História da Igreja Católica

História da Igreja Católica

O termo catolicismo foi usado por alguns autores (Aristóteles, Zenão, Políbio), antes da era cristã, com o sentido de universalidade. Aplicado à igreja, aparece pela primeira vez por volta do ano 105 da era cristã na carta de Inácio, bispo de Antioquia. Nos textos mais antigos, aplica-se à igreja geral  considerada em relação às igrejas locais. Nos autores do século II da era cristã (Justino, Ireneu, Tertuliano, Cipriano), o termo assume duplo significado: o de universalidade geográfica, pois na opinião desses autores a igreja já havia atingido os confins do mundo; e o de igreja verdadeira, ortodoxa, autêntica, em contraposição às seitas que começavam a surgir.

Desde o Concílio de Trento, realizado entre 1545 e 1563, a igreja cristã subordinada à autoridade papal passou a denominar-se Católica Apostólica Romana, em oposição às igrejas protestantes constituídas a partir da Reforma. Define-se como una, santa, católica e apostólica e considera seu chefe como legítimo herdeiro da cátedra do apóstolo Pedro, sagrado papa, segundo o Evangelho, pelo próprio Cristo.

Cristianismo na PalestinaNa época de Jesus Cristo, quando a Palestina era dominada pelos romanos, a religião oficial do povo judeu pautava-se pela parte da Bíblia conhecida como Antigo Testamento. Embora não pretendendo romper com a tradição religiosa judaica, a mensagem de Cristo dava realce principalmente aos princípios éticos do amor e da fraternidade, contrapondo-se ao formalismo religioso apregoado pelos fariseus e doutores da lei mosaica. Essa mensagem de cunho mais espiritual e menos legalista passou a ser divulgada sobretudo entre as camadas pobres da população, na língua popular, o aramaico, mediante parábolas.

Após a morte de Cristo, seus discípulos passaram a ser chamados cristãos e, reunidos em pequenas comunidades, procuraram manter viva a lembrança de seus ensinamentos, embora participando ainda da tradição religiosa judaica. O evento mais importante desse período foi a primeira assembleia cristã, conhecida como Concílio de Jerusalém, da qual emergiram duas perspectivas pastorais bem definidas. De um lado, sob a liderança do apóstolo Tiago, estavam os que pretendiam dar destaque à raiz judaica da nova fé; do outro, os seguidores de Paulo, que desejavam uma abertura imediata da mensagem cristã para o mundo cultural greco-romano. A decisão conciliar optou por uma abertura prudente, proposta por Pedro, já escolhido por Cristo como chefe de seu primeiro grupo de discípulos. Esse cristianismo judaico teve, porém, vida relativamente breve, em vista da destruição de Jerusalém, ordenada pelo imperador Tito no ano 70. A partir de então, a fé cristã expandiu-se nas províncias da Anatólia e na própria capital do Império Romano.

Cristianismo no mundo helênicoFoi sobretudo graças à atuação de são Paulo, divulgador da mensagem cristã na Anatólia, que o movimento religioso iniciado por Cristo na Palestina estendeu-se para o mundo helênico. A crença de pobres camponeses e pescadores passou a conquistar adeptos entre as famílias pertencentes às classes médias urbanas. O culto cristão foi progressivamente adaptado às formas de expressão mística do Oriente e sua liturgia passou a empregar a língua grega. Fez-se também a tradução da Bíblia para o grego, conhecida como versão dos Setenta, e a atitude ética proposta pelo cristianismo complementou-se com um enfoque conceitual e doutrinário. A elaboração teórica começou com os apologetas, entre os quais destacou-se Orígenes, empenhados em defender a validade da crença cristã diante da cosmovisão grega.

Cristianismo no mundo helênico
Dois centros de cultura cristã assumiram uma importância excepcional nessa época: Alexandria, no Egito, e Antioquia, na Síria. Em Alexandria predominava a influência platônica e uma interpretação das Escrituras voltada para a alegoria; em Antioquia prevalecia a interpretação histórico-racional, de raiz aristotélica. O período que abrange os séculos IV e V caracterizou-se pela atuação de intelectuais católicos como Atanásio, Basílio, Gregório de Nissa, Gregório Nazianzeno, João Crisóstomo e Cirilo de Alexandria, todos pertencentes ao clero católico. A consolidação dos dogmas cristãos nessa época gerou divergências doutrinais conhecidas como heresias.

O primeiro concílio ecumênico realizou-se em Niceia em 325, convocado pelo imperador Constantino. Coube a Teodósio I reunir o segundo concílio ecumênico em 381, na cidade de Constantinopla, com a participação apenas dos bispos orientais. O terceiro concílio realizou-se em Éfeso, no ano 431, e proclamou a origem divina da maternidade de Maria. A maior assembleia cristã da antiguidade foi o Concílio de Calcedônia, realizado em 451. Desde o século IV, a igreja grega passou a atuar em colaboração com o poder político e essa aliança com o estado fortaleceu-se após a separação da igreja de Roma. No século IX, com Fócio, patriarca de Constantinopla, as relações entre as duas igrejas se estremeceram, mas a separação definitiva só se deu em 1054. Desde então a igreja romana se refere à igreja grega como cismática, embora esta se definisse como ortodoxa, ou seja, detentora da reta doutrina. Além das divergências sobre formulações teológicas, originadas de perspectivas culturais diversas, teve também grande peso na ruptura a resistência dos cristãos gregos em aceitar a afirmação cada vez maior do poder político-eclesiástico da igreja romana.

Cristianismo no Império Romano

Cristianismo no Império Romano

Ao iniciar-se a expansão da fé católica pela Anatólia, toda a região estava sob o domínio do Império Romano. Com a destruição de Jerusalém, inúmeros cristãos, entre os quais o apóstolo Pedro, passaram a viver na periferia de Roma, juntamente com outros judeus. A partir de então, Roma foi a sede de religião cristã; daí as expressões cristianismo romano e igreja romana. As celebrações do culto passaram a realizar-se na língua latina. Também a Bíblia foi, mais tarde, traduzida para o latim, por são Jerônimo, tradução conhecida como Vulgata. Ao contrário dos gregos, marcadamente especulativos, os romanos eram um povo jurídico por excelência. Pouco a pouco, o espírito legalista afirmou-se na formação cristã, com ênfase cada vez maior na organização das estruturas eclesiásticas. De acordo com a nomenclatura romana, os territórios onde desabrochava a fé cristã dividiram-se em dioceses e paróquias, à frente dos quais foram postos bispos e párocos, sob a chefia do papa, sucessor de Pedro e bispo de Roma.

A presença cristã no Império Romano foi marcada por duas etapas bem diversas. Na primeira, que se estendeu até o final do século III, a religião cristã viu-se desprezada e perseguida. O imperador Nero foi o primeiro perseguidor dos cristãos, acusados de terem provocado o incêndio de Roma no ano 64. Entre os mártires dessa fase, que durou quatro anos, incluem-se são Pedro e são Paulo. Com Domiciano houve nova perseguição, iniciada por volta do ano 92. Os imperadores antoninos do século III não hostilizaram abertamente os cristãos, mas a legislação permitia que fossem denunciados e levados aos tribunais. Houve perseguições sob Décio, Valeriano e Diocleciano, mas a situação começou a modificar-se com a vitória de Constantino sobre Maxêncio. A partir de Constantino, os imperadores passaram a proteger e estimular cada vez mais a fé cristã, até que, na época de Teodósio I, em fins do século IV, o Império Romano tornou-se oficialmente um estado cristão.

De início professado apenas pelos descendentes de judeus que viviam na periferia de Roma, o cristianismo logo difundiu-se, porém, nas camadas pobres da população, especialmente entre os escravos, e pouco a pouco foi atingindo também as famílias da nobreza romana. Com os decretos de liberdade e oficialização, o cristianismo afirmou-se a ponto de tornar-se, para alguns, veículo de promoção social e caminho para a obtenção de cargos públicos. Na medida em que a fé cristã se consolidou como religião marcadamente urbana, a partir de fins do século IV, os demais cultos passaram a ser perseguidos. Por conseguinte, seus seguidores tiveram que se refugiar na zona rural, donde o nome pagão, ou seja, habitante do campo.

Cristianismo medieval

Cristianismo medieval 

A partir do século V, o Império Romano entrou em decadência até sucumbir às invasões dos povos bárbaros. Quando as populações germânicas ultrapassaram as fronteiras do Império e se estabeleceram no Ocidente, foram os francos os primeiros a abraçar a fé cristã, razão pela qual a França foi chamada, mais tarde, "filha primogênita da igreja". Por força da atividade missionária, outros povos foram, em seguida, aderindo à fé cristã. A partir do século VI, o reino franco foi perdendo o antigo vigor, devido à debilidade dos reis merovíngios, enquanto ocorria a ascensão da casa dos carolíngios. Carlos Magno foi coroado imperador pelo papa Leão II em 800; consolidava-se assim um novo estado cristão, ou seja, a cristandade medieval, fortemente apoiado no sistema feudal. A partir do século XI, essa cristandade foi representada pelo Sacro Império Romano-Germânico e, no século XVI, pelos reinos da Espanha e Portugal.

Enquanto o cristianismo judaico, de caráter rural, assumira características urbanas com a transposição para a cultura greco-romana, a divulgação da fé católica na sociedade medieval provocou o processo inverso, pois os povos anglo-germânicos tinham uma forma de vida marcadamente rural. Não obstante, a hierarquia católica procurou manter valores próprios da civilização romana. Dessa maneira, a língua oficial da igreja continuou sendo o latim, pois os chamados povos bárbaros não tinham ainda expressão literária estruturada. O clero continuou a usar a antiga túnica romana, chamada agora hábito talar dos eclesiásticos. A doutrina religiosa também continuou a ser expressa por categorias filosóficas gregas e a organização eclesiástica se manteve dentro dos padrões jurídicos romanos.

A partir de então, ocorreu de forma bem nítida uma separação entre a religião cristã oficial, sustentada pela hierarquia com apoio do poder político, e o cristianismo popular, marcado por forte influência das culturas anglo-germânicas. Não podendo mais participar do culto por falta de compreensão da língua oficial, o povo passou a desenvolver formas próprias de expressão religiosa marcadamente devocionais. De modo análogo ao que ocorria na vida leiga medieval, com vínculos sociais articulados pelo juramento de fidelidade, mediante o qual os servos se comprometiam à prestação de serviços aos senhores feudais em troca de proteção, também o auxílio celeste passou a ser invocado por promessas que deveriam ser pagas após o recebimento das graças e favores desejados.

A divisão entre religião popular e cristianismo oficial perduraria até os albores do século XVI, não obstante a criação dos tribunais da Inquisição para a manutenção da ortodoxia da fé. Diante da fragilidade da prática religiosa, o Concílio de Latrão IV, celebrado em 1215, decidiu prescrever aos fiéis cristãos a assistência dominical à missa sob pena de pecado, bem como a confissão e a comunhão anual. Daí a origem dos chamados mandamentos da igreja.

Desde o início da Idade Média, sob influência de santo Agostinho, um dos maiores pensadores católicos, houve uma valorização da doutrina da graça divina, mas simultaneamente tomou incremento uma concepção negativa a respeito do corpo e da sexualidade humana. Dentro dessa perspectiva, o Concílio de Elvira, celebrado na Espanha em 305, prescreveu o celibato para os clérigos, medida oficializada posteriormente para toda a igreja. Houve ainda uma grande promoção do monaquismo: a ordem de São Bento, estabelecida em abadias rurais, teve ampla difusão nos primeiros séculos da formação da Europa. A partir do século XIII, as ordens mendicantes, como a fundada por Francisco de Assis, difundiram-se rapidamente.

No século IX, os monges de Cluny, de inspiração beneditina, passaram a dedicar-se à preservação do patrimônio cultural clássico, copiando documentos antigos. No século XIII, a grande contribuição cultural da igreja foi a fundação das primeiras universidades, nas quais se destacaram Tomás de Aquino e Alberto Magno, da ordem dominicana. Não obstante, a visão religiosa de mundo começou a ser questionada a partir do século XV, com as novas descobertas, produto do desenvolvimento científico, cuja origem estava vinculada ao movimento das cruzadas, expedições religiosas que levaram os príncipes cristãos ao estabelecimento de comércio com o Oriente.

Sociedade moderna e ReformaAs mudanças de caráter social, econômico e cultural que ocorreram a partir do século XIV, marcando o fim da Idade Média e o nascimento do mundo moderno ocidental, provocaram uma crise muito forte na instituição eclesiástica e na vivência da fé católica. Diversos grupos passaram a solicitar reformas urgentes e a protestar contra a lentidão e a dificuldade da igreja em adaptar-se aos novos tempos. Dessas divergências resultou a cisão no seio da Igreja Católica e o surgimento das denominações protestantes.

A figura do monge católico Martinho Lutero é exemplar a esse respeito. Diante da emergência progressiva dos idiomas modernos, Lutero apregoava a necessidade de que o culto fosse celebrado em língua vernácula, a fim de diminuir a distância que se interpunha entre o clero e o povo. Desejoso de que os cristãos de sua pátria tivessem acesso às fontes religiosas da fé, traduziu a Bíblia para o alemão. Nessa mesma perspectiva, proclamou a necessidade de adotar para os clérigos os trajes da sociedade em que viviam e contestou a necessidade do celibato eclesiástico. As diversas denominações protestantes surgidas nesse período, como o luteranismo na Alemanha, o calvinismo na Suíça e o anglicanismo na Inglaterra difundiram-se rapidamente em vista de sua maior capacidade de adaptação aos valores da emergente sociedade burguesa.

A profunda vinculação da igreja romana com o poder político, a partir de Constantino, e a progressiva participação da hierarquia eclesiástica na nobreza ao longo da Idade Média fizeram com que os adeptos da fé católica tivessem dificuldades muito grandes para aderir à evolução da sociedade europeia. A Igreja Católica reagiu de forma conservadora não só às novas perspectivas culturais, como também às reformas propostas por Lutero. A expressão mais forte dessa reação antiburguesa e antiprotestante foi o Concílio de Trento, realizado em meados do século XVI. Em oposição ao movimento protestante que defendia a adoção da língua vernácula no culto, os padres conciliares decidiram-se pela manutenção do latim. Acentuou-se o poder clerical na estrutura da  igreja e o celibato sacerdotal foi reafirmado. Diante da popularização da leitura bíblica promovida por Lutero, a hierarquia católica recomendou a divulgação de catecismos com resumo das verdades da fé.

A instituição católica reagiu fortemente contra o avanço da mentalidade humanista, insistindo sobre a necessidade de uma prática ascética. A hierarquia eclesiástica persistiu na vinculação com a antiga nobreza rural e encontrou dificuldade para aceitar os novos valores da burguesia urbana em ascensão. A reação antiburguesa assumiu posições radicais na península ibérica, onde os reis católicos, Fernando e Isabel, implantaram a Inquisição contra os judeus com a finalidade específica de quebrar o poder econômico que eles detinham.

O Concílio de Trento trouxe uma significativa revitalização da instituição católica, com o surgimento de novas congregações religiosas, muitas das quais dedicadas a atividades missionárias, educativas e assistenciais. A Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loyola, tornou-se o modelo da nova forma de vida religiosa. A arte barroca, por sua vez, tornou-se um instrumento importante de expressão da reforma eclesiástica.

A mentalidade conservadora da Igreja Católica perdurou nos séculos seguintes, o que provocou a hostilidade da nova burguesia liberal contra a Companhia de Jesus, expulsa de vários países na segunda metade do século XVIII. A revolução francesa de 1789 assumiu também um caráter nitidamente anticlerical, tendo em vista a aliança da igreja com o poder monárquico do Antigo Regime. Ao longo do século XX, a igreja continuou combatendo as concepções liberais e encontrando dificuldade para assimilar os progressos da ciência. O Concílio Vaticano I, interrompido com a tomada de Roma em 1870, reforçou as posições autoritárias da igreja ao proclamar o dogma da infalibilidade papal. Desde princípios do século XX, o papa Pio X prescreveu a todos os professores de seminários o juramento antimodernista, exigindo fidelidade às concepções teológico-filosóficas elaboradas no século XIII por Tomás de Aquino, fundamentado na cosmovisão grega aristotélica.

Catolicismo e mundo contemporâneo

Catolicismo e mundo contemporâneo 

Após cerca de 400 anos de reação e resistência contra os avanços do mundo moderno, a Igreja Católica iniciou um processo de maior abertura com o Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1968. Entre as conquistas mais expressivas dessa assembleia episcopal, deve-se ressaltar a afirmação de que a fé católica não se vincula diretamente a nenhuma expressão cultural em particular, mas deve adequar-se às diversas culturas dos povos aos quais a mensagem evangélica é transmitida. Dessa forma, a marca da romanidade da igreja deixou de ter a relevância que tivera no passado. Uma das consequências práticas dessa orientação foi a introdução das línguas vernáculas no culto, bem como a adoção progressiva do traje civil pelo clero.

O concílio trouxe uma maior tolerância em relação aos progressos científicos; a posterior revogação da condenação de Galileu foi um gesto simbólico dessa nova atitude. As estruturas da igreja modificaram-se parcialmente e abriu-se espaço para maior participação dos leigos, incluindo as mulheres, na vida da instituição. Ao contrário dos concílios anteriores, preocupados em definir verdades de fé e de moral e condenar erros e abusos, o Vaticano II teve como orientação fundamental a procura de um papel mais participativo para a fé católica na sociedade, com atenção para os problemas sociais e econômicos.

Os padres conciliares mostraram sensibilidade para com os problemas da liberdade e dos direitos do homem. A diretiva pastoral, menos devotada às questões dogmáticas da teologia clássica, permitiu maior aproximação entre a igreja romana e as diversas igrejas ortodoxas de tradição grega, como a armênia e a russa, e as denominações protestantes. Por último, os horrores do anti-semitismo nazista ofereceram oportunidade para que a Igreja Católica repensasse sua tradicional posição de distanciamento em relação ao judaísmo.

Doutrina católica

Doutrina católica

Os quatro primeiros concílios ecumênicos definiram as concepções trinitárias e cristológicas, sintetizadas no símbolo conhecido como Credo, adotado no ritual da missa. O dogma trinitário afirma a crença num só Deus, que se manifesta por meio de uma trindade de pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. O dogma cristológico admite que Cristo é o Filho de Deus, encarnação do Verbo divino, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. O advento de Cristo deu-se por meio da Virgem Maria que, segundo o dogma mariológico, concebeu do Espírito Santo. A finalidade da encarnação de Cristo foi salvar a humanidade do pecado original, que enfraqueceu a natureza humana e acentuou sua tendência para o mal, de acordo com o dogma soteriológico.

A doutrina do pecado original e da graça foi elaborada por santo Agostinho nas primeiras décadas do século V. A partir do século XIII, Tomás de Aquino procurou estabelecer uma ponte entre o saber teológico e a filosofia aristotélica, afirmando que as verdades da fé superam a racionalidade humana mas não estão em contradição com ela. Assim sendo, a filosofia deve estar a serviço da teologia cristã. Tomás de Aquino tornou-se o mestre por excelência da doutrina católica, com a síntese por ele realizada na Suma teológica. No século XVI, o Concílio de Trento definiu dois pontos fundamentais. Em primeiro lugar, a afirmação da doutrina da igreja, considerada como uma sociedade hierárquica, dentro da qual se atribui ao clero o poder de magistério, de ministério do culto e de jurisdição sobre os fiéis. Em segundo lugar, o concílio definiu a doutrina dos sete sacramentos da igreja (batismo, crisma ou confirmação, confissão, eucaristia, extrema-unção, ordem e matrimônio), além de proclamar a presença real de Cristo na eucaristia, no mistério da transubstanciação.

Ao longo dos séculos XVII e XVIII a teologia católica foi conturbada por polêmicas referentes ao papel da graça e da participação do homem em sua própria salvação, onde se confrontam principalmente os jesuítas e os jansenistas, estes últimos partidários de maior valorização da presença do mistério divino na história humana. Durante o século XIX, foram proclamadas como verdades de fé a Imaculada Conceição de Maria e a infalibilidade pontifícia. O primeiro dogma representou uma resposta da Igreja Católica às novas concepções materialistas e hedonistas resultantes da revolução burguesa, paralelas ao processo acelerado de industrialização; o segundo constituiu uma reação ante o avanço das ideias liberais, com afirmação progressiva dos direitos do homem. O último dogma da Igreja Católica foi proclamado por Pio XII em meados do século XX: a Assunção da Virgem Maria ao céu, com corpo e alma. É necessário ainda ter presente que, desde a Idade Média, com o surgimento do chamado catolicismo popular à margem da igreja oficial, criaram-se também novas versões teológicas mais adequadas à compreensão do povo, cuja influência muito se faz sentir na formação do catolicismo brasileiro.


Organização e estruturaO catolicismo apresenta duas características que devem ser levadas em conta na análise de suas posições políticas e religiosas. A primeira é a profunda vinculação entre igreja e poder político, iniciada com Constantino no século IV, mantida ao longo de toda a Idade Média e prolongada em diversos estados durante a época moderna, em alguns países até os dias de hoje. Com muita frequência, portanto, a organização eclesiástica sofreu a influência das alianças com o poder secular. O segundo aspecto a ser considerado é que a igreja transformou-se, desde o início da Idade Média, num verdadeiro estado político, sendo o papa, portanto, não apenas um chefe religioso mas também um chefe de estado, atribuição que conserva até hoje, não obstante o tamanho reduzido do estado pontifício.

Escolhidos por Jesus para pregar o Evangelho, os primeiros apóstolos eram simples pescadores da Galileia, homens de pouca instrução. A fim de prepará-los para sua missão, Jesus reuniu-os ao redor de si, transmitindo-lhes pessoalmente seus ensinamentos. Também os apóstolos e seus primeiros sucessores instruíram os discípulos por meio de contato pessoal, consagrando essa forma de educação sacerdotal nos primeiros séculos da igreja. Muito contribuiu para a formação do clero a fundação de escolas catequéticas em Alexandria, Antioquia e Cesareia, desde fins do século II. A eleição dos clérigos estava a cargo dos apóstolos e seus sucessores, os bispos, mas se costumava ouvir também o parecer da comunidade cristã, a quem competia o sustento dos clérigos, dos quais se exigiam virtudes e qualidades morais.

De início, o celibato não era obrigatório para os clérigos que ingressavam casados no estado eclesiástico. Tampouco se fazia distinção entre os termos bispo e presbítero; havia também as diaconisas, devotadas ao cuidado dos enfermos e instrução das mulheres, mas tal ordem eclesiástica desapareceu no século VII. Nos primeiros séculos, a comunidade cristã dependia diretamente dos bispos, como atesta Inácio de Antioquia; somente mais tarde foram criadas as paróquias.

A pujança da vida cristã, no início do século IV, é atestada ainda hoje pelas basílicas romanas: São Pedro, São Paulo, Santa Maria Maggiore, São Lourenço, São João do Latrão, São Sebastião e Santa Cruz de Jerusalém. Construídas sob o patrocínio de Constantino e de sua mãe, Helena, são prova do esplendor de que se revestia então o culto litúrgico. Nos principais centros do Ocidente, como Cartago, Milão e Roma, generalizou-se a praxe da missa cotidiana. Como regra geral, o clero se formava à sombra dos presbitérios e das abadias. Na Itália, sacerdotes de diversas paróquias reuniam em seus presbitérios os aspirantes ao sacerdócio, para instruí-los no serviço divino. Agostinho e Eusébio de Vercelas reuniam na própria casa episcopal os jovens desejosos de seguir a vocação sacerdotal. Também os mosteiros preparavam um clero seleto. O celibato, prescrito inicialmente para o clero da Espanha e depois estendido para toda a igreja do Ocidente pelo papa Sirício, no sínodo romano de 386, foi rejeitado pelos bispos do Oriente, onde vigorou apenas a proibição de núpcias para os que recebiam solteiros as sagradas ordenações.

Com a queda do Império Romano, a igreja passou a ocupar-se da evangelização e conversão dos povos germânicos, o que deu origem a novos modelos de organização eclesiástica. Nos reinos dos visigodos e dos francos, ao lado da eleição feita pelo metropolita e avalizada pelo povo, exigia-se desde o século VI a confirmação real para o episcopado. Tanto a igreja franca como a visigótica assumiram um caráter fortemente nacionalista, acentuando-se sua independência com relação à Santa Sé. Em ambas as cristandades, infiltrou-se o instituto das "igrejas próprias". As igrejas rurais passaram a ser consideradas propriedades particulares dos senhores da terra, que se imiscuíam na eleição de párocos e capelães. Na igreja franca, ao lado de um alto clero político e mundano, surge um clero inferior inculto e desregrado. No reino visigótico, a vida religiosa do clero revitalizou-se no século VII com a convocação de numerosos sínodos. Apesar disso, a prática do celibato foi quase abandonada, a tal ponto que o rei Vitiza julgou-se autorizado a suprimi-la de todo no início do século VIII.

A partir de Pepino o Breve, é notória a ação dos carolíngios em favor da igreja; pode-se mesmo atribuir a essa dinastia o surto reformador do século VIII e seguinte. Carlos Magno e seu filho Luís o Piedoso, em modo particular, deram importância excepcional à reforma da igreja. Durante o reinado do primeiro, instituíram-se muitas paróquias e bispados, a posição dos bispos nas dioceses foi valorizada pelas visitas pastorais e pelos sínodos e o pagamento dos dízimos consolidou a base econômica das igrejas. O imperador ordenou também a fundação de escolas ao lado das catedrais, mosteiros e abadias. Embora vinculado aos interesses expansionistas do reino franco, o incremento da atividade religiosa converteu o reinado de Carlos Magno na primeira experiência de construção da cristandade medieval.

Durante a época feudal dos séculos X e XI, houve acentuada decadência da vida cristã, ocasionada, em primeiro lugar, pelas contínuas incursões dos normandos, húngaros e sarracenos, que traziam devastações, desorganização, miséria e fome para o povo. A conversão em massa da população provocou uma assimilação muito superficial do cristianismo. Além disso, na conversão dos saxões foi utilizada a força armada, gerando-se com isso o ódio e não o amor pela fé cristã. Assim sendo, desagregado o império carolíngio, o povo retornou à vida primitiva e retomou costumes pagãos: práticas supersticiosas e uso de amuletos e sortilégios. O paganismo se manifestava na instituição dos ordálios, ou juízos de Deus, resolvidos por meio de duelos, provas de fogo e de água, nas quais se esperava uma intervenção miraculosa da divindade em favor do inocente. Dominava o espírito de vingança, sensualidade e ebriedade, sendo comuns as violações do vínculo matrimonial.

A decadência da vida cristã manifestava-se também na deficiente prática religiosa e sacramental. Aumentava o culto dos santos, eivados muitas vezes de práticas supersticiosas e de ignorância. Cresceu a veneração indiscriminada das relíquias, que eram da mesma forma comercializadas ou roubadas. Relíquias falsas eram postas com facilidade em circulação: três localidades da Europa se vangloriavam de possuir entre seus tesouros, a cabeça de são João Batista; chegavam a 33 os cravos da Santa Cruz venerados em diversas igrejas; a abadessa Ermentrude de Jouarre falava em relíquias como o fruto da árvore da ciência do bem e do mal e Angilberto enumera, entre as relíquias do mosteiro de São Ricário, a candeia que se acendeu no nascimento de Jesus, o leite de Nossa Senhora e a barba de são Pedro.

Desde meados do século IX até fins do século XI, a observância do celibato entrou em grande decadência e num abandono quase completo. Padres e bispos casados preocupavam-se por vezes mais com sua família do que com o ministério pastoral. Os bens eclesiásticos eram também utilizados para prover parentes, ou transmitidos aos filhos, formando-se uma espécie de dinastia sacerdotal. Outro abuso de vastas proporções era a compra e venda de benefícios e ministérios eclesiásticos. Houve casos de simonia, ou seja, tráfico de coisas sagradas, na aquisição das dioceses da França, Itália e Alemanha. A fim de recuperar o dinheiro gasto com a própria nomeação, os bispos eleitos dessa forma não admitiam clérigos às sagradas ordenações senão mediante alguma compensação pecuniária. Os presbíteros não administravam os sacramentos sem remuneração. No sínodo realizado em Roma em 1049, o papa Leão IX quis depor os sacerdotes ordenados por bispos considerados simoníacos, mas os casos eram tão numerosos que ele não pôde concretizar sua decisão, pois teria privado de cura de almas um número muito grande de igrejas.

Sob a orientação do papa reformador Gregório VII e de seus sucessores, afirmou-se a autoridade legislativa e administrativa da igreja romana nos séculos XII e XIII. Diminuiu a influência dos costumes germânicos, substituídos pelo direito romano, utilizado sob a forma de direito canônico pela instituição eclesiástica. O apelativo "papa", já usado precedentemente pelo bispo de Roma, assumiu significado pleno e exclusivo. Desde o século XI, introduziu-se também o uso da tiara, como símbolo do poder eclesiástico. Fortaleceu-se a doutrina da autoridade normativa da Sé Apostólica para toda a igreja. A partir de então, apenas o papa podia convocar e aprovar os concílios ecumênicos. Organizou-se a Cúria Romana para despacho dos negócios referentes ao papa e ao estado pontifício. Nomearam-se os cardeais, espécie de senadores da igreja, com quem o papa resolvia as questões mais importantes em reuniões denominadas consistórios. Os cardeais passaram a ser enviados mais amiúde às diversas nações como legados pontifícios. Tal instituição chegou ao máximo desenvolvimento sob Inocêncio III, papa que governou na passagem do século XII para o século XIII e sob o qual o poder de Roma afirmou-se de forma enérgica e intransigente.

O fortalecimento do poder romano induziu os papas a se tornarem os incentivadores da libertação da Terra Santa das mãos dos muçulmanos, dirigindo contra eles as cruzadas ou guerras santas. A defesa da ortodoxia católica teve também como resultado a criação do tribunal da Santa Inquisição. Esta apresentava desde o início graves vícios, como a aceitação de denúncias e testemunhos de pessoas cuja identidade era mantida em segredo, a não-admissão de  defensores, o abuso do conceito de heresia, a aplicação da tortura e a pena de morte. Embora as execuções fossem efetuadas pelas autoridades civis, esse particular não diminui a responsabilidade da igreja; no entanto, o juízo sobre a Inquisição deve levar em conta a mentalidade da época, que considerava a fé cristã como o máximo bem, e a apostasia e a heresia como os piores delitos.

A afirmação política da Santa Sé conduziu os papas a diversos conflitos com reis e príncipes. Em consequência disso, os papas passaram a residir em Avignon no século XIV, pressionados pelos monarcas franceses. Em contraposição aos pontífices de origem francesa, foram eleitos papas italianos, num cisma que se prolongou até 1449. Em vista dessa situação, os teólogos passaram a questionar a autoridade papal e as doutrinas conciliares ganharam força. A partir de Sisto IV, eleito em 1471, os pontífices passaram a atuar mais como príncipes do que como sacerdotes e se comportavam como dinastas da Itália que, acidentalmente, eram também papas. A atuação mundana dos papas exigia novas práticas e expedientes: negócios financeiros, vendas de ofícios e favores, artes pouco honestas e o nepotismo (favoritismo aos sobrinhos).

O nepotismo marcou fortemente o pontificado de Sisto IV e seu sucessor, Inocêncio III, que tinha como objetivo dominante enriquecer o filho natural, Franceschetto. Sucedeu-lhe, por tráficos de simonia, o cardeal Rodrigo Borgia, que assumiu no pontificado o nome de Alexandre VI, notório por adultérios, perfídias e crueldades.

Nesse período de crise da igreja, Martinho Lutero iniciou o movimento reformador que culminou na separação das chamadas igrejas protestantes. Só então a igreja romana decidiu-se pela convocação de um concílio (o de Trento), já tão desejado pelos cristãos. Como resultado da assembleia conciliar, houve novo fortalecimento da autoridade pontifícia. O papa tornou-se o verdadeiro orientador e promotor da reforma católica, intervindo em todos os assuntos eclesiásticos. Para isso, muito contribuiu a nova organização da Cúria Romana e do colégio dos cardeais, realizada por Sisto V. Em 1586, ele fixou em setenta o número de cardeais, só ultrapassado no século XX, a partir do pontificado de Pio XII. Em 1587, o papa estabeleceu também em 15 o número de congregações romanas na Cúria, como instrumento para implantar a reforma na igreja. Mereceram especial referência a congregação dos bispos, dos religiosos, dos ritos e dos estudos eclesiásticos.

Com as mesmas finalidades de governo, foram estabelecidas de modo definitivo as nunciaturas apostólicas, ou seja, embaixadas papais nas diversas nações católicas. Anteriormente, os representantes do papa junto aos reinos eram designados como legados, muito valorizados pela reforma implantada por Gregório VII. O Concílio de Trento representou, sem dúvida, um evento de excepcional importância da Igreja Católica e suas repercussões se prolongaram pelos séculos seguintes. Ao lado, porém, dos grandes benefícios advindos em termos de fortalecimento da fé e da moral católica, implantou-se na igreja o espírito apologético, do qual a congregação do Santo Ofício, com a censura de obras consideradas nocivas à religião, foi a expressão mais significativa. Esse mecanismo autoritário existe até hoje com o nome de Congregação da Doutrina da Fé. O centralismo romano aumentou o espírito conservador e autoritário da igreja, preocupada na época em defender-se contra o avanço protestante e contra a mentalidade humanista. No século XIX, o poder centralizador da Cúria foi reforçado ainda mais, tornando-se os bispos simples agentes das orientações da Santa Sé.
Não obstante a renovação de ideias que marcou o Concílio Vaticano II, a estrutura da Cúria Romana e a organização do estado pontifício permaneceram quase intactos. Essas instituições serviram de base para o movimento neoconservador posteriormente desencadeado pela Santa Sé, no intuito de frear a modernização da igreja em diversos países, em busca de adaptação ao mundo contemporâneo e às realidades de cada região.

Igreja Católica no Brasil
Igreja Católica no Brasil

Cristandade colonial A fé católica foi trazida ao Brasil pelos portugueses que se estabeleceram no território a partir de 1500. Os indígenas, seus primeiros habitantes, praticavam cultos religiosos diversos, conforme as nações ou tribos a que pertenciam. Os missionários católicos, sobretudo jesuítas e franciscanos, desenvolveram grande atividade de conversão. Na sociedade colonial a fé católica era obrigatória, não sendo toleradas outras formas de manifestação religiosa. Por essa razão, as populações negras trazidas como escravas foram obrigadas também a receber o batismo e observar os preceitos católicos. Desde o início, a prática da fé expressou-se em duas vertentes principais: uma popular e outra oficial, características já assinaladas no catolicismo da Idade Média.

O catolicismo de tipo popular veio com os próprios colonos lusitanos e se caracterizava pela devoção aos santos, dos quais se esperava proteção para superar as dificuldades e resolver os problemas desta vida, bem como para obter a salvação eterna. Os oratórios dentro de casa e nas ruas, as capelas e ermidas nas vilas e arredores tornaram-se os principais centros de devoção popular. A fé popular se expressava por meio de terços, ladainhas e benditos, bem como mediante promessas, procissões e romarias. Inúmeros santuários foram dedicados à comemoração dos sofrimentos e da paixão de Cristo: Bom Jesus de Iguape, Bom Jesus de Tremembé e Bom Jesus de Pirapora, em São Paulo, bem como Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas (MG). Também a Virgem Maria foi objeto de culto especial, destacando-se o santuário da Penha, no Espírito Santo; o de Nossa Senhora da Piedade, em Minas Gerais; e o de Aparecida, em São Paulo. Entre os santos de devoção popular mais conhecidos estavam são Francisco, santo Antônio, são João e são Pedro, sendo os três últimos comemorados nas festas juninas. Muitas pessoas recebiam esses nomes na pia batismal. As confrarias e irmandades religiosas organizadas pelos leigos constituíram a forma mais significativa de promoção da fé católica. Os leigos assumiam funções religiosas como rezadores, benzedores e conselheiros.

O catolicismo oficial foi promovido pela hierarquia eclesiástica, com a colaboração do poder estabelecido, e teve como principais divulgadores os religiosos missionários. A estrutura da igreja durante os três séculos de vida colonial era bastante precária. Foram estabelecidas apenas sete dioceses nesse período: Bahia, Rio de Janeiro, Pernambuco, Maranhão, Pará, São Paulo e Mariana, em Minas Gerais. Além disso, houve longos períodos de vacância episcopal. Dois foram os principais polos de difusão do catolicismo oficial: as missões e as paróquias. Com a atividade missionária, os religiosos procuravam reunir os indígenas em aldeamentos ou reduções, onde recebiam a catequese e os sacramentos. As paróquias constituíam os núcleos da prática religiosa dos católicos luso-brasileiros e nelas se realizavam batismos, matrimônios e enterros. Os registros paroquiais ofereciam também a documentação civil correspondente às certidões de nascimento, de casamento e óbito. O fato de se pertencer à fé católica servia como prova de identidade luso-brasileira, por ser condição imprescindível para a permanência no território colonial. A celebração da missa dominical realizava-se não apenas nas paróquias, mas também nas capelas das fazendas e dos engenhos, onde por vezes residiam capelães permanentes.

Igreja Católica no BrasilDurante a quaresma, os religiosos se encarregavam de viajar pelo interior a fim de ministrar a confissão e comunhão anual exigidas pelo Concílio de Latrão IV. Tais visitas recebiam o nome de desobrigas, pois tratava-se de cumprir uma obrigação imposta pela igreja. Nessa época, a formação do clero secular era bastante precária e o celibato eclesiástico pouco observado. Tanto os bispos como os padres diocesanos eram considerados funcionários eclesiásticos e remunerados pela Fazenda Real. Para cuidar dos assuntos religiosos da colônia foi estabelecida em Lisboa a Mesa da Consciência e Ordens, uma espécie de Ministério do Culto. A defesa da ortodoxia religiosa era feita pelo Tribunal da Inquisição da Metrópole, realizando-se no Brasil diversas visitações do Santo Ofício. Dessa forma, enquanto a prática da religião popular era objeto de devoção, a religião oficial gerava medo e funcionava como instrumento de coerção.

Crise da cristandade O ano de 1759, data da expulsão dos jesuítas, pode ser assinalado como o início simbólico da crise da cristandade, que durou até meados do século XIX. Duas causas podem ser indicadas como principais geradoras desse processo de desestabilização e desestruturação da cristandade colonial. A primeira, inerente à vida da própria metrópole lusitana, foi o esforço de modernização burguesa do reino, intentado pelo marquês de Pombal, que visava a diminuir o tradicional poder da nobreza e da Igreja Católica junto à coroa. Para incentivar a mudança de mentalidade, promoveu-se uma profunda reforma nos estudos, a começar pela Universidade de Coimbra. Desde então, passaram a ser incentivados os estudos das ciências físicas e naturais, diminuindo-se o domínio da tradicional filosofia escolástica aristotélico-tomista. A reforma pombalina tinha como meta enfraquecer o poder da aristocracia e do clero, os dois estamentos até então dominantes na sociedade lusitana. Em consequência dessa reforma, a intelectualidade brasileira, cujos estudos superiores se faziam na Europa, imbuiu-se da nova mentalidade iluminista. A perspectiva racionalista permitiu uma relativização maior do caráter sacral até então inerente à concepção de estado; abria-se dessa forma a possibilidade de uma posição crítica mais firme em relação à dominação colonialista.

A segunda causa da desestabilização da cristandade colonial foi a influência do pensamento liberal. À revelia da censura metropolitana, muitos brasileiros começaram a ter acesso às novas ideias que germinavam na Europa e nos Estados Unidos, cujo resultado prático foi a independência americana em 1776 e a revolução francesa em 1789, com a proclamação dos direitos do cidadão. Em consequência, iniciaram-se no Brasil diversas conspirações e movimentos insurgentes contra a metrópole, como a inconfidência mineira de 1789, a conjuração baiana de 1798 e a revolução pernambucana de 1817. Parte importante do clero urbano aderiu às concepções iluministas e liberais. O mentor intelectual do movimento mineiro foi o cônego Luís Vieira e ao padre João Ribeiro coube a elaboração do ideário da revolução pernambucana. Nesta, destacaram-se como líderes revolucionários os padres Roma e Miguelinho, bem como frei Caneca, principal promotor da Confederação do Equador em 1824, numa recusa à constituição outorgada por D. Pedro I, após o fechamento da Assembleia Constituinte de 1823.

Pode-se falar nesse período de um incipiente catolicismo iluminista, compartilhado por clérigos e leigos que integravam a sociedade urbana em formação. Uma das marcas da nova mentalidade religiosa era a perspectiva liberal, daí resultando a rejeição da dominação colonial e sua sacralização. Esses católicos, que faziam restrições às manifestações religiosas populares, vistas como expressão de ignorância cultural, distanciaram-se também do catolicismo oficial. Aderiram firmemente à causa da luta pela independência, propugnando inclusive uma constituição liberal para o país, à revelia do poder autoritário de D. Pedro I e do clero absolutista que o apoiava.

Com o objetivo de preservar as relações diplomáticas com Portugal, a Santa Sé relutou em reconhecer a independência do Brasil. Desenvolveu-se então, entre o clero liberal e iluminista uma insatisfação com o poder eclesiástico de Roma e uma aproximação  com a coroa imperial. O padre Diogo Feijó, regente do império, tornou-se símbolo dessa surpreendente aliança. Em vista da precariedade da observância do celibato eclesiástico, ele chegou mesmo a propor a abolição desse preceito no território nacional, indispondo-se com a Cúria Romana. Com a ascensão de D. Pedro II ao trono, porém, fortaleceu-se o partido conservador e o clero liberal perdeu o espaço que ocupara no cenário da vida brasileira.

Romanização do catolicismoA partir do início do segundo reinado, em 1840, surgiu um movimento dirigido pela hierarquia eclesiástica que visava a desvincular a igreja da coroa luso-brasileira e colocá-la sob as ordens diretas da Santa Sé. Esse movimento foi incentivado pelos núncios apostólicos, estabelecidos no Brasil a partir de 1808, como representantes da Cúria Romana. Três fases caracterizam esse novo período da história da igreja no Brasil, conhecido como romanização do catolicismo: a reforma católica, a reorganização eclesiástica e a restauração católica.


Reforma católicaProlongou-se durante todo o segundo reinado o esforço do episcopado por imprimir ao tradicional catolicismo luso-brasileiro as marcas do catolicismo romano. Os prelados que lideravam esse projeto foram designados bispos reformadores, destacando-se entre eles D. Antônio Ferreira Viçoso, de Mariana (MG), D. Antônio Joaquim de Melo, de São Paulo, D. Antônio de Macedo Costa, do Pará, e D. Vital de Oliveira, de Olinda e Recife (PE). Duas foram as principais preocupações dos bispos: a reforma do clero e a reforma do povo cristão. A primeira pretendia a formação de um clero piedoso e santo, observante do celibato eclesiástico e afastado dos negócios seculares e da participação política; visava também à preparação teológica dos clérigos. Essa formação especificamente doutrinária afastou os clérigos da cultura brasileira e do progresso científico em geral. Multiplicaram-se os seminários menores e maiores, destinados a abrigar desde a meninice os futuros candidatos ao sacerdócio, sob a direção de religiosos vindos da Europa. Foram os padres lazaristas e capuchinhos franceses, bem como os jesuítas alemães e italianos, os que mais se destacaram na atuação junto aos seminários. O resultado foi um clero de conduta rígida e puritana, com bastante conhecimento da doutrina religiosa, mas com pouca sensibilidade para com os problemas socioculturais do povo brasileiro.

Quanto ao povo cristão, a preocupação fundamental era afastar os fiéis do catolicismo luso-brasileiro, marcadamente devocional, e orientá-los para a prática do catolicismo romano, com ênfase no aspecto doutrinário e sacramental. A estratégia pastoral do episcopado constituiu em apossar-se dos santuários e centros de devoção popular e entregá-los à direção de institutos religiosos europeus. Proliferavam as missões populares, conhecidas como santas missões, destinadas a inocular a prática sacramental e uma vinculação cada vez maior com a hierarquia eclesiástica.

O processo de romanização do catolicismo não se realizou pacificamente. Muitos padres e irmandades leigas tradicionais resistiram ao avanço do poder autoritário da hierarquia, por meio da imprensa ou mediante conflito aberto com o episcopado. No final do século XIX, no entanto, o movimento dos bispos reformadores podia ser considerado vitorioso.

Reorganização eclesiástica A proclamação da república marcou o início de uma nova etapa na vida católica no Brasil, em virtude do decreto de separação entre igreja e poder civil. A partir de então, o catolicismo deixou de ser religião oficial e o estado passou a ser considerado leigo. O clero perdeu o direito de subvenção pelos cofres públicos e a igreja do Brasil reforçou sua dependência em relação à Santa Sé.

A fim de fortalecer a instituição clerical, a Cúria Romana desenvolveu atividades em três setores específicos: multiplicação das dioceses, reforma das antigas ordens religiosas e envio de novas congregações para o Brasil. O pequeno número de dioceses brasileiras no período colonial cresceu pouco no império, quando foram criadas mais cinco: Goiás, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Ceará e Diamantina (MG). Às 12 dioceses existentes no fim do império acrescentaram-se depois muitas outras, fundadas nas primeiras décadas da república. Em 1909, por exemplo, São Paulo tornou-se sede metropolitana, sendo seu território dividido entre cinco outras dioceses. Na escolha dos novos prelados, deu-se preferência àqueles que haviam completado a formação em Roma ou em seminários europeus. Esses bispos caracterizaram-se por uma fidelidade irrestrita à Santa Sé e por uma observância rigorosa das diretrizes da Cúria Romana.

Em vista das restrições levantadas pelo governo imperial para a aceitação de noviços a partir de 1855, as antigas ordens religiosas dos franciscanos, carmelitas e beneditinos se encontravam em situação precária. O início da crise datava de fins do século XVIII. A Santa Sé decidiu, por conseguinte, enviar religiosos europeus para que assumissem a direção dos conventos, fortalecendo assim o processo de romanização da igreja no Brasil. A Cúria Romana incentivou também a vinda de inúmeras outras congregações masculinas e femininas destinadas a colaborar com o episcopado na atividade pastoral, bem como atuar na área educacional e assistencial.

Tanto nas paróquias como nos estabelecimentos educativos, a atuação dos religiosos europeus foi muito importante. As antigas irmandades e confrarias leigas foram substituídas por novas associações religiosas, controladas diretamente pelos clérigos, como o Apostolado da Oração, a Associação das Filhas de Maria e dos Marianos e a Liga Jesus, Maria e José. As crianças foram chamadas a participar da Cruzada Eucarística. Os religiosos trouxeram também novas devoções: os salesianos promoveram o culto de Nossa Senhora Auxiliadora e de Dom Bosco; os redentoristas, o de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e de são Geraldo; e os jesuítas, o de são Luís. A principal  característica dessas novas devoções era a ênfase na prática da confissão e da comunhão frequente. Nos internatos católicos estabeleceu-se a missa cotidiana, como estímulo aos alunos para a recepção dos sacramentos.

Enquanto a prática do catolicismo luso-brasileiro continuou sendo mantida pelas camadas populares do interior, as classes médias urbanas passaram a adotar cada vez mais o catolicismo romanizado, mais consentâneo com a aspiração de amoldar-se à cultura europeia que lhes era familiar. A difusão dos catecismos preparados pelo episcopado deu maior consistência doutrinária ao modelo de expressão religiosa. Por isso, os bispos passaram a referir-se ao tradicional catolicismo luso-brasileiro como manifestações de ignorância, superstição e fanatismo. Desamparados pelo clero e marginalizados socialmente pelo avanço do projeto capitalista em áreas rurais, diversos grupos populares se uniram em movimentos de contestação político-religiosa, como em Juazeiro do Norte, Canudos e na região do Contestado, entre o Paraná e Santa Catarina. Tanto em Canudos como no Contestado, os movimentos foram reprimidos pela força militar, com aprovação tácita da igreja.

Restauração católica A partir de 1922, comemoração do centenário da independência do Brasil, iniciou-se a terceira fase de romanização do catolicismo: a restauração católica. Um dos aspectos mais importantes da primeira fase fora a reação antiliberal e um certo afastamento da igreja da vida política; na segunda fase, a preocupação fundamental da hierarquia católica fora a reorganização e o reforço de suas estruturas internas; a terceira fase, por seu turno, foi marcada pela opção decidida da instituição eclesiástica por uma maior presença na sociedade brasileira. Como condição fundamental para a realização desse objetivo, o episcopado procurou uma reaproximação com o poder político, anteriormente repudiado. Por causa da colaboração dos bispos com as autoridades civis num projeto comum, essa etapa da história católica foi também designada com o nome de neocristandade.

A posição da igreja no Brasil encontrava apoio e estímulo na própria Santa Sé, que reatava nessa época a aliança com o estado italiano, consolidada em 1929 com o Tratado de Latrão. No caso brasileiro não houve acordo firmado, mas declarações formais de amizade e colaboração tanto por parte da hierarquia católica como dos chefes políticos. De fato, com a fundação do Partido Comunista e os cada vez mais frequentes movimentos grevistas dos trabalhadores, que exigiam mudanças sociais, o governo precisava do apoio eclesiástico para garantir a ordem estabelecida.

Para levar avante o projeto restaurador, fundou-se no Rio de Janeiro o Centro Dom Vital, sob a direção do jornalista Jackson de Figueiredo, que reunia intelectuais católicos, entre os quais destacaram-se Gustavo Corção e Alceu Amoroso Lima, conhecido sob o pseudônimo literário de Tristão de Ataíde. O Centro Dom Vital tornou-se um baluarte da defesa dos ideais conservadores da igreja no Brasil, com a publicação da revista A Ordem, que propugnava a resistência ao avanço dos movimentos reformistas e sociais no país.  Esse grupo de intelectuais católicos e o clero em geral não escondeu sua simpatia por movimentos de cunho autoritário, como o integralismo no Brasil, o salazarismo em Portugal, o franquismo na Espanha e o fascismo na Itália. Embora sem fundar um partido católico como desejavam alguns, o cardeal Leme organizou a Liga Eleitoral Católica, que vetava candidatos a cargos públicos que não afinassem com a orientação política e moral da igreja.

Na Constituinte de 1934, os católicos conseguiram vitórias significativas: o novo texto constitucional foi promulgado em nome de Deus, reconhecia o direito do ensino religioso nas escolas públicas e vetava o projeto de divórcio. O exército brasileiro passou a ter capelães militares e o governo foi autorizado a subvencionar as obras assistenciais e educativas dirigidas pelos religiosos.

Durante o Estado Novo, a igreja continuou a conviver pacificamente com o regime autoritário. Uma das manifestações mais expressivas do novo papel da Igreja Católica na sociedade brasileira foram os congressos eucarísticos nacionais, celebrados nos principais centros urbanos e congregando multidões, com participação das autoridades civis e militares ao lado dos membros da hierarquia eclesiástica. A fé católica afirmava-se como a religião da nação brasileira.

Com o fim da segunda guerra mundial, porém, as ideias liberais e democráticas passaram a ganhar cada vez mais espaço na opinião pública mundial e na própria sociedade brasileira. Também dentro da igreja surgiram grupos e movimentos que provocaram uma mudança de rumo no projeto eclesiástico. Pouco a pouco, foi abandonado o sonho da neocristandade e a instituição eclesiástica abriu-se para as ideias liberais e democráticas e para os projetos de mudança social. O golpe militar de 1964 contribuiu de maneira decisiva para afastar a igreja da aliança com o poder político.

Renovação pastoral O período de renovação pastoral da igreja no Brasil iniciou-se em 1962, sob a influência do Concílio Vaticano II. Enquanto o Concílio de Trento tivera um caráter marcadamente doutrinário e apologético, mediante rígida definição das verdades da fé e condenação de erros e heresias, a nova assembleia conciliar destacou-se por uma orientação voltada para a prática pastoral, na qual se pretendia evitar toda atitude de intransigência.

Distinguem-se duas fases nessa nova etapa de vivência da fé católica. Na primeira, buscou-se a atualização das estruturas eclesiásticas, defasadas em relação à mentalidade do mundo contemporâneo. Essa etapa foi iniciada sob a inspiração de teólogos europeus, preocupados com a descristianização acentuada que se verificava em seus países. Como objetivos primordiais definiram-se o diálogo com o mundo científico, a adaptação da linguagem religiosa à sociedade moderna e o esforço de reaproximação com as outras igrejas cristãs. A segunda fase teve início com as assembleias episcopais de Medellín (1968) e Puebla (1979). A ênfase principal passou a ser a realidade dos países latino-americanos e a necessidade de que a igreja se mostrasse sensível a seus problemas como condição básica para a promoção da fé católica.

Os diversos grupos de Ação Católica contribuíram muito para a mudança de rumos da igreja no Brasil, promovendo a abordagem dos problemas de ordem política e social. O episcopado, no entanto, não conseguiu acompanhar o ritmo dessa evolução de mentalidade e terminou por suprimir os vínculos das associações leigas com a instituição eclesiástica, subtraindo-lhes o direito de representar posições católicas. Um dos pontos fundamentais da nova orientação da igreja foi a opção preferencial pelos pobres. Em decorrência dessa posição, muitos padres e religiosos, cujas atividades situavam-se até então em paróquias e colégios destinados ao atendimento das classes médias urbanas, deslocaram-se para as periferias das grandes cidades e para as regiões mais carentes do Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

A expressão mais importante da renovação pastoral foram as Comunidades Eclesiais de Base, rapidamente difundidas e multiplicadas pelo território nacional. Reunidos em pequenos grupos para as celebrações litúrgicas e leituras da Bíblia, os fiéis católicos tomaram consciência da necessidade de lutar por melhores condições de vida e por reformas sociais. Alguns organismos católicos assumiram grande importância nessa etapa e entre eles se destacaram o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e as Comissões de Justiça e Paz, empenhados na defesa dos direitos humanos, violados com frequência durante o período de regime autoritário implantado no país em 1964.

Os processos, prisões, torturas e mortes infligidos a leigos e sacerdotes tornaram a hierarquia eclesiástica mais sensível a esses problemas. A participação mais ativa dos leigos, incluindo as mulheres, na vida da igreja constituiu uma das características da renovação pastoral.

Outro aspecto importante a ser assinalado é a emergência de um novo tipo de fé distinto do catolicismo luso-brasileiro e do catolicismo romanizado. Uma das marcas do tradicional catolicismo luso-brasileiro foi a penetração em todos os segmentos da sociedade colonial, das camadas populares à classe senhorial. Já o catolicismo romanizado teve maior difusão em áreas de imigração europeia, sobretudo na região Sul do país, e entre as classes médias urbanas. O catolicismo de tipo clerical, com ênfase no aspecto doutrinário e sacramental, ainda permanece forte nas pequenas cidades, enquanto nos grandes centros urbanos se acentua o processo de secularização da sociedade e a indiferença para com as práticas, a doutrina e a moral católicas. Além disso, grande número de crenças religiosas disputam o espaço anteriormente hegemônico da fé católica.

O novo modelo de catolicismo, apropriadamente denominado latino-americano, tem como um de seus aspectos principais a busca das raízes afro-indígenas que marcaram nossa formação social. Decorre daí uma solidariedade mais profunda com os demais povos da América Latina. Importa ressaltar que esse tipo de vivência católica não surgiu por um ato de vontade de alguns líderes religiosos, mas resultou da nova perspectiva cultural de aproximação entre os latino-americanos, já expressa na literatura, na música e no cinema e afirmada pelos próprios chefes políticos de diversos países. Esse modelo de catolicismo se difunde sobretudo entre as camadas populares, das quais muitos segmentos continuam marginalizados da sociedade brasileira. Nas áreas de concentração popular se implantaram e desenvolveram as Comunidades Eclesiais de Base.

Entre as características principais do catolicismo latino-americano está a inspiração bíblica e a afirmação da igreja como povo de Deus. É a partir da reflexão sobre as Sagradas Escrituras que os fiéis passam a atuar na vida comunitária. Da mesma maneira, destaca-se o compromisso político resultante dessa nova perspectiva, que visa à criação de uma sociedade mais justa e mais fraterna. Tanto o êxito da renovação pastoral quanto a consolidação do catolicismo latino-americano supõem não apenas a aceitação de uma nova perspectiva teológica, mas também mudanças nas estruturas da igreja, promovida pelo exame da doutrina e de sua atual organização.

Concílio de Trento

Concílio de Trento 

O Concílio de Trento foi o 19º concílio ecumênico da Igreja Católica e se desenvolveu em três fases principais, entre 1545 e 1563. A reunião de legados papais, bispos, cardeais, teólogos e gerais de ordens, que pôs fim a um período de desorientação dos fiéis e graves irregularidades na gestão temporal da igreja, marcou também o início de uma etapa de clareza doutrinária, disciplina e centralização que culminaria mais tarde no Concílio Vaticano I. 

Por suas decisões na esfera do dogma e da legislação eclesiástica, o Concílio de Trento transcendeu os objetivos que se propunha e condicionou a futura evolução do catolicismo em todo o mundo religioso.

Antecedentes - A Igreja Católica vivia um processo de decadência, agravada a partir do século XIV. A transferência da sede papal para Avignon e o cisma do Ocidente haviam solapado a autoridade pontifícia. Os papas do Renascimento, que pouco se ocuparam da doutrina, mantinham uma corte secularizada, em que predominavam as disputas políticas e o nepotismo. O quinto Concílio de Latrão (1512-1517) não foi capaz de instituir as mudanças necessárias e, no mesmo ano de seu encerramento, Lutero proclamou em Wittenberg as 95 teses que deram origem à Reforma protestante.

A urgência da mudança tornou-se evidente com as manifestações sucessivas na Inglaterra, Países Baixos, Alemanha e Suíça, mas o papa Clemente VII temeu não só a repetição das turbulências ocorridas em concílios anteriores como as pressões políticas do imperador Carlos V. No entanto, seu sucessor, Paulo III, estava convencido de que a unidade cristã e uma eficaz reforma da igreja só se efetivariam com a realização do concílio. Depois de algumas tentativas frustradas, convocou um concílio em Trento, no norte da Itália, que começou em 13 de dezembro de 1545.

Andamento do concílioEm contraste com as dificuldades políticas, a preparação teológica das sessões evoluiu de forma profunda e eficiente. Na primeira etapa do concílio, que se prolongou até 1547, foram fixadas as fontes da revelação - as Sagradas Escrituras e a tradição - e estabeleceu-se o cânon dos textos bíblicos; definiu-se também a doutrina sobre o pecado original e tratou-se o problema da justificação pela fé e as boas obras.

Na segunda etapa, entre 1551 e 1552, sob o pontificado de Júlio III, os delegados finalizaram os decretos sobre a eucaristia, que definiu a doutrina da transubstanciação; a confissão, que foi amplamente esclarecida; e a disciplina clerical. O concílio foi obrigado a dissolver-se mais uma vez por problemas políticos e militares. O papa seguinte, Paulo IV, não quis reiniciá-lo por julgá-lo condescendente e diplomático e deu início pessoalmente a uma drástica reforma da disciplina na igreja.

Pio IV, que assumiu o papado em 1559, instalou a terceira e última fase do concílio, em que foram adotados dispositivos doutrinários e dogmáticos, como os decretos sobre comunhão, missa, matrimônio, ordens sagradas e indulgências. Dissolvido o concílio em 1563, o papa confirmou seus decretos em 1564 e reuniu suas disposições no volume intitulado Profissão da fé tridentina. Pouco tempo depois, surgiu o catecismo de Trento, o missal e o breviário foram revistos e publicou-se uma nova versão da Bíblia. Até o final do século, muitos dos abusos que haviam motivado a Reforma protestante tinham desaparecido e a Igreja Católica recuperara muitos seguidores na Europa. O concílio, porém, não foi capaz de superar a cisão na igreja cristã.
Concílio Vaticano II

Concílio Vaticano II

O Vaticano II, o 21º dos concílios ecumênicos reconhecidos pela Igreja Católica, foi anunciado em 25 de janeiro de 1959 pelo papa João XXIII, como um meio de renovação espiritual da igreja e uma oportunidade para os cristãos separados de Roma buscarem juntos a reunificação. Aberto oficialmente em 11 de outubro de 1962, o concílio, que continuou sob o papa Paulo VI, sucessor de João XXIII, encerrou-se em 8 de dezembro de 1965 e resultou em 16 documentos.

O pensamento dogmático e centralizador da Igreja Católica Romana, que se aprofundou com os concílios de Trento e Vaticano I e culminou com a definição da infalibilidade do papa, sofreu profunda modificação no Concílio Vaticano II, quando a igreja adotou uma tendência pastoral, ecumênica e descentralizadora.

Foram convocados todos os bispos católicos e prelados da igreja e participaram dos trabalhos cerca de 2.800 padres conciliares. Assistiram às sessões, sem direito a voto, inúmeros observadores das principais igrejas cristãs e comunidades separadas de Roma, além de católicos leigos.

Comissões preparatórias designadas pelo papa organizaram uma agenda e produziram documentos preliminares sobre vários tópicos. Integradas pelos membros da cúria, adotaram a princípio posição conservadora. Depois de aberto o concílio, porém, bispos e prelados de todo o mundo incorporaram-se às comissões e surgiu uma posição mais progressista.

Entre os documentos elaborados, a constituição dogmática sobre a igreja (Lumen gentium) utilizou, para descrevê-la, termos bíblicos no lugar de categorias jurídicas. O tratamento da estrutura hierárquica deu maior peso ao papel dos bispos e contrabalançou a ênfase imperial dos ensinamentos do primeiro Concílio Vaticano sobre o papado. Os ensinamentos dessa constituição sobre a natureza do laicato tiveram como objetivo prover a base para o chamado dos leigos à santidade e à partilha da vocação missionária da igreja. Ao descrever a igreja como "o povo de Deus", os participantes do concílio forneceram a justificativa teológica para a mudança da atitude inflexível e defensiva que havia caracterizado o pensamento e a prática da Igreja Católica desde a Reforma.

A constituição dogmática sobre a revelação divina (Dei verbum) relacionou tanto a Bíblia, aceita por protestantes e católicos, como os textos da tradição a sua origem comum na palavra de Deus, confiada à igreja. Afirmou o valor das escrituras para a salvação dos homens e ao mesmo tempo manteve uma atitude mais aberta quanto a seu estudo acadêmico.

A constituição pastoral sobre a liturgia (Sacrosanctum concilium) atribuiu ao laicato maior participação no culto e autorizou mudanças significativas nos textos, formas e linguagem usados na celebração da missa e na administração dos sacramentos. A constituição pastoral Gaudium et spes referiu-se à igreja no mundo atual. Reconheceu as profundas mudanças que a humanidade tem experimentado e tentou relacionar os conceitos da igreja sobre si mesma e sobre a revelação às necessidades e valores da cultura contemporânea.

O concílio também promulgou decretos (documentos quanto a questões práticas) sobre os deveres pastorais dos bispos, o ecumenismo, as igrejas orientais, o ministério e a vida dos sacerdotes, a educação para o sacerdócio, a vida religiosa, a atividade missionária da igreja, o apostolado dos leigos e os meios de comunicação social. Além disso, foram produzidas declarações sobre liberdade religiosa, posição da igreja frente a religiões não-cristãs e educação cristã. Esses documentos refletiram a renovação da vida da igreja -- que começou muitas décadas antes da ascensão do papa João XXIII -- em diversas áreas: bíblica, ecumênica, litúrgica, do apostolado leigo.

No começo da década de 1970, a influência dos documentos e das deliberações gerais do concílio já se fazia sentir em praticamente todas as áreas da vida eclesiástica e pôs em movimento muitas mudanças que provavelmente não foram previstas por seus participantes.

Anunciação - Anunciação é a visita feita a Maria, em Nazaré, pelo anjo Gabriel, enviado por Deus para transmitir-lhe a mensagem de que fora escolhida para ser mãe do Cristo. A cena é descrita no início do Evangelho de são Lucas (1:26-38). A saudação que o anjo lhe dirige constitui o princípio da ave-maria: "Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!" Em seguida anuncia-lhe: "Eis que conceberás e darás à luz um filho, e o chamarás com o nome de Jesus. (...) O Espírito Santo virá sobre ti, e o poder do Altíssimo vai te cobrir com a sua sombra." Ao que Maria respondeu: "Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!"

Na doutrina da Igreja Católica, a Anunciação, além de ser o momento em que se participa a Maria que será a mãe do Cristo, envolve ainda o mistério da encarnação e o dogma da virgindade de Maria.

Ocorre assim o mistério da encarnação, pelo qual a segunda pessoa da Trindade torna-se homem em Jesus Cristo. A questão da virgindade de Maria motivou acirradas controvérsias e várias heresias, até ser declarada dogma pelo Concílio da Calcedônia em 451.

Festejada a 25 de março, a Anunciação foi tema freqüente nas artes plásticas, fornecendo inspiração a fra Angelico, Leonardo da Vinci, Van der Weyden e Murillo, entre outros.

Teologia da libertação Teologia da libertação - A teologia da libertação constitui uma nova interpretação da mensagem evangélica, à luz da injustiça social. Apesar do nome, não é propriamente uma teologia, no sentido de reflexão sobre Deus. Suas raízes podem ser encontradas no movimento denominado teologia política, surgido na Europa na década de 1970, depois que o  Concílio Vaticano II (1962-1965), examinou o problema das relações entre a igreja e o mundo moderno. A característica mais inovadora do movimento foi encarar os problemas políticos como base para a interpretação dos textos bíblicos.

A experiência cotidiana das comunidades cristãs latino-americanas que combatem as injustiças econômicas, sociais, culturais e políticas, está na origem da chamada teologia da libertação.

Reunida na cidade colombiana de Medellín, em 1968, a Conferência Episcopal Latino-Americana (Celam) foi o grande impulso da teologia da libertação. Analisando a situação social do continente, os bispos consideraram que a igreja tinha como missão continuar a obra de Cristo, enviado ao mundo para "libertar todos os homens de todo tipo de escravidão a que os tenha sujeitado o pecado, a ignorância, a fome, a miséria, a opressão e, numa palavra, a injustiça e o ódio, que têm sua origem no egoísmo humano". A conferência pediu uma teologia e uma catequese que oferecessem "a possibilidade de uma libertação plena e a riqueza de uma salvação integral em Cristo, o Senhor". Entre os principais teólogos que a iniciaram e desenvolveram, citem-se Gustavo Gutiérrez, Hugo Assmann, Leonardo Boff, J. L. Segundo, Porfirio Miranda, José M. Bonino, J. B. Libânio, Segundo Galilea, Eduardo Pironio e A. López Trujillo.

O eixo da teologia da libertação é a figura do Cristo libertador, que veio libertar os homens não apenas do pecado, mas também de todas as suas consequências, inclusive as injustiças. Seu método hermenêutico deixa de lado as categorias idealistas tradicionais e emprega categorias históricas. A mensagem de salvação é interpretada à luz das opressões de que o homem precisa ser libertado. Ao narrar a libertação dos hebreus do cativeiro no Egito e sua marcha para a Terra Prometida, o Êxodo é a imagem bíblica da mensagem da salvação, e a história sagrada não é algo distinto da história da humanidade ou superposto a ela, mas sim a intervenção de Deus. Um outro elemento importante da teologia da libertação é o método de análise marxista.

Anjo segundo o livro do Gênesis

Anjo segundo o livro do Gênesis

Os anjos (do grego angelos, "enviado", "mensageiro") são, para a Igreja Católica, seres pessoais, invisíveis, criados por Deus e situados entre a divindade e os homens, dos quais são também guardiães e guias.

Segundo o livro do Gênesis, para guardar a árvore da vida Deus postou à porta do paraíso querubins de espadas fulgurantes; e narram os evangelistas que coube ao arcanjo Gabriel anunciar a Maria o nascimento de Jesus. Tanto o cristianismo quanto o judaísmo e o islamismo admitem a existência dos anjos como mensageiros entre Deus e os homens.

Seres com o poder de adquirir a forma humana para exercer entre os homens as funções de embaixadores, profetas ou precursores do Messias, aparecem no Antigo Testamento como existentes antes da criação, ainda que criados por Deus. São por natureza invisíveis, mas capazes de assumir corpo e voz humanos para desempenhar missões divinas. No Novo Testamento as referências aos anjos são menos frequentes, pois a presença de Jesus dispensou a mediação angelical. Quando aparecem a Maria, a Zacarias, aos pastores, a Pedro e ao próprio Jesus, o fazem com características semelhantes às descritas pelos textos bíblicos antigos.

Os anjos fazem parte da corte celestial e se dividem em nove grupos. Os apóstolos Pedro e Paulo, nas epístolas, mencionam cinco classes de coros angélicos: virtudes, principados, potestades, dominações e tronos. A esses se acrescentam os seres angelicais citados pela Bíblia e divididos em querubins, serafins, anjos e arcanjos.

A existência desses seres foi proclamada como verdade pelo IV Concílio de Latrão, realizado em 1215. Santo Tomás de Aquino formulou uma detalhada teoria sobre eles, entre os quais o anjo-da-guarda, ou anjo custódio, entidade atribuída a cada cristão no momento do batismo com a missão de acompanhá-lo e protegê-lo durante toda a vida. Descreveu também a rebelião de alguns anjos contra Deus, comandados por Lúcifer, por isso afastados do convívio celestial e convertidos em anjos maus ou anjos caídos.

As entidades angelicais que exercem funções de mensageiros da divindade entre os mortais são admitidas por religiões não cristãs. Em alguns casos, a ideia de anjo procede da influência judaico-cristã, como no maometismo (o Alcorão é extraordinariamente rico em referências a anjos), mas em outros não há relação com a tradição bíblica, como nas antigas mitologias grega e orientais e em algumas formas de budismo.

O cristianismo moderno não nega a existência dos anjos e demônios, mas em geral refere-se a eles como entidades peculiares à cultura antiga e, dessa forma, passíveis de exclusão da mensagem bíblica ou revelação divina.

Os anjos ocupam lugar de relevo na arte, especialmente na iconografia católica. São quase sempre representados com asas, embora não se encontre menção a esse elemento nos textos bíblicos. Estão presentes também no folclore dos países cristãos.

Os jesuítas - nome dado comumente aos membros da Companhia de Jesus -- formam uma ordem religiosa masculina fundada em 1540 por santo Inácio de Loiola, sacerdote espanhol, como "um esquadrão de cavalaria ligeira" à disposição do papa. A atividade intelectual, pedagógica, missionária e assistencial dos jesuítas se realizou sempre sob o lema Ad Majorem Dei Gloriam ("Para a maior glória de Deus"), abreviada pela sigla A.M.D.G. Pela dedicação a seus objetivos, os jesuítas receberam as mais radicais reprovações e os mais exaltados elogios.

Apesar das diversas vicissitudes por que passou, a Companhia de Jesus tem perseverado nos ideais de defesa da fé católica que inspiraram sua criação, pautada por uma rígida disciplina de influência militar.

Fundação e expansão

Durante a convalescença de um ferimento recebido em 1521, na defesa de Pamplona, o jovem aristocrata e militar Inácio de Loiola experimentou uma profunda conversão espiritual, inspirada pela leitura de livros sobre as vidas dos santos, o que o levou a dedicar-se ao serviço de Cristo. Retirado em uma gruta, perto do santuário catalão da Virgem de Montserrat, na cidade de Mauresa, ali redigiu e praticou seus Exercícios espirituais.

Mais tarde, enquanto estudava teologia em Paris, atraiu, com os Exercícios espirituais, seis entusiastas companheiros; juntos fizeram votos de pobreza, castidade e obediência e de peregrinar a Jerusalém, formando assim o núcleo da futura ordem. O papa Paulo III aprovou em 1540 a nova ordem, com o nome de Companhia de Jesus e, no ano seguinte, Loiola foi eleito superior geral.

A ânsia de dar maior agilidade e eficácia à nova ordem, levou Loiola a suprimir a obrigatoriedade de algumas práticas tradicionais, como a assistência diária ao ofício litúrgico no coro ou determinadas penitências e jejuns. Em troca, deu ênfase à obediência, reforçando o princípio da autoridade e da hierarquia e introduzindo um voto especial de obediência ao papa.

Durante o século XVI, a Companhia de Jesus estendeu-se rapidamente por toda a Europa e  incentivou a reforma interna da Igreja Católica para contrapor-se à Reforma luterana. Participou ativamente do Concílio de Trento e das disputas teológicas; empenhou-se na pregação religiosa e no ensino - baseado na chamada Ratio studiorum - que ia desde a difusão do catecismo entre as crianças e "pessoas rudes", até a criação de seminários, como o Colégio Romano (1551), posterior Universidade Gregoriana; assistia aos humildes, encarcerados e soldados. Desde o começo, a ordem se dedicou a missões entre os infiéis e deu santos à Igreja, como Francisco Xavier, missionário na Índia e Japão e morto ao entrar na China, e Pedro Clavel, que se proclamou escravo dos escravos negros desembarcados em Cartagena, na Colômbia.

A ordem está organizada em províncias, espalhadas por todo o mundo, governadas por um provincial e agrupadas em assistências. O poder supremo dentro da ordem compete à congregação geral, formada pelos provinciais e delegados eleitos, por períodos determinados, por cada congregação provincial. A congregação geral elege um superior que, embora vitalício, pode ser deposto pelo papa, por decisão própria ou por sugestão da congregação geral. As constituições feitas por santo Inácio só podem ser modificadas com a aprovação do papa.

Jesuítas no Brasil - Em 1549 chegaram ao Brasil os primeiros missionários da Companhia de Jesus. O primeiro grupo tinha como superior o padre Manuel da Nóbrega e foi integrado pelos padres João Navarro, Antônio Pires, Leonardo Nunes e os irmãos Vicente Rodrigues e Diogo Jácome. Colaboraram com Tomé de Sousa na fundação da cidade de Salvador e criaram o colégio da Bahia. Em seguida estenderam a assistência religiosa às capitanias de Ilhéus, Porto Seguro, Espírito Santo e São Vicente, para o sul, e às de Sergipe del Rei, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Em 1553, foi criada a província jesuítica do Brasil. Nesse mesmo ano, chegava ao Brasil, ainda como estudante, o padre José de Anchieta, cognominado o Apóstolo do Brasil.

Até 1605, vieram para o Brasil, em 28 levas ou expedições, 169 religiosos da Companhia de Jesus, entre padres e irmãos. Não se incluem nesse total os quarenta religiosos da expedição de 1570, chefiada pelo padre Inácio de Azevedo, aprisionados em alto- mar pelos homens de Jacques Soria e assassinados ou atirados à água; nem os 12 jesuítas da expedição chefiada pelo padre Pero Dias, que em 1571 morreram nas mãos de Jean Capdeville e seus corsários franceses e ingleses.

Representava grande esforço para a recém-criada Companhia de Jesus o envio para o Brasil desse grande número de estudantes e sacerdotes, entre os quais se incluíam não apenas portugueses e espanhóis, em larga maioria, mas também belgas e italianos. Daí a determinação do padre Manuel da Nóbrega de instalar o noviciado no Brasil, logo no início, aproveitando a vocação para o sacerdócio dos próprios filhos da terra. Em poucos anos os resultados obtidos provariam o acerto de sua decisão.

Em 1605, os jesuítas já estavam estabelecidos em todo o litoral brasileiro, de Natal (1597), no Nordeste, a Embitiba (1605), na atual divisa entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Nesse período de expansão, além de contribuírem para a edificação das cidades de Salvador e Rio de Janeiro, fundaram por iniciativa própria a cidade de São Paulo, em Piratininga, no interior da capitania de São Vicente.

Com as bases que lançaram no século XVI, os jesuítas conquistaram o mérito de introduzir o ensino, inclusive das artes e ofícios necessários à vida cotidiana, como medicina e arquitetura; de promover o teatro; de preservar as línguas indígenas; e de registrar os fatos importantes da história de seu tempo.

No plano econômico, marcaram presença pela criação de gado e animais domésticos, como ovelhas, porcos, galinhas, patos e cães, tendo esses últimos causado grande fascínio entre os indígenas. Com o gado iniciaram a indústria de laticínios. Introduziram também no país numerosas espécies vegetais europeias e asiáticas, e plantaram, em suas residências, uvas, cidras, limões, figos, cacau, legumes, algodão e trigo, ao mesmo tempo em que procuravam iniciar os indígenas em novas técnicas agrícolas. Das frutas faziam conservas. Iniciaram também o cultivo da cana-de-açúcar.

Repressão - Na Europa, no século XVII, muitos reis tomaram jesuítas como confessores (Luís XIV da França, Mariana da Áustria -- esposa de Filipe IV de Espanha -- João IV de Portugal, Augusto II da Polônia). Os ataques dirigidos contra eles por pensadores como o francês Blaise Pascal, representante das ideias jansenistas, eram voltados contra o pragmatismo moral e as atividades políticas da companhia. Nas missões, os jesuítas Roberto Nobili e Mateo Ricci iniciaram uma revolucionária adaptação aos costumes dos brâmanes hindus e dos mandarins chineses, o que suscitou grandes controvérsias. No Paraguai, a ordem criou as chamadas reduções, um tipo de organizações política e social que agrupava os indígenas, sob a direção dos padres.

As ideias dos enciclopedistas e os governos europeus do século XVIII, com seu espírito anticlerical e contrário à intervenção do papado em assuntos políticos, investiram especialmente contra os jesuítas, que foram expulsos de Portugal, França e Espanha, e no Paraguai tiveram que abandonar as reduções dos índios. Por decreto de 3 de setembro de 1759, o marquês de Pombal, poderoso primeiro-ministro de D. José I, expulsou os jesuítas de Portugal e de seus domínios ultramarinos, inclusive o Brasil. No ano seguinte, mais de 600 sacerdotes fecharam seus colégios e abandonaram as aldeias indígenas brasileiras. Os numerosos bens da Companhia de Jesus foram confiscados e incorporados à coroa por cartas régias de 25 de fevereiro e 5 de março de 1761. Na Espanha, Carlos III decretou em 1767 a expulsão dos jesuítas de todo o seu reino.

A pressão das monarquias obrigou o papa Clemente XIV a decretar em 1773 a supressão da Companhia de Jesus, mediante o breve Dominus ac Redemptor. No entanto, os jesuítas continuaram na Prússia até 1780 e se mantiveram na Rússia, onde o decreto papal nunca vigorou. Em 1814, o papa Pio VII restabeleceu a Companhia de Jesus, ante a demanda geral para que prosseguisse seu trabalho de ensino e evangelização missionária. Posteriormente, os jesuítas chegaram a ser a ordem religiosa masculina mais numerosa. Ao Brasil, os jesuítas voltaram em 1841, quando era geral da Companhia de Jesus o padre holandês João Roothaan. Instalaram-se novas casas, abriram-se noviciados e novos colégios.

A atividade variada dos jesuítas alcança atualmente especial relevância na educação, com instituições de ensino médio e superior, destacando-se entre elas a Universidade Gregoriana, em Roma. Sua ação se estende também ao campo das comunicações, bem como aos movimentos ecumênicos e de âmbito social e trabalhista em geral. Atualmente os jesuítas promovem de maneira especial a vida religiosa, com os Exercícios espirituais de santo Inácio, e a promoção da fé e da justiça.

www.klimanaturali.org
Postagem Anterior Próxima Postagem