Biblioteca e Biblioteconomia

Biblioteca e Biblioteconomia

#Biblioteca e Biblioteconomia

Chama-se biblioteca toda coleção, privada ou pública, de obras escritas. Nela se incluem os móveis e recintos destinados à guarda de seus volumes. É comum que a biblioteca, sobretudo a mais antiga, inclua em seu acervo desenhos, pinturas, peças numismáticas - moedas e medalhas - e antiguidades. As de grande porte mantêm igualmente jornais, revistas e materiais audiovisuais, como filmes, fotografias, microfilmes e programas para computadores.

Desde o momento em que foi inventada a escrita, surgiu o problema da conservação dos textos e de seus suportes materiais. Os primeiros registros escritos, que teriam sido guardados numa arca, passaram a exigir um recinto especial, comparável a um arquivo. O crescimento dos arquivos exigiu a construção de edifícios inteiros para viabilizar sua consulta.

Em quase todos os países existem bibliotecas nacionais, mantidas pelo estado e que servem como centros de referência bibliográfica. As bibliotecas públicas municipais, mais modestas, nem por isso deixam de ser imprescindíveis para a vida intelectual das comunidades. As universidades e centros de pesquisa, bem como as grandes empresas, mantêm bibliotecas, sem as quais seria impossível acompanhar a evolução das novas técnicas e dos conhecimentos especializados.

A ciência, arte ou atividade que trata da correta organização e funcionamento de bibliotecas denomina-se biblioteconomia.

Evolução históricaTrês mil anos antes da era cristã os templos egípcios já abrigavam grande quantidade de papiros científicos e teológicos. Por volta de 650 a.C., a biblioteca do rei Assurbanipal, da Assíria, continha cerca de 25.000 tábulas em que se achavam gravados documentos literários, jurídicos e históricos.

Antiguidade clássicaFoi a civilização greco-romana que criou a noção de biblioteca, tal como a entendemos em nossos dias, como também a própria palavra (do grego biblos, livro, e theke, depósito). Os templos gregos possuíam bibliotecas e arquivos. No século V a.C., as grandes escolas de filosofia começaram a formar coleções de livros para uso de seus alunos. Assim nasceram as bibliotecas institucionais, além das particulares que já existiam. O maior compilador de livros (na forma de rolos) dessa época foi Aristóteles, cuja biblioteca, ampliada por seus sucessores no Liceu, seria mais tarde transportada para Roma.

A dinastia ptolomaica do Egito criou em Alexandria, sua capital, o célebre Museion, escola que acumulou a maior biblioteca da antiguidade. Possuía cerca de 700.000 volumes de papiro, com obras literárias e científicas, antes de ser incendiada por Júlio César. A biblioteca de Pérgamo, na Anatólia, teria abrigado uns 200.000 pergaminhos no século I a.C.

Na Roma republicana existiam numerosas bibliotecas particulares. César quis abrir a primeira biblioteca pública romana, mas seu assassinato em 44 a.C. frustrou esse projeto, suja realização coube então a um amigo, Caio Asinio Pólio. O imperador Augusto fundou outras duas, a Otaviana e a Palatina. Trajano erigiu a maior de todas, a Ulpia, localizada no fórum romano, no início do século II. Roma chegou a contar mais de vinte bibliotecas públicas e toda cidade importante em seus domínios tinha pelo menos uma. Nos últimos tempos do Império Romano difundiu-se o emprego de códices -- folhas cortadas e agrupadas entre duas capas de madeira -- em lugar dos pergaminhos.

Idade Média Desde a fundação de Constantinopla, no ano 324, abriram-se ali bibliotecas, mais tarde  ampliadas pelo imperador Juliano e, já no império bizantino, por Justiniano. Assim se preservaram o saber e as artes do mundo antigo, junto com as primeiras obras de inspiração cristã.

Nos países islâmicos existiram importantes bibliotecas desde o século VIII, entre as quais se destacaram as de Bagdá, Cairo e Bassora. Na Espanha muçulmana eram famosas as de Córdoba, Granada e Toledo, esta última contemporânea de uma destacada escola de tradutores.

Enquanto isso, no Ocidente, as ordens monásticas, uma vez instituídas, formavam bibliotecas que eram indispensáveis para a vida espiritual de seus membros. Seus acervos, formados basicamente por códices, consistiam sobretudo nas Escrituras e nas obras dos padres da igreja. Os religiosos também produziam novas cópias das obras e redigiam suas próprias crônicas históricas e obras literárias. A partir do século XII, as universidades europeias formaram novas bibliotecas.

Renascimento e ReformaOs eruditos italianos do Renascimento, a exemplo de Petrarca, acumularam enormes coleções de livros. Muitos potentados da época os imitaram, mas os próprios estados renascentistas cuidaram de criar grandes bibliotecas. Assim, no século XV nasceram na Itália a Marciana e a Laurenciana, de Florença, e a Vaticana. Surgiram posteriormente a Biblioteca Real da França e a do Escorial, na Espanha, esta última criada sob Filipe II, que se encarregou da organização, classificação e catalogação de seus acervos. A essa altura a invenção da imprensa de tipos móveis, por Gutenberg, havia barateado os livros, o que favoreceu ainda mais o enriquecimento das coleções.

Se, por um lado, muitas bibliotecas foram saqueadas, na época da Reforma, por outro assistiu-se à criação de novos acervos. Henrique VIII da Inglaterra fez dispersar as bibliotecas monásticas para eliminar a concepção medieval do mundo. Já Martinho Lutero recomendou que se criassem na Alemanha novas bibliotecas, amiúde recorrendo ao acervo das antigas.

Séculos XVII e XVIII A formação das grandes bibliotecas exigiu um trabalho de sistematização. O primeiro livro sobre esse tema, foi Advis pour dresser une bibliothèque (1627; Conselhos para organizar uma biblioteca), de Gabriel Naudé, curador das coleções do cardeal Mazarin. Surgiu então uma nova forma de dispor os volumes nas estantes; estas ficavam encostadas às paredes e deixavam livre o espaço central para leitura. Também nessa época o filósofo alemão G. W. Leibniz firmou o conceito de biblioteca nacional pública, mantida pelo estado para uso comunitário. Posteriormente, a revolução francesa confiscou a imensa biblioteca de Luís XVI, bem como as dos nobres e dos conventos, para formar a Biblioteca Nacional, com um acervo de 300.000 volumes. Em meados do século XVIII, as coleções da coroa inglesa serviram de base para a biblioteca do Museu Britânico.

Séculos XIX e XXÀ medida que cresciam as enormes coleções de livros, tornou-se necessário numerá-los e classificá-los. O primeiro a fazê-lo foi Johann Gesner, em Göttingen, na Alemanha; mas quem realmente revolucionou os métodos nessa área foi um refugiado político italiano, Antonio Panizzi. Em 1831 ele se encarregou de organizar a biblioteca do Museu Britânico. Compilou seu primeiro catálogo e inaugurou o critério de que uma biblioteca deve permitir acesso rápido e fácil a todos os seus volumes.

O século XX assistiria à formação de grandes bibliotecas, como a Lenin, de Moscou, com milhões de volumes. Nesta mesma época, difundiram-se igualmente as bibliotecas especializadas. Paralelamente, os primeiros anos do século marcaram o aparecimento, sobretudo nos Estados Unidos, das escolas de biblioteconomia.

Fundamentos de biblioteconomiaO desenvolvimento das técnicas de reprodução e impressão de livros, o surgimento da informática e a especialização das bibliotecas deram grande impulso aos sistemas de organização e catalogação dos acervos documentais. Produziu-se uma verdadeira revolução metodológica, que permitiu a criação de associações de profissionais para fomentar a cooperação e aperfeiçoar a classificação e conservação de livros e documentos guardados em bibliotecas. Em âmbito mundial, o órgão mais importante é a Federação Internacional de Associações de Bibliotecários (FIAB).

A biblioteconomia visa proporcionar aos profissionais especializados um conhecimento profundo de tudo o que diz respeito às bibliotecas: prédios, instalações, aquisição de acervo, catalogação de livros e documentos etc. Por outro lado, como instrumento público de cultura, as bibliotecas devem atender às necessidades dos leitores e são estas que determinam sua estrutura e organização.

Arquitetura e instalações As instalações de uma biblioteca determinam seu grau de eficiência, sua capacidade de conservação e sua segurança. As grandes bibliotecas antigas tinham prédios otimamente iluminados e distribuídos. Na Idade Média, a biblioteca ocupava geralmente um corredor com duas fileiras de janelas. As obras eram colocadas em um armarium -- móvel dotado de compartimentos diversos em que os livros ficavam presos por correntes e que incluía uma superfície de escrita e um banco fixo. No Renascimento as paredes passaram a ser cobertas de estantes para alojar os volumes, cujo tamanho se reduzira. Todavia, o critério arquitetônico era mais no sentido de valorizar a grandiosidade do conjunto.

Foi Panizzi que modificou o sistema de construção das bibliotecas. Para a do Museu Britânico, projetou uma rotunda cuja iluminação era assegurada por janelas na base de sua cúpula. As mesas de leitura se achavam dispostas radialmente em torno de um balcão central. Encostados às paredes, em estantes sobrepostas de ferro e cimento, alinhavam-se os volumes, a que se tinha acesso por escadas de níveis diversos.

Essa concepção foi imitada no mundo inteiro, embora os prédios nela inspirados não proporcionassem espaço suficiente para atender a outros fins, como as atividades administrativas. Depois da segunda guerra mundial, generalizou-se a construção de bibliotecas modulares, com grandes espaços abertos sustentados por pilares, e cujo mobiliário pode mudar de disposição conforme as necessidades.

A crescente diversificação das bibliotecas -- nacionais, universitárias, populares, escolares, municipais etc., -- determinou igualmente novos critérios de instalação e organização espacial. As instalações devem atender à finalidade de cada biblioteca, propiciando comodidade a leitores e funcionários.

Assim, uma biblioteca universitária deve ser funcional e confortável, com um acervo constantemente enriquecido. As bibliotecas públicas devem localizar-se em pontos de grande afluência e dispor de meios audiovisuais e de seções diversas destinadas a crianças e idosos. Essa estruturação em seções é de máxima importância nas bibliotecas nacionais, que amparam a pesquisa e promovem a difusão da cultura junto ao público.

Organização e classificaçãoOrganizar uma biblioteca implica catalogá-la (isto é, atribuir um número de série a cada volume) e classificá-la (agrupar esses volumes em função de seus temas). Os métodos de catalogação, que remontam ao século XVI, permitem a realização de constantes acréscimos aos acervos das bibliotecas, bem como a atualização das estatísticas do número de volumes existentes no acervo. Já os sistemas de classificação permitem identificar o setor das ciências e das artes a que corresponde cada volume. Os catálogos das principais bibliotecas do mundo geralmente constam de dezenas de tomos. Os sistemas de classificação mais populares são o decimal, de Dewey, e o francês, ou sistema decimal universal. Há ainda o sistema da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, muito difundido nesse país.

O sistema Dewey lista 999 grandes áreas, às quais se podem acrescentar subdivisões. Assim, o número 541 corresponde à química teórica, enquanto 541.35 refere-se à fotoquímica. O sistema decimal universal permite também um correlacionamento desses números, que ajuda a o consulente a prever de relance o conteúdo de cada obra. A informatização veio diversificar consideravelmente as aplicações dessa metodologia. O sistema da Biblioteca do Congresso é menos lógico ou filosófico que arbitrário, mas nem por isso deixa de ser prático, dada a brevidade das notações que correspondem a cada livro. Assim como no tocante às instalações, as bibliotecas, segundo sua classificação e finalidade, atendem a critérios diversos de organização e classificação e dispõem de vários meios para o atendimento de seus usuários em função de suas necessidades, formação cultural, nível de escolaridade, padrão econômico, gostos e preferências.

Esse conjunto de exigências técnicas e sociais faz da biblioteconomia uma ciência sumamente rigorosa, e do bibliotecário um especialista de esmerada formação acadêmica, que deve estar atento para todas as inovações suscetíveis de ajudá-lo em sua tarefa. Graças a esse labor, as bibliotecas são hoje imprescindíveis para a formação e o desenvolvimento intelectual de uma sociedade.

BrasilA mais antiga biblioteca brasileira, a do mosteiro de São Bento, em Salvador, data de 1581. A Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, com cerca de 1.500.000 obras, além de mais de 600.000 manuscritos, perto de 300.000 mapas e estampas e preciosas coleções de periódicos, é, juntamente com as do México, Costa Rica, Peru e Chile, uma das maiores da América Latina. Fundada em 1810, com os sessenta mil volumes que D. João VI trouxera de Lisboa, instalou-se na então rua Direita, hoje Primeiro de Março, em prédio da Ordem Terceira do Carmo, transferindo-se depois para o largo da Lapa e passando a ocupar, desde 1910, em ato comemorativo de seu centenário, ocorrido no governo Rodrigues Alves, o imponente edifício atual na avenida Rio Branco.

Ainda no Rio de Janeiro, cabe mencionar as bibliotecas do Ministério da Fazenda, da Fundação Getúlio Vargas, do Real Gabinete Português de Leitura, da Casa de Rui Barbosa, a Estadual e a rede de bibliotecas de bairros. O Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação, órgão do CNPq, mantém no Rio de Janeiro uma biblioteca especializada em ciência e tecnologia. A Fundação IBGE mantém duas, especializadas respectivamente em geografia e estatística, esta a mais completa do país.
Em São Paulo sobressaem a Biblioteca Municipal Mário de Andrade, a da Universidade de São Paulo e as da rede municipal. A da Universidade de Brasília é a mais atualizada do país em sua organização e acervo. Ainda em Brasília, destaca-se a Biblioteca do Congresso, com moderna e eficiente instalação. O Instituto Nacional do Livro estimula e controla as atividades bibliográficas do país, e vários estados possuem institutos análogos.

No Brasil a profissão de bibliotecário é reconhecida por lei e, no serviço público federal, classifica-se como de nível superior. As principais entidades de classe são a Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários (FEBAB) e a Associação Brasileira de Escolas de Biblioteconomia e Documentação (ABEBD).

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