Medicina, História da Medicina

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#Medicina, História da Medicina

Medicina é o conjunto de ciências e técnicas que têm por objetivo prevenir, atenuar e curar doenças. Tem como pontos de partida a anatomia e a fisiologia do homem e, em sua prática específica, abrange a etiologia, a patologia, o diagnóstico, o prognóstico, a terapêutica, a profilaxia, a deontologia médica e outros setores correlatos. À medida que se multiplicaram os recursos para examinar e tratar as diversas partes do corpo ou as diferentes situações do organismo humano ao longo da vida, surgiram as especialidades médicas, cada vez mais numerosas.

Desde a origem da espécie, o homem, por instinto de defesa, procurou remédio contra ferimentos e doenças. Vestígios do neolítico mostram que já se praticava então a trepanação e se conheciam as propriedades curativas de agentes naturais como a luz solar, o frio, o calor e a água. Entendida como meio de cuidar da saúde, a medicina existe, portanto, desde o aparecimento do ser humano, mas como ciência e tecnologia seu surgimento é muito recente e indissociável dos tempos modernos.

Medicina pré-históricaRepresentações gráficas, ossos humanos e objetos de uso cirúrgico encontrados em sítios pré-históricos mostram o registro da tentativa de tratar de doenças como raquitismo, obesidade, reumatismo e tuberculose. Algumas fraturas consolidadas observadas em fósseis podem creditar-se à cura natural, mas outras resultaram inegavelmente da intervenção humana.

Ligada inicialmente à crença em poderes sobrenaturais, a arte de curar nasceu ao mesmo tempo mágica e empírica. A doença era vista como castigo a alguma transgressão ou, pelo menos, como resultado da ação de força maléfica. Os magos buscavam a cura na associação de medidas propriamente terapêuticas com ritos e amuletos. Pouco a pouco se reuniram, assim, conhecimentos e práticas: banhos, dietas e numerosos remédios provenientes dos três reinos da natureza, especialmente o vegetal.

Mesopotâmia Documentada por textos cuneiformes de Nínive, a medicina dos povos da Mesopotâmia é talvez a mais antiga da qual se conhece uma teoria: o coração é sede da inteligência e o fígado, centro da circulação. O médico interpretava os sonhos, a que se atribuía grande importância. O exercício da profissão foi pela primeira vez regulamentado no código de Hamurabi. A medicina assírio-babilônica conheceu os sintomas e a evolução de muitas doenças e praticou curas dietéticas, prescrições higiênicas e profiláticas, e algumas cirurgias.

Egito Vinte séculos antes da era cristã, faziam-se no Egito operações como a trepanação do crânio. Papiros escritos entre 1700 e 1200 a.C., alguns dos quais copiavam outros muito mais antigos, mostram que para efetuar um diagnóstico os egípcios já empregavam as indicações oferecidas pelo pulso, pela palpitação e talvez pela auscultação, e detectavam diversas doenças do abdome, amígdalas, olhos, coração, baço e fígado. Os remédios mais usados eram mel, cerveja, levedura, azeite, cebola, sementes de linho, funcho, aloé, ópio etc.

Homero considerava os médicos egípcios, também elogiados por Heródoto e Diodoro da Sicília, superiores a todos os outros. Anexas aos grandes templos havia escolas médicas. As técnicas de embalsamamento, contudo, embora seus praticantes formassem uma classe especial, não parecem ter influenciado muito o conhecimento da anatomia humana.

Índia Com fontes no primeiro período védico, por volta do século XV a.C., a medicina indiana fundava-se não em estudos anatômicos, mas numa construção sistemática em que se relacionavam os elementos constitutivos do microcosmo - o homem - e os do macrocosmo -- o universo. Saúde era a harmonia entre os humores vitais. A vinculação da medicina a princípios espirituais, base da ioga, foi especialmente importante no budismo. Os grandes mosteiros incluíam hospitais, leprosários e depósitos de medicamentos.

Basicamente preventiva, a medicina indiana via na dietética, aliada à higiene, o fundamento da terapêutica. Séculos antes do descobrimento da vacinação, os hindus já inoculavam a varíola. A alimentação básica compunha-se de cereais e legumes, com proibição de bebidas alcoólicas. Remédios de origem animal, mineral e sobretudo vegetal combinavam-se a outros recursos terapêuticos: clisteres, vomitivos, unguentos, sangrias, ventosas, sanguessugas, banhos de vapor, inalações e pulverizações. A cirurgia indiana foi a mais notável da antiguidade. Praticava-se com mestria extração de tumores, de abscessos e de corpos estranhos, punções, sutura de feridas, operações de cálculo de vesícula e até enxertos de pele.

ChinaA concepção chinesa do mundo, expressa nos princípios do tao, do yin e do yang, orientava a prática médica. Como na Índia, atribuía-se a doença à desarmonia entre o indivíduo e o cosmo.    A medicina teria surgido com os três soberanos lendários (c. 2950-c.2600 a.C.): Fu Hsi, a quem se credita o I Ching; Shen Nung, pai da terapêutica vegetal; e Huang-ti, criador dos ritos e tido como autor do Nei ching, clássico da medicina interna, cujos pontos difíceis seriam esclarecidos mais tarde no Nan ching, atribuído a Pien Tsio (c.430-350 a.C.). Tao Hong-king (452-536 d.C.), mestre taoísta, compilou a farmacopéia de Shen Nung e descreveu 365 drogas minerais, vegetais e animais.

As seculares práticas chinesas atingiram o apogeu de 618 a 907, na época Tang, quando o ensino médico foi controlado pelo estado. Fizeram-se tratados de oftalmologia, obstetrícia, cirurgia, acupuntura, pediatria, higiene e sexologia. A contaminação com varíola como método preventivo foi mencionada pela primeira vez em 1014, por Wang Tan, talvez sob influência irano-indiana.

Durante a dinastia Yuan (1260-1368), organizou-se o colégio imperial de medicina e reimprimiu-se uma enciclopédia médica. Na época Qing (1644-1911), editaram-se outras enciclopédias de assuntos gerais que incluíam a área médica, tema exclusivo da obra de referência Espelho de ouro da medicina, aproximadamente do ano 1700 da era cristã. Invadida pela medicina ocidental a partir dessa época, a medicina tradicional chinesa foi revalorizada depois da revolução comunista, em meados do século XX.

GréciaNas civilizações helênicas, a prática da medicina também esteve inicialmente ligada ao misticismo. Atribuíam-se poderes curadores a várias divindades, mas o deus da medicina seria Asclépio (o Esculápio dos romanos), em cujos santuários, situados junto a fontes e termas, faziam-se as consultas, para receber suas receitas em forma de oráculo.

A medicina científica e leiga, na Grécia, surgiu no seio das primeiras escolas filosóficas, como o pitagorismo. Alcméon de Crotona (séculos VI-V a.C.), médico, astrônomo e filósofo, escreveu o mais antigo livro de medicina grega de que se tem notícia: o Peri phýseos (Da natureza), de que Galeno e Plutarco conservaram fragmentos. Nele se encontra a origem da teoria humoral, que seria retomada por Hipócrates, segundo a qual a saúde resulta da harmonia entre os humores: sangue, pituíta, bile negra e bile amarela.

Outros homens célebres dedicaram-se à medicina na Grécia antiga, mas foi Hipócrates quem sistematizou o saber médico de seu tempo, enriquecendo-o com importantes observações. A medicina moderna confirmou muitas das afirmações do Corpus hippocraticum (Coleção hipocrática), textos provenientes da escola médica de Cós.

Alexandria e RomaEm torno de 300 a.C., mestres helênicos fundaram em Alexandria, no Egito, uma grande escola de medicina em que ensinaram Herófilo e Erasístrato, também gregos. O primeiro, por seus trabalhos de dissecção do corpo humano, fez progredir notavelmente o conhecimento das doenças e da anatomia. Ambos realizaram detalhados estudos do cérebro humano e deram nome a muitas das partes que o compõem, assim como às membranas que as recobrem. A escola de Alexandria entrou depois em decadência.

Em Roma, o exercício profissional da medicina passou a existir com a chegada dos médicos gregos, um dos quais, Asclepíades de Bitínia, fundou uma escola que perdurou após sua morte, por volta de 40 a.C. O governo estimulou o ensino médico e promoveu a saúde pública. Criaram-se leis especiais de higiene, cujo cumprimento foi exigido com severidade. Construíram-se hospitais perto dos campos de batalha e, mais tarde, nas cidades do império.

Também nascido na Grécia, Galeno, que viveu no século II, foi o principal nome da medicina em Roma. Fez cuidadoso estudo do esqueleto humano e, pela dissecção de animais -- a de pessoas era proibida --, especialmente de macacos antropoides, deu continuação ao estudo da fisiologia. Alguns de seus livros são meras listas de medicamentos; outros, contudo, descrevem os ossos com muita exatidão.

Medicina medieval e renascentista No início da Idade Média, a medicina foi cultivada quase somente nos mosteiros. A contribuição árabe, sobretudo para a difusão, em traduções e comentários, do saber greco-romano, muito influenciou a Europa cristã e a medicina da época. Nomes como o de Avicena, cujo Cânon seria básico até o século XVI, desfrutaram de grande prestígio. Os centros de ensino médico proliferaram nos territórios dominados pelos árabes. A partir do século IX, a medicina começou a desvincular-se da tutela da igreja e surgiram escolas notáveis, como as de Salerno, Pádua, Bolonha e Montpellier.

Com o Renascimento, o pensamento humanístico, a revalorização do saber greco-romano, a invenção da imprensa e o interesse pela pesquisa produziram considerável impulso nas ciências médicas, reforçado pelo nascimento de uma escola de arte dedicada à investigação anatômica. Leonardo da Vinci e Michelangelo foram grandes estudiosos do corpo humano, e Andreas Vesalius é pioneiro da anatomia científica moderna.

Outras grandes personalidades da época foram: Paracelso, que acentuou a importância do método experimental e estudou a sífilis; Girolamo Fracastoro, que pesquisou o contágio e intuiu a existência de germes capazes de se reproduzirem; Miguel Servet, que descobriu a "pequena circulação" do sangue; Andrea Cesalpino, que admitiu a possibilidade de uma "grande circulação"; e Ambroise Paré, que nas hemorragias cirúrgicas substituiu a cauterização  pela ligadura das artérias.

Séculos XVII e XVIII A partir do fim do século XVI realizaram-se descrições mais adequadas às descobertas empíricas e pesquisou-se de maneira mais precisa o funcionamento dos órgãos. A invenção e o aperfeiçoamento do microscópio abriram à observação áreas até então inacessíveis: estudaram-se tecidos orgânicos e microrganismos, o que melhorou o conhecimento dos agentes patogênicos. O uso do método científico e a progressiva sistematização do saber originaram as primeiras especializações.

Devem-se registrar, sobretudo, trabalhos como os dos ingleses William Harvey, que descobriu a grande circulação do sangue, e Thomas Sydenham, a que se deve a descrição da escarlatina, da malária e da dança-de-são-vito ou coreia de Sydenham; do italiano Marcello Malpighi, que estudou ao microscópio os capilares sangüíneos; e dos holandeses Reinier de Graaf e Antonie van Leeuwenhoek.

A prática da autópsia tornou-se cada vez mais frequente ao longo do século XVII, o que permitiu ampliar o acervo de conhecimentos e relacionar o aspecto e as características das lesões internas do organismo com as respectivas causas patológicas.

Foi de grande relevo a influência de outras ciências sobre a medicina. A partir da química, Antoine Lavoisier descobriu ser a respiração uma combustão. As experiências com eletricidade feitas por Luigi Galvani e Alessandro Volta, o primeiro dos quais mostrou que estímulos elétricos podiam induzir os músculos ao movimento, modificaram as concepções fisiológicas e abriram horizontes. Nesse terreno, Albrecht von Haller elaborou, no século XVIII, sua teoria da irritabilidade, com a qual procurava explicar os movimentos musculares.

Às ideias mecanicistas, que ganhavam terreno em todas as frentes da ciência, opunham-se teorias vitalistas, que recorriam, para justificar o funcionamento do organismo, a um "princípio vital", situado além da percepção sensorial. O exercício da medicina nos séculos XVII e XVIII, no entanto, ainda era em geral precário e mal aparelhado. A emergência, por exemplo, era prestada nas barbearias, em que se praticava o curandeirismo.

No Iluminismo, a medicina incluiu entre suas áreas de interesse as doenças mentais. Phillipe Pinel, considerado fundador da psiquiatria, iniciou a transformação dos centros em que, em condições terríveis do ponto de vista médico e humano, eram postos os dementes. Tal iniciativa não foi um fato isolado: em muitos países europeus, difundiu-se uma tendência generalizada à melhoria das redes hospitalares e da saúde pública.

A fisiologia da digestão foi minuciosamente pesquisada. René-Antoine de Réaumur comprovou as funções do suco gástrico -- cuja produção pelo estômago Lazzaro Spallanzani demonstrou -- na digestão dos alimentos. William Prout, no século XIX, revelou a presença de ácido clorídrico no estômago e sua intervenção nos processos digestivos.

Um dos mais importantes eventos médicos da época foi a difusão, na Europa, da inoculação variólica, a partir da qual Edward Jenner descobriu, em 1796, a vacinação. Também na transição entre os séculos XVIII e XIX, Samuel Hahnemann formulou os princípios da homeopatia, arte curativa baseada na lei de similitude. Apesar dos ataques de que foi alvo, a homeopatia obteve sucesso no tratamento de várias afecções e difundiu-se lenta mas solidamente.

Século XIX Com os progressos da anatomia, da fisiologia e de outras disciplinas, a medicina firmou-se, no século XIX, como ciência experimental. Johannes Müller publicou suas descobertas no Handbuch der Physiologie des Menschen (1830-1840; Manual da fisiologia humana), e seu discípulo Rudolf Virchow estabeleceu as bases da patologia celular. Claude Bernard, autor da noção de meio interno e um dos fundadores da endocrinologia, expôs seu rigoroso método em Introduction à l'étude de la médecine expérimentale (1865). Sir Charles Bell fez importantes descobertas na fisiologia do sistema nervoso e escreveu New Idea of the Anatomy of the Brain (1811; Nova concepção da anatomia do cérebro). François Magendie avançou no estudo dos nervos motores e sensoriais.

A constatação de que as doenças são provocadas por pequeníssimos organismos vivos (então denominados micróbios) e a busca de uma terapêutica adequada incluem-se entre os fatos mais significativos da medicina do século XIX. Louis Pasteur provou que a fermentação e a putrefação eram causadas por microrganismos (bactérias) e lançou métodos de prevenção do carbúnculo no gado, da cólera nos galináceos e da raiva no homem e no cão. Suas descobertas permitiram a Joseph Lister dar início, na cirurgia, ao que se veio a chamar anti-sepsia.

A descoberta do bacilo da tuberculose e do vibrião da cólera por Robert Koch, outro pioneiro da bacteriologia, fez com que surgissem dessa ciência novas técnicas de diagnóstico, como a reação de Wassermann para a detecção da sífilis, inventada no início do século XX por August von Wassermann. O emprego da anestesia geral em cirurgia foi a maior contribuição da medicina americana nesse período. Para isso se utilizou gás de óxido nitroso e depois éter, cujo uso com finalidade anestésica foi feito provavelmente pela primeira vez por William Thomas Morton. A partir de meados do século, preferiu-se o clorofórmio. A anti-sepsia e a anestesia representaram imenso progresso na prática cirúrgica.

O papel dos insetos na transmissão de certas doenças foi verificado por Sir Patrick Manson na elefantíase, por Sir Ronald Ross na malária e por Carlos Finlay, Walter Reed e William Gorgas na febre amarela. Almroth Wright conseguiu controlar a febre tifoide por meio de vacinação. A descoberta dos raios X, por Wilhelm Conrad Röntgen, e a do rádio, por Pierre e Marie Curie, propiciaram vários tipos de diagnóstico e de tratamento que, apesar de arriscados, foram novas conquistas significativas.

Entre os séculos XIX e XX, Pavlov e Freud foram responsáveis por contribuições que marcaram a fundo as ciências do comportamento, o primeiro pelos estudos do sistema nervoso central e os reflexos condicionados, o segundo pela psicanálise, cuja repercussão incidiu principalmente sobre o século seguinte e levaram à reformulação da psiquiatria, da psicopatologia e da própria compreensão da natureza humana.

Século XXComo aconteceu em tantas outras ciências e tecnologias, no século XX as conquistas da medicina aceleraram-se e multiplicaram-se como nunca. O desenvolvimento das técnicas de pesquisa em microbiologia e os progressos registrados em bioquímica, citologia e genética permitiram aprofundar a análise das causas das doenças em níveis jamais alcançados. Ácidos nucleicos, proteínas, hormônios e vitaminas foram revelando sua estrutura aos pesquisadores, ao mesmo tempo que se organizavam e sistematizavam novos campos como a imunologia, a virologia, a dermatologia e a oftalmologia.

Aperfeiçoaram-se extraordinariamente os procedimentos de exame do paciente e elaboraram-se técnicas operatórias que possibilitaram cirurgias de alta precisão, sobretudo a neurocirurgia, a cirurgia cardiovascular e os transplantes de órgãos. Em 1967 Christiaan Barnard fez o primeiro transplante de coração e na década de 1980 obtiveram-se êxitos notáveis em transplantes múltiplos de órgãos, como rim e fígado. Também se implantaram órgãos artificiais, especialmente corações fabricados com materiais plásticos, como o Jarvik 7.

Deve-se a Paul Ehrlich, que estabeleceu a afinidade seletiva de certos tecidos com determinados produtos químicos, a inauguração da era da quimioterapia, incrementada pela obtenção da primeira sulfamida por Gerhard Domagk, e dos antibióticos (a começar pela penicilina), a que estão ligados, entre outros, os nomes de Alexander Fleming, Howard Florey, Ernst Chain e Selman A. Waksman, descobridor da estreptomicina e da actinomicina. Todos esses fármacos imprimiram profunda renovação às práticas terapêuticas, em relação aos processos infecciosos.

Assistiu-se também às inovações ainda mais revolucionárias da eletrônica e da informática na clínica, nos hospitais e em novos desdobramentos da radioterapia. A saúde pública, nos países desenvolvidos, adquiriu grande eficiência e, depois da criação, em 1946, da Organização Mundial de Saúde (OMS), o planejamento médico ganhou escala planetária. Apesar de todas as conquistas, no entanto, no fim do século XX a medicina continuava a enfrentar enormes desafios, entre os quais se podem citar o câncer em suas várias formas; a síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS), que se alastrava de forma epidêmica e assustadora; as doenças degenerativas, de maior incidência nos países desenvolvidos, exatamente por terem estes superado a maior parte dos outros males; os surtos epidêmicos e as afecções endêmicas, assim como os graves males resultantes da desnutrição e da miséria, em muitas regiões do Terceiro Mundo.

 Medicina no Brasil

Medicina no Brasil

Colônia. A saúde dos índios brasileiros despertou a atenção dos descobridores. Afora ferimentos por luta ou acidente, picadas de insetos ou problemas resultantes da caça de animais, eram raras as doenças observadas nos indígenas pelos primeiros cronistas. Em sua medicina, rituais, amuletos e remédios supersticiosos somavam-se a práticas como abluções, repouso, jejum, uso do calor sob várias formas e utilização de ervas.

Nesse particular, é impossível distinguir hoje o que era autóctone do que foi acrescentado pelos missionários. Supõe-se que o emprego da ipecacuanha ou poaia - vomitivo, expectorante e antidisentérico - e do jaborandi - tônico, diurético e diaforético - é contribuição, importantíssima, do índio. Os padres buscaram espécies parecidas com as da Europa ou do Oriente e introduziram várias drogas vegetais.

A murta-do-mato, sucedânea da quina, obteve tal sucesso na profilaxia das febres que passou a ser exportada, como "pó dos jesuítas", para a metrópole. Usavam-se também alecrim, estimulante; carimã e mingaus de mandioca, ditos excelentes para aliviar distúrbios intestinais; fumo umedecido com saliva ou, como fumaça, soprado em picadas venenosas; e guaraná, contra males intestinais, dores nevrálgicas e sobretudo como tônico e reconstituinte.

Outros recursos eram caldo de jenipapo, contra pústulas; leite de cansanção, em conjuntivites; óleo e bálsamo de copaíba, antitetânico tópico; folha de caroba, em erisipelas; casca de barbatimão, em piodermites; bálsamo de caboreíba, expectorante; raiz de jalapa, sementes de mamona e de coco andá-açu, purgativos; malva, em inflamações locais; e urtiga, revulsivo, como ajuda às ventosas de chifre de boi.

Ventosas, sangrias e sarjaduras foram levadas pelos padres, a quem as circunstâncias haviam imposto o exercício da medicina, e para os quais essa atividade era, além de obra de misericórdia, arma de catequese, pois as curas desacreditavam o pajé. Os índios, porém, se ressentiram gravemente do contato com os estrangeiros. Sem imunidade natural contra males que desconheciam, foram dizimados até por doenças infantis vindas de fora, como catapora e sarampo. Os brancos (portugueses, franceses e holandeses) trouxeram a varíola, sífilis, lepra e tuberculose; os negros, a bouba, tracoma, ainhum, escorbuto, opilação, esquistossomose, maculo ou mal-de-bicho e a dracunculose ou bicho-da-costa (filária da conjuntiva).

A primeira epidemia (1549) não foi identificada; a segunda (1554) parece ter sido de gripe pulmonar; as duas seguintes (1561 e 1563), de varíola, atacaram desde o Recôncavo até Piratininga, e mataram trinta mil índios, só na Bahia. A varíola acometeu anualmente de 1597 a 1616 e, em surtos esporádicos, entre 1664 e 1683. Nos últimos meses de 1685, houve em Pernambuco uma epidemia de febre amarela.

O espanhol Mestre João, bacharel em artes e medicina, cirurgião del-rei, foi o primeiro médico a pisar terras brasileiras, mas como observador dos astros na frota de Cabral. Tomé de Sousa trouxe o cirurgião-mor Jorge Valadares, que residiu em Salvador até 1553. Com Duarte da Costa chegou o primeiro físico-mor, Jorge Fernandes. Afonso Mendes, novo cirurgião-mor, acompanhou Mem de Sá.

Exceto os citados, poucos físicos, cirurgiões, barbeiros (na época, curandeiros) e licenciados vieram para o Brasil no período colonial. Alguns, militares destacados para ministrar junto à tropa, ansiavam pela volta ao reino. Outros deslocavam-se de povoado em povoado e só começaram a fixar-se no fim do século XVII. Cem anos mais tarde, havia quatro médicos instalados na cidade do Rio de Janeiro, três em Recife e dois em Belém do Pará. Tal escassez explica a proliferação do curandeirismo.

Além disso, a medicina portuguesa era ainda um misto de tirocínio, ciência e crendice. O médico e cirurgião Luís Gomes Ferreira, radicado em Sabará MG, descreveu acuradamente as parasitoses no Erário mineral (1735), mas pendurava alambre branco ao pescoço dos pacientes para conjurar sonhos tristes. João Antônio Mendes, cirurgião-mor do reino em Minas Gerais, autor de um guia prático de medicina caseira, Governo de mineiros (1770), receitava minhocas para resolver panarícios e pó de pescoços de galo torrados contra dor de garganta.

Desde a metade do primeiro século da colonização, as santas casas de misericórdia prestaram bons serviços. As mais antigas são a de Olinda, que já funcionava em 1540; a de Santos, fundada em 1543; e a da Bahia, criada em 1549. Seguiram-se as do Rio de Janeiro, do Pará, de São Luís do Maranhão, de Igaraçu, da Paraíba, de Itamaracá, de São Paulo, de Sergipe, do Espírito Santo e de Campos dos Goitacases (RJ).

A população contava ainda com a assistência de uns poucos hospitais. Entre outros, o da Venerável Ordem Terceira da Penitência, erguido em 1648, e o da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, de 1733, ambos no Rio de Janeiro; o de Nossa Senhora do Paraíso e São João de Deus, instituído em 1684 no Recife pelo governador D. João de Sousa; e o de São João de Deus, anterior a 1728, fundado em Cachoeira (BA).

Império - A vinda da corte portuguesa trouxe medidas de melhoria sanitária e, sobretudo, marcou o início do ensino médico no Brasil. Antes, era preciso estudar em Portugal. O primeiro brasileiro a formar-se em medicina em Coimbra foi o padre Bernardino Pessoa de Almeida, que, de volta, abandonou a batina para casar-se e clinicou em Olinda e Recife. O mais ilustre foi Francisco de Melo Franco (1757-1823), filho e irmão de médico, precursor da puericultura brasileira com seu Tratado de educação física dos meninos (1790), publicado em Lisboa.

Em fevereiro de 1808, D. João VI restabeleceu os cargos de cirurgião-mor do Exército e físico-mor do reino e nomeou, para o primeiro, o pernambucano José Correia Picanço, lente jubilado de Coimbra. A conselho deste, no mesmo mês ordenou a criação da Escola de Cirurgia do Salvador e, em abril, a da Escola de Cirurgia de São Sebastião do Rio de Janeiro. Esta última transformou-se em Academia Médico-Cirúrgica em 1813; a da Bahia, em 1815. Ambas tornaram-se faculdades de medicina em 1832.

O próprio Picanço escolheu e fez nomear os professores da escola da Bahia. Na do Rio de Janeiro, onde frei Leandro do Sacramento lecionou botânica médica, dois ilustres portugueses, Joaquim da Rocha Mazarém e José Maria Bontempo, lançaram os germes da influência francesa, que viria a ser dominante. Para isso também contribuíram os médicos brasileiros formados, desde o século anterior, em Montpellier.

Em 1888 reuniu-se no Rio de Janeiro o I Congresso Brasileiro de Medicina e Cirurgia. Ainda no segundo reinado, a fundação de várias instituições, como a do Laboratório de Fisiologia Experimental do Museu Nacional em 1881 e do Instituto Pasteur em 1888, preparou o desenvolvimento da pesquisa científica que passou a caracterizar, mais tarde, a fase racional da medicina brasileira. Fundada em 1829 com o nome de Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro, a Academia Nacional de Medicina é a mais antiga das sociedades brasileiras dessa área. Muito antes, contudo, as primeiras associações científicas do país já incluíam médicos em seus quadros. Com o lançamento, em 1829, por iniciativa de José Francisco Xavier Sigaud, do Propagador das Ciências Médicas ou Anais de Medicina, Cirurgia e Farmácia, nascia a imprensa especializada.

Seguiram-se, entre outras publicações, o Semanário de Saúde Pública (1881), mais tarde Boletim da Academia Nacional de Medicina, a Gazeta Médica Brasileira (1882) e o Brasil Médico (1887). A Gazeta Médica da Bahia, importante na história da pesquisa experimental, surgiu em 1886 em Salvador. A Revista Médico-Cirúrgica do Brasil circulou ininterruptamente de 1893 ao início da década de 1960.

RepúblicaNos primeiros anos da república, o governo, empenhado em tratar as doenças epidêmicas e endêmicas, cujos índices aumentavam, criou o Conselho de Saúde, reorganizou o Serviço Sanitário Terrestre, unificou o Serviço de Higiene da União e criou a Diretoria Geral de Saúde Pública. Na passagem do século, a peste bubônica atingiu Santos, São Paulo e Rio de Janeiro, o que levou à fundação do Instituto Soroterápico de São Paulo, depois Instituto Butantã, criado por Vital Brasil, e do Instituto Soroterápico Federal, depois Instituto de Patologia Experimental de Manguinhos, hoje Instituto Osvaldo Cruz.

Ambos produziram trabalhos admiráveis, como as pesquisas de Cardoso Fontes sobre o bacilo da tuberculose, a descoberta da tripanossomose americana por Carlos Chagas e os estudos de Gaspar Viana sobre o tratamento do granuloma venéreo, da ozena e da leishmaniose por injeções endovenosas de tártaro emético. Em 1903, quando Osvaldo Cruz foi nomeado para a Diretoria Geral de Saúde Pública, ainda grassavam no Rio de Janeiro sérias epidemias de febre amarela. Animado pelos resultados que a comissão americana obtivera em Havana e pelos trabalhos de Emílio Ribas em São Paulo, Osvaldo Cruz formulou seu plano para extinguir o mosquito transmissor.

Apesar da resistência do Parlamento, da imprensa, da população e da categoria dos médicos à ação sanitária, em 1907 o governo anunciou que a febre amarela deixara de ser o maior flagelo do país. A instituição da vacina obrigatória contra a varíola, em 1904, também provocou revolta, mas a campanha acabou bem-sucedida.

As vitórias de Osvaldo Cruz, assim como a de Carlos Chagas sobre a gripe espanhola em 1918, sua descoberta do Trypanosoma cruzi e sua teoria domiciliar de transmissão da malária mostraram bem a maioridade científica do Brasil. Na segunda metade do século XX, dois médicos brasileiros destacaram-se a serviço de agências especializadas da Organização das Nações Unidas: Marcolino Candau, diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (1953-1973), e Josué de Castro, presidente do Conselho da FAO, sigla inglesa da Organização de Alimentação e Agricultura (1952-1956).

Criado em 1931, o Ministério da Educação e Saúde foi desmembrado em 1953 para formar o da Educação e Cultura e o da Saúde. A Escola Nacional de Saúde Pública é de 1954; o Departamento Nacional de Endemias Rurais, de 1956; e o Instituto de Medicina Tropical de São Paulo, de 1959. Nas últimas décadas do século, no entanto, em função do grande crescimento demográfico e dos crescentes problemas sociais, o Brasil ressentia-se de uma saúde pública e  sistema hospitalar cada vez mais insatisfatórios, sob sucessivos escândalos de inoperância e corrupção.

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