aristocráticos dos estados republicanos da Holanda e de Veneza. O chefe do Partido Republicano tornara-se respeitado e mesmo temido desde que formara um regimento de caça a negros fugidos, na época da expedição punitiva dos Palmares. Venceu, porém, a corrente moderada. O poder foi entregue ao bispo, frei Manuel Álvares da Costa, sob determinadas condições, entre elas a de perdoar os sublevados. O perdão foi mais tarde confirmado pelo governador-geral do Brasil.

Um segundo levante ocorreu em Recife em junho de 1711, enquanto se aguardava a chegada do novo governador da capitania. Aos gritos de "viva el-rei" e "abaixo os traidores", os soldados da guarnição desentenderam-se com os homens do regimento de Vieira de Melo, que acabou preso. O bispo fingiu concordar e retirou-se para Olinda, onde organizou a resistência. Os mascates sentiram-se fortalecidos e elegeram um chefe, João da Mota. Ao lado dos recifenses estavam os índios confederados, sob o comando de Sebastião Pinheiro Camarão, sobrinho do herói da guerra holandesa, e os negros livres do regimento Henrique Dias, aliciados por um senhor de engenho, Francisco de Sousa, e liderados pelo mestre de campo Domingos Rodrigues Carneiro.

Repressão - Houve choques armados entre os dois partidos. Os olindenses promoveram um novo cerco a Recife, enquanto João da Mota obteve o apoio do governador da Paraíba, João da Maia Gama. Em Olinda, o bispo renunciou e entregou o governo a uma junta constituída pela Câmara, pelo ouvidor Valenzuela Ortiz e pelo coronel Cristóvão de Mendonça Arrais. Sucederam-se os distúrbios até outubro, quando chegou o governador Félix José Machado de Mendonça, que exigiu a reposição do bispo, de quem recebeu o mando. Ratificou o perdão real e ordenou a libertação de Vieira de Melo. Elevou Recife à categoria de vila e reergueu formalmente o pelourinho em novembro de 1811. Também iniciou a repressão contra os descontentes e mandou abrir devassa pelo novo ouvidor, João Marques Bacalhau.

Vieira de Melo, que tentara refugiar-se no sertão, resolveu apresentar-se às autoridades. Mais de cinquenta "filhos da terra" foram remetidos para as prisões de Lisboa, onde morreram Bernardo Vieira de Melo e seu filho André, Manuel Cavalcânti Bezerra, Cosme Bezerra Cavalcânti, João Dias Correia, Matias Coelho Barbosa e André Dias de Figueiredo. Leonardo Bezerra e seus filhos Cosme e Manuel foram degredados para a Índia, juntamente com Leão Falcão. João de Barros do Rego morreu na prisão em Pernambuco. Só terminaram definitivamente as violências no governo de Lourenço de Almeida, empossado em junho de 1715, que restabeleceu a paz em Pernambuco.

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